As Mulheres de Mantilha/XVI

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XVI)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Jerônimo foi até à porta da entrada que se abria para um pequeno terraço com duas escadas laterais.

— Pode subir e entrar.

Saiu de uma cadeirinha de aluguel uma mulher de mantilha, que subiu a escada do terraço e entrou na sala. Era uma mulher alta que pelo vulto indicava ser magra e sem dúvida tinha alvo rosto, pois que branca e fina foi a mão que mostrou fora da mantilha, entregando uma carta a Jerônimo.

— Queira sentar-se, tornou este, oferecendo-lhe uma cadeira.

A mulher sentou-se, Jerônimo abriu a carta e à medida que a foi lendo, seu rosto corou fortemente, as mãos tremeram-lhe e o fogo da ira brilhou em seus olhos.

Acabando de ler a carta, dobrou-a e pô-la no bolso, e enquanto a mulher de mantilha, tendo a cabeça tão caída que a ponta do queixo tocava-lhe no peito, parecia esperar importante decisão, o nobre velho levantou-se e agitado passeou ao longo da sala durante alguns minutos; enfim, como se tomasse uma resolução, mandou chamar sua esposa.

A senhora Inês entrou, e fez de longe um leve cumprimento à mulher de mantilha que se levantou para saudá-la.

— Inês, preciso ler-te esta carta, vem cá.

E levou a mulher para a janela mais afastada em cujo vão desapareceram ambos defendidos pelas grossas paredes de pedra da antiga edificação das casas grandes.

Jerônimo leu em voz baixa a carta que recebera à sua esposa e logo em seguida perguntou:

— Que pensas?...

— Eu não sei: o melhor de todos os conselhos é aquele que quiseres seguir.

— Eu, porém, quero ouvir-te: acho-me em luta comigo mesmo; hesito.

— Por quê?

— O meu desejo era servir, e o meu dever é não servir ao que me pedem.

— Nunca desejaste o mal, e o dever nunca é ofendido pelo verdadeiro bem; Deus me perdoe, se erro.

— Explicar-me-ei melhor: eu desejo e não devo asilar em minha casa esta vítima de infame perseguição.

— Se há vítima de infame perseguição, deves dar-lhe asilo e defendê-la.

— É contra as leis del-Rei nosso senhor.

— É conforme as leis de Deus senhor dos reis, da terra.

Jerônimo estava no caso daqueles que, almejando ser convencidos para desculpar-se ante a própria consciência, cedem às primeiras razões que lhe apresentam; felizmente para ele a primeira razão que a senhora Inês esta carta lhe apresentou, vinha cheia de unção religiosa.

— Inês, disse ele, tu refletes bem.

— Eu não reflito, Jerônimo; digo o que aprendi, graças a Deus.

— Mas além deste embaraço há outro muito mais sério.

— Qual?

— Ouviste, atendeste bem à carta que li?

— Sim.

— As relações diárias, constantes, de nossas filhas com a tal mulher de mantilha assustam-me...

— Desejas deveras prestar-lhe asilo?...

— Confesso que desejava... tenho meus motivos.

— Deus abençoará a obra de caridade.

— Mas as meninas?...

— O gabinete contíguo ao do oratório não tem comunicação com o resto da casa.

— E de dia?

— Sabes que acordo sempre mais cedo e me deito sempre mais tarde do que nossas filhas.

— Qualquer descuido facilitará liberdades que não admito.

— Jerônimo, queres saber? Creio que Deus nosso senhor quis pôr em provas os nossos corações: em nome de Deus façamos esta obra de misericórdia. Eu respondo pelas meninas.

— Tu respondes por elas, Inês?...

A virtuosa senhora, ouvindo a pergunta do marido feita à mãe de Irene e Inês, sorriu-se e disse:

— Sou mãe, meu amigo; as mães vêem mais e adivinham antes dos pais tudo quanto se refere aos filhos; sou mãe que vê mais e que adivinha antes de ti o que mais tarde me escondes para poupar-me cuidados.

Jerônimo ficou um pouco confuso.

— Respondo pelas meninas, repetiu a piedosa e digna senhora; e vou mandar preparar o gabinete.

A senhora Inês retirou-se, e Jerônimo, levantando a cabeça e cravando os olhos no céu, disse em voz alta sumida, mas lançada no coração.

— Santíssima Virgem Mãe de Deus! Esta obra de misericórdia que vou fazer recaia toda por vossa poderosa intercessão em proveito da minha inocente Inês, em favor e defesa de cuja virtude e castidade peço e reclamo a proteção divina.

