A Afilhada/III

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A Afilhada por Manuel de Oliveira Paiva
Capítulo III

Em uma de suas cartas indagava o Centu se já estava concluído o Passeio Público, e lastimava de que a Mariinha lhe escrevesse com uma sovinagem de agiota. A morena sorriu com isso, pois um tal queixume era pródromo de uro seguro triunfo. Papocou-Ihe uma cartapácio que era ver uma brochura, com o destino calculado de revelar-se pessoa engra­çada e de chiste. Para documento de que esse rasgo de expansibilidade não era extemporão nem leviano, tinha para si que as palavras do ma-cebo cancionavam assaz a independência e a dignidade do seu afeto de mulher de siso. Empregou expressões notoriamente simplórias e ingênuas, e de propósito andou a despropositar.

Lembrava-se da Ângela? Aquela cabrinha airosa e espevitada que era com a Antônia o ai Jesus! da Mamãe? Pois pegou a ficar ruim, mal ouvida, e pediu para pagar semana, até que uma tarde, muito pimpona e bem vestida, veio com dinheiro para se forrar. Isso há cerca de seis meses. Dera à luz na semana passada, em uns cafundós do Beco das Trincheiras, donde se dizem coisas que moça não pode ouvir. Mamãe estava arrependida de a ter alforriado, porque ficou sem a cria.

O tal de Afrodísio pouco ia lá em casa, apesar de que mamãe che­gara a pontos de me sacudir nas ventas que eu casava com ele e por força ou por vontade.

Eu tive uma raiva! Ora você já não viu? Ela obriga a ninguém lá o quê! Porém resolveu não dar cavaco. É como se não fosse comigo. Devia responder como a Antônia, que também queriam casar à força com o João Batista.

— Diabo é quem quer!

Daí a Mariinha fartou-se. Mas não disse o que desejava. Entretanto, o primo veio ao Ceará antes do que se pensava. Arribou ali pelo meado de novembro, achacado de beribéri. Um gáudio para a Dorzinha! Mas a princípio, quando o pai mostrou-lhe o telegrama do Pará, em que o rapaz dizia Sigo doente Fortaleza, ela sentiu na alma um profundo gemido. Imaginava-o morto nos seus braços, e ela, como a Senhora da Soledade, Riste, chorosa, inconsolável, desejava realmente sete espadas que a transpassassem para o outro mundo. Sonhou que morriam ambos, e iam para a mesma sepultura. Era daquela natureza o sonhar-se feliz, mesmo na maior desgraça.

Mas qual! O Centu desembarcou andando, apenas arrimado à ben­gala. Trazia um terno de casimira cor de café, paletó curto, e chapéu de palhinha. Parecia um caixeiro de mercearia. Caminhando devagar, firman­do o bastão a cada passada, as pernas muito moles, bambeando ao mudá-las, e envergando o tronco para trás ao assentar o pé, era mesmo de provocar o riso. Mas a Mariinha, que estava na janela, quando ele apontou na esquina, teve um ímpeto de dor. Que pena! Como ele foi, e como ele vem!

— Eu bem dizia! Vê-lo assim exposto aos olhares indiscretos, com uma moléstia que faz o andar tão ridículo.

As janelas eram altas, e ele de longe conheceu a casa pela frente de azulejo, e pelos dragões de cobre da cornija. Abriu um sorriso quando sentiu o olhar da Mariinha, e achou logo um encanto extraordinário num pedaço de braço nu que ela debruçava na janela. E que mãos, que pa­reciam entrar-lhe por dentro e remexer na bagagem do peito, examinando, pesquisando tudo, a ver se havia algum afeto estranho!

Parecia não fazer caso de si, e era toda olhos para ele. Notou-lhe bem a vista úmida de comoção. Passados mais de dois anos, sem esperar, o acaso de uma moléstia! Quando enfrentou com a janela, a me­nina ergueu-se na carreira para esperá-lo na porta da sala. Não se con­teve. Ao subir os três degraus da entrada, desceu e veio ajudá-lo. Pegou-o pelo braço, apertando.

— Que Cireneu que é você, Mariinha!

— Podes dizer, concluiu o Osório, que o ajudava pelo outro lado, tendo-lhe tomado a bengala. Disto é que eles se fazem. O melhor Cireneu para o nosso Calvário é uma boa mulher.

Mariinha corou.

Na sala, o doente sentou-se, tomando fôlego. Deu um assobio de satisfação, e um ar de bem-estar:

— Agora sim... isto é outra coisa... Caramba, estou cansadíssimo.

— Toma um cálice de vinho?

— Obrigado, sorriu o mancebo, com a cabeça reclinada no espaldar da espreguiçadeira.

— Faz favor de tomar o vinho! repetiu a menina.

— Coragem, menino, isso não é nada! animava o Osório.

— Ora, fez o doente enfadado e cansado. Eu bem sei. E mesmo... agora já posso morrer!

— Não! assustou-se a Maninha. Agora é que você há de viver direito!

— Quem mo garante?

Ela respondeu num olhar.

Seguiu-se entre os dois uma fase de combate. Encontrando-se de novo, expandiram-se mais familiarmente, e ardentemente, e cada qualestava curioso, vexado, excogitando por meios indiretos, por ver se o ou-o era ainda aquele dantes, se não sobreviera alguma erva daninha, se a afeição revigorou na saudade... e à medida que a dúvida ia-se desfa­zendo, a certeza apertava as duas almas num abraço ideal e infinito.

