Victor, meu Padre Latino

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Celebra o poeta (estando homiziado no Carmo), a burla, que fizeram os religiosos com uma patente falsa de prior a Frei Miguel Novellos, apelidado o latino por divertimento em hum dia de muyta chuva.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

1Victor, meu Padre Latino,
que só vós sabeis latim,
que agora se soube enfim,
para um breve tão divino:
era num dia mofino
de chuva, que as canas rega,
eis a patente aqui chega,
e eu por milagre o suspeito
na Igreja Latina feito,
para se pregar na grega.
  
2Os sinos se repicaram
de seu moto natural,
porque o Padre Provincial,
e outros Padres lhe ordenaram:
os mais Frades se abalaram
a lhe dar obediência,
e eu em tanta complacência,
por não faltar ao primor,
dizia a um Victor Prior,
Victor, vossa Reverência.
  
3Estava aqui retraído
o Doutor Gregório, e vendo
um breve tão reverendo
ficou co queixo caído:
mas tornando em seu sentido
de galhofa perenal,
que não vi patente igual,
disse: e é cousa patente,
que se a patente não mente,
é obra de pedra, e cal.
  
4Victor, Victor se dizia,
e em prazer tão repentino,
sendo os vivas ao latino
soavam a ingresia:
era tanta a fradaria,
que nesta casa Carmela
não cabia refestela,
mas recolheram-se enfim
cada qual ao seu celim,
e eu fiquei na minha cela.