A Afilhada/IV

Wikisource, a biblioteca livre
< A Afilhada
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Afilhada por Manuel de Oliveira Paiva
Capítulo IV


Chegou a Semana Santa.

Sexta-feira da Paixão a Fabiana, de braço dado com o Osório, no rigor do traje preto, seguia para os atos da Sé. Uma com o manual, outro com o binóculo. Em toda cidade havia o extraordinário formigar do povaréu pedindo esmola para o jejum d'hoje, como é costume naquele grande dia. A ausência de sinos, de cornetas, de chocalhos nas cavalgaduras, de tráfico, de toques de piano, punha a cidade como edificada em cortiça.

O arrabalde invadia a povoação confortada. Ao longo das calçadas a plebe em turmas, ia de porta em porta. Havia aglomerações nas taber­nas e mercearias, nos armazéns das grandes casas comerciais, e nos baixos dos sobrados das famílias de alta catadura que consagravam ainda aquele uso tradicional. Mulheres em quantidade, de chinelo, xale surrado, ou cobertas com um lençol de tacos de chita, cabeção sujo, com o ar dis­farçado do cão que pisa em terreiro alheio. Raro uma pessoa branca. A modo que estava ali a grande maioria dos descendentes tapuias rara­mente cruzados com os africanos, e apenas de longe em longe retocados pelo sangue europeu. Crianças acompanhando as pessoas grandes, e fazendo pela vida. Ao espírito embora esterilmente observador do Osório, aquela multidão, arrastando chinela e penúria cidade adentro a pedir es­mola, era uma grande revista em ordem de marcha, do arrabalde perante a soberania da população mestra, duas espécies distintas de gente em claro confronto ao sol da Redenção que celebrava o catolicismo. Trajes, costumes, feições, andar, linguagem, e várias particularidades, como de duas nações diversas.

Por seu lado os mendigos de profissão tinham ciúmes daquele uso. Com que direito o mundo inteiro se despejava na rua tirando esmola? A População válida tinha obrigação de prover-se. À miséria é que cabia o direito de caramunhar sem pejo e pelo amor de Deus, de passar o dia acocorada no portão da Feira, de lamuriar à saída das festas de Igreja, de tocaiar o povo nas esquinas das praças, de exigir na porta de cada um. A mendicidade era um direito divino, como para nós outros o são as antigas monarquias e as novas repúblicas.

O João de Paula percorria a cidade como um idiota, banzando. Não trazia uru para o bacalhau e o feijão, nem o saco da farinha, da bolacha, da rapadura e de pão d'ontem.

O Pedro Cação havia chamado para casa o casco da família, isto é, a cunhadinha nova, a cunhada viúva com os três filhos pequenos. O cego havia abandonado de todo os seus. Vivia à toa. Comia onde havia, dormia onde anoitecia, e tomava lá o seu porrezinho uma vez por outra, Havia momentos em que era impossível abster-se o mais fugitivo traço de riso daquela fisionomia sem olhar. Estava-se tornando popularmente conhecido, porque tocava bem a viola. Era o cego da Viola. Aparecia à tarde, muitas vezes, de gravata, colete, e paletó servidos, que lhe davam; e ao amanhecer tudo era em lama, se chovia, ou poeira e rasgões. Pa­decia ataques de fúria, ou antes, dava-se a isso, quando estava na be­bedeira.

O Osório,ao pôr o pé na soleira da Sé, notou-o por entre os solda­dos que estavam aí montando guarda. A soldadesca cercava-o e tirava prosa. Fazia boas gaiatadas, que nem uma criança ou que nem um doido, torcia o beiço, batia com os braços em ar de galo que vai cantar, sapa­teava, contrafazia-se em trejeitos e mogangos, o que lhe rendia sempre alguns dobrões para a sacola. Havia naquilo um bom divertimento para a troça das ruas.

Um pano enorme, de casimira cor das opas do Santíssimo, com um sagrado emblema cosicado no meio, velava a abertura da grande porta da entrada, encaixalhada em fortes punhais de pedra lioz. Fabiana despregou-se do braço do marido para poderem romper. Logo adiante da entrada o guarda-vento, envernizado a pincel com roxo-terra, tapava a vista do interior, de alto a baixo. Meteram a mão na pia ostrada à pa­rede, e persignaram-se. O Batistério da direita com o seu Santo Antônio no nicho, estava escancarado para facilitar o trânsito. O casal Góis de Oliveira foi abrindo por entre os homens, numa atmosfera ruim, escure­cida pelas colunas atarraxadas que sustentam o coro e pelas esguias, em ordem decrescente, onde repousam os planos escarlavados do coreto. Da nave direita, tomada pelos homens, foram tomar ao fundo a grande escadaria em cotovelo que leva à ordem superior das varandas. No úl­timo degrau, vieram abrir o cadeado, e a grade deu franquia a ambos.

A Fabiana meteu a chave na portinhola do seu compartimento, e evidenciou-se o grande espetáculo da igreja cheia. De defronte, e de lá debaixo, do coreto, olhavam para ver quem era. O Osório, ao lado da mulher,que ajoelhava com as mãos no peitoril, corria o binóculo, e fez um ar de satisfação. Descobrira o boticário, ali vizinho:

— Passa para cá, Fernandes.

— Ora, espera.

Ambos deixaram aquela espécie de camarote de teatro.

— Eu estava para aí, doido por uma companhia; queria fumar.

— Fumar na Igreja?

— Devia ser permitido, como o teu rapé.

— Mas, fuma-se na torre.

— Pois vamos lá.

Atravessaram o corredor, e, ao pé do coro, puseram-se a caminho escada acima.

— É íngreme este caracol!

— Olha que aqui podemos pôr o chapéu na cabeça.

De quando em vez, por uma clarabóia, aparecia-lhes um jato de ci­dade. Por uma de Leste, avistava-se longamente uma tira de morros, como um gigante alvo e nu estirado entre o mar e o verde empoado da planície.

— Oh! Fernandes, aquilo é realmente insuportável: uma senhora não pode vir cá: repara estes desenhos pela parede! Que indecência imunda! Bonitos palavreados, sim senhor.

