Uma Campanha Alegre/I/XXIII

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XXIII: Os srs. deputados esquecem a mera decência material


Agosto 1871.

Não queremos que acusem as Farpas de parciais! Não se dirá que foi a nossa pena, exaltada pela fantasia e pela ironia, que desenhou os contornos de uma sessão memorável na Câmara! Tomaremos a exacta narração que o Sr. Melício, correspondente, deputado, homem noticioso e linfático, dá ao Comércio do Porto, excelente folha lúgubre!

O Sr. Barjona falava quando o motim rebentou. As provocações (diz o Sr. Melício) eram acompanhadas de murros sobre as carteiras. Quadro esplêndido! Suas

Ex.as de cabelo em desalinho, gravata solta; as carteiras vergando, e, tanto quanto lhes permitia a sua qualidade de madeira, tomando biocos suplicantes; e Suas Ex.as , atirando-lhes murros, encontrões, pontapés, cachações, palmadas, estouros, todas as variedades sonoras de uma argumentação eloquente! Isto já é grande! Isto já é prodigiosamente grande!

Mas maior é o último detalhe do motim, contado na correspondência do Sr.

Melício. Diz o Sr. Melício: as POSIÇÕES POUCO ACADÉMICAS E MENOS

PARLAMENTARES (???) de alguns srs. deputados levaram o sr. presidente a

MANDAR EVACUAR A GALERIA!

Pergunta a imaginação aterrada - que posições foram essas?

Não! isto é extremamente sério! Para que o presidente de uma Câmara mande evacuar as galerias com o motivo de elas não presenciarem as posições que os deputados estão tomando - é necessário que estes se tenham permitido atitudes verdadeiramente estranhas! Dado mesmo que alguns senhores se tivessem deitado ao comprido, ou tivessem dado cambalhotas - nada disto, ainda assim, justificaria a precaução pudica do Sr. António Aires. E note-se que as galerias resistiram. É que as magnetizava um espectáculo refinadamente excepcional...

Que se passou pois?

Teria o sr. visconde de Valmor rompido no excesso de se pôr de cócoras? Mas é tão natural isso - no parlamento!

Teria o Sr. Teles de Vasconcelos montado às cavaleiras no Sr. Barjona? Mas isso que importava - entre portugueses!

Teria o Sr. Jaime Moniz, para afirmar à Câmara e ao País a moderação dos seus princípios, mostrado o interior das suas flanelas? Teria o Sr. Arrobas cortado os seus calos? Teria o Sr. Barros e Cunha, num acesso de ira, botado a língua de fora? Não! Não podiam ser somente estes actos ligeiros!

Posições académicas e pouco parlamentares!

O Sr. António Aires, pondo o seu chapéu, não se cobriu apenas, vendou-se.

Enterrou o chapéu até o pescoço, e para que S. Exª se descobrisse à porta, diante do comandante da guarda, vieram médicos que lhe extraíram o chapéu a ferros.

Que seria?!

Santo Deus! Deus clemente, piedoso e justo!

É evidente que os srs. deputados - se puseram nus!

Não, senhores!