As Mulheres de Mantilha/XX

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XX)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Alexandre Cardoso tinha errado em seus cálculos: mandando a carta e o traiçoeiro bilhete à hora vizinha da noite a Jerônimo Lírio, contava que só no dia seguinte, e no prazo oficialmente marcado, se apresentaria este para dar as explicações exigidas, e tanto mais que redigia a carta de modos encher de terror o mais corajoso.

Na segunda-feira desde as oito horas da manhã, o ajudante oficial-de-sala estaria no seu posto, e somente com ele Jerônimo Lírio poderia entender-se, pois que para chegar ao vice-rei era preciso passar por ele, que quando lhe convinha, sabia ser indestrutível barreira, tendo em todos os empregados da sala e da alta administração criaturas suas.

Refletindo assim, Alexandre Cardoso foi procurar esquecer-se da bela Inês, mergulhando a lembrança do seu amor ainda infeliz no Letes do jogo e da orgia.

Além do jogo e da orgia Alexandre Cardoso apetecera para um dos dias de entrudo o passatempo da sedução ou do rapto violento de uma bonita rapariga de cor, que tinha pretensões a viver muito honestamente apesar de ser filha de um simples carpinteiro.

Jerônimo Lírio tivera a mais feliz das inspirações.

Às oito horas da noite, apresentou-se a pé e só na antiga casa dos governadores, onde estava o vice-rei; a guarda disputou-lhe a entrada e ele insistiu, declarando que viera a chamado do próprio vice-rei.

Um soldado subiu a dar parte ao conde da Cunha do que se passava, e voltou em breve, dizendo que o vice-rei não recebia pessoa alguma a tais horas.

Jerônimo Lírio teimou; rasgando uma tira de papel da carteira, escreveu seu nome, e disse que havia questão de honra, e caso de grande crime público, obrigando-o a incomodar o chefe supremo da colônia.

O soldado, depois de longo hesitar, e convencido pela eloqüência uma peça de ouro, tornou a subir, embora tremendo de medo.

Ouviu-se dai a pouco uma praga do vice-rei, e em seguida prolongado silêncio.

O conde da Cunha ouvira o anúncio de grande crime público e sopitara, lera o nome de Jerônimo Lírio, e se lembrara de que esse homem reputado um dos negociantes mais respeitáveis da praça e um dos homens honrados e venerandos da cidade do Rio de Janeiro: esse nome, a quem se abriram todas as portas, não achou fechada a do vice-rei.

Jerônimo Lírio foi introduzido em uma sala particular do conde da Cunha, que o recebeu e o ouviu de pé.

A sala estava mal esclarecida por uma única luz. O conde da Cunha nos fracos raios dessa flama se mostrou a Jerônimo Lírio que avançou com passo firme, em pé, com a mão esquerda apoiada na ilharga, alto, pálido, e com a fronte severamente enrugada.

— Por que me incomoda a esta hora? perguntou.

— Porque a minha honra foi incomodada, senhor, respondeu com firmeza Jerônimo.

— A sua honra...

— Afrontada hoje por ordem do vice-rei, não pode esperar até

— Não o entendo.., anunciava-se um crime público...

— É o meu: o vice-rei me declarou atroz criminoso; vim pedir o meu castigo...

— O vice-rei sou eu; que está dizendo?

— Joguei hoje o entrudo com minha mulher, minhas filhas e dois hóspedes no interior da minha casa na chácara que possuo na Gamboa.

— Que tenho eu com isso? Mandei proibir o entrudo: é claro que o proibi nas ruas; que me importam as loucuras ou os folguedos do interior da sua casa?

Jerônimo Lírio entregou a carta que havia recebido ao Conde da Cunha que, chegando-se à luz, leu com enregelada aparência de serenidade as ordens e as ameaças passadas em seu nome,

— Exageração de zelo muito louvável, disse ele, restituindo a carta.

— Vinha dentro este bilhete, tornou Jerônimo, entregando a pequena tira de papel.

O vice-rei leu dez vezes o bilhete, examinou o papel do bilhete com o passeou ao longo da saia, meditando, e vindo parar de súbito diante de Jerônimo, disse-lhe:

— Explique o fato ou a intriga, como os entende.

