Vã confiança: a ilusão americana

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Vã confiança: a ilusão americana
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 29 de maio de 1899


Por várias transformações tem passado entre nós, sob a influência dos interesses políticos e da ignorância nacional, a ilusão americana, em busca sempre de novo refúgio para a sua inge­nui­dade, de novo colorido para os seus sonhos, à medida que a experiência lhe vai sucessivamente dissipando as miragens da esperança. Supusemos, ao acabar com a monarquia, que, vestindo a roupagem da constituição dos Estados Unidos, e batizando-nos com o seu formoso nome, havíamos contraído com eles verdadeiros laços de fraternidade, a cuja sombra, como o mais novo da família, tínhamos o direito de contar francamente com os desinteressados e generosos serviços do irmão primogênito, em quem sobejariam as forças, para ser a providên­cia comum dos fracos neste continente.

A essa simpleza pueril se filiava o devaneio estupendo, acariciado, sob o governo provisório, até por alguns dos seus membros, de substituirmos, nas relações da nossa dívida externa e nos nossos recursos ao crédito estrangeiro, o mercado de Londres pelo de Nova York. Por esse modo nos libertaríamos do contacto suspeito com o europeísmo e o imperialismo do oiro londrino, indigitado às nossas desconfianças até pela sua perigosa denominação de soberanos, para ir buscar, sob a forma regeneradora dos dollars, nas fontes da opulência republicana, uma espécie de moeda e uma classe de credores mais dignos do novo regímen.

Morta em flor essa idéia na mente das cândidas almas que a tinham concebido, a ingenuidade persistente do nosso repu­blicanismo, criatura francesa mal-amanhada à pressa nas formas anglo-americanas, continuou a se embalar no sentimento de uma solidariedade com a grande república do norte contra os perigos intestinos e externos da restauração imperial e da cobiça européia. A América, aos olhos desses entusiastas de imaginação verde e amarela, era um imenso todo, cujo coração residia em Washington, às margens do Potomac, em cujas águas murmurava, na tradição dos patriarcas magnânimos, o evangelho de uma aliança sem laivo de ambições.

Mercê dessa poesia política, a ditadura de 1893, na sua luta contra a violência das dificuldades interiores, estendeu mãos implorativas para o governo dos Estados Unidos. A revolta pretendia restabelecer a coroa. A revolta era a protegida da Europa. Auxiliando o gabinete de Itamarati, o gabinete da Casa Branca estaria no seu posto, salvando a unidade do interesse continental. Quarenta e oito anos antes, Juan Bautista Alberdi, desterrado pela tirania de Rosas, escrevia de Valparaíso, debuxando o caráter do americanismo argentino indignado contra a aliança anglo-francesa, a que se deveu, com o concurso do Brasil, o renascimento da liberdade no Prata: “Enquanto o governo inglês colonizava o arquipélago argentino das Malvinas, o Grande Americano bebia na mesma taça com o representante do governo usurpador. Hoje que a Inglaterra se opõe ao matar de americanos, para logo se põe a clamar: conquista! conquista! O assassínio é, para ele, imunidade americana. Estorvar-lhe o exercício desse crime é atacar a Amé­rica.”

Néscio não havia de ser o protetor invocado, que não compreendesse a vantagem futura desse ato de intervenção em território estrangeiro, a rogo do seu próprio governo. Veio pronto o auxílio solicitado. A interposição da bandeira estrelada cortou o litígio pendente entre as forças legais e as forças revolucionárias na baía do Rio de Janeiro. Não esperou o benfeitor que o reconhecimento do beneficiado solenizasse a imensidade do benefício. Pouco depois do fácil resultado o almirante americano, cuja interferência no conflito esmagara a insurreição naval, deliciava os seus compatriotas, em Nova York, entre as manifestações espumosas de uma festa repercutida pelos jornais, com a reivindicação hilariante do triunfo sobre a esquadra brasileira rebelada. Mas nós não fomos ingratos. O júbilo da legalidade satisfeita deu-se pressa em coroar, entre os beneméritos da república brasileira, entre os seus salvadores, as imagens de Benham, Cleveland e Monroe.

Enquanto os dois primeiros recebiam a consagração da ternura nacional na eloqüência dos agradecimentos e no bronze das medalhas, o último chegou a ter um princípio ou a pedra promissora de uma estátua.

Era o pai da famosa doutrina, em cujo nome tínhamos recebido, sem deslustre da nossa altivez, a liberdade do concurso que encerrara a guerra civil.

Bem prestes se esvaeceu o prestígio desse encantamento. A bandeira da anexação triunfantemente desfraldada nas Antilhas Espanholas pela grande protetora da América emancipada começou a desmoralizar, no espírito dos nossos devaneadores, o idílio monroíno. Já reconhecem que se enganaram. Mas, não podendo resignar-se à evidência da verdade, resvalam de uma ilusão a outra, da mesma natureza, atribuindo a decepção, agora manifesta, a um desvio imprevisível do compromisso de Monroe no fim do século, e exortando-nos a descansar, sem sombra de receio, na amizade da potência, em cuja proteção perderam a esperança.

Esta nova fase da ilusão americana constrange-nos a voltar ao assunto; porque a nossa consciência não se pode submeter à corresponsabilidade numa falácia, a que a história e a experiência se opõem.