Uma Tragédia no Amazonas/III

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No dia seguinte, mal principiava a aurora a derramar suas torrentes de ouro sobre o dorso sinuoso dos cirrus do nascente, já longe da cama estavam todos.

O café fora servido por Silvano, que foi, depois, abrir a porteira.

Quando voltava dois homens saíam da picada, dirigindo-se para a morada de Branca.

Era um Eustáquio, que volvia aos seus penates, e o outro Ruperto, seu escravo.

Depois da explosão de alegria que fez Branca pela volta do esposo foi o francês apresentado a este que não pôde deixar de o abraçar ao saber do interesse que por sua consorte havia mostrado.

Henrique Dugarbon olhou, então, para o oriente.

O sol vinha nascendo, de um aspecto imponente, e os seus raios purpurinos, de horizontalidade quase perfeita, iam desenhar, na parede da casa, a sombra do grupo formado pelos seus donos e hóspedes.

— Minha senhora, disse em tom solene, Sr. Eustáquio, a Providência, que me trouxe a vossa casa, onde fui acolhido como nunca o esperei, ela mesma me manda hoje deixar-vos

"Vou prosseguir na minha tarefa. Talvez tenha de oferecer a minha vida em holocausto à ciência, mas se assim não for, eu vos juro, pelo criador daquele astro, que vos hei de pagar o que por mim tendes feito.

"Recebei os meus sinceros, ainda que insuficientes agradecimentos, que vos transmito por este adeus."

Eustáquio se declarou sentido pela rápida partida do francês, porém este, obstinado, afastou-se para o rio, depois de ardentes abraços e apertos de mão.

O subdelegado, a mulher e Rosalina acompanharam com a vista o francês e seus companheiros, até vê-los desaparecendo atrás dos cacaueiros da picada.

Em seguida o marido de Branca falou à família.

— A tentativa de ataque de que foi vítima a nossa casa, esta noite, me parece um aviso.

"Terão de recomeçar as minhas perseguições? Julgo que sim.

"Devo portanto, sem demora, garantir a minha segurança."

— Silvano, disse ele, dirigindo-se ao escravo, tens que ir hoje à povoação, para engajar os soldados que se te apresentarem.

"São dois somente, mas bastam."

Algumas horas depois seguia o negro em direção ao povoado, de onde, pouco antes, partira Dugarbon para o norte.

À tarde chegaram os policiais, mas, fato estranho, Silvano não voltou.

Isso excitou a curiosidade e o receio em Eustáquio que saiu logo, com os dois guardas, para S. João do Príncipe.

No caminho encontraram grandes manchas de sangue escuro, que não tinham sido apercebidas pelos soldados, quando eles por aí passaram.

Disso concluíram o assassinato do infeliz Silvano, pois que os policiais asseguravam que ele deixara o povoado apenas cumprida a sua missão.

Verdadeira dor sentiu o subdelegado pela perda do seu dedicado servo, mas entrou em casa com ar satisfeito, dizendo que enviara o negro a Belém.

Esta asseveração não pôde desvanecer as suspeitas de Branca nem de Rosalina, principalmente depois da desgraça que sobreveio.

Muitos dias fizeram os policiais o seu serviço, com toda a regularidade, até que, em uma ocasião, vindo eles ao por do sol pela estrada, um ao lado do outro, o estalo de um tiro despertou os pássaros que se acomodavam nos ninhos.

Um dos soldados fora ferido na perna esquerda e jazia caído.

O outro correu direto ao tiro, cuja fumaça dissolvendo-se pela viração se elevava vagarosamente acima das ervas que vegetam nas ribas do Iapurá, mas nada viu. Desceu a encosta da ribanceira, com uma pistola engatilhada, e chegando à flor d'água começou, com os olhos investigadores a percorrer o rio.

No fim de alguns momentos, observou que a água, enegrecida pela noite, já próxima, se agitava ao longe.

— Estás lá, bandido, pensou ele, estás aviado, ou morres afogado, ou provas uma bala desta pistola.

O soldado, tinha suspendido a arma e a ia descarregar, mas um grito veemente de socorro fê-lo parar.

A voz partira do lugar da estrada que lhe ficava por cima da cabeça. Era indubitavelmente o guarda ferido, que fora atacado por inimigos covardes.

O seu companheiro, um moço valente, voltou-se e começou a galgar a ribanceira.

Não dera dois passos quando uma sombra surgiu ao seu lado.

— Pára! gritou ela, desaparecendo um momento oculta pelo clarão forte de um tiro.

O projétil resvalou pelo ombro do policial, que maquinalmente disparou sobre o seu agressor. De súbito, sumiu-se este.

O estampido deste novo tiro abafara segundo grito, mais afastado porém, que implorava:

— Acuda-me! Acuda-me!

De um salto o guarda chegou à picada. Era já tarde e por mais que buscasse pôde apenas certificar-se do desaparecimento do seu estimado companheiro.

Encontrou um lago de sangue e alguns farrapos de vestuário, no lugar onde devera ter havido uma luta entre os assassinos, ou o assassino, e a vítima.

Já era esta a segunda e como a primeira fora oculta.

No meio da escuridão de uma noite sem lua, mais sombreada ainda pelos rolos tempestuosos de grossas nuvens que se estendiam pelo firmamento, prorrompeu o soldado em imprecações contra Eustáquio, causador da morte do seu amigo e em blasfêmias contra Deus, que não o fizera chegar a tempo de a evitar.

O desespero do pobre guarda já tinha aparências de loucura. Andava desvairado, pisando o solo com força, e sem ânimo de arredar-se do terreno inda úmido pelo sangue do amigo.

Repentinamente, o desgraçado sentiu uma viva dor em um dos tornozelos. Tinha sido mordido por uma serpente, ele a vira, mas sem refletir deitou a correr precipitadamente e sem rumo. Enlouquecera.

Principiava uma chuva abundante, e o trovão que desde muitas horas se fazia ouvir crescia em estrondo.