Uma Campanha Alegre/II/XXVI

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume II, Capítulo XXVI- Guerrilhas carlistas. Batalhões sagrados


Abril 1872.

Nós somos neutros - inteiramente neutros, entre Carlistas que pretendem a

Espanha, e Constitucionais que a possuem. Parece-nos que ambos têm razão, porque a

Espanha é um país rico e belo, e deve ser bom possuí-la. Nós dois, pela nossa parte, se tivéssemos armas, guerrilhas, munições, um empréstimo e um partido, também iríamos, ao ruído dos tambores, de bandeira ao vento, reclamar a Espanha. O mesmo Sr. Melício, se tivesse um exército e artilharia, também quereria a Espanha para si. Teríamos então o

Melicismo. O que coíbe o Sr. Melício é não ter artilharia.

Somente, apesar da nossa neutralidade, não podemos deixar de notar a atitude feroz dos padres nesta guerra carlista. São curas que comandam as guerrilhas. São eles que pregam, fanatizam, armam, guiam, atacam. E é singular como mãos imaculadas e costumadas à hóstia têm tanto vigor para a clavina.

Já um poderoso filósofo fez notar que o temperamento do padre é inclinado a fazer sofrer. Está na memória de todos os Cristãos, pela tradição do Evangelho, a subtil, a ferina crueldade dos fariseus, que eram sacerdotes. O padre impele à guerra. As matanças de mouros, turcos, albigenses, luteranos, judeus, cristãos-novos, que encheram a história de sangue, foram pregadas, dirigidas, executadas por padres. A inquisição é eclesiástica. A Igreja pôs ali, na invenção dos tormentos, toda a subtil habilidade que tinha posto na argumentação da casuística.

Os processos de feitiçaria deram aos padres ocasião de acender, durante dois séculos, uma fogueira por dia. Os cilícios, contas de pregos, disciplinas, são de origem devota. Depois do corpo a alma. Pela penitência, pelo confessionário, os padres gostam de fazer chorar, sofrer, amargurar, tremer de medo. Sobretudo às mulheres. Oprimir parece ser o instinto do sacerdote. Nas guerras civis são os primeiros a armar-se - e sem querer procurar nos seus hábitos, na sua educação, no seu temperamento, a secreta explicação destas tendências sanguinárias, não é talvez inteiramente inútil contar uma história verídica e lúgubre, que caracteriza, com poderoso e melancólico relevo, a ferocidade eclesiástica nas lutas civis.

Era no tempo das guerras de D. Miguel. Um homem, ainda hoje vivo, constitucional, tinha sido ferido. De miséria em miséria, conseguira recolher-se, esconder-se num povoado, em casa de umas pobres mulheres velhas. Boa gente, piedosa, assustada, consumida pelos terrores do tempo. O homem convalescia.

Começava a erguer-se, a vir à porta, ao sol, tiritar debilmente a sua fraqueza. Um dia as duas mulheres apareceram numa grande aflição. Tinha chegado ao povoado o Batalhão

Sagrado. O homem fora denunciado.

O Batalhão Sagrado era composto de padres armados de clavinas e foices. Era a guerrilha idiota do assassínio. Longe das suas igrejas, desembaraçados dos votos, na

Como mudam os tempos! Há cinquenta anos, na Península, o Legitimismo governava triunfalmente, e apenas, pelos montes, nos despovoados, alguma guerrilha constitucional, mal armada e mal mantida, perseguida com mais rancor que um lobo, protestava, em nome da vaga e indefinida deusa que tem entre os homens o nome ininteligível de Liberdade, a raros tiros de espingarda. Hoje, ai! o constitucionalismo de guerrilha fez-se exército, apoderou-se do Estado, estabeleceu-se no Tesouro, e é o legitimismo que anda agora a monte na Navarra e na Biscaia. liberdade da serra e dos caminhos, ávidos como animais soltos, de clavina ao ombro, iam estes sacerdotes levando através das povoações - uns a cólera bestial do seu fanatismo, outros a violência animal da sua sensualidade, todos uma lúgubre e temerosa opressão. Eram temidos mais que todos os flagelos. Matavam e prendiam. E a prisão era pior que a morte - porque era a tortura requintada e monstruosa. As duas mulheres tremiam ao pé do doente.

— Bem - disse ele - vossemecês em todo o caso não têm que temer. Se os padres vierem eu cá estou. Apresento-me, digo que estava aqui contra a vontade das senhoras.

Atiram-me para um canto e acabou-se. Estou fraco, não me há-de custar muito morrer.

Se dessem busca à casa e me achassem para aí escondido, davam cabo de mim da mesma maneira, e vossemecês padeciam. Assim é melhor. Eu cá estou.

As mulheres choravam, queriam escondê-lo; o homem recusou com a indiferença de um vencido. Daí a pouco o Batalhão Sagrado, com grande ruído de armas, aparecia ao pé da casa, de batina arregaçada, cruz na mão, foice ao ombro.

O homem saiu e disse tranquilamente:

— Aqui estou, sou eu. - Então dois padres, aproximaram-se: cada um o tomou por um lado do rosto, pelas barbas, rindo, e com um empuxão terrível arrancaram-lhas! O homem caiu no chão. Os padres amarraram-no com cordas em cima de um macho, e partiram com ele vitoriosamente, cantando o Bendito, para as prisões de Almeida. A jornada durou dias. Era no Verão. Os ásperos caminhos ardiam de sol. O homem levava o rosto em chaga, com um contínuo suor de sangue. A poeira, o sol, calcinavam-lhe as feridas. Levava as mãos amarradas, e as moscas picavam-lhe a carne viva. Quando chegavam às tabernas, os padres atiravam ao homem um pedaço de pão. De vez em quando, por desfastio, espancavam-no, picavam-no com as pontas das baionetas. A inflamação fazia-lhe nas feridas uma dor pungente, que o pobre homem, domando o orgulho, pedia que lhe mitigassem com água fresca. Os padres então, com grandes risadas... Não pode ninguém escrever o que faziam os padres do Batalhão Sagrado, para refrescar aquelas feridas! Ao chegar à cadeia, atiraram-no para cima de uma esteira.

Quando voltou a si, um homem estava debruçado sobre ele. Era um enfermeiro de acaso, um preso também, um compadecido daquela desgraça. Esse preso piedoso não era um vencido político. Era um assassino. - E foi ele que curou as chagas feitas pelos senhores padres do Batalhão Sagrado.