Mas em qualquer atitude em que a menina se pusesse agora, estava sempre gravada no cérebro do moço a primeira, o modo como ela estava à janela. Pintara-se imediatamente, na imaginativa do engenheiro, uma tela de altíssimo preço, as cores inextinguíveis, eternas como sói parecer o sentimento. Ao rosto moreno, de uma luz como viram os Bu­nyan e as Teresa de Jesus, nos geniais arroubos místicos de amor divino e de glória celeste, rimava a polpa esculpida dos braços de manga curta, e o primor das mãos, mãos que falam, com unhas que provocavam beijo. Não era preciso mais. Para entrançar de uma feita os fios esparsos de um afeto, e torná-los uno, e sagrar o amor em paixão, bastava aquele caráter de aparição, simplesmente, e a doença em breve desaparecia da carne para uma outra aferrar-se no espírito.

— Que vida que eu sinto na sua presença, Mariinha!

A menina, sentada no sofá, brincando com as bolotas da almofada, perguntava-lhe traços gerais da viagem, e do território amazônico. Os dias de enjôo, o tratamento de bordo, com um disfarce de admirável sensatez. Ficou falante, como o não era senão raramente. A alegria assoberbava em idéias e em verbosidade.

— Enfim, o que me trouxe de lá? inquiriu docemente, com uma especiosa melodia de canto de ave. Muita coisa, que eu mesmo nem sei. São de nomes todos indígenas... amanhã. Tenho um vocabulário, que organizei, com as explicações que pude colher.

— Trouxe alguma coisa do que levou?

Ele esteve em não compreender.

— Já sei que ficou por lá...

Com a surpresa de ter entendido, subitamente ele bradou:

— Trouxe, trouxe. Pudera não! Tal como foi.

— Direitinho?

— Direitinhozinho.

— Queira Deus!

O pai entrava sempre no cavaco, se havia brecha para uma sentença.

Veio um moleque, tirou as botinas ao doente, e mudou-lhe as meias que estavam úmidas da jangada; ao passo que a Maninha acordava o piano, aquele saudoso piano dos primeiros tempos do enlevo.

Virou-se, depois de um longo trecho, para o primo, que sonhava com os olhos no forro:

— Sabe? diz ela argentinamente, batendo nos ombros do piano, este era o meu confidente. Misturadas com as frases da música ele ouvia coi­sas...

Mal não acabava a palavra, a donzela corria a mão novamente pelo teclado. Havia propositalmente estudado um repertório com a perfeição que era acessível, para exibir à chegada do primo. Peças que, lá no seu ver, diziam o que ela não podia nem sabia, que apenas sentia confusa mas intensamente.

— Gostou deste pedaço?

— Mas muito! É pena que eu não entenda dessa arte, nem conheça os autores.

— Isso agora é outra coisa. Eu quero é assim mesmo. O meu pro­fessor, Mr. Benoit, diz-me sempre: É melhor a senhora tocar um pequeno número de peças, boas e bem, do que pedantear em conhecer, tocar, e discorrer sobre muitos autores, que, a falar franco...

— Não deve ser tão fácil...

Pauca magna... ia sentenciando o Osório.

Quando a Fabiana chegou, ali pelas sete da noite, com a Antônia, do mês das almas, que se fazia no Santo Cruzeiro, tendo saído de casa antes do jantar e andando não sei por onde, ficou desapontada por ver o sobrinho instalado em um quarto, comunicando com o gabinete, e mais o Osório, que por esse modo abandonava a câmara nupcial. Teve ímpe­tos de perguntar se a sua casa era rancho de comboeiro ou de paruara. Se o senhor seu marido estava autorizado a meter em casa um rapaz solteiro, cujos costumes não eram conhecidos, que andou por esses mun­dos de meu Deus, com toda casta de gente. Se...

A Mariinha, porém, fez um jogo diplomático e fino:

— Mamãe, o primo Centu, sabe? Coitadinho, teve um ataque!... aqui em casa... Trouxe para o Visconde uma porção de presentes! das pri­meiras pessoas de Manaus! Mamãe sabe que o dever de hospitalidade... O papai, pegou, e disse a ele: Menino, fique aqui, ao menos por hoje...

— Pobre rapaz! fez a Fabiana comovida. Fizeste bem, filha. Ele jan­tou? E o que é que ele trouxe para o Visconde?

— Mamãe, ele jantou, mas coitado...

— Deitou fora?

— Tudo! Já veio o doutor. Disse que foi do abalo... Mas não há pe­rigo. Diz que o beribéri faz isso mesmo.

— Pois sim. Quando eu acabar de mudar o vestido, vou vê-lo. Previ­ne-o, hein.

— Papai está lá. Estão lendo as folhas de hoje.

— Que trazia ele para o Visconde! repetia a matrona.

