Uma Lágrima de Mulher/III/IX

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo IX


Depois dessa noite, Miguel vivia para uma idéia: fosse qual fosse ela deveria de ser negra e amarga, por amargo era o seu sorrir e negras as sombras do seu olhar.

Já por várias vezes lhe perguntara o guia se era tempo de regressarem para a ilha; Miguel, porém, desviava a cabeça, como se alguma coisa o prendesse ainda em Nápoles e deixava-se ir ficando. Alguma coisa o prendia de feito: era essa idéia.

Todas as tardes, quando para o ocidente, o crepúsculo vespertino esfogueava as nuvens mais baixas do horizonte, ele, espantadiço e calado, tomava para as bandas da casa de Maffei e, como um espírito perseguidor e maligno, rondavam-lhe o jardim e o quintal, procurando sempre confundir-se com a escuridade movediça das folhagens.

E, mais tarde, quando de todo a noite carbonizava a natureza e com as suas sombras o favorecia, então, mais seguro e confiado, atravessava o foragido as ruas relvosas do jardim e, pisando cauteloso, apalpando sorrateiro as trevas, comprimindo a respiração e procurando minguar o seu vulto, ora desaparecia nas moitas de roseiras, ora nos jasmineiros e caramanchões em flor, para reaparecer aqui e além, como o veado doméstico, que passeia nos quintais do amo, procurando a solidão e o silêncio.

Aí deixava-se passar ignorando as noites. E quando porventura via iluminada a janela de Rosalina, quedava-se horas esquecidas a contemplá-lo, extático e embevecido.

Assim sucedeu até o sábado, dia de recepção em casa de Maffei.

Nessa noite o palácio escancarava as suas largas bocas a novos convidados, como insaciável monstro, que não se farta de tragar reputações alheias; devia ser duplamente rica essa festa, porque, sobre ser sábado, era também aniversário do nascimento de Rosalina; circunstância esta de que não se esquecera o deslembrado amante e o fazia aguardar, com impaciência e desassossêgo, esse faustoso dia.

Efetivamente, preparava-se a festa ameaçadora e esplêndida; dobrou-se a orquestra e multiplicou-se o número de garrafas; eminente s artífices incumbiram-se de magnífica iluminação e fogos de artifício, que ocupassem a varanda e a parte principal do jardim; um quiosque, levantado defronte da janela do quarto da festejada, dar-lhe-ia, ao romper da alva, um harmonioso bom dia.

Chegada a hora, as salas, as varandas, os quartos, o andar inferior, tudo se encheu de gente. Era tudo confusão e bulício; por todos os lados fosforeciam luzinhas de variadíssimas cores; por toda a parte, música e perfumes, flores em profusão, gelados e vinhos, cantos e versos, mimos e ramilhetes, danças e jogos, florões e murtas; enfim, por toda parte e de todas as coisas rebentavam e efervesciam alvoroçadamente o prazer, o riso, a loucura e o amor.

Rosalina lá estava resplandecente, como alvo brilhante de todos aqueles faustos e grandezas; via-se cercada de aduladores, que a crivavam de galanteios e lisonjas; e assim festejada, querida, requestada, adulada, tinha-se ela por feliz no meio desse círculo de ferro dourado, que o dinheiro traça incomodo na sociedade.

A festa crescia e redobrava de entusiasmo com o progredir tenebroso da noite; regorjeavam frenéticos os instrumentos; pulsava doido o sangue com o ansiar nervoso da valsa; a embriaguez familiarizara-se e gritava a bel-prazer, rindo a desvergonhada, com a boca aberta e o gesto descomposto.