Uma Campanha Alegre/I/V

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo V: Pastoral de um bispo


Maio 1871.

Ergueu-se a este respeito um debate na Câmara, em que se falou consideravelmente em placet e non placet. A opinião liberal irritou-se vendo o sr. bispo do Algarve lamentar com azedume a extinção do poder temporal. A opinião liberal não ama o poder temporal, e entende que o Papa se deve ocupar unicamente dos negócios do Céu. A opinião liberal faz a polícia do espiritualismo.

Ora afirmar que o papado pode viver exclusivamente do poder espiritual, é uma patente má-fé (não é o caso da opinião liberal), ou um prurido revolucionário (não é também o caso da honrada maioria constitucional). O que é então? Uma falta notável de princípios e de lógica.

O papado podia viver sem o temporal quando a religião lhe dava o domínio em todas as consciências, e fazia dele o vicariato de Deus.

Escusamos de citar épocas históricas. O Papa tinha então também um domínio temporal - mas como uma jóia da sua tiara, não como condição vital da sua supremacia.

Não foi por possuir Roma e mais uns pedaços de terra que Gregório VII, Urbano II,

Inocêncio III se afirmaram tão grandes: as terras, de conquista ou de doação, eram apenas a glorificação do seu pontificado. O verdadeiro império tiravam-no eles da espontaneidade da fé católica e da força da unidade.

Desde que a fé se extinguiu, que por toda a parte o Estado fez cisão com a Igreja, e que a religião de dominadora passou a consentida - o que sustenta o catolicismo e a soberania espiritual? É a soberania temporal, o reino de Roma. Se o papado perder para sempre Roma, símbolo visível da supremacia religiosa - que fica? Um vago e indefinido interesse espiritual, falando em nome da fé que ninguém possui, e da tradição de S. Pedro que ninguém já sabe em que consiste.

O catolicismo degenera assim numa espécie de protestantismo - equilibrado entre o calendário e a indiferença.

De modo que a opinião liberal, que no parlamento protestou ser católica apostólica romana, censurando a defesa do poder temporal, censura a defesa do catolicismo e a defesa da unidade. E através dos seus protestos ortodoxos mostra-se inimiga do catolicismo - por consequência inimiga do cristianismo, porque o catolicismo é a expressão mais lógica do cristianismo-por consequência inimiga da religião, porque o cristianismo é a expressão mais lógica do conceito religioso.

E aqui temos, num país católico, os ilustres senhores deputados, em pleno parlamento. fazendo profissão de ateísmo!

De resto a pastoral de S. E. R. é um documento deplorável.

Se fosse um protesto católico, a condenação pura e simples da filosofia e da razão, uma pequena encíclica para uso nacional, uma defesa do temporal intransigivelmente posta - aplaudiríamos a pastoral. Seria um documento lógico.

Mas não! a pastoral é uma espécie de artigo de fundo molhado em água benta, o que quer que seja de beato e de lacrimoso, panfleto de sacristia sem critério, sem lógica, sem ciência, sem ortodoxia, com um cheiro a opa e a feno seco, começando por dirigir apóstrofes à arca de Noé e terminando por pedir esmolas para o Papa.

Esmolas! Esmolas! O papado quando tinha Roma, apresentava o estranho caso de um estado fundado unicamente sobre a mendicidade. Roma vivia das esmolas do sr. bispo do Algarve, patriarca, publicou uma pastoral.

Mundo. Papa, cardeais, clero e populaça eram todos mendigos de profissão.

Mas hoje o Papa não tem Roma, e as esmolas continuam a tomar o caminho de

Roma!

O caminho de Roma? Quem sabe?

Aí estão os jornais espanhóis que declaram que a subvenção católica para o Papa não é mais que unia inscrição disfarçada para o legitimismo; e que todos esses dinheiros, que os fiéis imaginam que vão tomar mais chorumenta a terrina papal, vão simplesmente ser empregados em comprar balas e pólvora para a insurreição da

Navarra.