O Centu experimentara um grande alívio estirando-se na rede, en­fronhado num chambre de chita adamascada. Não devia estar com as pernas dependuradas. A fisionomia, chupada, mostrava uma placidez fe­liz; a barba crescida esculpia-lhe uns tons cadavéricos. A cabeleira, em melenas para as frontes e sombreando por trás das orelhas, dava idéia de certos retratos de poetas. Parecia um alucinado. Entre os supercílios ne­gros, como a maré quando começa a picar, nascia verticalmente o indício de uma ruga que espraiava, entretanto, pelo moreno da testa, um ar de respeito e viril.

A Fabiana entrou com um ar taciturno; e logo que foi pondo-lhe os olhos se lhe representou perfeitamente nele o cunho de família, esse tim­bre, essa afinação, para o qual nem sempre se tem ouvido; essa espécie de segredo que desaparece na indiscrição das formas e na diversidade das educações, das convivências, dos meios de vida, dos climas e dos alimentos. Um traço, um vezo no olhar, uma particularidade vocal, uma especial disposição das juntas, ou de certos músculos, um chiste, o mor das vezes, em condições como aquela, dificilmente percebível como a primeira estrela que ao pôr do sol aparece e perdese no lato azul.

Fisgaram-se as simpatias da carta. Justamente o contrário dera-se cem a Maria das Dores, que apreendera não o primo, sim o homem, de um salto, com as oposições e semelhanças. O mal e o estudo haviam carcomido ao Centu uma boa parte do superficial, do adiposo, do adqui­rido; e a sua natureza vinha a lume, como o solo das aguadas, na eva­poração de dezembro. Firmou-se com os cotovelos na rede, e sentou-se para tomar benção a tia Fabiana, que levou-lhe aos lábios o dorso da destra rechonchuda e aromatizada com água da Colônia. O Osório parou a leitura do jornal, que era de vante a ré uma verrina contra o seu amigo Afrodísio, fazendo rir ou indignar. Maninha gostava de estar ouvindo, por ser outra quem era, apesar da visível reprovação do primo àquela degra­dação intelectual da sua gleba.

Com um gesto maternal, a Fabiana, sentada num baú, interrogava ao sobrinho sobre o seu mal e sobre a sua vida, sobre o que ele trouxe para o Visconde, e acabou penalizada pelos sofrimentos dele; entusias­mada pela sua altivez nativa, e pelo amor arraigado que ele demonstrava para o que fosse útil e bom. Mas não deu a entender. Receosa, porém, das idéias livres do primo, a Maria das Dores adiantou-se a mentir à mãe, na presença deles, obrigado a confirmar que se havia confessado e comungado em Manaus, que não perdia missa toda vez que a celebravam onde lhe fosse possível alcançar. Aumentou que o moço andara duas lé­guas em canoa, rio acima, para ouvir a missa de um missionário boliviano em uma povoação do Rio Madeira.

O pai, de mão no queixo, deixava cair o jornal, e encarava o cinismo daquela alma incapaz de proferir uma inverdade e que assim descara­damente engendrava mentiras; e com uns olhos compridos e seguros na filha, exclamava consigo mesmo:

— Que artimanhas, que veneno de serpente, não trazem estas pom­binhas no biquinho de coral!

Mas coitadas, elas entendem que o seu grande interesse é isso, é

o amor. A Fabiana levou longe a parlapatice com o rapaz. Que histórias não contou ele! Deu notícias de muitos conhecidos dela, pessoas que ha­viam tido com quê, e hoje em dia andavam por aqueles mundos como seringueiros, uns enriquecendo, outros se desgraçando a mais. Por fim, vieram a topar em assuntos de familia, e então a matrona tomou a palavra para desfiar as intérminas proezas dos seus.

O avô dela, compadre da rainha, por procuração. Um teu avô, preso para o Limoeiro, em Lisboa, no tempo das milícias. E amontava dados de nobreza.

Mariinha julgava aquele o dia mais feliz da sua vida. Não sabia o que fazer.

— Quanto mais se vive, mais se aprende, repetia-lhe o pai acen­dendo o gás do gabinete. O rancor de tua mãe pelo Vicente é porque eles nunca estiveram assim entrelaçando os espíritos peito a peito. Praza a Deus que aquilo não seja fogo de palha.

A gravidade marcial, fazia-o, com efeito, antipático; hoje viam-no descascado. Nem todos tem o dom de ser logo impressionados pelo sim­ples efeito da presença.

O Centu não ceou, porque pegou no sono, e o Osório não consentiu acordarem-no. Quando, porém, ao alvorecer, o tio se ergueu da rede, e enfiou os pés nas chinelas de trança, ele já estava, embrulhado na fres­cura dos linhos, com a vista grelada para o dia que olhava, pelos interstícios do telhado.

O médico ordenara mesmo que o doente ficasse num quarto de te­lha vã, conquanto o Osório, também entendido em Medicina, se opusesse; mas o médico era o responsável, e o desembargador, submetendo-se, proferia:

— Vejo que isso de medicina é como as senhoras mulheres: há de toda casta.

O Centu acordara com a idéia vaga, se estava ainda a bordo, ou em terra.

