Uma Campanha Alegre/I/XXI

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XXI: Oito razões por que se não reformou a Carta


Agosto 1871.

Somente entendem também que a reforma é inoportuna. Um homem é agarrado por dois ladrões, amarrado a uma árvore. De madrugada passam dois cavaleiros, e vêem ao longe, vagamente, na neblina, o vulto. Compreende-se que discutam, no primeiro momento, se é ou não um homem que ali está em agonia: mas, desde que verificaram que é um homem, o que se dirá do seu bom senso se começarem a discutir - a oportunidade de o salvar?

A Carta contraria ou não as tendências do espírito moderno, e a opinião? Sim ou não? Só isto se pode debater. Mas confessar publicamente que sim, e votar que não - é o mesmo que declarar:

— Nós entendemos que o País sofre com esta constituição, mas desejamos que ele continue a sofrer!

Ninguém dá crédito, porém, às vossas declamações, senhores! Vós o que não quereis é nenhuma reforma da Carta! O que tentais evitar é que intervenha na vossa política, a força da opinião popular! E sabeis porquê? Porque se a democracia, mesmo sob a forma monárquica, tivesse o seu advento - as vossas doces e rendosas sinecuras ficariam estateladas no chão! E vós quereis ouvir Bellini em S. Carlos, e tomar sorvetes no Verão com sossego! Eis aí!

Ah! vós dizeis que amais o progresso. Amais o progresso que vos inventa cadeiras mais cómodas; o progresso que vos monta operetas de Offenbach para acompanhar alegremente a digestão do jantar; o progresso que descobre melhores limas para cortardes os calos! Esse progresso decerto o amais! Mas o que não amais é o pro-gresso político, porque esse traria uma ordem de coisas que extinguiria os vossos ordenados, levantaria as vossas décimas sonegadas, transtornaria as vossas posições; - isto é, este progresso tirar-vos-ia os meios de poderdes gozar o outro. E aí está o que vós não quereis, amáveis bandidos!

Vinde no entanto para diante dos leitores das Farpas, com o extracto das vossas cómicas opiniões colado às costas. E já que não auxiliais o bem, ajudai a gargalhada!

O Sr. Barjona começou por dizer que o projecto da reforma lhe parecia indefinido e vago. Ora o projecto marcava muito explicitamente os títulos 3, 4, 5, 6 e 7. Pode chamar-se-lhe largo - mas indefinido... Santo Deus! se S. Exª chama à designação explícita de 5 capítulos uma coisa vaga - o que chamará então às nuvens do poente?

Chamar-lhes-á soma de 5 parcelas?

E acrescenta S. Exª que não é daqueles que Liga pouca importância às constituições políticas. Ainda bem! Mas que estranha revelação! Há pois políticos em

Portugal (e só em Portugal se é só político), que não dêem importância às constituições políticas? O meu criado não dá com efeito muita atenção a essa espécie, mas porque dá todos os seus cuidados a escovar o meu fato. (E ainda assim não gosta do Sr. Carlos

Bento, mas é uma questão puramente pessoal). Que existam porém sujeitos que tendo profissão de ser só políticos (oh farsa!) não dêem atenção às constituições políticas - estranho parece, porque a verdade é que esses indivíduos não estão encarregados, como o Miguel, de escovar o meu fato.

A câmara conservadora defende-se! rejeita por 51 votos contra 23 a reforma da

Carta! Mas como foram estranhas as declarações de alguns dos 51 conservadores!

Porque (quem jamais o diria?) eles só votaram contra a reforma da Carta - por entenderem que a Carta deve ser reformada.

O Sr. Silveira da Mota é mais estranho ainda! Examina, com grande critério, todas as reformas que o País precisa - e termina por dizer que em vista daquela dolorosa ladainha, o País não precisa nenhuma. O que se traduz deste modo trágico: isto está tão arruinado que já agora deixá-lo ficar assim!

O Sr. Barros e Cunha declara que todo o seu sentimento (êxtase, melancolia, doçura, amor, etc.) são pela reforma da Carta: mas que a frieza da sua cabeça não lhe permite admitir essa reforma. Como homem frio, quando raciocina, o Sr. Barros e

Cunha é conservador: mas como homem de sentimento, quando cisma ao luar, quando segue o gemer da guitarra, quando escuta o rouxinol - ai! como ele então deseja a reforma da Carta!

O Sr. Adriano Machado não quer aquele projecto da reforma da Carta - porque pretende ele mesmo apresentar um. Isto entende-se. É um homem que tem ambições e a sede de um nome! Em lugar da Reforma Mendes, aspira a que os jornais da província celebrem no futuro a Reforma Adriano!

O Sr. Costa e Silva entende que a Carta é liberal e não precisa reformas; e, a tê-las, só em algum dos seus artigos, não muitos. Para este senhor a questão é de quantidade. Aí 5 ou 6 contentam-no: se fossem 3 e meio, tinha cãibras de prazer! Mas sobretudo o que ele apetece - é resolver a questão financeira! E espera que ela seja resolvida! Doce ingenuidade! Todo o mundo estava admirado de tanta inocência infantil; e perguntava-se com cuidado onde teria o Sr. Costa e Silva deixado o seu bibe!

O Sr. Peixoto (?),depois de se ter visto singularmente enredado em grandes frases, conseguiu desentalar-se e dizer, claramente, que antes de tudo a reforma urgente consistiria em escrever bons livros! Que não basta que haja escolas! que são sobretudo indispensáveis bons livros! Faz isto desconfiar que o Sr. Peixoto supõe que o único livro que se tem escrito, depois do Génesis, é o das Proezas de Rocambole! Mas o Sr. Peixoto pareceu sobretudo grande quando declarou que o povo não tem direito a mais liberdade! O Sr. Peixoto, que não é neto do conde Chambord, nem possui na África plantações de café, estava a fingir para a galeria que era da casa de França e grande senhor de engenhos! Pobre moço! E quando ele jurou que a verdadeira reforma, que incumbia ao parlamento, era dar ao povo livros que lhe ensinassem a natureza do seu

País e a sua própria índole? Muita gente compreendeu que esta frase difícil significava que a câmara, antes da questão da fazenda, da administração, etc., se devia ocupar - em escrever compêndios de geografia e tratados de moral.

E terminou assim: «Estas reformas reclamam todas as nossas forças e todo o nosso tempo; não fatiguemos aquelas, e não percamos este!» Abismemo-nos na contemplação deste período imortal, que, à parte a sua construção cómica - significa:

«Não nos levantemos tarde e não comamos coisas que nos façam mal ao estômago». Se acrescentarmos a isto os banhos do mar, há todo o motivo para supor que o País está salvo!

O Sr. Pinheiro Chagas vota contra a reforma da Carta, porque é pouco experiente.

Este moço justifica o seu voto - mostrando a sua pouca barba!

O Sr. Franco Frazão declara que a reforma da Carta não deve ser admitida à discussão, porque está muito calor! Este homem é grande! Este homem há-de ir longe - em havendo frio! Deixem vir Janeiro, e o País verá como o Sr. Franco reforma e organiza. Por ora, não. É este um grande princípio que passará para os repertórios, assim fixado: Janeiro, frio, geada; planta chicória e reforma a Carta!

Tal foi esta sessão, em que notáveis opiniões viram a luz do dia - e a luz do dia viu notáveis opiniões!