Uma Lágrima de Mulher/II/V

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo V


O baile continuava crepitante a devorar saúde, dinheiro e reputação, como um incêndio em que já ninguém se entende e cada um só cuida de si; com a diferença, porém, que no sinistro do fogo procurava-se um meio de salvar e no do baile se procura um meio de perder.

O álcool, combustível perigoso, aumentava progressivamente a densidade do incêndio; as garrafas vazias tinham já maioria sobre as cheias - sintoma infalível de desordem.

Assustador era o aspecto do salão de dança - sobreerguia-se em espirais alcoolizadas e insalubres um vozear confuso e bestial, que se podia chamar o fumo da incineração das consciências.

Entretanto, na outra sala, o jogo, como uma pústula, ia apodrecendo surdamente o que alcançava.

A razão não tinha para onde fugir - de um lado o fogo e do outro a putrefação.

Rosalina, bela, mas já dessa beleza satânica das bacanais - pendente a cabeça, requebrando o olhar e o colo nu, valsava no salão principal com um rapaz de bigodes pretos, reclinada voluptuosamente sobre ele, entregues ambos ao desamparo, feliz e enebriante do prazer e da fadiga. Ele, arquejando, segredava-lhe umas coisas grosseiras e apaixonadas, e ela, ela sorria com indulgente gosto ao som venenoso das palavras que saíam truncadas e ardentes dos lábios do mancebo.

Depois de um trêmulo diálogo, imperceptível para os outros, em que deliberavam mais os olhos que as palavras, ela abaixou comprometedora ternura as pestanas, como respondendo à fixidez interrogadora dos olhos abrasados do par, e ele, com reconhecido sorriso, recolheu esse abaixar de pálpebras, que queria dizer - sim.

No mesmo instante separaram-se, e Rosalina, lançando sobre o moço um olhar significativo, desapareceu do salão, sem ser percebida.

Atravessou sozinha e ligeira duas salas, passou pela varanda, desceu a escada que conduzia ao primeiro andar, e, procurando abafar o som dos passos, apalpando cautelosamente as sombras dos corredores, chegou a uma porta, abriu-a e entrou.

Era a porta dos seus aposentos particulares, silencioso e perfumado ninho, onde o ruído do incêndio de cima chegava trêmulo e desfeito, como o murmúrio de uma tempestade ao longe.

Rosalina ao entrar correu de todo o farto cortinado de damasco e atirou-se extenuada sobre um divã. Sentia-se preguiçosamente fraca e terna, tinha uns desejos vagos e incompletos, uma moleza voluptuosa e agradável que a obrigava a fechar involuntariamente as pálpebras.

Pequena lamparina de ágata espalhava nos aposentos meia claridade macia, doce, morna e sonolenta, como o olhar oriental de um elefante.

Envolvida nesse nada cor-de-rosa, a moça meditava.

— E em que!...

Ó caprichos da imaginação! — Em Miguel. Desde que o esquecera era a primeira vez que o vulto sombrio do seu amado primitivo lhe acudia a memória; dantes acudia-lhe muitas vezes, porém ao coração. Sem saber porque, Rosalina com tal lembrança começou a sentir o princípio de uma pontinha de remorso - tímido e flexível como o espinho ainda verde mas já agudo. Estava em tempo de quebrar facilmente, porém já doía.

Quando de muda para Nápoles, Rosalina, como única resposta que obteve do pai a respeito de Miguel, ouviu estas duas sílabas: — Morreu.

Naquele momento, esta palavra caiu-lhe inteiriça sobre o coração como uma pedra sobre um túmulo, e, todavia, a idéia de viver em Nápoles com opulência lhe sopeara as lágrimas que porventura queriam rebentar; mas, pouco tempo depois, as festas, o luxo, o amor dos homens, a inveja das mulheres e o ciúme e desespero dos desprezados, matizaram-lhe, como uma primavera cheia de luz e vida, por tal forma o coração, que as flores acabaram por esconder o grosseiro túmulo que jazia. E desde então Miguel fora totalmente esquecido.

Agora, mistérios do coração! por entre as flores e por entre os risos lobrigava ela o fúnebre alvejar de pedra sepulcral; e o artista alevantara-se medonho da sepultura, como um espectro sombrio e ameaçador, a fixá-la das sombras da eternidade.

Esta visão preocupou ainda mais a bela cismadora que, suspirando, ergueu-se, passou as costas da mão pelos olhos, e depois acendeu um lustre, como querendo afugentar com a luz o fantasma.

De repente, alguma coisa lhe prendeu a atenção. — Era um som longínquo e profundo, que vinha do jardim pelo lado oposto às salas do baile; Rosalina reclinou vagarosamente a cabeça para aquele som, gemido ou voz, suspiro ou música, e, caindo de novo no divã, quedou-se embevecida a escutá-lo.

O som lembrava ora um mugido de uma criancinha, ora o ciciar da brisa; voz da natureza ou suspirar de homem, chegava-lhe ao coração essa música como coisa estranha, impressiva e sobrenatural.

Havia nesse murmurar um não sei o que de humano e um não sei o que de celeste; mal se diria se eram notas plangentes que vinham do céu ou se uma harmonia de lágrimas, caindo gota a gota numa taça de cristal; enfim, participava tanto do céu como da terra - poder-se-ia dizer que era o roçar das asas dos anjos pelo coração do homem.

Era uma rabeca que falava a linguagem da inspiração - idioma divino só compreendido pelas almas bem formadas.

Rosalina conhecia bem o metal daquela voz; conhecia a rabeca, o arco e conhecia a música, porém a sua alma embalde se esforçava por compreendê-la ainda; produzia-lhe já o efeito de uma língua estranha, digamos de uma língua morta.

E, contudo, a rabeca soluçava a última composição que Miguel lhe dedicara na casinha branca.

Apossou-se então de Rosalina um entorpecimento pesado e sombrio, quase sonambulismo; e, nesse estado, que se pode chamar de crepúsculo entre a vida real e o sonho, sentia e ouvia, alucinada, aqueles gemidos indecisos e plangentes, que parecia saírem das profundezas da eternidade para vir condená-la no meio da fortuna e do vício.

De quem poderia ser aquele gemer? De homem certamente que não; só uma alma penada saberia gemer assim.

Então, assistia-lhe a vontade de chorar.

— Chorar? por quê?

A consciência negava-lhe a resposta, como os olhos negavam-lhe as lágrimas; e o pranto não passava do coração.

Infeliz daquela a quem não é dado chorar; só o pranto afaga a dor que a vontade não vence destruir.

Lutando com tais opressões, Rosalina ergueu-se no intuito de respirar mais livremente o ar da noite; o terror, porém, não lho permitiu e fê-la estacar defronte da janela, afigurando-se-lhe que, se a abrisse, iria despertar o espírito errante, que porventura a chamava do jardim. E tomada desses sobressaltos foi se quedando triste e cismadora a escutar a música funérea.

Nisto dilatou-se a cortina de damasco, onde por acaso tinha Rosalina o olhar ferado, e o moço dos bigodes pretos entrou risonho e sem-cerimônia no aposento.

Ah! fez Rosalina voltando a si, e sorriu.

O cavalheiro debruçou-se carinhosamente e com elegante desembaraço sobre ela e, travando-a da cintura, beijou-lhe a fronte.

Desapareceu a luz e a porta da alcova fechou-se protetoramente sobre eles.

Entretanto, no jardim, o violino continuava a soluçar com o desespero de um órfão pequenino.