A paisagem amazônica, alfombrada de rios; as florestas pantano­sas e silentes, o vai-vem dos aventureiros com a sensibilidade embotada pela gana; as barracas dos seringueiros cearenses, sempre com um roçadinho ao lado, com um traço de cultura, com um indício de gente; a flora e a fauna inclassificadas; as belíssimas parasitas, e os gigantes ve­getais; a abundância de caça e de pesca; o ócio e o mal habitando o mais esplêndido eldorado; depois o Pará, com o seu afã mercantil, o seu pó vermelho, e a sua portuguesada e caboclada e o seu forasteirismo; de­pois o.oceano; o Maranhão, tradicional e rotineiro e velho e culto; e mais oceano; e enfim, o moreno colo das dunas aparecendo no azul, como um pedaço de cútis numa abertura desabotoada, e a cidade natal, risonha, clara, cheia de sol e de amor; e na janela, quando ele dobrava a esquina da rua, a Mariinha, com a pompa de seus braços e a sinceridade e o amor seus olhos, na sua fala, nos seus lábios, no menor gesto... Palavra como ele não queria levantar da rede, para não espantar aquela bruma crepuscular de sonhos verdadeiros.

Teve uma discusão com o tio, se devia tomar banho frio ou não. O tio que não, ele que sim.

— Pelo seguro não tome.

— Eu sei que não faz mal. Agora estão empregando...

— Sujo não mata ninguém. Tome banho morno.

— Mas eu apeteço é frio.

— Pois não toma... oh Mariinha!

A menina já estava na sala, a ler. Acordara, naquele dia, às cinco horas, vestira-se ao espelho, deitou essência nas mãos e no rosto, pó-de-arroz, abrira as janelas, e recebeu os bons dias da primeira claridade do sol, repassando as cartas do primo, ainda as de Baturité, a balançar-se donairosa na cadeira. Agora é que aquelas expressões valiam deveras. Como era bom o ter sofrido tanto!

Quase quatro anos, desde que o Centu chegara do Rio. O pai repetia:

— Oh Mariinha!

Ela penetrou no gabinete. Estavam os dois de pé, o Centu com a toalha de banho ao ombro.

— Achas que o teu primo deve tomar banho frio?

Ela, depois de tomar-lhe a benção, apertou indiferentemente a mão ao mancebo, voltando para o pai:

— Não senhor. Depois ele tossiu de noite.

— É uma ligeira bronquite, desculpou-se o rapaz.

— Embora. E encarando-o fixamente: Não deve tomar banho frio!

— Está bem, fez o moço, com uma cariciosa resignação de leão domado.

Fabiana fez preparar a água morna, em uma grande bacia de arame, no seu quarto. Pôs uma tábua sobre o tijolo para botar os pés, e despejou água-de-colônia, na água, e depôs na cadeira um sabonete do mais caro.

Mais tarde o barbeiro, a escambou o hóspede. E então o Centu fi­cou apresentável, com o cabelo curto, o rosto liso disfarçando a magreza. Passou o dia de blusa parda, com os canhões e gola azul, e calça branca. Em vez de boné, punha o chapéu de palha, quando, à tarde, foram a espairecer no quintal.

Antônia, a bem dizer, não existia agora naquela casa. la ficando ronceira, e alguma coisa esquecida.

Todas as noites vinham o Afrodísio, e outros a prosear com o hóspede, cujo nome começava a ser pronunciado nas rodas políticas, à vista do favor que o governo lhe dispensava. Uma noite, quando a convalescença o permitia já, dançou-se algumas quadrilhas e polcas— pela pri­meira vez em casa da Fabiana — com seis pares, porque estavam aí umas vizinhas, curiosas por travar-se com o doutor engenheiro.

Este era uma rocha para todas. Tocou, ao piano, um rapaz, antigo companheiro de casa do Centu.

Não foi sem visível tremor que o oficial recebeu no seu braço o de Maria das Dores, que foi o par da segunda.

Ela parecia estar dizendo — Agora sim!

Os seios dela chofravam positivamente na carne dele, com uma do­çura e uma intimidade confiante; e, de lado, ela, mais baixa que ele, deitava-lhe um constante olhar risonho e úmido. Foi quando conversaram direito.

— Eu queria poder magnetizá-lo!

Sério e melancólico, o Centu respondeu:

— Mais ainda?

— Sim, eu queria vê-lo magnetizado, que era para saber da verdade real! Ler o seu caráter em esqueleto.

— Como então? — fez o moço com ar ofendido.

— Queria sim.

As últimas duas palavras ela as proferiu com ardor desusado e in­fantil. Entrou a quadrilha. Aristocraticamente, ele pegou-lhe na mão, em arco, e avançaram até o meio; recuaram, e tornaram a avançar. Queria evitar o galope. Fizeram balancez, e não houve jeito; galopavam todos, inclusive o desembargador que era o vis-à-vis. Teve de suportar aquele braço ideal oprimindo-lhe o ombro, com uma força e um vigor... Não resistiu, porém. Parecia que o beribéri lhe aparecia de novo.

Finda a primeira parte, sentaram-se. Estava incapaz de dizer uma palavra. Apreendeu que até a bronquite se repetia.

Ignorava, até ali, que a matéria, a carne, possuísse aquele filtro, aquele domínio, todo estranho, que o encandeava. Não supunha que a aproximação dele com a prima, assim tão conjunta, influísse até no cé­rebro, e no organismo todo. Virou-se para a menina e desculpou-se.

— A agitação ainda não me faz bem, Maria das Dores.

— Pois dancemos devagar... O que é que você está sentindo?

