Vila Rica (Cláudio Manuel da Costa)/VIII

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Vila Rica por Cláudio Manuel da Costa
Canto VIII


Entretanto que o Gênio se cansava
Nesta empresa, o Interesse fomentava
Novas discórdias; e do altar impuro,
Aos sussurros de um fúnebre conjuro,
Subir fazia desde o horrível centro
Vorazes Fúrias, e do Abismo dentro
A guerra ateia, que aos mortais destroça;
Tiram bravos leões uma carroça,
Em cujo assento aparecer se via
Com vulto horrendo a infame Rebeldia;
Víboras os cabelos são, que estende
Sobre a enrugada testa; um Etna acende
Em cada olho, e da boca em cada alento
O veneno vomita o mais violento.

Tem por despojos a seus pés caídas
Púrpuras rotas, destroçadas vidas
De Reis, de Imperadores; vem cercada
Da Traição e do Engano, e disfarçada
Entre estes monstros com fingido rosto
A Hipocrisia tem seu trono posto.

Este ídolo cruel, que se autoriza
Mais entre os outros, porque estraga e pisa
Com mudo pé dos Grandes as moradas,
Tendo a seu lado as Fúrias convocadas,
E entrando em parte já co'a Rebeldia,
Ao Nume do Interesse assim dizia:

Sei que vacila o teu arrojo, e vejo
Que muito além do natural desejo
Vão correndo as cansadas diligências,
Com que até aqui no esforço das violências
Quisemos impedir a triste entrada
Deste Herói, que nos traz ameaçada
Toda a ruína de uma longa idéia.
Se talvez sombra vã não lisonjeia
Meus altos pensamentos, eu discorro
Que a mim me toca só dar o socorro
Ao decadente impulso desta empresa.
Não sei de que triunfo na certeza
Eu me prometo um dia a segurança
De uma eterna, pacífica bonança.
Se passou Albuquerque, e tem rompido
Ao centro destas Minas, destruído
Eu verei de uma vez o seu projeto.
Tomo a meu cargo simular o aspecto
De uma rendida sujeição, levando
Na lisonja encoberto o insulto, e quando
Ele acredite mais nossa obediência,

Farei que, rota a máscara, a violência
Dentro dos nossos braços o acometa;
Que morra a frio sangue, ou que se meta
Às brenhas fugitivo, e busque a estrada
Que lembra de Fernando a retirada.

Assim falava a torpe Hipocrisia,
O Engano co'a Traição já se lhe unia;
Aprovava o Interesse a idéia insana,
A Rebeldia se gloriava ufana;
E por todos o alento suscitado,
Se alegram, crendo já executado
Tudo quanto entre as Fúrias se medita.
Vão buscando os Chefes; corre, e grita
A infame esquadra de uma e outra Fúria:
Pouco se afligem da passada injúria.
Cortam desde o seu templo os crespos ventos;
E ao hábito nocivo, aos pestilentos
Influxos, que derramam, se enche tudo
De serpentes, de feras, que de agudo
Veneno têm a fauce infeccionada.
Talvez não viste tu, Líbia abrasada,
De monstros mais coberta a tua areia,
Quando o Filho de Acrísio ali semeia
O sangue da cabeça que cortara
O ferro, de que a Deusa a mão lhe armara.
Mas já, Garcia amante, me convidas
A descrever as horas entretidas
Nos braços a que Eulina te trouxera.
Dentro da mansa e dilatosa esfera
Do peregrino Rio entrado havia
O Mancebo feliz, e já se via

Pisando de uma sala o pavimento;
Por tudo refletia o luzimento
Da riqueza, que os tetos esmaltava;
Sobre colunas de cristal estava
Sustentado o edifício; delas pendem
Lâminas de ouro, onde seu rosto acendem
Em vivo resplandor Varões egrégios.
Da Fortuna e do Tempo os privilégios
Inculcam dominar; nas mãos sustentam
As insígnias do mando, e representam
A Régia Autoridade: em cada testa
Lhes verdeja o laurel que manifesta
A duração da imarcescível Fama.
Eulina, que Garcia ao lado chama,
Em um assento de ouro marchetado
Lhe tem junto a uma mesa preparado
O brinde da mais rara formosura.
Cem taças de ouro são, onde procura
Mostrar-lhe aos olhos quanto desentranha
De mais precioso o Rio, ou a Montanha.
Cerrava um branco véu logo diante
Uma estância; rasgou-se, e em breve instante
Deixou ver recortado junto a um monte
O venerando rosto de Itamonte.
Era de grossos membros a estatura,
Calva a cabeça, a cor um pouco escura,
De muitos braços, qual a idade vira
Tifeu, que a dura Terra produzira.

