Uma Campanha Alegre/I/XVII

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XVII: O exército em 1871


Julho 1871.

Diz-se - e quem sabe se é uma torpe calúnia? - que o Governo vai ter o impudor de consentir que se discuta o orçamento geral! E natural que por essa ocasião melancólica se atente no orçamento especial do muito belicosamente chamado

Ministério da Guerra. Para tal eventualidade, aqui estiramos sobre estas páginas algumas reflexões amáveis.

Corre que, nisso a que os relatórios chamam pomposamente o exército, se gastam anualmente perto de 4000 contos. Corre, porque se torna difícil averiguar a exacta ver-dade, sendo o orçamento, como é, um inviolável segredo.

Ora se estudarmos bem a utilidade do nosso exército, temos ocasião de algumas francas e fortes risadas, dignas de Homero.

A primeira utilidade de um exército é que se bata.

O nosso exército não se pode bater.

Pelo número dos seus soldados (batalhões incompletos, quadros rareados, etc.), estamos como depois de uma derrota - ao cabo de 24 anos de paz!

O seu armamento é inteiramente ineficaz. Está provado cientificamente que, depois de meia hora de fogo, as espingardas do exército passariam para o inimigo - rebentadas em estilhaços. Quando não rebentem, o seu alcance é humanitário.

Queremos dizer - as balas ficam a meio caminho do inimigo.

Verdadeiramente o nosso exército só poderia alcançar o inimigo - correndo atrás dele: mas para isso faltam-lhe sapatos! Realmente, por tão pouco armamento, mais valia uma tanga e uma flecha!

Quanto à nossa artilharia, há um só meio de ela prejudicar o inimigo: é fazê-lo prisioneiro, colocá-lo amarrado a 4 palmos da peça, procurar não errar o tiro, e conseguir assim inutilizar-lhe a barretina!

O equipamento é nulo. Nem tendas, nem cantinas, nem transportes. Nenhum aparelho de marcha, nenhum material de acampamento.

O soldado português é bravo, firme, sofredor; tem o élan, o arremesso, como o touro. Mas nas guerras modernas estas qualidades são inúteis. Compreendeu-se já que uma peça de artilharia é um soldado mais sofredor e mais firme que um filho de Adão.

Ora estes grandes duelos de artilharia, exigem no soldado outras qualidades além da coragem: exigem sobretudo, nos estados-maiores, a estratégia como uma ciência. Os nossos generais não têm ciência: tiveram outrora, na mocidade, bravura e pulso: depois veio a idade: perderam a força quando ela na verdade já não era necessária, mas não ganharam a ciência, quando ela é indispensável.

Os regimentos não têm instrução. Não têm o hábito do acampamento, da fadiga, das marchas. Não têm pontaria. A disciplina está relaxada; não há respeito, nem subordinação. Não existe mesmo espírito militar, brio de quartel, amor da arma. O soldado vive na cidade, numa indolência de paisano: fuma, namora, canta o fado: é um camponês que procura sofrer a farda cinco anos - o mais alegremente possível.

Não servindo o exército para a guerra - podia naturalmente servir para a polícia.

Mas não serve. Nas cidades de segunda ordem os regimentos vivem ociosos. Pois nessas cidades não há patrulhas, nem rondas, nem sentinelas: as ruas estreitas, sujas, mal alumiadas, são um terreno livre à desordem.

Nada mais natural que aproveitar os vagares do regimento para patrulhar a cidade.

Não! o regimento deita-se às 9 horas, para não apanhar o ar da noite. Quem vigia vagamente, sem cuidado e sem persistência, um dia cada semana, são os cabos de polícia. Ora os cabos de polícia são cidadãos que fazem este serviço obrigatória e gratuitamente. Isto é - cidadãos que têm o seu trabalho, a sua família, os seus deveres, sofrem ainda a obrigação de manter a tranquilidade de graça. Homens que não têm família, nem trabalho, de propósito para mais livremente poderem manter a ordem, que não têm outros deveres que não sejam esses, e que para isso são pagos - deitam-se às 8 horas da noite, depois de terem passeado desde as 8 horas da manhã. Oh bom senso! Oh pátria nossa!

O exército deste modo é uma ociosidade organizada!

Convém ao menos ter exército para o caso de uma revolta?

Nesse caso - o exército seria ainda inútil. Em Portugal o exército não se bate facilmente com o povo: o exército é uma porção de povo fardado. Em França o exército é um mundo à parte, exilado nos seus quartéis e nos seus camps, com ideias, hábitos, sentimentos próprios, sem comunicação com o povo, chamando-lhe bourgeois e pekin, e não tendo dúvida alguma em o espingardear. Em Portugal o soldado vive com o povo: saiu dele, volta brevemente para ele: está com ele no contacto de todos os dias, bebe nas mesmas tabernas, canta as mesmas cantigas, brinca nas mesmas romarias, é ainda um cidadão. Não espingardeia o cidadão! Quando muito, nunca lhe paga o vinho.

De modo que o exército em Portugal:

E inútil para a guerra;

Inútil para policiar;

Inútil para reprimir uma revolta.

Para que serve? Para gastar 4000 contos.

Há mais: um exército só por si é inútil se não faz parte de uma inteira organização militar.

Onde estão as nossas praças-fortes? A nossa artilharia? Os nossos arsenais? Os nossos campos entrincheirados? As nossas fábricas de armamentos para um caso de perigo? Os nossos fortes? Os nossos caminhos estratégicos? - Nada temos, a não ser o bom senso fechado, a fronteira aberta, e umas peças de artilharia a que deu Jogo

Camões - o que é poético, mas frágil!

Dir-nos-ão: «Mas nós não somos um país militar...

Então façamos o que se deve num país que não é militar. Não gastemos 4 000 contos tão improdutivamente, como se os gastássemos em caixinhas de soldados de chumbo - (plúmbeos guerreiros, diria o Sr. Vidal, poeta lírico).

Licenciemos o exército - e criemos:

1º Uma guarda nacional, com serviço extensivo a todo o cidadão válido;

2º Um corpo de gendarmaria civil.

Alcançávamos assim:

1º Economizar 4 000 contos ou pelo menos 3 000;

2º Entregar, à agricultura, uns poucos de mil braços inesperados;

3º Tornar eficaz a defesa nacional;

4º Estabelecer por todos os distritos do País um serviço de polícia, necessidade impreterível;

Havia ainda uma 5ª vantagem; mas não a expomos, receando que a corte nos mandasse assassinar.