— Positivamente — fez o rapaz apalpando o próprio corpo, não estou sentindo nada.

— E então?

— Estou-me alienando, me sinto estúpido...

— Muito obrigada, muito obrigada, senhor, exclamou a morena, ba­lançando com a cabeça verticalmente.

— Por quê?

— Ficou assim, é porque... estava a dançar comigo, já sei, já...

— Ora: isto só se responde com uma gargalhada. É pena que não esteja aqui o Seu Lucas, que eu mandava dar uma por mim.

— Por isso não, eu empresto uma. Quer?

— Pois me empreste lá.

— Isso queria você!... Fique sabendo que estou zangada. Ficamos mal.

E acabada a quadrilha não falaram mais um com o outro.

Ficar mal! Em um namoro tem-se os doces efeitos de uma ausên­cia. Maria das Dores, ficara com a sensibilidade de uns olhos que estão sempre a visionar, uns olhos para os quais uma centelha toma o brilho de um raio; e com susceptibilidades de uns ouvidos para os quais um mosquito zoa como uma trombeta. Bem que o Vicente não a magoasse, Maria entendeu que sim, e torceu o rosto. Contudo, arrependeu-se de negar-lhe a palavra, quando o moço perguntou, humildemente, se estava de feito zangada. Não podia voltar atrás. Ela não podia expelir aquele hu­mor, pois era uma coisa alheia à vontade, domínio da carne. Como a folha do maricá, quando a noite desce, assim murchou a alegria do mancebo. Desgraçada lembrança de dançar-se naquela noite! Como iria dor­mir, ele para quem a morena já fazia parte dos órgãos essenciais da vida?!

Já pelas onze horas tentou as pazes novamente, pedindo-lhe que tocasse um trecho do Guarani. Não se atrevendo ele a falar de frente, ela envesgou-lhe um olhar malcriado e estendeu-lhe a pontinha da Un-gua, muito entre os dois lábios.

— Desaforo! — rosnou ele.

Caminhou para a janela, a desafogar-se com o ar frio.

Debruçado para a calçada deserta, desferia em devaneios cevan­do-se na sua paixão. Ora, ali estava uma coisa que entendem por desaforo, mas que ele tinha na verdade pelo gesto mais adorável do mundo! A lingüinha de fora!... E descia às demonstrações, como em uma saba­tina escrita de matemática.

Espairecia para o longo dá rua, onde a iluminação ardia solitária, diante dos beirais e das cornijas desaparecidos na terra.

Realmente depois dos mistérios de um olhar, nem o riso, que malda; nem o suspiro, que é piegas; nem o muxoxo, que é chulo; nem o pranto, ue finge; nem os arrufos, que magoam; nem os acenos, que matos têm olhos; nem um beliscão; nem um beijo cavalheiroso e fidalgo nas costas da mãozinha... só um deitar de linguazinha por entre os beiços cálidos de amor! Que arrebite, que chiste, que melodia não cantou aquela rubra ontinha de língua que ela quisera morder à larga!

Estava disposto a tomar a língua como entidade, para a estética doseu uso; a entregar esse órgão rubicundo aos carinhos da Ciência e do Belo.

Entrou a apostrafar, pregando às estrelas, surdo aos rumores da sala:

— Não tenhas sido compreendida, veio da liberdade feminina; tu que desoprimes, imediato auxiliar das lágrimas! A tua forma é a da chama, a tua cor é a das partes mais sensíveis do ser, a tua morada inacessível! És tu que proferes aquilo que faz o nosso ímã — a palavra! Sem ti, que seria o beijo? Estás fora do regime do toucador, a moda não te estraga. Em ti reflete a saúde as suas intermitências És a aurora do coração. E o Mestre (referia-se a Jesus Cristo) escolheu a tua forma para infundir a ciência nos Apóstolos...

Virou-se. Estava a seu lado o desembargador:

— Que temos? fez este mansamente, com a sua fala de orador.

— Estava aqui a descansar... Receei sobrevir a tosse...

— Qual! Isto está que nem um tronco de aroeira!

A Fabiana aproxima-se também. Perguntou se já eram horas de des­cansar; não sacrificasse a convalescença. O sobrinho, que não, poderia permanecer acordado a noite inteira; mesmo não tinha sono absoluta­mente; se fosse deitar não pregaria olho.

— Então, batia-lhe o velho no ombro, sigamos a um pouco de cerveja. E enfiaram para o interior.

Diante da bass, provocado pela boa prosa do tio afim, sob a influên­cia do recinto, quase a sós, naquele tabernáculo de família, para ele de um raro conforto, nem assim, o Vicente estava inconversável. O pobre não sabia disfarçar; aprendera muito, mas do coração humano, e da mu­lher principalmente, não pescava um triz. Para isso, era um ingênuo. Feito na forma do ideal, pelo estudo, ai dele se o acometesse uma realidade má! O amor o atordoava. Era um recruta. Qualquer mina, ou qualquer foguetão, o desmoralizava.

Viraram o primeiro copo, em uma parolice penosa. Maria das Dores passou por eles, para o alpendre, chamando pela Antônia, e nem olhou. Porém, com o rabo do olho, viu-o perfeitamente, e notou-lhe a fisionomia muito caída. O pai chamou, e cochichou-Ihe:

— Vê o que tem o rapaz.