Quase a seus pés, o corpo debruçando
Sobre um punhal, estava trespassando
O peito um gentil Moço; da ferida
Uma fonte brotava, que estendida
Com as vermelhas águas rega a areia.

Eulina, que nas graças não receia
Competir co'a Deidade que o Mar cria,
De transparente garça se vestia,
Toda de flores de ouro matizada:
A cabeça de pedras tem toucada,
Deixando retratarem-se as estrelas
Em seus olhos; tão ricas, como belas,
Muitas Ninfas em roda a estão cercando,
Nas lindas mãos nevadas sustentando
Os tesouros que oculta e guarda a Terra
(Tristes causas do mal, causas da guerra!).

Niséia em uma taça oferecia
Um monte de custosa pedraria,
Em que estão misturados os diamantes,
Co'as safiras azuis, e co'os brilhantes
Topázios, co'os rubis, co'as esmeraldas
Que servem de esmaltar essas grinaldas,
De que as Ninfas do Rio ornam a frente.

Em outra taça do metal luzente,
Copioso monte apresentava Loto,
Por extremo formosa; desde o roto
Seio do Rio o louro pó juntara;
Dele costuma usar Eulina clara
Para dar novo lustre a seus cabelos.
Parece que a fadiga dos martelos
Batem o mesmo pó coalhado ao fogo,
Pois deixada esta taça e olhando logo
Para outra que Licenda na mão tinha,
Nelas de barras mil um monte vinha,
Em que o divino pó se convertera.

Não tardava a chegar branda, e sincera,
A mimosa Leutipo: esta ofertava
Uma e outra medalha, que cunhava
Nas pequenas esferas do ouro fino.

De vários caracteres peregrino
[De ouro, de diamantes circulado]
Jeroglífico ali se vê gravado,
Onde a letra em três riscos dividida
Tinha estampa entre as outras mais luzida.

Do formoso espetáculo no meio,
De júbilos Garcia se vê cheio;
As Ninfas o entretêm, Eulina o prende,
De Itamonte a grandeza mal entende,
E do Moço qual vê rasgando o peito
Não sabe a história; que se o doce efeito
Provado houvesse do gostoso fruto
Que encontrara na Hespéria o Grego astuto,
De si, dos companheiros se esquecia,
E transportado em outro já se via.

Com a voz descansada lhe falava
O bom velho Itamonte: e pois que a brava
E inculta região das pátrias Minas
Tens pisado, ó Garcia, de ti dignas
Sejam tuas ações; tu te atreveste
Primeiro que outro algum; e tu pudeste
Romper os matos, franquear o passo
Do não tentado Rio; o Fado escasso
Contigo não será, tendo encoberto
Por mais tempo o País que traz incerto
O teu grande Albuquerque; ele procura
Erguer a Capital, aonde a escura
Sombra de um sonho lhe propôs defronte
O carregado aspecto de Itamonte.
Neste sítio ele está; ali se ajunta
Com os fortes Pereiras, e pergunta
Por ti: o pátrio Gênio o tem guiado;
Deu-lhe a mão, lá opôs, ali prostrado
Ele vê a seus pés esse que há pouco,

Levado de um furor insano e louco,
Embargar pertendera a sua entrada.

Por muitos anos sei como ignorada
Foi aos humanos esta Serra: agora
A têm tentado alguns e nela mora
Um corpo de Europeus, a quem oculto
Tenho ainda os tesouros que sepulto.
Permite o Céu que sejas o primeiro,
A quem eu patenteie por inteiro
Todo o segredo das riquezas minhas.
Já desde quando no projeto vinhas
De encontrar as preciosas esmeraldas,
Eu te esperava deste monte às faldas.
O Deus destes tesouros impedia
Até aqui descobri-los, e fingia
Meu rosto aos homens tão escuro e feio,
Porque infundisse em todos o receio.

E pois que a sorte tens de que em meus braços
Ele mesmo te ponha; os ameaços
Cederão de Itamonte ao teu destino;
Vê pois, Garcia amado, o peregrino
Cabedal que possuo, e que pertendo
Ceda ao teu Rei. Se aos olhos estás crendo,
Não é fábula, não, essa grandeza
Que tens defronte da preciosa mesa.
Toda essa terra, que o descuido pisa
Dentro em meus braços, crê que se matiza
Com o louro metal, geral o fruto,
O nome de Gerais por atributo
Estas Minas terão; vês os diamantes:
Eles vêm de outras serras mais distantes,
Mas tudo corre a encher os meus tesouros;

Hão de brilhar os séculos vindouros
Com esta fina pedra; em abundância
Vencerão os que vêm de outra distância;
[E do Indo será menor a gloria,]
Quando vir apagar sua memória,
Nas terras onde o Sol iguala o dia,
Do meu Jaquitinhonha, a onda fria.
Sobre grossos canais ao alto erguidas
As correntes do Rio, e divertidas
Da margem natural, darão entrada
À industriosa mão, que já rasgada
Uma penha, e mais outra, faz que a terra
Descubra aos homens o valor que encerra.
De ti, ó Rei, das tuas Mãos só fio
Romper o seio do empolado Rio.