Na verdade o casamento estava garatujado a carvão. Eram caretas, nomes feios, e esboços imorais de uma torpeza crassa.

— Sabe quem faz isto, Seu Osório? São os nossos lindos filhos. Agora não admira. Li eu algures que a infância reflete a sociedade, e que pelo cachorro da casa, e pelos pequenos, podese concluir o que sejam os donos. Os meninos borram e quebram as obras de pedra e cal, e vo-cós as do ideal, o Direito, a Lei, a Religião, a Política...

Eram chegados ao meio do caminho. Havia aí um andar completo. — Homem, deixe-me lá, que é feito do Centu?

— Ai que aquilo está um pateta!

— Ora cá está a sua última carta. Recebia-a esta noite, depois de assistir ao Lava-pés. Ouve lá como isto ainda é bisonho.

A carta dizia uma dúzia de puerícias de pai, anunciando que a Ma­riinha tivera o seu bom sucesso. Perdidinho em amores pelo pequerru­cho! No fim, a Manriinha mandava um recado para a mamãe não esquecer as rendas e o labirinto para a camisa do batizado, e que estava muito bom o doce de caju e os queijos que foram. Pedia que visse se era possível mandar um caixote com carne do sertão e rapadura batida.

— E como vais tu com o Visconde?

— Homem... titubeou o Desembargador. Toma uma pitadinha deste simonte que é excelente...

— Eu uso lá de porcarias!... Mas, dizem-me que vocês estão de ponta...

— Qual! Comigo ele não se incompatibiliza. Sou desembargador! O que dizem é que vais abandonar a política.

— Eu? Agora que os conheço? Absolutamente.

— Os conheces? É mais fácil apertar muçu dentro da água do que proferir uma palavra segura sobre o caráter de certa gente! — Que bobo! A coisa é uma pessoa conduzir-se com as mulheres ilícitas. Os galardoados são sempre os mais remissos, que sabem negar o corpo, e dar a pancada a tempo, porque os chefes estão seguros do serviço dos dedicados ao que der e vier. Eu já aprendi a forçar a porta da travessa dos cérebros e dos corações, mesmo com o teu chefe.

— Cá a minha vontade era formar o partido republicano.

— Deus o livre, Deus livre o partido republicano o nascer desta de­generação mercantil!

Se eles enxergassem com os olhos da torre veriam a cidade, pai­rando pequenina lá embaixo, como o Gulliver diante do Liliput ou de Blefuscu. Os sinos, em seus nichos, estavam com os badalos amarrados, e o Osório batendo na beira do grande com o nó do dedo, fez-se na abó­bada da torre uma ressonância prolongada.

Largaram a parolar sobre a terra que se aplainava por aqueles ho­rizontes adentro. Via-se, nas ruas que o olhar apanhava, um formigamento de pigmeus.

— Este país não será coisa nenhuma enquanto a cidade não ca­pitular com a roça, formulava o Fernandes. O aumento da capital é pro­porcional ao despovoamento e abandono do interior! Isto assim vai à gaita!

O céu azul estendia o seu toldo imenso. E os dois amigos entraram a discutir em voz alta, naquele isolamento de torre. Não se podia perce­ber o panorama senão por nesgas, pelas fenestras dos sinos. Lobriga­vam-se indícios da vila de Mecejana, a povoação de Arronches, a matriz de Soure, pombinha alva caída nos matos, cerca de três léguas de cir­cuito. O mar, esse era a perder de vista, uma visão gigantesca e indefinível.

O Osório estava confederativo. O Fernandes, porém, mais às direi­tas, absolutista. Demonstrava o boticário que o rei absoluto precisa do braço do povo, contra as cabeças dos poderosos, e testemunhava com a História. O outro alevantava teorias de liberdade.

— A liberdade faz isto que você está vendo, seu desembargador, estirava o Fernandes o beiço indicando a cidade. Esta província ser, da Corte, uma afilhada reles, em vez de uma filha querida. A liberdade faz é consagrar esses parvenus em morubixabas, sem flecha e sem tacape em trégua permanente com os dois maiores inimigos desta Província, que são a Natureza e a Corte. Você está vendo aquela empena?... Ali, ho­mem! No campo da Amélia. Aquela empena com andaimes... É uma casa que estou construindo, à custa de rigorosa parcimônia. O fim dela será cair em mãos da oligarquia dinheirosa. Quem edifica é o pequeno bur­guês. O grande possui a favila do capital. Não constrói, nem planta. Abo­canha depois com a hipoteca.

— Homem, isto é muita afoiteza, seu Fernandes! E que serviço útil presta você com a sua farmácia?

— Concordo, é um meio de exploração, como o seu.

E de paradoxo em paradoxo, um chegou ao fim do cigarro, queteve de reacender mais de uma vez, e o outro a fungar umas três pitadas atroantes.

O Fernandes, riscando um fósforo, lembrou-se do cálculo que fizera, das ripas que havia de comprar para a coberta da casa.

— Hein, homem? Estará certo? Deixa-me ver... De dez em dez po­legadas, um caibro... são cinqüenta palmos... cinco vezes oito...

E com a pontinha carbonizada do palito do fósforo escreveu uns al­garismos na parede.

Desceram devagarinho, porque as escadas eram muito em pé. Findo o ato, concordaram prazo-dado para assistir de noite à Procissão do En­terro. E enfarpelados no pano fino, ambos tomaram para suas casas, cada um com sua mulher à banda. Haviam ajustado reunir no sobrado do fi­nado Senador Sucupira, de onde gozariam do espetáculo.

Realmente, obra de sete e meia, apontou o séquito ao fim da rua.

