Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/XII

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Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


De como Joaninha desembaraçou a meada da avó e do mais que aconteceu. — Que casta de rapariga era Joaninha. — Dá o A. insigne prova de ingenuidade e boa fé confessando uma grave senão do seu ideal. Insiste porém que é um adorável defeito. — Em que se parece uma mulher desanelada com um Sansão tosquiado. — Pasmosas mostruosidades da natureza que desmentem o credo velhos dos peralvilhos. — Os olhos verdes de Joaninha. — Religião dos olhos pretos estrenuamente professada pelo A. Perigo em que ele se acha à vista de uns olhos verdes. — De como estando a avó e a neta, a conversar muito de mano a mano, chega Frei Dinis e interrompe a conversação. — Quem era Frei Dinis .

— Aqui estou, minha avó: é a sua meada?... Eu lha endireito. — disse Joaninha saindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. Apertou-a neles com inefável ternura, beijou-a muitas vezes, e tomando-lhe o novelo das mãos num instante desembaraçou o fio e lho tronou a entregar.

A velha sorria com aquele sorriso satisfeito que exprime os tranqüilos gozos de alma, e que parecia dizer:

— Como eu sou feliz ainda, apesar de velha e de cega! Bendito sejais meu Deus.

Esta última frase, esta benção de um coração agradecido que espira suavemente para o céu como sobe do altar o fumo do incenso consagrado, esta última frase transbordou-lhe e saiu articulada dos lábios.

— Bendito seja Deus, minha filha, minha Joaninha, minha querida neta. E Ele te abençoe também, filha!

— Sabe que mais, minha avó? basta de trabalhar hoje; são horas de merendar.

— Pois merendemos.

Joaninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cobriu-a com uma toalha alvíssima, pôs em cima fruta, pão queijo, vinho, chegou-se para o pé da velha, tirou-lhe o novelo da mão e arredou a dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou calada e quieta, mas já sem a mesma expressão de felicidade e contentamento sossegado que ainda agora lhe luzia no rosto.

As animadas feições de Joaninha refletiam simpaticamente a mesma alteração.

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo de gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas no mundo.

Mas nesta foi a natureza que fez tudo, ou quase tudo, e a educação nada ou quase nada.

Poucas mulheres são muito mais baixas, e ela parecia alta: tão delicada, tão élancés era a forma airosa de seu corpo.

E não era o garbo seco e aprumado da perpendicular miss inglesa que parece fundida de uma só peça; não, mas flexível e ondulante como a hástea jovem da árvore que é direta mas dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estala qualquer vento forte.

Era branca, mas não desse branco importuno das loiras, nem do branco terso, duro, marmóreo das ruivas — sim daquela modesta alvura de cera que se ilumina de um pálido reflexo de rosa de Bengala.

E doutras rosas, destas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de um sangue que passa livre pelo coração e corre à sua vontade por artérias em que os nervos não dominam, dessas não as havia naquele rosto; rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o vento... Ali dormiam as paixões.

Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para encrespar a superfície espelhada do mar.

Sussurre o mais ingênuo e suave movimento de alma no primeiro acordar das paixões, e verão como se sobressaltam os músculos agora tão quietos daquela face tranqüila.

O nariz ligeiramente aquilino; a boca pequena e delgada, não cortejava nem desdenhava o sorriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.

Há umas certas boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite fazer às suas criaturas fêmeas.

Em perfeita harmonia de cor, de forma e de tom com a fina gentileza destas feições, os cabelos de um castanho tão escuro que tocava em preto, caíam de um lado e outro da face, em três longos, desiguais e mal enrolados canudos, cuja ondada espiral se ia relaxando e diminuindo para a extremidade, até lhe tocarem no colo quase lisos.

Em estilo de arte — no estilo da primeira e da mais bela das belas artes, a toilette — este é um defeito, bem sei.

Que votos, que novenas se não fazem a S. Barômetro nas vésperas de um baile para lhe pedir uma atmosfera seca e benigna que deixe conservar, até à quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carapito e ferro quente, de macáçar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adorável defeito! Que deliciosas imagens que excita de abandono — passe o galicismo — de confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o capricho, de perfeita e completa abdicação de toda a vontade própria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabelo a mesma fé que tinha Sansão: o que nele ia em lhos cortando, cuidam elas que se lhes vai lhos desanelando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: canudo inflexível, mulher inflexível.

