Uma águia sem asas/IV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Uma águia sem asas por Machado de Assis
Capítulo IV


Mais curta foi a campanha de Mateus; imaginara ele que a moça amaria loucamente a quem lhe desse sinais de bravura. Concluía isto da exclamação que lhe ouvira, quando James Hope disse que ela tinha medo do mar.

Tudo empregou Mateus para seduzir Miss Hope por esse lado. Em vão! a moça parecia cada vez mais recalcitrante.

Não houve proeza que o candidato não referisse como glória sua, e algumas fê-las ele mesmo com sobrescrito para ela.

Sara era uma rocha.

A nada cedia.

Arriscar uma carta seria loucura, depois do fiasco de Jorge; Mateus julgou prudente abater as armas.

Restava Andrade.

Teria ele descoberto alguma coisa? Parecia que não. Todavia, era dos três o mais atilado, e se a causa de isenção da moça fosse a que eles apontavam não havia dúvida de que Andrade atinaria com ela.

Durante esse tempo, ocorreu uma circunstância que vinha transtornar os planos do rapaz. Sara, acusada pelo pai de ter medo do mar, o induzira a uma viagem à Europa.

James Hope participou alegre esta notícia aos três moços.

— Mas vão já? perguntou Andrade, quando o pai de Sara lhe disse isto na rua.

— Daqui a dois meses, respondeu o velho.

— Valha-nos isso! pensou Andrade.

Dois meses! Devia vencer ou morrer dentro daquele prazo.

Andrade auscultava o espírito da moça com perseverança e solicitude; nada lhe era indiferente; um livro, uma frase, um gesto, uma opinião, tudo Andrade ouvia com atenção religiosa, tudo examinava cuidadosamente.

Um domingo em que lá se achavam na chácara todos, em companhia de algumas moças da vizinhança, falava-se de modas e cada uma dava a sua opinião.

Andrade conversava alegremente e também discutia o assunto da conversa, mas o seu olhar, a sua atenção estavam voltados para a bela Sara.

A distração da moça era evidente.

Em que pensaria ela?

De repente, entra pelo jardim o filho de James, que ficara na cidade para aviar uns negócios do paquete.

— Sabem a novidade? disse ele.

— Que é? perguntaram todos.

— Caiu o ministério.

— Deveras? disse James.

— Que temos nós com o ministério? perguntou uma das moças.

— O mundo caminha bem sem o ministério, observou outra.

— Oremos pelo ministério, acrescentou piedosamente uma terceira.

Não se falou mais nisto. Aparentemente, era uma coisa insignificante, um incidente sem resultado, na vida aprazível daquela abençoada solidão.

Assim seria para os outros.

Para Andrade foi um raio de luz — ou pelo menos um indício veemente.

Notou ele que Sara ouvira a notícia com atenção profunda demais para o seu sexo, e depois ficara algum tanto pensativa.

Por quê?

Tomou nota do incidente.

Noutra ocasião, foi surpreendê-la a ler um livro.

— Que livro será esse? perguntou ele sorrindo.

— Veja, respondeu ela apresentando-lhe o livro.

Era uma história de Catarina de Médicis.

Isto seria insignificante para outro; para o nosso candidato era um vestígio preciosíssimo.

Com os apontamentos que tinha, já Andrade podia conhecer a situação; mas, como era prudente, buscou esclarecê-la melhor.

Um dia mandou uma cartinha a James Hope, concebida nestes termos:

Empurraram me alguns bilhetes de teatro: é um espetáculo em benefício de um homem pobre. Sei como o senhor é caridoso, e por isso aí lhe remeto um camarote. A peça é excelente.

A peça era o Pedro.

No dia aprazado, lá estava Andrade no Ginásio. Hope não faltou, com a família, ao espetáculo anunciado.

Nunca Andrade sentira tanto a beleza de Sara. Estava esplêndida, mas o que aumentava a beleza e o que lhe inspirava adoração maior, era o concerto de louvores que ele ouvira à roda de si. Se todos gostavam dela, não era natural que ela só lhe pertencesse a ele?

Pela razão de beleza, como por causa das observações que Andrade queria fazer, não tirou os olhos da moça durante a noite inteira.

Foi ao camarote dela no fim do segundo ato.

— Venha, disse-lhe Hope, deixe-me agradecer-lhe a ocasião que me proporcionou de ver Sara entusiasmada.

— Ah!

— É um excelente drama este Pedro, disse a moça apertando a mão de Andrade.

— Excelente só? perguntou ele.

— Diga-me, perguntou James, este Pedro sobe sempre até ao fim?

— Não o disse ele no primeiro ato? respondeu Andrade. Subir! subir! subir! Quando um homem sente em si uma grande ambição, não pode deixar de realizá-la, porque justamente nesse caso é que se deve aplicar o querer é poder.

— Tem razão, disse Sara.

— Pela minha parte, continuou Andrade, nunca deixei de admirar este caráter soberbo, natural, grandioso, que me parece falar ao que há de mais íntimo em minha alma! Que é a vida sem uma grande ambição?

Este arrojo de vaidade produziu o desejado efeito, eletrizou a moça, a cujos olhos parecia que Andrade se havia transfigurado.

Bem o percebeu Andrade, que coroava assim os seus esforços.

Adivinhara tudo.

Tudo o quê?

Adivinhara que Miss Hope era ambiciosa.