Provocava uma sensação peregrina aquele funeral por defunto su-positivo. A cidade profundava ainda mais o religioso silêncio do dia. Uma cruz negra abria o saimento, com a nívea toalha que cingira os rins do Morto, de um braço a outro estendida. Vinham pelas coxias duas intér­minas fieiras de irmandades, de vela acesa. O menino da Verônica espilongava o seu tiple, ao ruído seco e horripilante da matraca, e três me­ninos mais, também metidos em filós negros, representando as santas mulheres, respondiam. Ehu, ehu, Salvator noster. O andor da Mãe Dolorosa, o pálio solene e munificente, o Bispo com a fronte embuçada de luto, os sacerdotes cantando, o mover das velas pelo manso, o frio luzir das baionetas da guarda de honra, o pulsar gemente da marcha fúnebre, o mulherio, e, atrás de tudo, a tona enorme de cabeças de homens, a descoberto, fronte baixa, imbuíam estranho recolhimento e compunção.

O grupo encorujado nos balandraus da Misericórdia, com o pálio roxo, franjado de ouro, pairando sobre o esquife de rendilhadas de jaca­randá através dos quais, a luz dos lampiões sagrados, se percebia no transparente esfumilho do filó preto, o alvo corpo nu de Jesus morto, era de uma arte perfeita, e espalhava por onde ia passando a Procissão um vago e plácido sentir de boa morte.

Recolhida a procissão, a Fabiana, que ficara na Igreja, ouvia, de uma das suas varandas, o chamado sermão da Soledade, em que o pre­gador em certo ponto, desenrola ao auditório soluçante o Sudário san­grento que serviu ao corpo de Jesus. Fabiana chorou o seu tanto, enxu­gou o nariz com o lenço bordado, tossicou, escarrou, desobstruiu-se de manso. E daí tomou o seu carro e foi embora.

Seguiram se os ruídos valpurgianos costumeiros daquela noite. A tradição e o costume populares iam cumprir-se na rua, como no templo, a rubrica. Aos devotos estavam suspensos os gozos da carne, parado o riso, fazia-se treva na alma. No ripanço anônimo da plebe e rapazio ia entrar o diabolismo, os tumultos, a orgia, a inferneira da grande pândega do Judas. O arrabalde não dormia. O sítio do Bispo, os quintais da Rua de Baixo, as chácaras dos arredores, eram assaltados pela troça em gru­pos, de calça arregaçada, facão em punho, e chapéu nos olhos. A noite, como no oceano o ruído das vagas, vibrava de gritaria, de apitos, de gol­pes de machado. Em vão a pequena polícia da cidade, abugalhava no escuro dos bairros. Era um conluio de gente de gravata limpa, disfarçada em canalha, que atravessava uma rua furtando um judas, uma malta de aracatienses, na serração da velha, fazendo uma algazarra de arrepiar cabelo, na porta de algum octogenário, a serrar num barril, e convidá-lo "para morrer, que já era tempo"; uma noite selvagem, tapuia, aprecia­díssima. Serraram o coitado do João de Paula, e o seu ex-futuro genro estava no meio. O cego idiota, mesmo receando isso, que é uma noite aquela dos velhos dormirem apavorados, albergara-se em casa de um padre idoso, venerando e bonachão. Mas foi baldado. A uma hora da ma­drugada bateu aí a matilha, e glosou por todos os modos a iminência da morte para o velho, com cantigas e duetos acompanhando a azucrinação do serrote cego no corpo ressoante do barril. Desafinado e tredo vaivém. O João de Paula conheceu a voz do Batistinha.

— Ai como demudas, roda da fortuna!

Quando Antônia era viva, que o Batistinha vivia fascinado, agradava até ao cachorrinho da palhoça do cego, a todos queria, às irmãs da An­tônia, às sobrinhas da Antônia, a tudo que cheirava a Antônia.

— O mundo vira e revira mesmo como aquele barril que eles serram!

Por fim o padre-mestre entreabriu a rótula, botou a cabeça, e amostrando à luz do gás exterior a sua calva salpicada de cãs, levantou os óculos, e falou para a motinada:

— Oh! ladrões, como é que vocês insultam desse modo a gente ve­lha? Que é da educação cristã que receberam?

Isso foi num abrir e fechar de olhos. O bando, ao clarear da rótula, não esperou que aí aparecesse alguém, e debandou a toda carreira, com barris e tudo, a desaparecer na esquina soltando uma gargalhada sufo­cada e garota.

Voltaram uma hora depois, e então o padre, a conselho do mendigo, carregou a espingarda, e o outro abrindo, com tato de cego, uma brechi­nha do postigo, o reverendo papocou-lhes um tiro de sal. Feriu o Batistinha no ombro. Este soltou um grito de

— Assassino!

E dispararam então numa tropelia de gado espantado, sacudidos longe pelo medo.

— Assassino és tu e o teu patrão! gritou o cego, armado de bastão, pulando da porta na calçada, saltando em campo. A mola do ódio e da revindita impelira o coitado, e ai de quem o afrontasse naquele instante.

— Anda infame! Cachorro, ladrão, ladrão! Anda com todos os Vis­condes de São Galo!

Aquela palavra explosiva ladrão, ele a pronunciava com uma dúzia de aa e rr. A polícia acudiu, tarde.

Pela manhã faltavam galinhas e um peru no poleiro do padre; A im­prensa e meio mundo levaram a mal terem serrado o padre velho, sem notar que o atentado fora feito antes ao pobre cego e não a Sua Reve­rendíssima. Assim, as simpatias convergiram para o dono da casa, e o mendigo, claro dia, saiu a continuar na sua missão, com a viola debaixo do braço para tanger o rasgado logo ao depois da aleluia.

Os dois amigos voltaram aos atos da Sé, glosando as diferentes no­tícias dos incidentes da noite velha, ora rindo, ora glosando censuras.

Ao romper do dia a Catedral e matriz estava repleta. À porta, do lado exterior, o Bispo diocesano com os padres paramentados, irmanda­des, autoridades, etc. proferia a benção do Fogo novo, em que acendia-se o enorme círio pascal, conduzido por um seminarista. O patamar estava cheio de gente, e os mendigos clamavam a esmola pelo amor de Deus. Desse belveder apanhava-se quase um círculo do matutino panorama. Não apontava ainda o corpo do sol. O dia, porém, clareava em diversos pontos o espetáculo dos Judas enforcados. Ao longo da Rua das Flores distinguia-se dois, fora os que, na distância, confundiam-se nos matos dos sítios em que os metiam, para além do Campo da Amélia.

