Valério/VII

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Valério por Machado de Assis
Capítulo VII


O coronel resistiu ao primeiro ataque.

— Pede-me por um pelintra, disse ele a Valério, não conhece aquela bisca; é um peralta que me não respeita, e até chegou a ter a petulância de amar-me cá a pequena.

— Está feito, ele é rapaz.

— Pois será, será; mas eu não dou minha filha a um valdevinos daquela laia.

— Mas eu desejava...

— Servi-lo-ei noutra ocasião, isto não.

Valério calou-se; achou melhor adiar o ataque para mais tarde. O coronel ainda falou a respeito do sobrinho, e vendo que Valério nada mais dizia, calou-se também.

Ao cabo de cinco dias resolveu falar-lhe outra vez; mas dessa vez, foi o coronel quem primeiro tocou no assunto.

— Ainda pensa no tratante do meu sobrinho?

— Ainda. E o senhor?

— Eu estou na mesma.

— Perdão, sr. coronel; eu não creio que seu sobrinho mereça ódio; fez algumas extravagâncias de rapaz, mas... é um caráter... quero dizer, é um sobrinho, um parente.

— Veja lá; nem o senhor se atreve a elogiá-lo; apenas o desculpa. Conhece-o bem?

Valério hesitou; o coronel, que fizera a pergunta com intenção de perscrutar de onde vinha o empenho, compreendeu logo que Valério estava influenciado pela filha.

— Conheço-o alguma coisa, disse finalmente Valério; e não acho que seja um rapaz perdido.

— Há de lá chegar. Não falemos mais nisto.

Valério compreendeu a necessidade de falar ao rapaz, a fim de não comprometer a moça, caso alcançasse a reconciliação. Jaime recebeu-o com alguma indiferença; estimou entretanto que a rapariga tivesse pedido por ele, e disse que a amava loucamente. Este loucamente foi dito com a mesma tranqüilidade com que ele diria: — Está muito calor!

— Pobre moça! disse Valério consigo.

O coronel foi o primeiro a renovar o assunto. Outro mais sagaz que Valério, ou mais experimentado, teria compreendido que o coronel estava disposto a reconciliar-se com o sobrinho, e apenas recusava para ser vencido.

Foi o que aconteceu no fim de um mês. O coronel consentiu na reconciliação; e Valério atribuiu isso ao prazer que lhe causou o novo folheto político que lhe levara pronto. Foi Valério quem conduziu Jaime à casa do coronel e assistiu à reconciliação do tio com o sobrinho que foi glacial e indiferente.

Hélvia apertou-lhe a mão com reconhecimento :

— Devo-lhe a vida! disse ela.

— Eu devo-lhe a felicidade de a ter feito feliz, respondeu Valério.

O moço dizia a verdade. Tinha certa inclinação pela moça; mas os seus sentimentos generosos venceram tudo; e o seu amor nascente desapareceu diante da glória e do prazer de tornar a moça feliz.

Hélvia não perdeu tempo. Disse ao primo que a pedisse ao pai; e este, depois de alguma recusa, mais aparente que real, concedeu-lha.

Nesse ínterim, adoeceu Valério. O casamento efetuou-se quando ele se achava de cama, e no meio da impressão produzida pelo folheto, que ninguém deixou de atribuir ao coronel.

A doença de Valério foi longa e dolorosa; durou uns dois meses; uns vizinhos cuidaram dele e um médico o curou de graça. Quando o rapaz se levantou da cama, foi ao cartório onde lhe disse o escrivão, que tendo admitido outro escrevente por necessidade de serviço, não podia nesse momento admiti-lo, mas que esperasse algum tempo. A tipografia ainda lhe deu algumas provas para ler.

Admirou-se Valério de que o coronel não o procurasse, mas pensou que talvez não soubesse da sua moléstia e o supusesse até indiferente, pois sem razão deixara a casa. Foi procurar o coronel. Achou-o aborrecido e zangado; disse-lhe que estivera doente, ao que o coronel não atendeu muito, sem dúvida por estar preocupado.