Os peralvilhos negam a existência do tal carnudo in rerum natura, dizem que é como a ave fênix que nasceu de nossos avós não saberem grego.[1] Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas monstruosidades.

Enfim, suspendamos, sem o terminar, o exame desta profunda e interessante questão. Fica adiada para um capítulo ad hoc, e voltemos à minha Joaninha.

Caíam dum lado e de outro da sua face gentil aqueles graciosos anéis; e o resto do cabelo, que era muito, ia entrançar-se e enrolar-se com a singela elegância abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita e do mais perfeito modelo.

As sobrancelhas, quase pretas também, desenhavam-se numa longa curva de extrema pureza; as pestanas longas e asseadas faziam sombra na altura da face.

Os olhos porém — singular capricho da natureza, que no meo de toda esta harmonia quis lançar uma nota de admirável discordância. Como poderoso e ousado maestro que, no meio das frases mais clássicas e deduzidas da sua composição, atira de repente com um som no meio do ritmo musical... os diletantes arrepiam-se, os professores benzem-se; mas aqueles cujos ouvidos lhes levam ao coração a música e não à cabeça, esses estremecem de admiração e entusiasmo... Os olhos e Joaninha eram verdes... não daquele verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não, eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.

São os mais e mais fascinantes olhos que há.

Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que nela nasci e nela espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a herética pravidade do olho azul, sofri o que é muito bem feito que sofra todo o renegado... eu firme e inabalável, hoje mais que nunca, nos meus princípios, sinceramente persuadido que fora deles não há salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma única vez que vi dois dos tais olhos verdes, fiquei alucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catolicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar minha fé vacilante, na contemplação das eternas verdades, que só e unicamente se encontram aonde está toda a fé e toda a crença... nuns olhos sinceros e lealmente pretos.

Joaninha porém tinha os olhos verdes; e o efeito desta rara feição naquela fisionomia à primeira vista tão discordante — era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, alucinava, depois fazia uma sensação inexplicável e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo; por fim, pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e toda a inteligência e toda a vontade eram absorvidas.

Resta só acrescentar — e fica o retrato completo, — um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas trançadas em coturno. O pé breve e estreito, o que se adivinhava de perna admirável.

Tal era a ideal e espiritualíssima figura que em pé, encostada à banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, naquele rosto macerado e apagado, a indizível expressão de tristeza que ele pouco a pouco ia tomando e que toda se refletia, como disse, no semblante da contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esforço para se distrair de pensamentos que a afligiam, buscou incertamente com as mãos o novelo da sua meada:

— O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.

— Conversemos , avó.

— Pois conversemos, mas dá-me o meu novelo. Não sei o que é, mas quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o pior lavor.

Joaninha deu-lhe o novelo e pôs-lhe a dobadoira a jeito.

A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a à boca e pareceu beijá-la, depois disse:

— Bem vi, Joaninha!

— O quê, minha avó? Que viu?

— Vi, filha, vi... sem ser com os olhos que Deus me cerrou para sempre — louvado seja Ele por tudo! — vi, sentindo esta lágrima tua que me caiu na mão, e que já cá está no peito porque a bebi, Joana. Ó filha, já! É muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou costumada: mas tu, tu com dezesseis anos e nenhum desgosto!

— Nenhum, avó! E estamos sozinhas nós duas neste mundo, minha avó nesse estado, eu nesta idade, e...

— E Deus no céu para tomar conta em nós... Mas que é? Olha Joana: eu sinto passos na estrada, vê o que é.

— Não vejo ninguém.

— Mas oiço eu... Espera... é Frei Dinis, conheço-lhe os passos.

Mal a velha acabou de pronunciar este nome, surdiu, de trás de umas oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarém, a figura seca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que, abordoado em seu pau tosco, arrastando as suas sandálias amarelas e tremendo-lhe na cabeça o seu chapéu alvadio, vinha em direção para elas.

Era Frei Dinis com efeito, o austero guardião de S. Francisco de Santarém.

Notas[editar]

  1. A fábula daquela ave imortal teve origem nas idades obscuras da Europa quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da fênix, palmeira em grego, tomaram nossos bárbaros avós por dito de uma passarola com que os outros nunca sonharam.