O Cerimonial entrou na Igreja. Iam agora benzer a água. Os dois, porém, preferiram ficar tomando fresco do lado de fora, porque já conhe­ciam muito aquilo, e a curiosidade movia-os antes para apreciar o mo vimento exterior da original manhã de sábado de Aleluia. Na Apertada Hora, uma ladeira de pó escuro ao lado sul da Catedral, havia três Judas, isto antes de morrer o aclive na esplanada do Outeiro. Nesta, à porta de uma taverna, bem edificado e uniforme casarão da marca da Câmara, reverdecia um pompudo sítio, de cujo meio esgueirava robusta força, da qual o braço esquálido suspendia um Judas, macho, e um Judas, fêmea. O chamado sítio de Judas era uma possível quantidade de bananeiras, de canas com as lindas palhas verdes, de palmas de coqueiros, a mor das vezes entrançadas e fazendo arcada, de galhos da mangueira, de goiabeira, e de toda espécie, obtidos no assalto noturno feito ao quintais, chácaras e sítios, representando, talvez, o horto em que se enforcou provavelmente o amaldiçoado Iscariotes. Por todos os ângulos da visão ocu­lar encontrava-se, perto ou distante, o cadáver pendente de um boneco enforcado, enfarpelado em paletó e gravata, pode ser que para exemplo ao Iscariotes do eterno Cristo que renasce diariamente nas pessoas dos

mártires da vida, como obtemperou o Fernandes. Para a prolongada su­bida do Outeiro da Prainha, dónde o visionário olho do sol chamejante ainda uma vez subia a derramar a sua gargalhada e sua miríade candente de farpas, a luz fimbriava em silhuetas um Judas de fraque com a cara sumida num chapéu alto, sozinho no fundo azul do céu. Debaixo esga­Ihavam ateiras em tòrno de uma alegre choupana. Perto do Palácio do Bispo, quase na frente, por trás do paredão que serve de assento a Sé, havia um, cuja máscara era uma cara de ancião, com bigode e pera, chapéu-do-chile, sobrecasaca de pano fino, botinas de cordavão, calças de casimira cinzenta, e luvas de pelica, os dedos muito duros, para fora. O vento agitava-os para um lado e para o outro. Ao espetáculo insistente dos bonecos enforcados, apoderava-se insidiosamente do Osório a idéia de enforcados de verdade, em carne e osso.

Foi tempo que rompeu a Aleluia, com um grande gozo para os co­rações oprimidos. Foram, ato contínuo, atassalhados os Judas pela mo­lequeira desenfreada. Só se ouviu, então, algazarra de repicaria em todas as igrejas, foguetaria no ar, salvas da fortaleza, tiros de bomba ar­rebentando as entranhas dos bonecos, um atroamento enorme e prolongado que parecia agitar até a tolda do firmamento. Estremecera a lousa do sepulcro. Mais nada. Fumegava de vários pontos o incêndio dos Iscariotes, e turmas de moleques rolavam pelo calçamento, de ca­cete em punho, batendo nos restos esmolambados do suicida em efígie.

Apareceu então por toda parte o número do Meirinho, folha picaresca, trazendo o testamento, ansiosamente esperado. No adro da Sé distribuíram-se alguns números, e o Osório muniu-se de um. O testamento do Judas era em verso, como de costume, deixando uma herança para cada pessoa geralmente conhecida na cidade, e em estilo mordaz, bre­jeiro e linguarudo. Logo que o Osório pegou no periódico, foi intentando para o que a musa popular dizia de sua pessoa. Botou os óculos, depois de limpá-los no lenço, e acostaram-se um do outro, lendo à meia voz, e estribilhando com gargalhadas e comentários cada tirada:

Deixo pra hora da morte
Do Afrodisio carnaúba
A minha forca bem forte,
Para que a seu tempo suba;
Porque em artes de dinheiro
Eu Judas não fui primeiro
E nem ele o derradeiro.

— Ah, ah, ah!

— Magnífico!

— Esplêndido!

O poeta em seguida lançava a seguinte quadra com pretensões à "palmatória do mundo":

Para o leão que na jaula
Fez a donzela em destroços
Ficam da Antônia de Paula
Debaixo do chão os ossos.

— Continua, que isto saboreia-se mais que paulada pascal!

Para não haver privança
(Neste país de vivório)
De justiça, ao meu Osório
Fica-lhe a minha balança.

— Ai que esta foi má, hein senhor desembargador?!

O homem riu:

— Meu amigo, é para todos!

— A cada um toca o seu quinhão!

— Mas isto assim indigno! Caramba!

O órgão plebeu e frascário ia de chouto com a sua bagagem de ver­saria, de léria, de chanças, com o direito e regalias dos escravos no dia das Saturnais. Do boticário Fernandes, dizia que à custa de água do pote e casca de pau, que se encontra a valer no Pajeú e na Aldeota, agenciara do compadre Zé Povinho.

"Um monte de ouro alto como os Andes."

— Nisto é que dão as liberdades, Seu Osório! batia ele com o papel, desapontado.

— Homem, não se atrepe, que isso querem eles. A quem não tem rabo de palha, prega-se, é o que dizem os nossos amigos. Muito pior do que isso tenho eu lido na imprensa séria. Ora se! Um horror! De meter à gente uns rompantes, de agarrar na rua um diabo e cosê-lo na ponta de uma faca. O bacamarte traiçoeiro de detrás das árvores, do sertão, metamorfoseou-se, mercê do civilizamento, nos duetos, verrinas e diatri­bes da imprensa limpa da capital. Não faça caso. A plebe, em nos ata­cando, está no gozo de um direito seu.

E daí, desceram o terraço da Sé, indo a escutar o João de Paula, na embocadura da Apertada Hora, desandando a violinha, numa taverna de soldados, onde há pouco a turba havia queimado um calunga.