E tendo-se persignado, Jerônimo deixou a janela, foi a sua secretária, escreveu brevíssima carta que fechou e selou, dirigindo-se à mulher de mantilha:

— A senhora fica conosco, disse-lhe; despache a cadeirinha, e dê esta carta ao escravo que a acompanhou desde o lugar donde veio para a cidade.

A mulher de mantilha levantou-se, avançou um passo para o velho, beijou-lhe com ardor a mão, que lhe dava a carta e foi despachar a cadeirinha e o criado.

Jerônimo ficou por momentos a sós com Antônio, e olhando para ele corou, e sorriu-se.

Desde a leitura da carta trazida pela mulher de mantilha, Jerônimo tinha esquecido completamente a presença de Antônio e a singular aposta que fizera; mas ao olhá-lo, de súbito lembrou-se da conversação que tivera, dos princípios de obediência severa que sustentara e do imediato desmentido que dava contraditório àqueles mesmos princípios: corou por orgulho, sorriu-se por amizade.

A mulher de mantilha voltou antes que os dois velhos amigos tivessem trocado palavras; logo depois a senhora Inês tornou à sala, e veio tomar conta da asilada a quem convidou para segui-la ao aposento que lhe destinava.

Quando ambas iam sair, Jerônimo disse à mulher de mantilha, mostrando-lhe Antônio:

— Minha lealdade deve-lhe uma prevenção: este velho é o meu primeiro amigo; com ele não tenho reservas possíveis; o nosso segredo será também dele, que em minha falta lhe servirá de protetor ainda melhor.

A mulher de mantilha aproximou-se de Antônio, e tomando-lhe a mão, beijou-a, como tinha beijado a mão de Jerônimo.

A senhora Inês levou consigo a mulher de mantilha.

Jerônimo voltou-se então para Antônio, e deu-lhe a carta que havia recebido, e que este sem hesitação tomou e leu para si de princípio a fim.

— Bem te dizia eu! disse Antônio, restituindo a carta.

— Sim; mas, tu o vês, era impossível que eu resistisse! Quem me escreve é um amigo, um dos meus melhores fregueses, estabelecido na vila opulenta de Santo Antônio de Sá; tudo isso é o menos; nota porém: um pobre casal tem uma bela e honestíssima filha, e um filho rico de inteligência, que ali nas aulas dos frades franciscanos, que o estimam e dele se apoderam, faz prodígios e tem o infortúnio de superar, de tornar invisível o rude bronco filho mais novo do capitão-mor do distrito, que por isso o aborrece ainda pior: o filho mais velho do capitão-mor tenta seduzir a bela filha do pobre casal e repelido por ela chega a ameaçar os pais; essa menina, Antônio, chama-se Inês, tem o mesmo nome de minha filha, quase a mesma desdita da tua afilhada, a diferença única é que eu sou rico, e que a outra Inês é filha de pais pobres; perseguição infame! Ao menino mais talentoso do que o estúpido filho do capitão-mor, ao filho único e esperançoso de mísera família marca-se e procura-se para soldado recrutado, e à linda donzela desvalida e sem fortuna atropela-se, armam-se ciladas, e maquinam-se violências para os gozos impuros do filho mais velho do senhor capitão-mor!... Esta donzela também se chama Inês, Antônio! Que coincidência nos tormentos que sofro!...

— Ainda bem que veio ao caso a coincidência.

— Dize, pois, que podia, que me cumpria fazer?... Das duas vítimas de atroz perseguição, uma me chega recomendada por bom amigo, por homem honrado e incapaz de mentir; que deveria eu fazer? dize-o pelo amor de Deus!

— Devias fazer o que fizeste, Jerônimo.

— Portanto eu errava ainda há pouco, quando conversava contigo; não há princípios absolutos na vida humana. A minha vaidade foi castigada: no mesmo dia, na mesma hora fiz o contrário do que assegurava e jurava fazer!...

Antônio começou a rir.

— Guloso, exclamou Jerônimo; não me comerás o peixe de quaresma em quatro domingos, sou eu, minha mulher, as meninas e esta misteriosa senhora de mantilha que havemos de devorar a tua ceia na noite da serração da velha.

— Confessas que perdeste a aposta?

— Claro: apronta-nos boa ceia.

— Fica a meu cuidado; agora experimentemos, se é possível que hoje nos deixem jogar o gamão.

Os dois velhos amigos tomaram de novo o tabuleiro do gamão e ordenaram as pedras que se tinham desarranjado.