Uma Família Ingleza/VIII

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Uma Família Ingleza por Júlio Dinis
Capítulo VIII


NA PRAÇA

Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.

A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em occasião assim.

Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar indicios da posição commercial, que elles occupam.

Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento, mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes oraculos;—são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes, meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III, na abertura do parlamento francez.

Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.—São estes os negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem, mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada esperam d'ella.

Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de novo. Que quer dizer isto?—É um negociante fallido de pouco e rodeiado de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes negociantes fallidos.

O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram suspensos, aquelles, cujas remotas fracturas teem sido miraculosamente consolidadas pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é possivel a discriminação.

A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa, agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo—attenção nem sempre retribuida—; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser incommoda de ver-se.

É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se dizem—caixeiro e patrão—. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe, olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de longe falla por acênos—distracção perigosa para a clareza da ordem dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu; os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado, emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito, circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.

Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes, sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios, transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços, amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram a atacar.—São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.

A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta bureaucracia ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre os dedos, como para significar que é momentanea a pausa—o que nem sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos distrahidamente correspondidos por estes.

Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes capitalistas—commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz, como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade, estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.

Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre gente, que toda lhe era igualmente familiar.

Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.

O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.

Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça. Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados; d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o: chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia, conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.

N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,—unico fim que tinha na ideia.

Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era assiduo frequentador.

Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se das mais graduadas individualidades da praça.

Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho inglez, que estava na companhia tambem.

—O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto—dizia um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que temos ainda por cá.

O inglez estremeceu de pasmo.

What!!—A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão—Na Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?

—Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores...

—Ora então... então... A Bolsa de Londres... o Royal Exchange... não vamos mais longe... o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em tres annos estava completo.

—E esse quando ardeu?—perguntou Carlos.

O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.

Carlos interrompeu-o outra vez:

—O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel disposição para arderem as bolsas.

O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da noticia historica e architectonica.

—Mas, senhores!—dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos directores da mesma—Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram. O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se penhore; porisso voto que...

—Mas repare,—dizia o director com exemplar paciencia—repare que as garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se...

—E adeus, minhas encommendas!—tornou o outro—Ora que é scisma! Mas quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje são tudo e ámanhã são nada... Faz-se o contracto com uns e ámanhã respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu... E os nossos capitaes...

Estes capitaes eram cem mil réis por junto.

O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.

Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio, dizendo-lhe a meia voz:

—O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma companhia monstro.

—Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o senhor...

—Ouça—insistia Carlos—é negocio dos accionistas ganharem quarenta por cento, avaliando muito por baixo.

O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.

Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!

A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.

—Pois sim, mas... eu agora...—dizia ainda o homem.

Carlos insistiu:

—Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes, que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da instituição. É porisso que eu...

—Mas que é a final?—perguntou o sujeito com curiosidade.

—Demais espera-se que o governo conceda um subsidio...

O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á tentação d'esta vez.

—Mas qual é o fim?—perguntou em vez d'isso.

—E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este commettimento—continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal companhia.

—Mas o fim da empreza? ... o fim?—bradava já o outro.

—O fim? Um grande fim... uma nova via de trafego commercial entre a cidade alta e a baixa.

—Como? Alguma rua...

—Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no seio da cidade.

Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:

—Mas... que é? como?

—Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.

O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas cêdo depois voltou-lhe as costas desapontado e procurou o director, que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro lhe apontára ao peito—Quem era o governo?

O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são, que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado, no Douro.

O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de pedidos—da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como resentiu—parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu valimento e ser até importuno para servir o amigo.

Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido, aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:

—Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?

Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar orações sem nexo, separaram-se friamente.

O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais com elle pela sua pouca lisura.

E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda aos mais reservados e egoistas.

Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.

Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo, baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.

Parou a escutal-o.

—V. s.ª passou bem?—disse o recem-chegado.

Carlos correspondeu ao cumprimento.

—Ora eu—continuou o homem—já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª; mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me conhece.

—Não, senhor—disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do seu interlocutor.

—Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o anno passado...

Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o botão de peito do snr. Anastacio Rebello.

—Ora v. s.ª—proseguiu este—ha de estar certo de que ha dois mezes... um meu correspondente de Braga me pediu... Eu não sei se o pae de v. s.ª lhe disse... Talvez não dissesse...

—Talvez não—disse Carlos, sem o attender...

—Pois o negocio é simples: este meu correspondente... que é também meu compadre... isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por causa de uns humores frios que...

Carlos assobiava já.

—Mas agora quer este meu compadre... Olhe; aqui está a carta que elle me escreveu;—proseguiu o homem, procurando-a no casaco—eu julgo que a trago commigo... Por ella fará ideia.

E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens, letras, contas, recibos... dizendo, ao passo que examinava cada qual por sua vez:

—Não... isto é outra cousa... é a ordem para me pagarem uns cincoenta e tantos mil réis... E já não veem sem tempo... Mas onde diabo puz eu a carta?... Não é isto... Isto é o escripto de arrendamento da minha casa do Forno Velho... Isto é... Que S. Pedro é isto?... Ah! a carta do Maranhão... isto ... isto é uma encommenda que me fazem de Bragança... V. s.ª não me sabe dizer onde se vende... a estampa da guerra da Crimeia?

—Eu não, senhor—disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.

—Encommendaram-m'a e eu...—continuava o homem, seguindo-o—Ah! achei; cá está a carta!—exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco—Ora quer ler?

—Eu não, senhor—respondeu este, tentando evadir-se.

—«Prezado amigo e compadre—principiou o homem a ler.—«Recebi a sua de 13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre...—é a mulher d'elle—recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo—é a minha mulher...—e o Juca...—é o tal meu afilhado...—manda muitos beijos ao padrinho...

—Que é o senhor—disse Carlos, já impaciente com a massada.

—Justamente—respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.

—Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me—acrescentou Carlos, fazendo outra tentativa para fugir.

—Isto tambem não interessa...—concordou o homem—aqui mais abaixo é que... tal, tal, tal... sim, senhores...—«A festa do Bom Jesus este anno promette ser feita com espavento e eu espero que vocemecê...»—Elles querem que eu...

—Com licença, que estou com pressa.

—Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo...—«A camara municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma derrota que...»

Carlos já não podia mais.

—Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?

—Tem v. s.ª razão... É que eu julgava... Tal, tal, tal—«O seguro não quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do Souto...»—Olhe que tambem isto de seguros...

—Adeus—disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.

—Ah! é aqui; agora sim—exclamou este triumphantemente—Cá está...—Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra...

Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua, deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.

—Adeus, minha flor.

A rapariga respondeu-lhe:

—Ninguem o conheceu hontem no baile.

—Então esteve lá?

E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.

Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado com o que via.

Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.

Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.

Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no escriptorio.