Uma Lágrima de Mulher/I/VIII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo VIII


Foi-se passando o tempo e o recém-chegado sem explicar a melhora da situação.

Também as mulheres não se animavam a interrogá-lo; compreendeu a boa gente que tinha melhorado de sorte, e a Madona por isso recebeu nessa noite uma grinalda nova toda perfumada.

Com efeito, Maffei tinha enriquecido.

Em princípio, encontrou em Rezina a sorte adversa, porém, com energia e ambição soubera poupar e avultar um pecúlio, que, emprestado a juros e especulações mais altas, em pouco tempo se multiplicara. A economia rigorosa concluiu a obra, crescendo na razão direta do engrandecimento do capital.

Outros atribuíam a um princípio ilícito essa riqueza; aqui diziam que roubara; ali, que a fortuna o protegera, fazendo-lhe achar dinheiro nas escavações.

Sabemos que em Herculano não apareceu muito dinheiro, porque a população tivera tempo de fugir, quando a cidade foi submergida; também sabemos que em Nápoles ninguém se queixava de Maffei como ladrão, mas o que era patente e real é que o pai de Rosalina voltava rico, mais ambicioso e necessariamente pior de coração.

Luzia-lhe agora com mais intensidade a cobiça vermelha e sinistra, como um farol no meio da tempestade.

E não havia porventura uma tempestade naquela cabeça?

Sim! porém toda interior.

Não se ouviam os trovões nem os vendavais, a revolução ia-lhe por dentro e só chegava à superfície da fisionomia desfeita em espuma biliosa nos cantos arqueados da boca e em sangue mau no vítreo dos olhos.

Isso era nos momentos de cólera.

À monotonia bondosa da casinha branca sucedeu a tristeza, espécie de pavor, que cerca o homem de má catadura.

Contra ele principiavam já a murmurar, na ilha, e, se até ali tinha tido poucos amigos, nenhum desses lhe restava agora. Em geral, malqueriam-no davam-lhe a paternidade de coisas horríveis; crimes medonhos, maldades atrozes, tudo servia para explicar a sua imprevista fortuna.

Todavia, se bem que contrariado e só, ia ele vivendo, falava menos e com mais indelicadeza; durante o sono, balbuciava palavras singulares. Frenético e aborrecido, agitava-o sempre a mesma impaciência e o mesmo cogitar.

Quais seriam as suas intenções?...

Não o sabiam as mulheres, nem se animavam a pergunta-lho.

Com todas essas coisas ia aviltando a tristeza na casinha branca. Rosalina já não era a mesma cotovia alegre e jubilosa, cantadora e risonha; se cantava agora, era triste e suspirando. E as suas notas e suspiros iam, repassados de muita saudade, em busca de Miguel, que, ao chegar o seu velho inimigo, arrancara-se dali, como o galho partido que o furacão arremessa com estrondo ao longe.

Ângela, cada vez mais devota, passava agora a maior parte do tempo a rezar.

Desconsolado se tornara esse lar, que já nalgum tempo fora vivo quadro de paz e felicidade.

Agora, o quadro era sombrio.

Três únicas figuras formavam o primeiro plano. - Um velho áspero, que cisma - uma devota, que reza - uma filha, que suspira; e lá, no último plano, meio escondido nas névoas do poente, um velho esbatido nas meias-tintas do horizonte - um homem, que chora abraçado a uma rabeca. Ah! Ainda no quadro uma forma negra, mais um borrão que uma figura - o cão.

Também vivia triste e chorava o animal, que em noites de luar soltava uns uivos tão arrastados e queixosos, que enterneciam o coração da gente.