Uma "reputação esfarrapada"

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Uma "reputação esfarrapada"
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 23 de novembro de 1899


As injúrias são as razões de quem não tem razão, podíamos nós responder, com o senso de Rousseau, à violência da alusão ultrajosa, com que a higiene oficial, na Academia de Medicina, calculou desforrar-se em nós da sua derrota. E, dada pelo silêncio esta resposta, tínhamos o direito de passar, deixando às costas avergadas do insultador o alforje de lama.

Mas há outra forma, ainda mais flagelante para o criminoso, no desprezo das almas retas pelas ações más: é pregá-las ao quadro da sua própria desonra e deixá-las expostas na solenidade do seu escândalo. Era menino o autor destas linhas, quando, em tempo de ódios eleitorais, abertas, certa manhã, as janelas de casa, viu-lhe encostado à parede, estendendo-se pelo sobrado acima até às telhas, um símbolo de irrisão popular, ali posto por inimigos de seu pai. Momentos depois, o ludíbrio desaparecera, retirado por mãos amigas. Mas o estóico ofendido, que já se tinha demorado complacentemente em mostrar ali à curiosidade da criança o valor das afrontas políticas, o fez restituir ao seu lugar de exibição, até que, alta noite, de uma vez outros o sumiram. Quem de tão cedo embebeu nas primeiras reminiscências da vida essa lição paterna, não pode temer o aparato das infâmias, cujo valor é o único artigo de fé dos perversos.

Tal a impressão que em nós se produziu, ao sabermos da cena teatralmente aparelhada ali, pelo gênio de um mau ator, no meio de um debate científico, em glorificação do convênio de outubro. Na eloqüência das grosseirias pomposas, o galvanizador desse cadáver, referindo-se ao diretor da Imprensa, falou na “reputação esfarrapada” do financeiro do governo provisório, pedindo, porém, logo após ao taquígrafo, em presença do auditório entre o qual acabava de esganiçar-se o insulto, que “por patriotismo o não tomasse”.

Houve, graças a Deus, quem resistisse imediatamente a essa cobardia praticada em nome do mais heróico dos sentimentos humanos, requerendo ao presidente da assembléia, que as injúrias se consignassem na ata, onde ficaram ad perpetuam rei memoriam. Mas aquele âmbito era estreito demais para tamanha bravura. Saia ela, pois, alcandorada no seu posto, à larga publicidade.

Bem sabia o homem do estilete que o proprietário da reputação atassalhada não estava presente. Sabia, ainda, que ele não tinha ali defensores. A manobra vinha a ser, portanto, a de todos os que perpetram façanhas escusas. Lógica era a cumplicidade, que se queria dos circunstantes; normal, nos casos pudendos, o segredo, que se reclamava da estenografia. De extraordinário, de novo, no incidente, só o que se vira, foi essa modalidade inaudita da hipocrisia, autorizando com um apelo ao amor da pátria o sigilo, que impetrava, para o roubo da honra e a punhalada pelas costas. É esconder o corpo de um delito no sacrário do templo.

Quem se desse, porém, ao trabalho de escrever, na análise desse fato, a psicologia da alma, que ele sintetiza, teria, talvez, de reconhecer que o instinto a não enganara de todo. Conta Vítor Hugo nas suas Coisas Vistas, um diálogo seu com Thiers (então o mais conspurcado e o mais poderoso homem da França), que nunca nos esqueceu. “Disse-me ele: — Eu sou, como vós, um vencido com ares de vencedor. Como vós, atravesso turbilhões de injúrias. Cem jornais, todas as manhãs, me arrastam na lama. Sabeis, porém, como procedo? Não os leio. — Respondi-lhe: — É precisamente o que eu faço. Vosso hábito é o meu. E acrescentei: Ler diatribes é respirar as latrinas da própria reputação. — Ele estendeu-me a mão, rindo.”

Grande, assim, ou pequena, ao que parece, toda reputação neste mundo há de ter a sua cloaca. Quanto maior o nome, maior o afluxo de sedimentos ignóbeis, que cuidam poluí-lo, e se afundam, borbotando, pelo esgoto. É para ali que se dão ponto os detratores de todos os feitios e diplomas. Ali é que se refestelam esses sibaritas de aromas duvidosos. De sorte que foi, talvez, uma intuição do especialista a origem daquele movimento empenhado em afastar da arenga científica, no texto impresso, o resíduo da função animal. Também a higiene é uma forma de patriotismo, como é uma forma de humanidade. No recinto dos estudos médicos o hábito dos hospitais e anfiteatros imuniza contra as infecções do olfato; além de que, na atmosfera embalsamada pelas elegâncias de um orador de certa ordem não lhe trescalam as indiscrições da víscera inferior. Mas de portas a fora, sem essas defesas da aclimação e da alfazema, a saúde pública não queria brinquedo com as exalações íntimas do gabinete. E aqui está por que acertou, fazendo timbre de que a melhor parte da oração ficasse no que era: a boca tapada de um sumidoiro.