Jerônimo estremeceu de raiva.

— Fale, ordeno-lhe que fale, tornou o vice-rei.

— Senhor vice-rei, eu fui intimado para vir explicar um fato passado em minha casa e declarado crime revoltoso; corria a confessar o fato que é absolutamente verdadeiro e a sujeitar-me a receber o castigo que mereço.

— Já não se trata disso, disse o conde da Cunha, impacientando-se, não houve crime da sua parte, houve excesso de zelo do meu ajudante oficial-de-sala... mas este bilhete?..

— Há de ser exageração de amizade do meu protetor, respondeu com ironia pungente Jerônimo Lírio.

O conde da Cunha, soberbo e irritável como era, bradou com furor:

— Assim me respondeu!...

— Daquela janela, senhor, se vê a dois passos a cadeia, e lá embaixo no saguão sobram soldados para conduzir-me a ela, pois que faltei ao respeito devido ao senhor vice-rei.

— Retire-se! gritou de novo o conde da Cunha; retire-se, e agradeça ao nome honrado de que goza, a impunidade do seu atrevimento.

E voltou as costas a Jerônimo que saiu da sala não menos irritado e já descia com precipitação a escada, quando um criado veio, correndo, chamá-lo por ordem do vice-rei.

Não obedecer fora impossível; Jerônimo entrou de novo na sala que momentos antes deixara.

O conde da Cunha o esperava.

— Como se retirou sem pedir-me perdão? perguntou.

— Porque não tenho consciência de haver ofendido ao senhor vice-rei, e porque o senhor vice-rei me ofendeu sem razão, respondeu Jerônimo com voz firme.

— Ofendi-o? Como?...

— Expulsando-me da sua casa com grito de cólera.

O conde da Cunha não estava habituado a ouvir essas respostas francas e dignas e a ver essa atitude respeitosa, mas serena e grave, que Jerônimo mantinha diante dele; muito orgulhoso para desculpar-se, porém, impressionado pelas nobres maneiras do velho negociante português, compreendeu que a seus olhos tinha um homem e não um escravo; abrandando pois a voz alterada disse-lhe:

— Lealdade e franqueza: porque veio hoje falar-me?..

— Vim hoje apresentar-me ao senhor vice-rei para não vir amanhã apresentar-me ao ajudante oficial-de-sala.

— Por vaidade talvez.

— Não sou vaidoso; mas amanhã, ainda que eu quisesse e pedisse, não conseguiria falar ao senhor vice-rei.

— Quem lho impediria?

— O ajudante oficial-de-sala.

— E por que tanto se empenhava em falar-me?

— Porque estava seguro de que o senhor vice-rei ignorava a ordem que me foi mandada em seu nome na carta injuriosa que recebi.

O conde da Cunha encrespou as sobrancelhas.

— Estava seguro que eu a ignorava? Pesa bem, entende bem o que e pode significar o que acaba de dizer?

— Sim, senhor vice-rei.

— Diga pois, diga franco e sem reservas donde lhe vinha semelhante segurança, diga.

— É que tenho a certeza de que o senhor vice-rei ignora muitas ordens que se executam, e muitos atos que se praticam em seu nome!

— Mas... então... essa minha ignorância é um desmazelo criminoso, indigno... uma prova de incapacidade.

— Não, senhor vice-rei; mas é uma cegueira fatal.

O conde da Cunha deu um murro sobre a mesa, e exclamou:

— Sei tudo quanto se faz!

— Não sabe, senhor vice-rei! Não sabe, e ainda bem que o não sabe!

O conde da Cunha agarrou com ambas as mãos o braço direito de Jerônimo, e apertando-lho, disse:

— Velho terrível! Quero dar-te o direito do insulto, fala! dize tudo!...

— Não sabe, senhor vice-rei, tornou Jerônimo impavidamente; não sabe; porque eu recebi de Portugal informações sobre o caráter do senhor conde da Cunha, e foram todas acordes em lamentar a rispidez do seu gênio, e em louvar o seu espírito de justiça severa, e a honestidade dos seus costumes e do seu caráter.

— E então?...

Jerônimo hesitou pela primeira vez.

— Fale! bradou-lhe o vice-rei.

