Uma Campanha Alegre/I/XIX

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XIX: Palavras a Samuel


Samuel é nosso amigo, ama o nosso riso, e presta as suas mãos, que diz cansadas e velhas, para ajudar a tirar a verdade do fundo do nosso poço.

Samuel porém insinua que as Farpas mostram vaidade quando afirmam que são o bom senso - porque ninguém é o bom senso! Mas, injusto Samuel, atende bem! - As

Farpas não disseram que eram o bom senso absoluto, com a suprema plenitude da razão, a posse exclusiva da verdade, nenhum temperamento e muita roupa branca! O nosso prospecto não declarava - As Farpas são o espírito de Deus levado sobre as águas.

Pobres Farpas! decerto que elas não são a coluna de logo, nem as doze tábuas da lei, nem a grande voz do deserto! - Enfeitadas e coloridas na sua porção de bandarilhas, aguçadas e incisivas na sua porção de ferro, ágeis e laboriosas como abelhas, elas são sobretudo e antes de tudo 96 páginas impressas na Tipografia Universal, sem grandes erros de gramática e sem grandes verdades de filosofia, estalando de riso por todas as entrelinhas, mesmo quando franzem a testa - e contentando-se com serem alegremente recebidas, pela manhã, à hora do correio e do almoço, por alguns espíritos simpáticos e por algumas brancas mãos. Diógenes decerto, por tão pouco, não apagaria a sua lanterna!

Samuel escreve-nos uma carta, que ele intitula Consciência, e em que discute opiniões, juízos, ditos, espalhados, ao flutuante acaso do humorismo, nas páginas rápidas destes volumes.