Consumiu-se mais um mês. As chuvadas haviam empatado a obra do Fernandes, por modos que só agora houve de levantar a cumeeira. Estava ele na sua botica, um tanto nos seus azougues, para dentro e para fora, aviando os fregueses, empestado pelo humor negro das caseiras. Uma quizila, quando o Fernandes estava com as ditas. Parecia-lhe ser todo intestinos, e o asco subia-lhe até aos escaninhos das idéias. Helênea beleza se lhe desvendando ali, Aspásia entre os juizes, ele a con. denaria ainda assim, e tamanhas incongruências baforavam-lhe as al­morreimas pelo espírito acima!

Se não fora a boa fama das suas drogas e preparados, ninguém se atreveria a pôr-lhe o pé na soleira. Além disso, mercava com unhas de fome. Este último distintivo deu azo até a anedota de que um roceiro, indo comprar-lhe um purgante de óleo de rícino, pediu que botasse mai­orzinho, que era para gente pobre; ao que o farmacopola respondeu que aquilo não era leite batizado, se queria com lavagem, era ir ao Chico Fo­cinho, que vendia azeite de carrapato muito bom para purgar animais.

Agora, ali mesmo, um menino pedira um vomitório de puaia, e como não trouxesse o dinheiro inteirado, ele despachou-o:

— Não há de venda.

A sua boa estrela, porém, fez o Osório ir atravessando a praça. Ele deu fé e gritou:

— Desembargador!

O magistrado olhou em torno de si, procurando donde viera o cha­mado. A um segundo apelo fez-se para lá. Tão depressa entrava o Osório na botica, o Fernandes vinha de dentro enfiando o paletó, com o chapéu atirado à cabeça. Deu algumas ordens ao caixeiro, e largaram ambos ci­dade adentro.

— Quero mostrar-te a obra como vai. Há de haver por lá hoje a sua pinga e, algum trompaço de mais.

— É não lhes dar bebida.

— Como? se é uso! É de mau agouro cumeeira sem festa. — Bem sei. Arrotaste contra as credulidades.

— Tolo não sou eu.

Hora sem sombra, a calçada exalava um calorzinho já, e parecia tinir sobre os tacões. O Passeio Público aparecia lá ao fim da rua, com a sua massa de árvores barreada pela fita rósea do gradil. Dele, esten­dia-se o céu azul, com umas sardas de neve altíssima.

A safra atulhava a cidade. Os cargueiros gritavam para as caval­gaduras, a desviar dos combustores no dobrar das ruas, e com estalos de chiqueirador sustentavam o brio da tropa. Nos armazéns do São Galo estavam a baixo comboios, e no de açúcar, com a frente roxo-terra e te­lhado enegrecido, tudo parecia lubrificado com melaço, as cangalhas e o pêlo das bestas, o lombo dos trabalhadores, o chão, o pé da parede. O Batistinha, de roupa engomada e lápis em punho mandava recolher as sacas, e tomava nota das pesações. Brilhava, como dorso de enormes lampreias, o meio corpo a nu dos carregadores.

O seu Lucas, de opa verde, atravessava aquele atravancamento, pedindo numa toada só:

— Para a missa das almas. Para a missa das almas.

Avistando o Desembargador, correu-lhe ao encontro, e desancou-o com a sua prosa familiar e interminável. O Osório não podendo evitá-lo, fez sinal ao Fernandes, e descartaram-se breve do importuno. Continua­ram. E o Lucas prosseguiu no giro naturalíssimo da sua índole de mosca.

Uns foguetes subiam quase invisíveis no azul, e estalavam lá em cima uma brasa que se apagava logo, deixando uma fumacinha. A soalheira tremia na vista.

Com pouco, os dois pisavam no campo da Amélia, continuação da chapada em que assenta meia Fortaleza. Uma risca de mar aparecia em guardapisa ao rés do terreno, e os materiais do Caminho de Ferro, com a Estação, atravancavam para aí. Na face poente, o Cemitério Velho ale vantava um belo horto de casuarinas, ao sopé das areias ingentes do morro do Croatá. E a vista se perdia por matos e casebres, terras adentro. Ao longe, no verde, o Cemitério Novo, com ar de chácara.

— Lá está a obra, aquelas duas empenas naquele terreno devoluto. Aqui para o Nascente.

— Estás construindo casa do lado do sol!

— Para família é das melhores. São vinte mil-réis certinhos por mês. Uma sala, duas camarinhas, sala de jantar, cozinha, despensa e alpen­dre. Corredor lavado. Quintal de meio quarteirão. Telha vã, e pavimento de tijolo.

Via-se logo os dois enormes panos paralelos de alvenaria em preto, com a frente e os andaimes, com a viga mestra, e tudo embandeirado. No meio da rua estendiam-se compridas linhas de carnaúba, e amontoa­va-se tijolo branco, e carradas de barro.

O serviço estava parado, com a pagodeira. Três portas de frente. No interior, o sol, pendido para o lado, projetava sombra a meio na areia escura, salpicada de bandas de tijolo, e embaraçada de ripas, e cordas de poita. Aí os pedreiros, serventes e carpinas faziam correr o copo e me­rendavam pão, sardinhas, queijo e goiabada, tudo comprado na venda próxima. Chegava o Fernandes, e a gritar:

— Ó seu mestre, isto vai ou não vai? Acabem com essa borracheira, e linhas arriba! Olhem o inverno que me arrasa tudo.

E dando com uns milheiros de telha arrumadinhos ao sopé da parede:

— Estas chegarão? Amanhã vem o resto dos caibros, sem falta ne­nhuma. Comprei ripas no Aracati, de carnaúba madura, que acha?

O Fernandes tinha um medo, quando cuidava que a chuva ia derru­bar-lhe os oitōes. O mestre pedreiro, afastado do bródio, examinava as linhas que haviam de subir, e combinava com os dois carpinas.

— O dia hoje está muito aziago! bradou o amassador de barro, erguendo-se do conluio, a palitar os dentes com um fósforo. Quem ouve ler o diabo daquele jornal, não sei como tem ainda coragem para traba­lhar num dia destes!

Referia-se a uma notícia que a Oportunidade trazia, de uma morte no Caminho de Ferro, ali mesmo naquela praça.