Ela respondeu alto:

— Ora! É denguice.

E seguiu apressadamente para a sala. Daí a pouco, entretanto, Ma­ria voltou de novo à sala de jantar, e desta vez abriu o guarda-louça demorando-se a procurar, certamente, o que não guardara. Aquilo era instintivo. De repente, rolou em cima uma taça de porcelana, e os peda­cinhos espalharam-se no tijolo. A Fabiana acudiu imediatamente lá de dentro, como bom rondante ao apito, ao baque demorado e sonoro:

— Que foi isso, menina?

— Não foi nada... Foi o gato, minha tia, acudiu de lá o Centu.

— Que ladrão! exclamou a matrona. Eu bem que lhe digo, Seu Osó­rio, que é preciso acabar com essa gatarrada da vizinhança. Não se agüenta mais, é um desaforo! Lá se vai mais uma xícara, está vendo, nhor?

— Deixa irem todas, Fabiana, é preciso proteger aos louceiros. Também! Homem; que esta!

Mariinha roçou por trás do Centu, e repreendeu-o ao ouvido:

— Não lhe pedi favores, já ouviu?

O moço foi arrebatado ao sétimo céu por aquele sopro que lhe acariciara nas ouças. Que coisa! Que afago! E como os beiços dela imprimi­ram-se-lhe fortemente assim, no pavilhão da sua orelha mortal!

Daí, foi brotando a fonte da alegria, e o rapaz se transfigurou. Espeitou, expandiu-se, o que o tio botava para a virtude da cerveja. Em ar de uma aquarela catita, mimosita, colorida finamente, que alcance as sutilezas e transcendências de percepção, e apanhe as radicelas do sen­timento e da sensação pelo corpo adentro, e repuxe, e arranque o gozo, pregava-se-lhe diante ainda o gesto da Maninha deitando-lhe a língua:

— Vá bugiar. Vá as favas...

Brejeirice e cavilação. Ela estendia-lhe o mento, cãozinho a farejar, e abrindo um pouco os olhos a um presto arregaçar das sobrancelhas, os beiços fastavam, despontavam uns dentinhos, a polpa rubicunda e viva estirava-se para fora, num relâmpago.

Apresentava-se o cortejo das idéias. O purpurino molusco, de um sangüíneo de papoula ao sol, se recolhia à concha bucal. Os lábios ti­nham ligeiro congestionamento, com a momice rápida. A vista faiscou. Vibrou no ar mais uma seta. Aquele músculo sanguinolento, glutinoso e brando, retesara como um arco. Entretanto, melhor cola não existia para pregar duas almas. É fender a conjuntura, o pudor castiço do beijo. Há nisso um sabor de sangue. Amor tem o seu quanto de fera. O pulmão 'recebendo o hálito de outro, nesse envenenamento vai uma ventura. Uma saliva derreter-se na outra! Amor tem o seu quê de criancinha em alei­tamento...

O Vicente se achava, a bem dizer, curado. Principiavam as chuvas de janeiro. la entrar um ano de fartura.

O oficial apresentou-se, pronto para o serviço, à Presidência da Província, que o mandou adir ao Batalhão; e no mesmo dia, retirando-se da casa do tio, apesar das instâncias deste e da mulher, foi habitar a sua antiga república da Feira Nova, e de lá enviou aos pais da Maria das Do­res o solene pedido de casamento. Era impossível resistir por mais tempo! Assegurou-se de que a rapariga era sã de alma e de corpo; ficava transtornado, quando lhe estava junto, entendeu que a natureza aprovara o conúbio.

O Visconde, era um grande amigo seu. Nunca pretendeu casar, disse-lhe ele, e havia, por indiretas, desiludido completamente a Dona Fabiana, que por isso lhe ganhou embirrância, passou a enjoá-lo de den­tro, e até fazia-lhe, atualmente, pirraças que, enfim, desculpava. A resposta do desembargador foi um abraço muito apertado, prolongado, que deu quase em choro. Ficaram mudos um para o outro. Felizmente a re­pública estava sem outras pessoas. O Vicente puxou conversa, para der­reter aquele chumbo que pesava sobre ambos; paulatinamente ergueu dúvida sobre um assunto literário, se José de Alencar sabia o português, e daí acalorou-se uma discussão que fez de excelente derivativo.

Depois daquela noite, não se dançou mais em casa da Fabiana. Aquilo era uma gente que vivia num estreito círculo, e não aproveitava a boa existência trabalhada e divertida da Fortaleza. A Maninha era por isso mesmo alguma coisa matuta. Se freqüentou o Clube, foi levada pelo pai e pela curiosidade, poucas vezes, quando havia baile em que o desembargador, pela sua nova condição de amigo do Visconde, era figura obrigada. O Osório, então, aparecia todo formal, de casaco, em verda­deiro magistrado, que mede as palavras e não muda um pé sem a devida justeza.

Não levava era claque, alheio a essa francesia. Punha a sua jaca e metia botinas de bezerro, engraxadas como a sua consciência, que isso de pelica e polimento era para janotas. O guarda-sol não dispensava, e nem a boceta de rapé, de grossa prata esculpida; para fungar uma pitada, afastava-se, porém, como se fora fazer outra coisa, tirava a luva, e ser­via-se; quase sempre acompanhado por outros, no conluio daquele vicio-zinho que ele se arrogava como prerrogativa dos pensadores e dos ho­mens de responsabilidade.