A existência do moço tinha agora um caráter sério. Como prover a todas as suas despesas, com o mesquinho ordenado que obtinha da imprensa? Por felicidade disseram-lhe que o coronel aderira ao programa ministerial, mediante o emprego do sobrinho e alguns favores mais. Valério lembrou-se de procurá-lo e dizer-lhe em que posição se achava.

Justamente no dia em que se preparava para isso, um dos vizinhos se lhe apresentou em casa dizendo que fizera alguma despesa com a moléstia de Valério e desejava ser embolsado. Coincidiu isto com a entrada do caixeiro da botica que lhe foi levar uma conta. Ambas as dívidas orçavam por duzentos mil-réis. Onde os iria buscar o rapaz? Prometeu que pagaria as dívidas da moléstia e saiu para imaginar um meio.

Nenhum lhe ocorreu.

O rapaz estava só no mundo.

Só? Lembrou-lhe de repente o coronel; e afoitamente se encaminhou para lá. Expôs-lhe a situação e a escassez de seu emprego, e ao mesmo tempo pediu duzentos mil-réis adiantados.

— Duzentos mil-réis não os tenho comigo, respondeu o coronel. O casamento de minha filha obrigou-me a muitas despesas; mas daqui a uma semana apareça cá. Quanto ao emprego, falarei ao ministro, mas creio que não é fácil. O governo quer sinceramente economias (o folheto dissera justamente o contrário), e só dificilmente se pode abrir ensejo a um serviço destes. Contudo, confie em mim. Vou ver se lhe posso fazer alguma coisa.

Valério saiu um pouco desanimado, mas, por outro lado, consolado. Tinha certeza de receber os duzentos mil-réis para ocorrer à divida imediatamente.

No fim de uma semana voltou lá.

O coronel não estava em casa.

Voltou de noite; o coronel mandara dizer que dormia fora.

Zangou-se o rapaz contra o destino; mas resignou-se e no dia seguinte foi à casa do coronel. Não o encontrou. O mesmo aconteceu nos cinco dias seguintes; Valério suspeitou que o coronel não lhe quisesse falar.

Ao cabo de seis dias, encontrou-o no Rocio.

— Que é feito? disse-lhe o coronel.

— Tenho ido à sua casa, mas não tenho tido a felicidade de encontrá-lo, respondeu Valério.

— Não me tenho esquecido do senhor, disse o coronel; falei a um dos ministros e prometeu-me que veria isso. Tenha paciência, espere; pode esperar alguns meses, mas eu confio que se pode fazer alguma coisa. Adeus!

Valério ficou a olhar para ele sem articular palavra. Dos duzentos mil-réis não disse o coronel coisa nenhuma. Valério entendeu que não devia falar neles. Quanto ao emprego, viu o moço que era tão problemático como os duzentos mil-réis. Abriu-se-lhe um sorriso triste nos lábios, ainda pálidos da doença e seguiu cabisbaixo para casa.

Desesperando de achar meio de pagar as dívidas como queria, propôs aos dois credores, que lhes daria uma diminuta mensalidade, tirada do pouco que fazia como revisor de provas. Os credores franziram a testa, mas aceitaram; era o meio de não perder o dinheiro.

Entregou-se Valério todo ao trabalho, e começou a cumprir à risca a promessa que fizera. Dois golpes acabaram, entretanto, por lhe abater completamente o ânimo. Um foi o incêndio na tipografia. Estava Valério em casa quando soube do desastre; eram dez horas da manhã. Seguiu para o lugar; achou a casa em ruínas. Os tipos ficaram todos fundidos; o dono do estabelecimento estava quase doido.

Abatido, desvairado, Valério deixou o lugar do sinistro e entrou a andar ao acaso. Na Rua do Cano viu de longe a menina Hélvia com o marido. Aproximou-se como se visse uma tábua de salvação. Aquela felicidade dos dois consortes era obra dele; na aflição em que estava, podia, sem afronta para si, receber o salário da obra. Não reparou que estava, comparativamente, um tanto maltrapilho.

Apressou o passo e ia articular uma palavra, quando os dois, olhando para ele, voltaram imperturbavelmente a esquina.

Valério, que cometera outras tolices na sua vida, coroou a obra indo atirar-se ao mar.