— É por isto que eles não estão alegres como eu esperava! explicou a si mesmo o Osório, que estivera a espiar para uns fundos dos quintais.

De fato, aquela desgraça era o escândalo do dia. O Osório, que não havia pegado nas folhas, pediu uma que um pedreiro estava a soletrar. E largou a ler:

"HORRENDO ASSASSINATO!"

"Esta noite, estando esta folha já em paginação, espalhou-se o boato de que o trem de carga chegado s onze horas, quando devia chegar s nove, matou friamente a um homem de cor branca, já perto da Estação. Julgando exagerado o boato, pois estávamos longe de acreditar em tanta perversidade e malvadeza, mandamos indagar, colher as devidas infor­mações das autoridades competentes.

"Desgraçadamente a verdade ainda era mais crua! Um crime espantoso! Estamos dispostos a profligar até a última! É preciso que o governo tome sérias providências, do contrário, daqui a pouco, os trens sairão dos seus trilhos e entrarão pela cidade esmagando aos cidadãos inermes e às criancinhas inocentes, a mulheres e velhos.

"A vítima chamava-se João de tal. Era cego, vejam bem, era cego! Horresco referens... Vivia da caridade pública, e andava por uns sessenta e tantos anos de idade. Julga-se que tivesse errado o caminho, pois ele gabava-se de andar só, quando o trem fatal veio cortar-lhe para nunca mais as doçuras da existência! Chegou a gritar, sentindo-se perseguido pelo trem, e isso com tempo de parar-se ainda o monstro de ferro. Na­quele ponto a linha faz uma grande curva, de modo que o infeliz julgando que o trem vinha era em linha reta, tomava para o lado e caía justamente no caminho da máquina sem entranhas! O cadáver foi arremessado a uns montes de madeira, em mísero estado de deformação!

"A autópsia, ou antes o corpo de delito, foi feito, sendo o cadáver recolhido à Santa Casa, pelos Drs. Ambrósio e Meneses. Amanhã dá-lo-emos por extenso, se a polícia não julgar que o governo tem interesse em ocultar essa confissão tácita da sua inépcia. O maquinista fugiu. Daqui a pouco foge até a Companhia inteira com os materiais e a Estação.

O infeliz João trajava camisa de algodãozinho, muito suja, calça preta, muito puída e enlameada, e um velho sobrecasaco. Não vestia ceroula, tinha um pé calçado em uma botina rota; o outro andava talvez num chinelo, que não se encontrou. O chapéu não foi encontrado também. No uru conduzia meia libra de bacalhau e um embrulho de farinha, e meia pataca no bolso da calça, com um vintém de fumo de Baependi. Era estimadíssimo nesta cidade, de índole folgazã, e dizem que tocava muito bem viola e cantava lundus e toadas do sertão.

"Isto não se comenta! Isto não se comenta! Que fará o governo? Quosque tandem?"

— E não se comenta mesmo! suspirava o Osório, numa coita instantânea. O Fernandes, apreensivo por inteiro com a sua obra, levou o caso à conta dos lucros e perdas no razão da vida.

— São acontecimentos infinitésimos perante o Grande Todo. Deixe lá isso, e ande ver como as linhas vão subir num pronto para ir tomar o seus lugares na coberta. Esse pobre mendigo foi eliminado da equação dos vivos, porque assim devia ser. E o mais não passa de cavilação da sua parte, de jogo do seu jornal, ou de egoísmo de nós todos. Cada um brada contra o desastre, não com pesar pelo cego, sim por medo de que a si aconteça o mesmo!

O mestre da obra largara a bater boca açulando os operários para o serviço.

— Acabem com isso! Eu quero estas linhas todas em riba, hoje mesmo!

E era ralhos a torto e a direito, como um antigo mestre-escola. De vez em quando borbotava-lhe uma graça, de que os operários riam, para ser-lhe agradável, porque sempre se deve achar bom aquilo que vem do alto.

— Tenham paciência. O inverno aí vem, se a gente não aproveitar a estiada, lá se vai o dinheiro do homem. Este cá não é ladrão. Se não fosse pro mó disso, não se trabalhava mais hoje. Mas não hai jeito. Eis! Linhas arriba! Vamos, senhores! Toca!

Breve, roçagando ao fio das três carnaúbas inclinadas do meio da rua para o cimo da frente, subiam, linha por linha. Deitavam uma viga ao longo do sopé daquelas três que estabeleciam o plano inclinado, e sungavam-na, por cordas. Um íntimo prazerzinho para o Fernandes, que acompanhava com a vista aos menores movimentos, e dava apartes e votos.

— Puxa mais da esquerda!

— Ó seu mestre, porque razão não vai logo distribuindo as linhas pelos pontos onde devem ficar?

O outro olhava para o Caminho de Ferro, ali defronte, onde havia expirado o seu compadre João. Assim morreu o pai da sua afilhada Antônia, aos quais ele não foi bom em coisa nenhuma, apesar do seu bom coração. Agora, se o cego não sucumbira, havia de fazer-lhe muitos benefícios.

E delineava se ante o padrinho a imagem da sua loura afilhada. E reconstruiu se um passado inteiro. Abalavam-no as notas dramáticas de todo aquele episódio extinto. Mas como o demo as tece! Como é que se assiste ao crescimento e educação de uma rapariga, se a vê cair, apodrecer, esvair no pó, e é-se impassível? Como é que só agora ele via abugalhava, com uma inspirada e dolorida lucidez de poeta?

Ali pertinho, sobre os trilhos ainda manchados de sangue fresco erigia-se um castelo de recordações, que derruíam num sopro. A Antônia caminhava para ele Osório, sem jamais chegar, a pedir-lhe a benção, com aquelas feições coradas e aquele andar faceiro que lhe eram naturais em vida, e o pai vagabundeava lá por longe com o seu uru e o seu bordão. A memória do padrinho se desdobrava e ia representando coisinhas da Antônia, umas cenas domésticas muito á toa, que entretanto iluminava-se acentuadamente na fantasmagoria do ideoso, um cacoete porque a re­preendiam, uma ação má que ela perpetrasse, um elogio que mereceu, e o todo aparecia lógico, explicado, simpático, pela unidade das impressões. Percorriam a rede sensória do Desembargador os mesmos impulsos inenarráveis que diante do esquife do Senhor Morto, na Procissão do Enterro.

