Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/I

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Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre
tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main,
comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!

X. DE MAISTRE.

De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. Lorde Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os Bordas-d’Água: os da calça larga levam a melhor.

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes,[1] de inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até a minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crônica.

Era uma idéia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo,[2] e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.[3] Abalam-me as instâncias de um amigo,[4] decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.[5]

Pois por isso mesmo vou: pronunciei-me.

São 17 deste mês de julho, ano da graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estréia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço.[6] Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d'ancien régime[7]: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T.[8] que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros; o sino dá o último rebate. Partimos.

Numa regata[9] de vapores o nosso barco não ganhava decerto o prêmio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos[10] para esse gênero de carreiras — e se para elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antiestrofes, atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais — não cabe nem um triste minguado epodo[11] a este cansado corredor de Vila Nova.[12] É um barco sério e sisudo que se não mete nessas andanças.

Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exatamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crônicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor com um período da Dedução Cronológica,[13] aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.[14]

Assim o povo, que tem sempre o melhor gosto e mais puro que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados a recordações grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.

Já saudamos Alhandra, a toireira;[15] Vila Franca,[16] a que foi de Xira, e depois da restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu,[17] como a todas as restaurações sempre sucede e há de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.

A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.

É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem acudiu ao princípio de ponderação que ia involuntariamente fazendo a respeito de Vila Franca.

Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por força havia de suceder. Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo, há de levar muito tempo, há de ser contrastado por muita reação antes de completar-se...

No entretanto, vamos acender os nossos charutos, e deixe-mos os precintos aristocráticos da ré; à proa, que é país de cigarro livre.

Não me lembra que Lorde Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável o esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjôo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há no mundo.

Fumemos!

Aqui está um campino fumando gravemente o seu cigarro de papel, que me vai emprestar lume.

— Dou-lho eu, senhor... — acode cortesmente outra figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do moçarabe ribatejano.

Acenderam-se os charutos, e atentamos mais devagar na companhia que estávamos.

Era um efeito notável e interessante o grupo a que nos tínhamos chegado, e destacava pitorescamente do resto dos passageiros, mistura híbrida de trajos e feições descaracterizadas e vulgares — que abunda nos arredores de uma grande cidade marítima e comercial. Não assim este grupo mais separado com que fomos topar. Constava ele de uns doze homens, cinco eram desses famosos atletas da Alhandra, que vão todos os domingos colher o pulverem olympicum[18] na praça de Santana, e que, à voz soberana e irresistível de: à unha, à unha, à cernelha!... correm a arcar com mais generosos, não mais possantes, animais que eles, ao som das imensas palmas, e a troco dos raros pintos[19] por que se manifesta o sempre clamoroso e sempre vazio entusiasmo das multidões.[20] Voltavam à sua terra os meus cinco lutadores ainda em trajo de praça, ainda esmurrados e cheios de glória da contenda da véspera. Mas ao pé destes cinco e de altercação com eles — já direi por quê — estavam seis ou sete homens que em tudo pareciam seus antípodas.

Em vez do calção amarelo e da jaqueta de ramagens que caracterizavam o homem do forcado,[21] estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos,[22]e o tabardo arrequifado siciliano de pano de varas.[23]O campino,[24] assim como o saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da família pelasga: feições regulares e móveis, a forma ágil.

Ora os homens do Norte estavam disputando com os homens do Sul: a questão fora interrompida com a nossa chegada à proa do barco. Mas um dos ílhavos[25] — bela e poética figura de homem — voltando-se para nós, disse naquele seu tom acentuado.

— Ora aqui está quem há de decidir: vejam os senhores. Eles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais que ninguém, que não há quem lhes chegue. E os senhores, a serem cá de Lisboa, hão de dizer que sim. Mas nós...
— Nenhum de nós é de Lisboa: só este senhor que aqui vem agora.

Era o C. da T. que chegava.

— Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi numa ferra, isso é verdade; mas aqui de Valada[26] a Almerim[27] ninguém corre mais do que ele por sol e chuva, e há de saber o que é um boi de lei, e o que é lidar com gado.
— Pois oiçamos lá a questão.
— Não é questão — tornou o ílhavo — mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus! mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areias da charneca.
— Lá isso é verdade.
— Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoura que a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem eles, que nem sabem ter mão nesses mouchões com o plantio das árvores: só lá por cima é que algumas têm metido, e é bem pouco para o rio que é, e as ricas terras que lhes levam as enchentes. Mas nos , pé no barco, pé na terra, tão depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por aí abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar na areia por não haver água... mas sempre labutando pela vida...
— A força é que se fala — tornou o campino para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha. — A força é que se fala: um homem do campo que se deita ali à cernelha de um toiro que uma companhia inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores, pelo rabo!...

E reforçou o argumento com uma gargalhada triunfante. que achou eco nos interessados circunstantes que já se tinham apinhado a ouvir os debates.

Os ílhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciência de sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando vê sumir-se no burburinho acintoso das turbas ministeriais, as melhores frases e as mais fortes razões dos seus oradores.

Mas o orador ílhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:

— Então agora como é e força, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar.
— Essa agora!...
— Queríamos saber.
— É o mar.
— Pois nós que brigamos com o mar, oito a dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é o que tem mais força?

Os campinos ficaram cabisbaixos; o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo.

Notas[editar]

  1. É visível alusão ao popular e inimitável opúsculo de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma chambre, que decerto foi principiado a escrever em Turim, e que muitos supõem que fosse concluído em São Petersburgo. [N.A]
  2. Antiga região de Portugal de dimensões irregulares às margens do Tejo entre Lisboa e Abrantes que não corresponde exatamente a extinta província do Ribatejo, criada em 1936.
  3. Santarém só recebeu o estatuto de cidade em 1868.
  4. Segundo a edição de Augusto da Costa Dias, este amigo foi Manuel da Silva Passos (1801-1862).
  5. É puramente histórico isto; e também é verdade que em grande parte daqui se originou a perseguição brutal que sofreu o A. dali a poucos meses. [N. A]
  6. Atual Praça do Comércio em Lisboa.
  7. Ou seja, do Antigo Regime. A expressão era usada para indicar coisas velhas.
  8. Segundo a edição de Augusto da Costa Dias, C. da T. é Gastão da Câmara Coutinho, Conde de Taipa.
  9. Regata chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza, às carreiras de barcos apostados ao desafio A palavra e a coisa introduziu-se em Inglaterra, onde é moda e popularíssima. [N. A]
  10. Os jogos Ístimicos e Olímpicos respectivamente.
  11. Epodo é um tipo de poema formado de estrofes e antiestrofes. Por esse nome denomina-se também a terceira estrofe da ode pindárica.
  12. Vila Nova da Rainha na freguesia de Azambuja e à qual o autor se referirá novamente no capítulo seguinte.
  13. A Dedução Cronológica e Analítica, livro contrário aos jesuítas atribuído ao Marquês de Pombal.
  14. Poema épico de José Agostinho de Macedo (1761-1831).
  15. Alhandra, freguesia de Vila Franca de Xira.
  16. Vila Franca de Xira, cidade no distrito de Lisboa.
  17. O autor refere-se aqui ao movimento contrário a Revolução liberal do Porto que teve início em Vila Franca de Xira em 27 de maio de 1823, sendo chamado de Vilafrancada. Durante a tentativa de contra-revolução a cidade recebeu o nome de Vila Franca da Restauração e após o malogro do processo teve seu antigo nome de volta.
  18. O pó olímpico, as glórias.
  19. Nome popular do cruzado novo, antiga moeda de Portugal.
  20. Nesta passagem, o autor refere-se às touradas.
  21. O forcado é o grupo de homens que, em uma tourada, pega o touro.
  22. Varinos são aqueles de Ovar, cidade do distrito de Aveiro.
  23. Casaco de mangas compridas e capuz a que o autor atribui origem na Sicília.
  24. Campinos ou bordas-d'água são os habitantes das margens do Tejo em Alhandra, sul de Portugal.
  25. Ílhavos são os naturais de Ílhavo, cidade do distrito de Aveiro, norte de Portugal.
  26. Valada, freguesia do conselho do Cartaxo.
  27. Almeirim, cidade do distrito de Santarém