Valério/VI

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Valério por Machado de Assis
Capítulo VI


Valério convenceu-se um dia de que não era indiferente à rapariga. Foi o caso que, estando ela uma noite a tocar uma melodia assaz triste, o moço disse ao pai que achava a música lindíssima, e o pai, à mesa do chá, comunicou a opinião à rapariga, que sorriu e concordou com Valério. No dia seguinte, achando-se Valério em casa do coronel, a moça foi logo ao piano e tocou a mesma coisa, e assim o fez mais duas ou três vezes.

A única coisa que fazia espanto ao rapaz era a melancolia da moça. Hélvia falava e ria pouco, e tendo a mãe notado isso em voz alta, compreendeu Valério que a melancolia era recente e alguma coisa havia de ter.

Seria amor por ele? Valério começou a sentir essa doce ilusão, e cem outros incidentes, como o do piano, vieram dar alento ao coração ambicioso do rapaz, sem audiência do juízo que lhe poria veto às esperanças.

Valério entretanto julgava que, se a rapariga lhe aceitasse o amor, fácil seria obter o consentimento do pai. O coronel revelava a todos os instantes que prestava à opinião e ao juízo do moço uma homenagem de respeito. Sem intenção de o dominar, Valério influía no espírito do coronel, a ponto de causar ciúme à mulher, que via levantar-se em frente de si uma autoridade estranha e ilegítima.

Valério era o oráculo de Delfos do coronel, que o consultava a respeito de todas as coisas, até as mais minuciosas. Admirava-se o rapaz de não ter sido um espírito daqueles aproveitado pelos partidos que acham sempre auxiliares deste gênero, e os empregam com proveito de ambas as partes.

Naturalmente a gravidade muda do ex-deputado foi a sarça ardente que o escondeu aos olhos profanos; e a maleabilidade do homem atravessou incógnita o Parlamento.

Resolvera o coronel escrever segundo opúsculo, e Valério foi convidado a redigir as notas esparsas do autor que, a julgar pelo trabalho alegado, era o indivíduo mais laborioso das duas Américas.

— Desta vez, disse o coronel, não é admitido que me recuse pagar-lhe; já não se trata só de artigos, trata-se de um folheto que lhe há de levar tempo.

— Se é com essa condição, respondeu Valério, não lhe faço o trabalho.

— Mas...

— Tenho dito.

O coronel apertou-lhe a mão com aquela energia de um homem que, inesperadamente, faz uma economia de cem ou duzentos mil-réis.

— O senhor é um homem admirável, disse ele ao rapaz.

— Não me disse que me quer por amigo?

— Sem dúvida.

— Pois deixe-me colher o fruto da amizade, que é servir os amigos.

Começou o rapaz a redigir o novo opúsculo. Valério tinha algumas qualidades de estilo, posto não tivesse estilo feito, nem podia tê-lo, que só o trabalho e a meditação podem provar as prendas literárias. No entanto, era sóbrio, enérgico, claro e animado quando escrevia, e para um folheto político estas qualidades são preciosas. O trabalho ia adiantado, e o coronel já tinha ouvido dois capítulos que julgara excelentes.

Uma tarde, saindo da casa do coronel, aonde fora de passagem, Valério encontrou junto à porta da sala a menina Hélvia, que lhe disse:

— Venha antes de cá estar o papai.

Admirado com estas palavras, Valério não respondeu logo. Contemplava a moça e procurava certificar-se se estava acordado ou sonhando.

Ela repetiu com voz doce e melancólica:

— Vem, sim?

— Venho.

Estendeu-lhe a mão; ela lhe estendeu a sua; apertaram-se com força. Valério desceu a escada como se descesse das nuvens. Quando tornou a si, estava na esquina da rua.