O mormaço intenseava, porém. O sol batia mesmo de chapa. Se­guro de que o serviço ia a bom correr, o Fernandes convidou-o a retira­rem, que fossem jantar com ele, que há muito não lhe dava essa maçada.

— Mas é preciso prevenir em casa a minha mulher.

— Passamos por lá.

E fizeram torna-viagem.

— Ohoi, uhoi! cantavam compassadamente os operários, trepados no arcabouço de alvenaria a içar as vigas, manobrando, a puxar por enor­mes cordas de poita. Era uma interjeição, ohoi, e o madeiro galgar mais uma braçada acima.

O Osório e o Fernandes encontraram outra vez o Seu Lucas, zum­bindo pela Rua Formosa, de porta em porta:

— Para a missa das almas. Para a missa das almas.

Abaixo do cordão das calçadas se deitava a areia frouxa, ao longo das coxias, misturada de cisco e de folhas das árvores das praças. O Lu­cas, por um triz, não foi apanhado, ao atravessar a rua, por uma carroça escoteira a disparada, cujo condutor, um Apolo no seu carro de fogo, de pé, roupas ao vento, estalava o relho no pêlo do burro galopante. O cal­çamento coleava abaulado embutido largamente por entre as casarias flamejantes. As ruas trepidavam, rasas de calor, e delas via-se pedaços abaixados, assim como seios de rede, onde modorrasse um farniente e­quatorial. Havia uma salientação geral sob o grande olho do sol, e a vista humana trazia velozmente os mais imperceptíveis longes. O vento corria no encalce da luz, adjutoriando-a no hino das coisas; levantava o pó, aba-tia o, limpava aquilo que ele mesmo inquinara; disparava de cabelo solto e mangas desabotoadas, apertava contra as vestimentas, esculpia fore s femininas teimando contra as coisas, e dispersava alegremente pelos arrabaldes; cujos toques se avistavam pregadinhos no céu, que sorria longe na sua calma antiga.

Da fita das cimalhas esguinchavam os serpentões, que parecia en­golirem o ar quente, aspirando com as dentaduras longamente a escâncaras.

As platibandas realçavam coroando linhas inteiras de habitações térreas e agrupações de sobrados. Os beirais se empinavam, como der­ramando goteiras de luz, as telhas embeiçadinhas em farto aconchego.

O deslumbramento se identificava com as pessoas.

— Arre! bradava o Fernandes, que a gente parece ter sol dentro de si mesmo!

Em alvos roupões, transitavam nuvens para o frio clima das serras. Um vôo de pombozinhos, batendo compassadamente no fresco azul, ia e vinha, amostrando ora o peito ora o leme da cauda, agitando sempre, quais bracinhos de neve, as brancas asas.

Com a sua opa verde, o Lucas inda sussurava como uma enorme vareja:

— Para a missa das almas. Para a missa das almas.

Verdade, verdade, verdade, aqueles alegrões de cego, a truanear pela Feira, pelas tavernas, pelas esquinas, de viola, eram antes fogachos de uma candeia que se extinguia. Não eram vitalidade, sim irritação. Não existir, mas estertorar. Por isso é que se lhe não podiam despegar da car­ranca, as voadas de um riso claro, como umas asas de garça. Naquele frontispício os caracteres do Lasciate ogni speranza sulcavam chamejan­tes da febre derradeira. Planeta que desnorteasse, e entrasse em cam­balhotas, a confundir no plano do equador a linha dos pólos em doidos movimentos, aquele crânio gelava e incandescia, negregava e fulminava. E como o rojão de artifício havia rebumbar, deixando após si o silêncio do nada. Mola impendente equilibrada no gume de um tabique a prumo, ao menor sussurro de uma pancada, despenharia, como desabam as bar­reiras de uma escavação. Barragem arruinada de uma represa, abriria ao primeiro enxurro assoberbante. À primeira idéia má que se lhe pegasse, Como o estopim da metralha, aquele cérebro havia estilhaçar. Andava, dormia, desfrutava os seus sentidos e o seu viver, ao passo que sobressaltava se de que alguma coisa dentro dele não partilhava disto. Era a modo que dois indivíduos, e não um; aspirando pela vida, com os seus gozos ligados às suas necessidades, uma força oculta atarraxava-o dorida inação, que ele só vencia por crises de alacridade; e ficava consigo semelhante a um homem do lado de fora de sua casa, cuja porta não há jeito abrir. Daí, um mal-estar do inferno, um suplício que ou acabava ou dava com ele na cova.

Em aquele dia da sua desastrosa morte, amanhecera com todas as boas disposições. Dormiu em casa do padre velho. Acordou ao ruído aca­riciador de uma chuva no telhado, e depreendeu que iam-lhe quadrando bem os momentos. Afinou a viola, e, à corrida dos canários e de outros passarinhos presos, harmonizou a alvorada de um baião pelo brando, como se dançassem ali umas sílfides, uns espíritos de donzelas e de anjinhos, em idealidades de quem não vê com os olhos perecíveis.

O padre não saiu para celebrar, por via da chuva, o que rendeu ao cego fazer-lhe companhia no café e na isca.

Á medida que o sol esquentava, porém, o João ia ficando ruim de humor.

Costumava acocorar à sombra de alguma árvore da Feira, se não achava uma conversa que lhe sustentasse o ânimo.

Sempre que bebia, fazia ato de atrição depois de curtir a mona, por­que a aguardente servia de agravar-lhe a saúde e negregar-lhe o espírito, passada a excitação do veneno. Era um contínuo protestar vida chã e regrada, e um incessante desmentido.