Depois de ter elevado este debate a toda a altura do decoro, da sinceridade e do estudo, sem desgarrarmos uma só vez do assunto para insinuações contra a pessoa do culpado neste erro monstruoso, seu passado, as outras esferas da sua atividade, os outros aspectos do seu crédito, nosso dever está cumprido; e do enxovalho, com que o premeia aquele de quem tínhamos direito à gratidão pelo serviço, diremos apenas aos patriotas de lavatório que este galardão só o não têm, entre nós, na vida pública, os atos, com que a consciência de um homem de bem não pode ficar satisfeita. Toda vez que a um libelo argumentado virdes responder um serventuário da nação, abespinhado e desabrido, com escavações infectas contra a honra do acusador, podeis estar certos de que assistis ao duelo da calúnia com a probidade.

O empregado do Sr. Campos Sales, que tacha o diretor da Imprensa de haver deixado em farrapos o seu nome de financeiro às portas do governo, saberia, se quisesse perguntar ao patrão, cuja confiança de bronze o agüenta no seu desastre, quantas vezes, até aos últimos momentos do gabinete de 15 de novembro, em conselho de ministros, o chefe do Estado lhe exigiu a permanência na administração do Tesouro. Saberia, se quisesse interrogar ainda ao seu augusto amo, como, às vésperas da dissolução daquela ditadura, os seus membros, entre os quais o presidente atual da República, reunidos todos em um dos gabinetes do palácio do congresso constituinte, declaravam ao ministro da Fazenda a necessidade absoluta de que não acompanhasse os colegas na sua retirada prevista e iminente. Saberia, se ouvisse os parentes mais íntimos e mais caros do fundador da República, o profundo sentimento, com que ele morreu, de ter estremecido um dia na confiança e na amizade do homem, cuja influência benfazeja sobre o seu ânimo freqüentes vezes preservou do esfacelamento aquele governo, onde, um muitas dessas crises mortais, os seus companheiros, especialmente o chefe atual da nação, o aclamavam salvador e taumaturgo. Saberia, se quisesse recordar circunstâncias sabidas, que, na mais grave dessas contingências, quando o governo provisório teve de improvisar em três semanas o seu projeto de Constituição, e necessitou, para isso, de apresentar ao ditador uma face compacta, foi o ministro da Fazenda o escolhido unanimemente para o órgão de todos na exposição e discussão, com o marechal Deodoro, do plano constitucional. Saberia, se tivesse a boa-fé de saber, e não o interesse de errar, que na dentuça dos que supõem ter dilacerado a reputação do financeiro do governo provisório deve estar, igualmente em frangalhos, atravessada primeiro que a dele pelos caninos da matilha, a reputação dos seus oito colaboradores, entre outras a de Campos Sales, a de Bocaiúva, a de Deodoro, a de Floriano, a de Benjamim Constant, cujas categóricas declarações coletivas de solidariedade com o agredido, seria um insulto a todos eles reputar mentirosas. Saberia, se tivesse o escrúpulo de raciocinar e a lealdade de concluir, que, sendo as finanças desse administrador um conjunto sistemático de medidas, não o pode responsabilizar pelas conseqüências da sua mutiladíssima execução parcial o camartelo dos iconoclastas, cuja brutalidade converteu um plano de construção num monte de destroços. Saberia, se tivesse a lisura de lembrar-se, em vez da esperteza de esquecer, que, postos a saco, pelos próprios sucessores desse ministro, os arquivos do Tesouro, a fim de esquadrinhar, nas entranhas da sua administração, fatos equívocos em seu desabono, a calúnia, levada até aos tribunais, ali soçobrou miseravelmente. Saberia, se o réu pudesse ter gosto em pensar na corda, que, quando a detração, empinando-se, como agora, acima da alfurja dos anônimos, tem buscado sobredoirar a sua esqualidez ao prestígio de uma solenidade capaz de repercuti-la, nunca lhe faltaram no dorso os gilvazes desta correção, cujos silvos se hão de sentir, enquanto a crônica destes tempos for viva nos relevos do nosso idioma.

