As Mulheres de Mantilha/XIX
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Eram seis pessoas à mesa de um excelente e variado jantar de família rica em dia de festa; sólido jantar da cozinha portuguesa de mistura com os guisados especiais da cozinha brasileira: suculenta sopa, o monumental cozido de vaca com seus numerosos acessórios, o peru recheado, o leitão assado, o magnífico presunto, o arroz de forno, as galinhas assadas e de molho pardo, e, além do mais, o lombo fresco e as costeletas de porco, o carneiro assado, o peixe de forno, o negro feijão, e dez pratos ardentes de pimenta, enfeitiçadores do paladar e do olfato, e de ordinário mais ou menos nocivos à saúde.
Para sobremesa, doces secos e de calda, variadíssimos, e superiores em número e perfeição a quanto nesse gênero ostentavam e ostentam os banquetes europeus; nos vinhos exclusivismo nacional, os do reino e nenhum outro.
Eram seis pessoas em um jantar que chegaria para sessenta: ainda hoje nos dias solenes, em que se recebem algum, ou alguns amigos de família, se observa essa prática, especialmente nas casas ricas do interior do Brasil, onde o banquete apenas tocado pelos convivas, passa aos escravos do serviço doméstico e aos pajens dos hóspedes.
Eram seis pessoas a jantar, Jerônimo à cabeceira da mesa, a seu lado direito Isidora e depois Antônio e a senhora Inês; ao seu lado esquerdo Irene, e em seguida Inês, ou a sinhazinha, defronte do padrinho. Esta disposição indicava a exclusão sistemática de toda e qualquer contigüidade das filhas com os hóspedes. A regra não se estenderia com Antônio que se sentaria onde lhe aprouvesse, e mesmo entre as duas meninas, a quem tratava como pai; mas foi observada com rigor explicável pela presença de Isidora, que devia aprender desde logo as leis, os costumes da casa, que aliás eram gerais na colônia.
Irene e Inês, os dois lírios, comiam pouco, tocavam nos pratos, como passarinhos em frutas, ao contrário de Isidora que mostrava o melhor apetite, e mais desocupadas que os outros à mesa, observavam a bela hóspede a quem não conheciam, nem sabiam quem era; se fora um mancebo, não ousariam levantar para ele os olhos, sendo porém do seu sexo, e moça como elas, ousavam do inocente direito de estudar-lhe as feições, os modos e os vestidos.
Isidora era uma moça alta, esbelta, porém não bem feita de corpo; tinha o peito demasiadamente largo, e a cintura pouco delicada; mas em compensação sua cabeça era magnífica: seus cabelos castanho-claros, finos e crespos, perdiam-se escondidos em uma touca de mau gosto; tinha a fronte branca, alta e espaçosa, os supercílios bastos sem exageração e separados, os olhos grandes, claros e brilhantes; o nariz de proporcional feição, as faces coradas, os lábios quase grossos, levemente curvos, o superior com finíssimo e franco buço cor de cinza clara, e ambos formando pequena e graciosa boca ornada de dentes iguais e lindíssimos; a ponta de seu queixo terminava com suavidade o belo oval do rosto; seu pescoço era mais grosso que fino, e suas mãos brancas, pequenas e bonitas, como deviam ser seus pés.
Em seu proceder e em seus modos Isidora dava testemunho de educação doméstica desvelada, mas comprometida pelo mais confuso acanhamento de moça, apenas chegada da roça; em seu trajar mais infeliz ainda, além da touca severa e funestíssima para sua natural beleza, vestia-se com aquela exagerada e sinistra simplicidade que amesquinha as graças, e torna o corpo como um cabide do vestido.
Em uma palavra, Isidora era bela, mas desajeitada; brilhante bruto apanhado no leito da corrente do deserto, precisava que a moda, lapidando-o, fizesse ostentar o seu elevado e natural valor.