Não era paixão que sentisse pela moça. Alguma simpatia, sim; esboço de amor. No entanto, ouvindo aquelas palavras, viu apresentar-se-lhe uma visão de felicidade; imaginou que a moça ardia por ele; e que há de melhor neste mundo do que ser amado? A vida é tão curta, os homens tão maus, os acontecimentos tão incertos, que uma criatura que nos ama é a imagem da misericórdia de Deus. De quantos ódios, invejas, malquerenças, calúnias não consola o amor de uma mulher? Tudo isso anteviu o espírito de Valério, que foi à tipografia mais leve que um pássaro e cheio de confiança no futuro.

No dia seguinte procurou Valério a hora em que o coronel não estivesse em casa, e, para melhor certificar-se, postou-se à esquina desde as oito horas da manhã. Ali esperou duas longas horas. Tamanha paciência só um amante a teria, a não ser um credor. À dez horas viu sair o coronel de cabeça alta e brandindo com gesto, que pretendia ser gracioso, uma bengala mais grave que o dono. Valério investiu para a casa.

No corredor estacou.

Qualquer que fosse mais corajoso estacaria também; não se acode a tais entrevistas sem um grande abalo, e não há coragem de Aquiles que não abata as armas ao aproximar-se de uma menina que parece querer amar.

Hesitou se devia subir; a consciência disse-lhe que era talvez inconveniente. Era uma formalidade da consciência; ela bem sabia que não é forte quando está doente do coração. O coração disse ao rapaz que subisse.

O rapaz subiu.

Hélvia, que da janela o vira entrar, já o esperava no patamar.

— Papai saiu agora mesmo, disse ela, entrando com Valério na sala.

— Vi-o sair, respondeu o moço corando muito.

Daquelas duas criaturas a que estava tranqüila era Hélvia; a que estava comovida e envergonhada era Valério. Trocavam-se os papéis.

Depois que se sentaram, disse Hélvia:

— Já amou?

A alma de Valério deu um pulo ao ouvir estas palavras. O moço não soube que responder. Fitou os olhos da moça, abaixou-os depois como a donzela que ouve uma confissão de amor. Ela repetiu a pergunta. Valério murmurou:

— Amo.

— Ainda bem! disse ela, compreender-me-á então; só quem amou, compreenderá o passo que dei.

— É inútil defender-se, disse Valério, eu agradeço-lhe até esse passo.

— Tanto melhor! Obrigada!

Hélvia soltou estas palavras com voz trêmula; duas lágrimas começaram a tremer-lhe nos olhos, eram as avançadas de uma legião de lágrimas que estavam a saltar-lhe e não se detiveram.

Valério levantou-se e correu a Hélvia, quando esta, pondo a cara nas mãos, chorava e soluçava como se uma grande dor lhe apertasse o coração. Animava-se a estátua; aquela que parecia de gelo era de fogo.

Houve um prolongado silêncio. A moça enxugou os olhos, e Valério sentou-se triste. Triste, porque as lágrimas de Hélvia queriam dizer que não se tratava de um amor nascente, mas talvez de um amor contrariado. Compreendeu de um lance que era chamado como salvador; outro talvez se sentisse humilhado; Valério, não. Deixou que a moça pudesse falar e disse-lhe:

— Que posso fazer para que seja feliz?

— Tudo.

— Juro-lhe que o farei.

Hélvia contou então ao rapaz que amava o primo, e era amada por ele; mas que, tendo o pai brigado com ele, lhe proibira voltar à casa e ela perdera a esperança de que o pai consentisse jamais no casamento. Queria que Valério interviesse para que o primo voltasse à casa e se reconciliasse com o coronel. O resto viria por si.

— Há muito que lhe queria falar; mas era impossível. Aproveitei a indisposição de mamãe, que desde ontem está na cama, para lhe dizer isto.

— Por que não me escreveu?

— Não podia, e, ainda que pudesse, não tinha certeza de convencê-lo com algumas palavras frias escritas num papel.

Valério prometeu interceder em favor do namorado proscrito. Para isso tomou informações a respeito do rapaz para ir à casa dele. Depois mudou de plano. Advertiu que entender-se com ele era dar à intervenção um caráter de serviço pouco delicado, e achou melhor servir unicamente à moça, o que lhe parecia mais próprio.