Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/XVIII

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Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


Descobre-se que há grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha. — Piedosa fraude de Joaninha. — Luta ente o hábito e o monge.

O frade entregou a carta a Joaninha, que, lançando os olhos ao sobrescrito, ficou inquieta e indecisa como quem receia e deseja e teme de saber alguma coisa. Ele com voz trêmula e sobressaltada acrescentou:

— Adeus, que são horas!... Leiam, e sexta feira que vem... me dirão...

Pois quê — disse timidamente a velha — não quer ouvir o que ele nos escreve?

— Sexta feira que vem — continuou Frei Dinis, sem ouvir ou sem entender a pergunta; — sexta feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lha farei chegar pela mesma via... Só uma coisa! Nem palavra a meu respeito: eu para Carlos... morri.
— Dinis! — exclamou a velha fora de si —Dinis!...

O frade tornou de repente ao seu tom austero, e respondendo gravemente: — O quê, minha irmã?

— Era — disse ela tímida e submissa outra vez — era se, era que... Pois não há de ouvir ler a carta dele?

Frei Dinis não respondeu, mas ficou sentado: descaiu-lhe a cabeça sobre o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais sinal de si.

A velha escutou em silêncio alguns segundos, e com aquele ouvido agudíssimo — penetrante vista dos cegos — percebeu sem dúvida o que se passava, e com mais conforto e serenidade na voz disse:

— Abra, Joana, lê, minha filha.

Joaninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que ela encerrava.

— Não lês? — acudiu a avó com impaciência : — Lê, lê alto, Joaninha.
— É para mim só a carta — disse ela friamente,
— Para ti só, como? — tornou a outra.
— É para mim só esta carta... não diz nada que...
— Não diz nada! — replicou a avó. — Pois!... Lê, lê alto: seja como for, lê, e oiçamos.

Joaninha parecia hesitar ainda lançou os olhos ao frade, achou-o na mesma atitude impassível; voltou-se para a avó, viu-a ansiada e ansiosa... leu.

A carta era com efeito para ela só, e carta bem singela não continha senão as ingênuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quase nenhuma de se tornarem a ver tão cedo. Tudo isto porém era com a prima; para a desconsolada avó, para ninguém mais... nem uma palavra.

Joaninha ia lendo, lendo... e a voz a descair-lhe: no fim ajuntou uns abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que frase incompleta e mal articulada em que se pedia a benção da avó.

A velha abanou a cabeça tristemente e disse:

— Ora pois... bendito, seja Deus!

Joaninha corou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a Frei Dinis, e com a mão trêmula e os olhos arrasados de água lhe fez um mudo e expressivo sinal de aprovação e agradecimento. Joaninha corou outra vez, e logo se fez pálida como a morte; era a primeira vez que mentia ... e Frei Dinis, o austero Frei Dinis, aprová-la!

O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarém.

Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços sufocados... Seriam dele?

A avó e a neta abraçaram-se chorando.

Nenhuma delas disse palavra sobre a carta: a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joaninha.

Oh! que existências que eram aquelas quatro! Esse frade, essa velha, essas duas crianças! E a maior parte da gente que é gente, vive assim... E querem, querem-na assim mesmo, a vida, têm-lhe apego! Oh, que enigma é o homem!

Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no prazo costumado, e levou a resposta da carta — resposta que Joaninha só escreveu e só viu — e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicara.

Soube0-se que fora entregue; mas semanas e semanas decorreram , os meses passaram de ano... e outra carta não veio.

No entretanto a guerra civil progredia; e depois das suas tremendas peripécias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. Eram meados do ano de 33, a operação de Algarve sucedera milagrosamente aos constitucionais, a esquadra de D. Miguel fora tomada, Lisboa estava em poder deles. Os tardios e inúteis esforços dos realistas para retomar a capital tinham ocupado o resto do verão. Já outubro se descoroava de seus últimos frutos, e as folhas começavam a empalidecer e a cair, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Frei Dinis aparecia no vale mais curvado e mais trêmulo que nunca. Vinha do exército realista que então cercava Lisboa.

Joaninha não era ali, a velha estava só.

— Que nos traz, padre? — clamou ela mal o sentiu: — Soube dele? Tem escapado a estas desgraças, a esses combates mortais?
— Não sei nada, minha irmã; há três dias que de Lisboa se não pode obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como nunca: tudo indica havermos de ter cedo algum combate decisivo.
— Deus seja com...
— Com quem, minha irmã?
— Com quem tiver justiça.
— Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cobiça, de um lado e de outro a imoralidade, a perdição e o desprezo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum há de triunfar.
— Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!
— Isso, irmã Francisca, isso! Peça a Deus que dê a vitória a seu neto e à impiedade por que ele combate. peça a Deus que vençam os inimigos declarados do seu nome, os destruidores dos seus altares, os profanadores de seus templos... Oh! que dia belo e grande não há de ser esse, quando Carlos... o seu Carlos vier expulsar às baionetas do pobre convento de S. Francisco, o velho guardião — que lhe não há de fugir, minha irmã!... dele menos que nenhum outro... que ajoelhado diante do altar inclinará a cabeça como os antigos mártires para cair na presença do seu Deus às mãos do seu...
— Dinis!... Padre!... Padre Frei Dinis, que horrorosas palavras saem da sua boca!... Meu neto, o meu Carlos não é capaz... ó meu Deus!...
— Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.
— Não sabe a verdade ele... Carlos esta enganado, cuida... não sabe senão meia verdade: e eu, eu hei de — custe o que me custar — eu hei de...
— Há de o quê?
— Hei de desenganá-lo, hei de lhe dizer a verdade toda. Hei de prostrar-me na sua presença, hei de humilhar-me diante do filho da minha filha, hei de arrastar na poeira de seus pés estas cãs e estas rugas... morrerei de vergonha e de remorsos diante de meu filho, mas ele há de saber a verdade.

Saiam com tal ímpeto e com tão desacostumada energia estas misteriosas e tremendas palavras da boca da velha, que Frei Dinis não ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o ímpeto da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pausada, disse naquele tom friamente decisivo que tanto se impõe aos ânimos apaixonados.

— Se tal fizesse, mulher, a minha maldição, a maldição eterna de Deus cairia sobre sua cabeça para sempre!... Ó mulher, pois não basta que ele me aborreça — não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor... quer... quer também que nos despreze?

A velha gemeu profundamente e, por um jeito de antiga reminiscência, levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com desconsoladas lágrimas na voz:

— A vontade de Deus seja feita!