Vida de Antônio Rodrigues Ferreira/VIII

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Vida de Antônio Rodrigues Ferreira por Paulino Nogueira
Seção VIII


XIII

Assim como era devotado ao bem material do municipio, não o era menos á religião e ás obras de caridade.

Em 22 de Setembro de 1848 lançou a pedra fundamental de uma capella com a invocação de Nossa Senhora das Dóres, de quem era fervoroso devoto, no sitio em que a 22 de Setembro de 1878, 40 annos depois, foi lançada a pedra fundamental do magnifico templo do Coração de Jesus.

Ainda hoje custa-nos a crêr que em uma cidade tão sinceramente catholica como esta, onde o nome de Ferreira é tão querido, essa capella, que aliás chegou ao ponto de receber a coberta, não attingisse á conclusão.

quando outras em condições menos favoraveis, já ahi estão prestando-se com maxima decencia ao seo fim religioso![1].

Quando o ex-presidente Pires da Motta quiz dar andamento á obra do actual Hospital de Misericordia, começada na presidencia de Vasconcellos em 1847, reunio em palacio as pessoas mais gradas da Capital, procedeo á uma subscripção[2], e só de Ferreira confiou a administração, graças á qual esse pio estabelecimento chegou quasi a funccionar ainda em vida do benemerito varão.

Não menos se faziam sensiveis os seos sentimentos religiosos na fervorosa devoção á S. José, padroeiro da freguezia, cujas novenas festejava com pompa e enthusiasmo desconhecidos nesta terra, por isso ainda hoje recordados.

Mas onde resplandecia mais sua alma candida era na sacrosanta pratica da caridade, que soube sempre exercer com tanta reserva que se tornava invariavelmente conhecida pela bocca do beneficiado; porque elle comprehendia melhor do que ninguem que em materia de caridade onde acaba o mysterio começa a ostentação[3].

A sua mão nunca se fechou ao pobre e o seo coração viveu sempre aberto para todos os infelizes.

Só depois de sua morte é que se soube ao certo quanto a modestia encobria nelle tanta virtude!

A quantas familias não soccorria? A quantos orphãos não amparava? A quantos, sem distincção de côr politica, não protegeo?

E’ cedo para declinar nomes, mas não o é para lembrar os seos feitos.

Entre muitos tinha por devoção, todos os mezes, comprar certo numero de bilhetes da loteria da Côrte, unica que havia então, para repartir por 12 donzellas pobres as sortes que sahissem[4].

Por tudo isso morreu pobre, podendo ter accumulado honradamente boa fortuna![5] E’ —


Que o bom religioso verdadeiro
Gloria vãa não pretende, nem dinheiro.[6]


  1. Debalde o senador Jaguaribe na Constituição n. 57 de 14 de Abril de 1871 bradou contra a indifferenca:

    « O Tenente-Coronel Ferreira tendo assignado sua existencia por muitos actos de beneficencia, quiz pouco antes de desligar-se da terra, assignalal-a por um importante serviço á religião. começando a erigir a capella de Nossa Senhora das Dores em frente da praça hoje denominada dos Voluntarios da Patria.

    « Este acto de piedade christã, praticado por um cidadão prestimoso, que na vespera de sua morte encontrou na população desta capital espontaneo acolhimento, devia ser motivo para consiliarem-se dous sentimentos, cada qual mais louvavel: o de religiosidade que tanto o distingue, e o de honrar a memoria do Tenente-Coronel Ferreira levando ao cabo a obra por elle começada.

    Assim, porem, não aconteceo; as paredes da capella, aliás adiantadas, não receberam mais um só tijollo de accrescimo, depois da morte do seo fundador!

    Isto, porem, não é o peior: ha ahi alguma cousa mais sensuravel, ha crime e sacrilegio.
    Quando morreo o Tenente-Coronel Ferreira, havia ao pé da capella grande quantidade de materiaes, a saber: tijollo, cal e consideravel porção de optimas linhas ou traves de madeira de lei da melhor qualidade, ao passo que hoje nada disso existe!

    Chamamos a attenção do Snr. Dr. Juiz de Capellas para este facto, que é deploravel e merece severa syndicancia. »

  2. Essa reunião teve logar a 25 de Março de 1854, e a subscripção orçou por cerca de 4 contos de réis, que foram logo entregues a Ferreira. Vide Pedro II ns. 1333 e 1335 de 27 de Março e 5 de Abril de 1854.
  3. Alberie Segond, "Dia de S. Nunca," Traducção de Salvador de Mendonça, Pag. 120
  4. Vide Pedro II n. 1909 de 30 de Abril de 1859.
  5. Todos os seos possuidor, segundo seo inventario, andaram por 17:507$260!
  6. Camões, "Lusíadas," C. 10, E. 150