Isidora era uma linda roceira com todas as confusões, acanhamento e rudezas das solidões em que vivera, e que na vida da cidade receberia o lavor, que havia de torná-la esplêndida beleza.
Foi este pelo menos o juízo que sem inveja e com espontaneidade inocente e conscienciosa fizeram sobre ela Irene e Inês.
É provável que Isidora desejasse também e muito apreciar os encantos físicos e não menos os enfeites das duas meninas da cidade; mas a pobre roceira sem dúvida por vexame apenas de relance e a furto olhara algumas vezes para elas: era em verdade moça excessivamente acanhada; tinha os olhos quase sempre fitos, pregados, ou no colo ou no prato, e se lhe faziam alguma pergunta, respondia com discrição, mas com voz trêmula e sem olhar para o interlocutor; só em um ponto não sabia acanhar-se; comia como Antônio Pires ou Jerônimo Lírio, que eram bons gastrônomos; não bebia porém vinho, e unicamente pelo dever de saudar a companhia, fazendo sucessivamente a saúde de cada um dos convivas, como era de uso, tocara com os lábios em um cálice de vinho.
Jerônimo e a senhora Inês ocupavam-se particularmente da sua hóspede, porém com certo constrangimento mal dissimulado, ou com inexplicáveis reservas, que todavia não incomodavam Isidora.
Antônio no intervalo de cada prato entendia com as meninas e atirava ora a uma, ora a outra pequenas bolas de miolo de pão.
O jantar prolongou-se um pouco; porque os dois velhos amigos que desde algum tempo tinham por companheira única a gulosa Isidora, acabaram por deixá-la fora de combate, e continuaram muito plácida e pausadamente a atacar todos os pratos, amenizando o gozo gastronômico com histórias e recordações da sua mocidade.
Enfim resolveram-se os dois velhos a passar à sobremesa, e Jerônimo, vendo retirarem-se os pratos do jantar, voltou-se para a mulher, e disse:
— Ah, Inês! eu já não sei comer, como dantes!
— É a velhice que até do apetite nos vai privando, observou Antônio.
E carregaram ambos sobre as duas colunas de compoteiras e pratos de doces que se enfileiravam na mesa; mas nesse ataque Isidora fez-lhes boa companhia até o fim.
Jerônimo deu o sinal de termo do jantar: levantaram-se todos e em pé renderam graças a Deus e persignaram-se.
Imediatamente depois Jerônimo e Antônio foram dormir a sesta, e Isidora retirou-se para o seu gabinete.
Dormir a sesta era costume português muito mais generalizado no clima ardente do Brasil; mas Jerônimo e Antônio não abusavam da sesta, e a limitavam a uma hora de descanso.
O primeiro que se levantou do leito foi Jerônimo, que indo á porta do quarto onde dormia o amigo, gritou-lhe:
— Acorda, velho preguiçoso! Vem jogar o gamão.
Antônio acudiu ao chamado.
— Deixar-nos-ão jogar? perguntou.
— Estás maníaco, Antônio?...
— É a quarta ou quinta vez que hoje inutilmente tomamos o tabuleiro.
E dessa vez nem chegaram a toma-lo; porque ouviram o tinir da espada de um soldado de cavalaria que subia a escada de pedra do terraço.
— Então? disse Antônio.
Jerônimo não respondeu e chegou à porta, onde recebeu da mão do soldado uma carta com caráter oficial.
