As Mulheres de Mantilha/XXI

Wikisource, a biblioteca livre

As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXI)
por Joaquim Manuel de Macedo
Text document with red question mark.svg


Sempre ocupado de Inês, Alexandre Cardoso, tendo sabido do entrudo que se jogara na casa de Jerônimo Lírio, aproveitara o ensejo para explorar duas minas, a da intimidação e a gratidão de Jerônimo Lírio, e enquanto esperava o resultado da carta e do bilhete, saiu quase ao anoitecer da sala do vice-rei, com quem havia jantado, e seguido de um dos seus amigos dirigiu-se pela praia de Santa Luzia para tomar o Largo d’Ajuda e irá casa de Maria de... onde se ajustara jogar a banca nessa noite.

Porque Alexandre Cardoso se impunha tão extensa volta, era muito simples: no ponto em que começa hoje a pequena rua, onde naquele mesmo século foi estabelecido o matadouro que ali ficou até os nossos dias, ponto que então comunicava a praia de Santa Luzia com o Largo d’Ajuda, havia uma pequena casa térrea isolada, quase solitária, mas com o seu terreiro limpo e meia dúzia de laranjeiras ao lado; morava aí Marcos Fulgêncio com sua mulher e uma filha de vinte anos de idade.

Marcos Fulgêncio era laborioso e zelava sua família, duas condições porém o amesquinhavam aos olhos de Alexandre Cardoso, de seus amigos e de muitos outros: era pobre e sua cor menos branca, e seus caracteres físicos atestavam o cruzamento de duas raças.

Emiliana, a filha de Marcos Fulgêncio, quase desmentia a origem de seu pai e era verdadeiramente bonita: tinha recebido boa educação moral; e honesta e esperta sabia bem fugir aos cumprimentos e aos manejos de sedução que empregavam contra ela velhos e mancebos ricos e de posição muito superior à sua.

Alexandre Cardoso andava à pista de Emiliana, não porque a amasse, mas porque desde alguns dias a desejava, embora tivesse-lhe mandado debalde recados lisonjeiros e oferecimentos deslumbradores.

Passando diante da pequena casa, o ajudante oficial-de-sala parou, e no empenho de ver Emíliana, chamou em voz alta por Marcos Fulgêncio, que apareceu à porta.

— Como vamos de trabalho? perguntou Alexandre Cardoso.

— Não me faltam obras, louvado Deus!

— Mas nem por isso aumenta a fortuna, creio eu.

— Não lastimo a minha sorte, senhor: sou mais feliz do que muitos.

— Por que não se emprega nas obras del-rei? Asseguro-lhe que será bem pago; temos necessidade de bons carpinteiros; se lhe fizer conta, eu o protegerei.

— El-rei é meu senhor e se em nome dele me intimarem para trabalhar nas obras, hei de obedecer, mas prefiro andar ocupado nas obras de meus antigos fregueses.

— Por quê?...

— É por costume, senhor; a gente trabalha em mais liberdade cá por fora.

— Pois bem: não será incomodado; se porém precisar de trabalho ou de proteção, procure-me.

— Deus lhe pague, senhor!

Alexandre Cardoso, vendo que Emiliana não aparecia, continuou seu caminho, e algumas braças adiante viu sentada no terreiro de um casebre humilde e em começo de ruína uma velha que com respeito se levantou, e estendeu a mão direita, pedindo esmola.

O elegante oficial deixou por instantes o amigo, e foi dar a esmola à velha, que ao recebê-la passou fingidamente à mão caridosa um anel, e murmurou:

— Ela não quis.

Alexandre Cardoso, retirou-se contrariado: Emiliana rejeitara um rico anel, que lhe mandara.

— Vamos, capitão, disse ele ao companheiro; vamos e tome o meu conselho: não jogue hoje contra mim; tenho certeza de ganhar.

— Como?

— Infeliz no amor, feliz no jogo.

— Nem sempre, e conselho por conselho, seja prudente e cauteloso, senhor tenente-coronel; há oito dias que temos jogado três vezes, e três vezes as suas perdas foram excessivas.

— Apenas chegaram a dois mil cruzados.

— Temos um antagonista que adivinha as cartas.

— É feliz; mas joga com franqueza e lisura.

— Conhece-o?

— Pouco; sei que Ângelo por algum tempo mereceu que Maria me atraiçoasse; não lhe perdoaria essa dita há cinco meses; hoje que é desprezado e que Maria não me domina mais, pouco ou nada me importa isso; fui eu que o convidei para o sarau desta noite.

— Desconfio desse mancebo... juraria que ele furta ao jogo.

— De que modo?

— Não sei: se as cartas obedecem às suas paradas é que ele sem dúvida as terá marcado.

— Não é Ângelo que dá as cartas para o jogo, e nós mudamos de baralho por vezes.

— Mas a sua teimosia e infalível fortuna?

— É fortuna.

— Ângelo não é rico...

— Ao contrário, não tem onde caia morto.

— Todavia... o seu ouro cobre a mesa do jogo, e ele pára com afoiteza de um milionário.

— É claro: se fosse milionário não parava assim; mas o seu ouro é ouro verdadeiro, eis o essencial.

— Donde lho vem?

— Que importa? Façamos por ganhar-lhe o ouro.

— Eu não jogarei esta noite.

— Tanto melhor: jogador que não joga e observa o jogo, vê em dobro; preste-nos um serviço; não arrede os olhos e a atenção desse endemoninhado Ângelo, para quem não sei donde tire mais dinheiro.

Quando isso dizia, Alexandre Cardoso chegava com o amigo à porta da casa de Maria de...