Acertou de haver um baile, oferecido a um presidente demissioná­rio, poucos dias depois de ser concedida ao Centu a mão da prima. O ex­presidente era o Doutor Benedito Xabregas, um juiz de direito que arran­caram de Goiás expressamente para a comissão de administrar a incom­preendida província dos Cariris, do Jaguaribe e do Baturité, do cangulo e do camurupim, da rapadura, da vela de carnaúba, das atas, do caju, do hércules Filgueiras, do turbulento Padre Verdeixas, do oxalá, do samba e da seca. O Doutor Benedito, a quem os estudos somente de livros e os processos haviam proibido tocar sobre a verdade das coisas, não agüen­tou repuxo. Confessou a si mesmo não possuir a precisa coragem para campear em cavalo passarinheiro como a gente, doCeará, e obteve de­missão, passando as rédeas para a mão conhecedora do i? Vice-Presi­dente, o São Galo.

Maria das Dores foi a esse baile, com o seu decote, os seus braços nus e o seu porte donairoso. A Fabiana seguiu-a, no gorgorão e nos ade­reços do ouro antigo. Primeira vez em que a mulher do desembargador ia a função mundana. Depois de estar dentro, a fisionomia tomou a mesma expressão de prazer que na missa cantada ou em outra qualquer sole­nidade religiosa de lavar o peito. A mesma sugestão, o mesmo gozo, o mesmo sol de satisfação fazendo cintilarem os mesmos círculos de on­das. Assim como, de joelhos, aderindo com o peso das suas carnes ao assoalho do corpo da igreja, sentia-se ir subindo com a enorme Senhora da Assunção do retábulo do altar-mor, assim naqueles modestos salões de província, que lhe pareciam deslumbrantes a mais, a dona, sentada, entretida com outras senhoras idosas, no vão de uma sacada, julgava estar dançando igualmente, ao impulso da orquestra e daquele ar excep­cional.

Voltou para casa muito ancha e gaiteira, fazendo outra idéia dos homens e das coisas.

Entretanto, mesmo nessa noite, Antônia pôsse no bredo.

Era ao entardecer. Mariinha todo o dia só falou no baile; "porque o baile, porque eu saio cedo do baile, porque eu só danço a segunda qua­drilha", etc. etc., bem que tudo isso não fora senão o ensejo de gozar da festança ao lado do noivo.

O alvoroço que se apossa dos moços ao preparar-se para uma festança, que chega a tirar-lhes o apetite, a festa pela festa, isso não era para a Maria das Dores, que não se pertencia mais; Antônia passara a semana macambúzia. Naquele sábado esteve revistando a sua roupa, os seus cacaréus, e olhava-os silenciosamente, compridamente, como se lhes soluçassem um adeus. Via-se-lhe bem um pensamento fixo a de­moniar pelos cabelinhos das pestanas, e de vez em quando, parando, como o beija-flor — depois de mil revôos, entre os supercílios dourados. Amostrava as comissuras dos lábios ligeiramente caídas, em ar de tristeza. Cada passada, lhe parecia ser a última.

— Algum dia tornarei eu a pisar neste mesmo tijolo em que estou ainda por hoje assentando o sapato? Onde irei eu bater? Onde me levará a Mãe Zefa? Eu não irei para a Rua das Trincheiras! Antes morrer!... Para o Outeiro? E meu pai, e minhas irmãs?

A madrinha Fabiana embirrava hoje em dia cruelmente com Antô­nia, por causa da sua terminante recusa de casar com o João Batista. Olhe que isso foi uma batalha! Casa, não casa, encurralaram a rapariga, amofinaram, ela dizia sempre que não, que não, até que puseram-na de parte, conveñcidos do baldado esforço; mas a Fabiana tomou a recusa como afronta sua autoridade, e passou a detestar a afilhada. Esta cho­rava lágrimas de sangue, vendo, a urdir "toda essa infâmia" a mão oculta e fria do Afrodísio, com, Mãe Zefa por lançadeira. Resolvera fugir. Sair daquela casa, fosse para onde fosse, à toa mesmo. Perdida, perdida meia, perdida toda.

Faltava-lhe a educação que lhe desse uma norma, que a sustentasse, e propusesse-Ihe melhor saída daquele aperto. Ao cair da tarde esteve com a Dorzinha, no quintal, a sua Bem-Bem de outrora. Manifestava um — "ar demudado", um timbre doce, de violino, uma estranha e pálida frouxidão fisionômica, um abatimento flagrante. A Mariinha isso passou desapercebido; se estava toda Centu! Por tudo, via-se, entretanto, que vinha à tona, a loura, o gravado afeto, que ela possuía, pela casa e pelas pessoas da Mariinha. O seu rosto estava despedindo-se amargamente da outra, que passou com ela naquela tarde um tempão e tagarelou sobre o seu próximo casamento.