As pedras amarelas, e encarnadas,
De que estão essas taças coroadas
Produz o Itatiaia; aquele Rio,
Que vai buscar com plácido desvio
Outro, que do guará, purpúrea ave,
Na língua pátria o nome tem suave;
[Ele por vários córregos girando]
E juntando as correntes, vai formando
O grande Rio Doce; de Gualacho
Nos futuros auspícios talvez acho
Que um pequeno ribeiro o nome guarda.
Nas margens suas de nascer não tarda
O grato engenho, que decante um dia
As memórias da Pátria, e de Garcia;
Que levante Albuquerque sobre a Fama,
Que a Vila adorne de triunfante rama,
E dos pátrios Avós louvando a empresa,
Sobre o estrago dos anos deixe acesa
A memória defeitos tão gloriosos;
Crescei para o cercar, louros famosos.


As safiras azuis produz a Serra
Do Itambé; tem rubis aquela terra,
Aonde em breves fontes a Juruoca
Vê o Rio nascer, que as águas toca
Do grosso Paraguai; o Rio Verde
Daqui nasce também, que o nome perde,

Entrando pelo Grande; estes unidos
Vão formar com mais outros os crescidos
E agigantados passos, que desata
Pela raia da Espanha o Rio da Prata.

Das esmeraldas ao precioso Erário,
Talvez que não permita o Céu contrário
Que outro mais que teu Pai registre as Minas.
Encobertas serão as pedras finas
Por uma longa idade, e fatigadas
Serão debalde as serras levantadas
Do escuro Caeté, onde se abriga
O Botecudo infiel, gente inimiga,
Gente fera e cruel, que o sangue bebe
Humano, e encarniçado não concebe
Zelo algum pela própria Natureza.

Todos estes tesouros e a grandeza
De todas estas pedras determino,
Que por mão de um benévolo destino
Vão buscar inda a Lusa Monarquia.
Desde o seio da terra a ver o dia
O mármore virá, que aos Céus levante
Edifícios soberbos; a elegante
Mão do artífice, a Vila edificada,
Fará que sobre as outras respeitada
De Rica tenha o nome, derivado
Dos tesouros o epíteto prezado.


Aqui chegava, e quase enfraquecido
Tinha o vigor da voz, quando advertido
De Eulina o arrebatado pensamento
Com que o grande Garcia olhava atento
Para as imagens que pendentes via;
Com que igualmente os olhos dirigia
Para o Mancebo que rasgara o peito;
Tomando a lira, e com suave efeito
Soar fazendo as cordas de ouro fino,
Em cadências de um número divino
De Itamonte lembrava a grande história;
Contava que empreendendo por mais glória
Os Deuses conquistar deste Hemisfério,
Deixando a Adamastor no vasto Império
Das ondas lá do Atlântico Oceano,
O pacífico mar buscara ufano;
Que de um raio de Júpiter ferido
Fora em duro penhasco convertido;
Que um filho concebera de uma penha,
Que foi Ninfa algum dia; ele se empenha
Em contrastar de Eulina o peito ingrato;
Apolo oposto ao amoroso trato
Lha rouba, e leva em uma nuvem; triste
O Mancebo infeliz, já não resiste
Ao rigor de seu Fado: busca ansioso
Sobre um punhal o termo lastimoso
De tanta desventura; de piedade
Movido o louro Deus, ou de crueldade,
Em fonte o converteu, e a cor trazendo
Do sangue, que do peito está vertendo,
Por castigo maior do fatal erro
Sobre ele faz bater o duro ferro.
Assim atado ao Cáucaso gelado
O ventre vê das aves devorado
Em contínuo tormento esse, que intenta

De Apolo arrebatar com mão violenta
O raio, de que anima a estátua muda,
Que tanto em fabricar seu dano estuda.

Tudo isto canta a Ninfa, e alegre passa
A dar à linda voz mais bela graça:
Levando o rosto, e os olhos aplicando
Para as lâminas de ouro, e reparando
Em cada uma, concebe um novo alento;
Aqui levanta, e esforça o acorde acento,
E como se Itamonte lhe influíra,
Do peito do Gigante as vozes tira.