Uma Campanha Alegre/Advertência

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Advertências


Vinte anos são passados; - e hoje releio essas paginas amarelecidas das FARPAS. Que encontro nelas? Um riso tumultuoso, lançado estridentemente através de uma sociedade como seu comentário único e crítica suprema. Encontro um riso desabalado - mas escassamente uma verdade adquirida, uma conclusão de experiência e de saber, algum resultado visível dessa inspiração de Minerva que eu supunha combatendo por trás de mim, invisível e armada de ouro, como nos campos de Plateia. Nada que, para governar entre os homens o pensamento ou a conduta, merecesse ficar arquivado em tornos duráveis; - unicamente um riso imenso, troando, como as tubas de Josué, em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, porque as vejo ainda, direitas, mais altas, da cor torpe do lodo, estirando por cima de nós a sua sombra teimosa.

Ora vale a pena recolher, perpetuar este riso, esparso outrora em panfletos leves? Há porventura utilidade em codificar assim a gargalhada? Aos milhares de livros que atravancam o Mundo, convém juntar um livro mais de onde nada sai, quando aberto, senão o rumor fugidio e remoto de risadas de há vinte anos, tão mortas como as rosas de então?

Penso que não. E, por determinação minha, eu deixaria estas FARPAS nos breves folhetos amarelos onde o Diabo ri por trás de um óculo, já tão raros, e cada vez mais sumidos nessa corrente vaga chamada «dos Tempos», que providencialmente vai acarretando tudo o que se tornou inútil, folhas de lírio e folhas de louro, os homens, as suas ilusões imensas, e os seus pequeninos livros.

Não o consentiu porém assim, por uma tocante superstição de amizade, o meu camarada Ramalho Ortigão. Reunindo as suas FARPAS, vasta obra, essa, de pensamento e de saber, ele desejou que não ficassem fora do seu monumento aquelas páginas que eu compus a seu lado, nos primeiros tempos, quando, levados na mesma santa revolta, nos abalançámos a atacar toda uma Sociedade com um punhado ligeiro de ironias douradas.

Aí vão pois as minhas FARPAS, a que eu dou agora o nome único que as define e as páginas deste livro são aquelas com que outrora concorri para as FARPAS, quando Ramalho Ortigão e eu, convencidos, como o Poeta, que a «tolice tem cabeça de touro», decidimos farpear até à morte a alimária pesada e temerosa. Quem era eu, que força ou razão superior recebera dos deuses, para assim me estabelecer na minha terra em justiceiro destruidor de monstros?... A mocidade tem destas esplêndidas confianças; só por amar a Verdade imagina que a possui; e, magnificamente certa da sua infalibi-lidade, anseia por investir contra tudo o que diverge do seu ideal, e que ela portanto considera Erro. irremissível Erro, fadado à exterminação. Assim foi que, chegando da Universidade com o meu Proudhon mal lido debaixo do braço, me apressei a gritar na cidade em que entrava - «Morte à Tolice!» E desde então, à ilharga de Ramalho Ortigão, não cessei durante dois anos de arremessar farpas, uma após outra, para todos os lados onde supunha entrever o escuro cachaço taurino. Não me recordo se acertava; sem dúvida muitos ferros se embotaram nas lajes; mas cada arremesso era governado por um impulso puro da inteligência ou do coração. E assim desses tempos ardentes me ficara a ideia de uma campanha muito alegre, muito elevada, em que a ironia se punha radiante mente ao serviço da justiça, cada rijo golpe fazia brotar uma soberba verdade, da demolição de tudo ressaltava uma educação para todos, e o tumulto do ataque aparentemente desordenado era, como o dos Gregos combatendo em Plateia, dirigido por Minerva armada - quero dizer, pela Razão. as justifica - UMA CAMPANHA ALEGRE. Não há aí com efeito senão uma trasbordante alegria, empenhada numa campanha intrépida. Todo este livro é um riso que peleja. Que peleja por aquilo que eu supunha a Razão. Que peleja contra aquilo que eu supunha a Tolice.

Aí vão pois estas FARPAS, na sua forma primordial, improvisada na pressa e no fragor da lide - forma desordenada e tumultuária, em que as palavras, as exclamações, as mesmas vírgulas, tudo é empurrado para avante, ao acaso, num tropel clamoroso, contra a coisa detestada que urgia demolir. E todavia, tal me pareceu agora a desordem, e tão incorrigivelmente se me impõe o amor da harmonia, que não resisti por vezes a disciplinar esta turba fremente de vocábulos em correria, e a estabelecer, nestas orações descompostas onde adjectivos se estramalhavam, pesados advérbios caíam no fundo de reticências inesperadas, e verbos se acavalavam sobre verbos - alguma regra, compostura e ritmo. Mas, além destas depurações exteriores, procurei escrupulosamente que não se desmanchasse aquele feitio especial das FARPAS que constituiu a sua força especial, e que nem uma nota se evaporasse daquele riso que outrora tão triunfalmente cantou, e pelo contágio da sua sinceridade acordou os risos da multidão contra a «Tolice de cabeça de touro».

Terá ainda hoje este riso vibração bastante para despertar outros risos?... As coisas que o provocaram são já tão passadas como as de Tróia. Este livro é menos unia reimpressão que uma escavação. As minhas FARPAS surgem à superfície, enferrujadas, sem gume e sem brilho, como as antigas armas de uma batalha de que ninguém sabe o nome.

Que importa? O que me encanta, nesta solene reedição, é sobretudo a camaradagem. Depois de ter combatido arrebatadamente ao lado de Ramalho Ortigão em folhetos fogosos que um vento levava e espalhava nas ruas, sinto felicidade e orgulho em me encontrar ainda junto do meu amigo em volumes repletos, calmos, «dorés sur tranche», que vão repousar no decoro e na paz das Bibliotecas.

Paris, Outubro, 1890.

E. Q.