Aí está como essa reputação saiu em trapos do governo provisório. Se um dia se escrever a história das suas tempestades domésticas, dos boléus daquele barco mal-improvisado entre os mares que o espaldaram, a verdade atestará que ninguém, no bojo daquele perigo flutuante, concorreu mais do que esse difamado para as soluções do bom senso, da moderação, da paz, da justiça, da liberdade, da honra, do regímen civil, da organização constitucional. Ano a ano, à medida que ele caminha para a terra consoladora, mãe das reparações póstumas, tem visto rarear o número dos malsins. Muitos, inúmeros dos ódios antigos, das sentenças ex informata, das teorias acusadoras lhe vieram cantar a palinódia à porta, desdizer-se dos apodos, mostrar, arrependidos, o fundo das paixões de outrora, verter algumas gotas de bondade nos vestígios doloridos do veneno. De sorte que, escutando ainda, no rumor perene da maldade, estas enchentes e vazantes da calúnia, a que Diógenes chamava a bulha dos estultos, muitas vezes lhe acontece ouvir no íntimo d’alma o eco daquela conversa, alguma coisa daquele sentimento tranqüilo, que um dos melhores homens da França, o límpido Júlio Simon, estampava numa carta a Júlio Favre: “Não sei se vos tem acontecido, como a mim, ser injuriado nas ruas; mas, quanto a injuriado nos jornais, bem creio que o tereis sido. Forçoso é expiardes as riquezas, que tendes acumulado, e os prazeres, que tendes fruído. E, a despeito de tudo, meu amigo, nós amamos esta terra, que vale mais do que o seu destino, e pensamos, afinal, que, sem nós, este país estaria um pouco mais profundamente doente.”

Todos os homens públicos neste mundo, todos os que menearam o poder, todos, não esquecendo o puro Washington, um dos maiores e dos mais caluniados, atravessaram a zona lodosa e ardente da maledicência, cujo círculo equinocial entre nós passa pelo Ministério da Fazenda, e cuja atmosfera, nos tempos do governo provisório, deflagrava saturada numa licença de palavra, a que ainda não tinha descoberto nos pactos de silêncio o moderador salutar. Aquela época foi o jubileu do patriotismo combatente. Aquela ditadura, a carniça da ferocidade republicana. Vieram depois as indulgências, as reabilitações, as idolatrias, as lendas. Só um nome continuou a desafiar os incisivos dos tolos e dos torpes. E tanto basta, para ser uma reputação esfarrapada.

Não seria a primeira vez que os farrapos abrigassem a altivez, o civismo e a honra. Há nove anos que no linho desses farrapos encontram o bálsamo da simpatia e da defesa os feridos deste regímen. Há nove anos que através das suas roturas, um coração cuja fibra os terrores e os carinhos do poder nunca amolentaram, expõe a vida, pelos seus compromissos liberais, ao punhal dos fanáticos e das ditaduras. Há nove anos que à sombra desses trapos vêm acolher-se as causas justas, as aspirações livres, as reivindicações populares. Há nove anos que nesses retalhos infamados tropeçam e se atrasam, caminho do despenhadeiro, as rodas da loucura republicana.

Eis aí por que essa reputação esfrangalhada enfurece e desconcerta os abusos oficiais e seus instrumentos. Nos pedaços desse nome abocanhado pela raiva dos crimes descobertos o público se tem habituado a respeitar de dia em dia mais aquilo, que as confian­ças oficiais não dão, e os vilipêndios oficiais não tiram: a integridade do desinteresse, da convicção e da fé, que não se acobarda, não se assalaria, não se desmente, que não merca, não adula, não foge. Quando, nos momentos graves, esses restos “de uma reputação perdida”, os farrapos da traspassada vestidura do lutador se intumescem ao sopro do seu peito, as mais altas assembléias da República lhe catam de em torno silêncio profundo. Os governos, a que ele momentaneamente serviu, sempre se julgaram honrados pelo seu apoio, sempre o celebraram com panegíricos triunfais. E o estribilho do descrédito financeiro não lhe reaparece, nalgum focinho sujo da mesa do orçamento, senão quando o patriota volta ao seu posto de combate contra a força, contra a prevaricação, contra a incapacidade, contra o despotismo, pela lei, pela ciência, pelo povo, pelo país sacrificados.