A carta estava assinada por Alexandre Cardoso de Meneses com a designação de — ajudante-de-sala do senhor vice-rei e dizia assim:
"Senhor Jerônimo Lírio. Hoje depois do conhecimento dos insolentes, criminosos e públicos desacatos e injúrias à pessoa e autoridade do senhor vice-rei, fixaram-se editais, proibindo absolutamente o jogo do entrudo sob penas que se marcaram; mas agora mesmo o senhor vice-rei acaba de saber com dolorosa surpresa e vivo e justo ressentimento que em ti vossa casa da Gamboa se ostentou escandaloso jogo de entrudo com ofensa de suas terminantes ordens, e audaciosa provocação aos castigos impostos a semelhante crime de formal e manifesta desobediência; ordenava a justiça severa que fôsseis imediatamente preso e sujeito a duro castigo, como todos quantos em vossa casa concorreram convenientemente naquele crime; lembrando-se porém dos serviços que haveis prestado, ordena-vos o senhor vice-rei que amanhã ao meio-dia compareçais na minha sala para dar-me explicações do vosso procedimento revoltado e de péssimo exemplo, a fim de que, ouvidas vossas desculpas, se as tendes, delibere depois o senhor vice-rei sobre a vossa muito grave responsabilidade do crime de semelhante desobediência nas circunstâncias melindrosas em que se acha a capital da colônia."
Seguia-se a data e a assinatura.
Mas dentro da carta e em uma tira de papel de marca diferente liam-se em letra disfarçada as seguintes palavras:
"O oficial-de-sala obedeceu; porém o amigo que hoje não pôde conseguir mais, assevera que amanhã conseguirá tudo; venha sem falta falar lhe amanhã ao meio-dia; pois que é isso formalidade indispensável; o amigo lhe garante plena segurança e a todos os seus."
Rubro e trêmulo de cólera, Jerônimo, contendo-se por dignidade dar-lhe cor própria, disse ao soldado:
— Está entregue: beba um copo de vinho e retire-se.
À ordem de seu senhor um escravo trouxe um grande copo de vinho do Porto ao soldado que o bebeu todo, e voltou para a cidade a galope do seu cavalo.
— Que é isso, Jerônimo? perguntou Antônio.
— Toma e lê.
Enquanto Antônio lia, Jerônimo refletia.
— Jerônimo, disse Antônio, entregando ao amigo a carta e o bilhete; isto é um atentado incrível! Os sacrários de nossas casas não são tascas sujeitas à fiscalização imoral de sacrílegos; as tuas e as minhas pistolas não bastam: quando a autoridade ataca as casas, é direito e dever de todos defendê-las com trabucos.
Jerônimo riu-se com um rir horrível.
— Que rir é esse?
— Olha, Antônio; eu nunca fui citado em minha vida, e isto é citação, a que só faltou a vergonha do meirinho à porta!...
— É assim!
— Eu nunca fui injuriado por alguém, e nesta carta há insultos, há injúrias que eu não hei de perdoar.
— Nem eu.
— Há até ameaça de perseguição a minha mulher, a minhas filhas, e a ti!.
Antônio quis falar, e rugiu, gaguejando uma praga.
— E ainda há insulto maior do que todos os que contém esta carta infernal... há este bilhete, e neste bilhete a extrema afronta... há nela a intenção de seduzir o pai para em seguida e por conta da gratidão seduzir a filha!.
— Dá-me outra vez o bilhete.
Jerônimo entregou-o a Antônio, que o leu de novo, e disse com voz rouca:
— Tens razão; há.
— Pois bem: quero vingar-me.
— Conta comigo.
— Sim; mas por ora te conservarás de parte.
— Eu o exijo.
— Conforme, que vais fazer?.
— Obedecer.
— Jerônimo!
— Farei o que devo: o vice-rei me ordena que me apresente a dar-lhe contas de mim, irei; mas dormir com a suspeita de um crime me é impossível; amanhã ao meio-dia é muito tarde para a minha honra: hei de ir hoje, hei de ir já; não quero desculpar-me ao oficial-de-sala, quero queixar-me do vice-rei ao vice-rei.
— E eu?
— Ficarás aqui, velando por minha família; se eu não voltar, é que me mandaram pôr a ferros; porque vou falar português claro, português do bom tempo dos nossos avós, português leal, nobre e sem medo.
— E se não voltares?
— Procederás como te aconselhar a honra e a amizade combinadas com a prudência.
— Vai, Jerônimo.
— Antônio, tu não deixarás minha mulher e minhas filhas!...