— É que, se o senhor vice-rei soubesse tudo quanto se faz em seu nome e os verdadeiros motivos de atos que manda praticar, o senhor conde da Cunha não seria um homem honrado.

O velho, orgulhoso fidalgo e potente vice-rei, recuou alguns passos aturdido e como cambaleando pela violência do golpe que recebera; guardou silêncio ameaçador durante alguns minutos; depois avançou para Jerônimo e disse-lhe com voz cavernosa e trêmula:

— Entendo: é inimigo de Alexandre Cardoso.

Jerônimo respondeu:

— Sou, senhor vice-rei.

— Deseja perdê-lo...

— Desejo.

O conde da Cunha esperava negativas, e a franca declaração de Jerônimo ainda mais o impressionou.

— A razão dessa inimizade?

— É segredo meu que, se tiver conseqüências, correrão todas por minha conta e risco.

O vice-rei refletiu ainda alguns momentos, e enfim perguntou:

— Quais são os fatos mais escandalosos, os abusos mais violentos ou condenáveis, com que o ajudante oficial-de-sala tem comprometido o meu nome?

Jerônimo respondeu logo.

— Eu tinha o dever de avisar o senhor conde da Cunha do perigo que corre a sua reputação já muito caluniada pelas vítimas de mil abusos; mas não quero tomar o papel de denunciante de criminoso algum, declinando o seu nome, e marcando os crimes.

— O nome é Alexandre Cardoso...

— É o povo que o denuncia.

O vice-rei tornou a refletir por algum tempo; respirava ansioso, e a cólera, a dúvida, o orgulho, o ressentimento, a dor atormentavam-lhe o coração e o espírito: voltava amiúde olhos ardentes para Jerônimo.

Depois que muito pensou, disse pausada e gravemente:

— Jerônimo Lírio tem fama de negociante consciencioso e de homem puro, cuja palavra é sagrada.

Jerônimo curvou-se.

O conde da Cunha continuou:

— Tenho até hoje desprezado quantas queixas e denúncias contra Alexandre Cardoso seus inimigos forjaram; depositei até hoje plena, e, se quiserem, cega confiança no meu ajudante oficial-de-sala; sei bem como é fértil em calúnias o ódio, e como aqueles que mais fielmente, e em mais alta posição servem ao governo, estão sujeitos às setas do aleive e aos embustes da perfídia; mas Jerônimo Lírio, o homem austero, sem refolhos nem mentira, o velho negociante português que nesta cidade é mais considerado e venerado, ou me ultrajou com injúria descomedida, ou me abriu os olhos sobre um erro que nodoa a minha vida: é isso ou não?...

— É isso, senhor vice-rei, respondeu Jerônimo.

— Pois bem: juro que hei de castigar a injúria ao lavar a nódoa.

E o conde da Cunha fez a Jerônimo sinal para retirar-se.

— E amanhã ao meio-dia?... perguntou este.

— Apresente-se ao oficial-de-sala.

— Ele saberá que estive aqui hoje.

O vice-rei sorriu-se terrivelmente.

— Não é claro que o remeti para ele?... Se Jerônimo Lírio não mente o vice-rei é o oficial-de-sala.

E com um novo aceno despediu Jerônimo, que, depois de aprofunda reverência apenas correspondida por leve movimento da cabeça do conde da Cunha, se retirou.

O vice-rei foi encerrar-se em seu gabinete; mas passados dez minutos tocou com força a campainha, a que acudiu... um criado:

— Germiano? perguntou ele.

— Está no seu quarto.

— Que venha já aqui.

Germiano era um português soldado, ordenança, criado, agente de compras, o homem fiel e dedicado, o cão amigo do conde da Cunha que o encontrara em Maragão, o levara para Angola, o trouxera para o Brasil, e não mais se separara dele.

Germiano não sabia ler e somente por isso não pudera adiantar-se na carreira militar; mas era a atividade que nunca dormia, a dedicação que nunca fraqueara, a astúcia que nunca falhara no serviço do amo; adorava o conde da Cunha com dedicação sublime, nem havia ofensa, havia verdade na apreciação dos seus sentimentos, quando o comparavam ao animal tipo da fidelidade.

Na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro a gente que servia no palácio chamava a Germiano — o cão do vice-rei.