Impressionava-o uma certa alteração que ele atribuía aos próprios ouvidos. Mouco, isso não estava, com certeza. Que diabo então? E logo esse o ouvido! que com gosto de comer e beber, constituíam o veículo por onde ao cego se comunicava a vida (pois que, desde a morte da Antônia, nunca mais sonhou de amores)! Os ruídos e sons lhe chegavam, não impressionando, não comovendo, não arroubando. Porventura não subiriam aos nichos? O João achava-se agora estranho a coisas que ele conhecia como as palmas das suas mãos.

Caminhando, pendia um pouco para o lado, como a galinha a que deu o ar do vento. Semelhava ao pignon das velhas casinhas de palha em meio s novas edificações.

Ia bolinando, mar em fora. A cabeça porém, em vez de fazer parte do barco, era um passageiro exigente.

Grande pesar o assaltava, quando sob as colunas do pórtico da As sembléia, recostado ao grosso umbral de cantaria, fazia por gozar da vida ambiente. Impossível identificar-se com o mundo exterior, por mais esfor­ços que empregasse! Para o chio das árvores, para o rodar de uma sege, para o bater de um saltinho alto, calçada acima, a vozeria dos passantes, os sons musicais, para tudo isso, que anteriormente lhe acendia no cer­rado do cérebro idéias, cores, grisódios, fisionomias, aromas, delícias até, hoje em dia ele era como o corpo de um ferido calcado indiferentemente na tropelia da refrega. A tensão e a contração dos músculos no andar,os movimentos da respiração, o trabalho do estômago e do ventre, iam as vezes como uma locomotiva desenfreada, ou ficavam em calmaria po­dre. A consciência teimava em não tomar conhecimento nem mesmo do trabalho corporal; como um fidalgo espadachim viveur e sibarita, que aban­donasse a direção dos bens ao mordomo, esbanjando as rendas, com­prometendo os imóveis na unha do usurário, e deixando a soldo da ruína completa ao mau êxito de um duelo de morte, em que entregasse a vida a um ligeiro pontaço de florete.

Ia o cego, na noite em que morreu, por volta de dez horas, pela parte sul do campo da Amélia, calçamento em fora, aproando para o cemitério Novo, que era justamente o termo daquela estrada empedrada. Havia espicaçado a viola num combustor, a um rompante desasizado. E dera-lhe no destino ir deitar sobre a sepultura da filha, como coisa que o cemitério não estivesse fechado. Mas havia de pular o gradil, e descer pela série de catacumbas ligadas à muralha. Acertaria com a cova da menina, que era bem debaixo de um cajueiro, quarenta passos a contar do fundo da capela. Deliberou que faria aquilo dali por diante, todas as noites; era o único desejo em que ele sentia o voto unânime de toda a sua pessoa. E largou, batendo com o bastão por aqui e por ali. Perto da linha férrea, tropeçou em umas achas de lenha, e sentou-se. Muito ao longe apitava o trem.

O homem da agulha, com o seu lampião de cor, ficava-lhe por trás do montão, de lenha e de estacas de sabiá, descarregadas pela manhã, de Maracanaú. O cego não fazia apreensão ao que ouvia e no que to cava. O seu espírito se despregara, e vinha na dianteira do trem, como o servo que foi a buscar uma sege para o amo. No Cemitério Velho as casuarinas gemiam longamente, com um silvo dolente e suave. O mar produzia o atrito de um tramway gigantesco. O homem da agulha assobiava na sua guarita. Se o João tivera vista, enxergaria atrás de si, desatan­do-se da praça, a bela iluminação da Rua das Flores, desenrolada cidade adentro, duas cintilantes cadeias de elos de estrelas, um lustre de festas.

O trem gritava mais perto, como se repetisse: Aqui vou.., aqui vou... em longo fôlego, dando a cada vogal o valor de três ou mais semibreves com ligaduras e com andamento largo. O homem da agulha viu apontar o farol. Faltavam dois quilômetros somente. Mais perto, o apito bradou forte. O cego entendia perfeitamente o apito gritar longamente: Já vou, já vou.

Se destacava o debater do monstro esbaforido, o ranger das juntu­ras, o atrito das rodas, o roçagar das ferragens, correndo por todo ele um arrepio ao ansiar do vapor escapando pela chaminé, a cada arranco dos pistões, a cada impulso dos chavantes. Uma fascinação apoderava-se do cego. Parecia subir ao paraíso, ver muita claridade, destacar vultos, reconhecer fisionomias... Iam-no carregando céu arriba... Positivamente,

a modo que dois braços macios e poderosos haviam-no erguido.., ele sustentou-se, como as rodas da máquina obedecem ao jorro dos cilindros. Fizeram-no caminhar, como a criança pelo carrinho que ensina a mudar as pernas... O trem internava-se pela cidade, como um furacão. A cidade adormecia entretanto. Faltava um nada.

O João argumentava equivalente a uma súcia de demônios; e con­cluía que não seria mau se atravessasse no trilho a sua existência aca­bada. Era apenas uma formalidade, que ele já não vivia. Podia ser que nem doesse. E depois, era tão rápido... Uma vertigem, apenas. Parecia que todo mundo estava com os olhos nele, como se ele fora deitar proeza em um circo. Amigos, desconhecidos, conhecidos, parentes, inimigos, estavam a admirá-lo, e depois do caso passado, o nome dele ia de boca em boca. Os espectadores queriam medir-lhe a coragem, para sair dizendo como foi. Mas o quê? ali não estava ninguém. Apenas o mendigo, enco­berto pelo monte de madeiras. Pois bem, o caso seria narrado por con­jeturas, e entrava o mistério, a maravilha. Aquele ser estava devastado por uma idéia fixa.

O trem vinha quase em cima. Uma passada mais, e o cego ficava-lhe debaixo. O homem teve um arranco de voltar. Era tarde! Caiu sorratei­ramente, e pelo manso, como um cadáver desce à sepultura. O trem pa­rece que soltou um urro, como um gigante que sofresse uma topada na unha. O limpa-trilho agarrara, mais breve que um relâmpago, o mole corpo do suicida, que por uma ligeira curva de repulsão, foi sacudi-lo para o monte de paus, onde a ponta aguçada de uma estaca de sabiá varou-Ihe o crânio pelo cerebelo.

FINIS, LAUS DEO.