— Vai; eu ficarei aqui; mas se te puserem a ferros, o que é possível, também tenho o meu plano.
— Qual é?
— Custe o dinheiro que custar, tua mulher e tuas filhas terão asilo seguro no convento dAjuda.
— E tu?...
— Depois de havê-las posto em segurança, farei com que me ponham também a ferros.
— Antônio!
— Vai, Jerônimo.
Esses dois homens se conheciam: cada qual mais honrado e mais teimoso, sabiam ambos que era inútil toda disputa para mudar a resolução tomada por um deles; entendiam-se bem: eram amigos desde o tempo da pobreza: tinham-se relacionado sobre o mar, vindo ambos para o Brasil no mesmo barco, em cuja tolda haviam dormido juntos ao relento; tinham jurado amizade e proteção um ao outro, e com o trabalho e a economia enriquecido quase ao mesmo tempo, e em firme e constante estima recíproca. Eram amigos como dois irmãos amigos; as filhas de Jerônimo podiam contar com um segundo pai em Antônio, e tanto mais que este sempre decidido e pertinaz celibatário por exagerado espírito de perfeita independência individual, não tinha família que lhe ocupasse o coração.
Jerônimo tinha chamado um escravo e mandado selar um cavalo para si e aprontar dois pajens, e tendo combinado com Antônio uma explicação que servisse para poupar cuidados à mulher e às filhas que bem poderiam alvoroçar-se, sabendo o verdadeiro motivo da sua ida à cidade, despediu-se da família, e partiu às sete horas da noite.
A senhora Inês não se iludiu; mas conteve-se por amor das filhas; não dirigiu pergunta alguma a Antônio; tomando porém por pretexto a possibilidade de encontros sinistros à noite no caminho da Gamboa, abriu o oratório, fez acender as velas e às nove horas da noite foi rezar com Irene e Inês, sendo nesse piedoso ato acompanhada pelo velho compadre.
As duas meninas repetiam as orações ditadas por sua mãe, e embora o fizessem com a maior atenção e fé, sentiam-se como que receosas de algum mal iminente; porque para elas era extraordinária aquela oração a horas, em que de costume já se achavam recolhidas.
Ficou dito que o gabinete, onde estava o oratório, era contíguo ao que fora destinado a Isidora, a qual, ouvindo a oração da família hospitaleira, foi de manso e sem que a percebessem, ajoelhar-se também, mas um pouco afastada das três senhoras e de Antônio, e rezou em voz baixa e sumida.
No meio da ladainha de Nossa Senhora a fadiga e a comoção tolheram a voz à senhora Inês que a entoava; houve uma pausa de cruel ansiedade para esta que se empenhava em ocultar sua aflição; logo porém uma voz de suavíssimo e firme contralto se desprendeu, continuando a entoar a ladainha, e terminada esta, prosseguiu, dirigindo as orações.
— Rezemos um credo, disse enfim Isidora, pela vida, segurança e felicidade do chefe desta família!
E rezou o credo em latim, pronunciando-o, como se fora um padre.
Quando acabava o credo, chegou Jerônimo de volta da cidade e de joelhos com a mulher, as filhas e os hóspedes, rendeu graças a Deus.
Apagadas as luzes e fechado o oratório, a senhora Inês foi apertar a mão do marido, e logo depois, procurando com os olhos Isidora, não a encontrou mais; dirigiu-se então à porta do gabinete contíguo, e sem entrar disse em voz bastante alta para ser ouvida:
— Deus te abençoe!
— Que é? perguntou Jerônimo.
— Um socorro oportuno e um credo que me ficaram no coração.
Irene e Inês receberam a bênção do pai e de Antônio e se retiraram seguidas pela zelosa mãe e nobre esposa que se tranqüilizara, observando a serenidade e quase a satisfação no rosto do marido.
Os dois velhos amigos ficaram sós, e velaram, conversando, até depois da meia-noite.