E Antônia olhava demoradamente o céu por entre as árvores. Sen­tia-se o poente incendiado. Havia, para cima, um enorme cúmulo espon­joso, com uma parte azulada e outra vermelhenta, como o ferro apanhando o ar ao sair da forja. O grande tamarindeiro avistado por todas as cozi­nhas do quarteirão, expunha ao sol moribundo as suas entranhas criva­das de bages, com um aspecto quase fulvo, sem frondes, por modo que via-se o céu da outra banda.

A Fabiana esteve também no quintal, papagaiando mais a liberta Angela, que veio vê-la com a intenção de passar-lhe uma finta. Nas lon­gas tardes preguiçosas, a Fabiana, não habitando em sobrado, donde avistasse os últimos inundamentos do dia por cima dos telhados entre­meados de verdura, espargia a alma ao sussurro das frondes semelhan­tes ao marulho de águas, sentada no quintal, em uma cadeira, com uma perna sobre a outra, ouvindo conversa nem que fosse do molequinho que trazia o tição para atear o cachimbo. Acercou-se da Maninha e da Antô­nia. Estava de boa maré; e eram as suas horas de bom humor, no género, as melhores do mundo. Quando as pretas viam-na assim, regalavam. E todos em casa procuravam entrar-lhe pelas portas da alma, como se fora num palácio encantado. Era um gosto vê-la, no quintal, cercada dos seus inferiores, à vontade, expansiva como a galinha choca espojando-se na cinza. Na verdade, uma cadela rabugenta como a Fabinha, era de ver quando se transmudava em um carneirinho cândido que comesse péta­las de rosa. Era o efeito surpreendente, embora esperado e costumeiro, do romper da aleluia, quando caem dos altares e da vidraçaria da igreja os véus negros, rasgados pelo dia crepitante, ao vôo dos pombos alvos de fitinha ao pescoço, ao delírio das campainhas, ao troar da fortaleza, ao repicar da sinaria, ao alegro da orquestra e das vozes. Mostrou-se agra­dável a Antônia, por modos a esta vacilar na sua timbrada résolução de pôr-se ao fresco.

Estavam em troça, numa clareira formada pelas papoulas, espirra­deiras, independências e jasmins corais; a matrona assentada no tabu­leiro de um carrinho de mão, e as demais, na areia lavadinha pelas chu­vas recentes começada a forrar-se de zinhos tenros que a Mariinha apa­nhava para os preás. Aqui furava um carreiro por baixo das roseiras, ali uma vereda meandrava; acolá, ao pé do muro aninhavam-se boas-noites e maravilhas, ao fim de uma estrada. Salpicavam-se de florículas as ro­meiras escarlates.

Todas achavam Angela descarnada e amarela. Estava uma mulher. Notavam-se nela as mamas caídas, o corpo imitando ao de homem, as maçãs do rosto aguçadas, e o pescoço fino. Viera pedir para alugar-se à senhora, que não aceitou-a.

— Então, sinhá, me empreste dez tostões.

— Antes isso.

Dera em beber, a cabra. Tinha ido já à polícia. Muito faladeira, en­treteve a Fabiana debulhando mil histórias, de casas conhecidas, a dizer de gente branca e fina cobras e lagartas; e com isso engabelava todas as vezes. A Fabinha então! que para puxar por um enredinho estava só! — embora tivesse de confessar ao padre que pecara murmurando contra o próximo. As gargalhadas da Fabinha retiniam, e pareciam comunicadas até as plantas. Esmiudava mais, e a escangalhada risada da Angela ia com a dela num concerto pândego, e quem as ouvisse de longe, imagi­nava antes umas lindas raparigas brincando seminuas à beira de uma lagoa. Antônia dizia lá uma ou outra palavra, sorria apenas, e entrava a escrever com um pauzinho na areia. Maninha erguera-se, avessa àque­las histórias onde a suinez da alma foçava implacavelmente na miséria dos outros. Realmente, na fase em que ela estava, só aprazia o otimismo, o puro, o ideal, o divo.

E entrou por debaixo de duas goiabeiras entrelaçadas sobre as quais formava um manto a ramada de uma passiflora. Maninha sumia-se nesse caramanchel. O pé de maracujá deixava cair alguns tentáculos, como que procurando mais braços de goiabeira. No lado por onde a morena entrou, o teçume da fronde da trepadeira formava cortinas salpicadas de flores violetas, cujos órgãos representam os martírios da Paixão, e de pomos redondos, lindos globos verdes, lindos globos amarelos, como feitos de aérea porcelana, inúmeros, pendentes, a agitar-se de manso, à brisa, nos Pecíolos, entre o escuro do interior da moita e a líquida luz solar onde chalram os ventos. As duas mirtáceas quase sucumbiam, presas, na rede, como o leão de La Fontaine; porém também brotavam os seus frutos re­dondos, e flores alvas semelhantes a pincelinhos de pó-de-arroz, e sa­cudiam as grenhas da sua ramada por cima da teia de sarmentos.

Era para aí, para a sua antiga Bem-Bem, e para as flores do ma­racujá que a Antônia dirigia atenção agora. Avistava no imo do caraman­chel a cútis viva do tronco de goiabeira, como braços e pernas a nu, apenas denunciados por uma claridade coada e esmeraldina. Em outros tempos, a loura gostava de trepar-se ali, e trazia no regaço goiabas de vez, e maracujás de que fazia ponches.

Mariinha, oculta na capelinha vegetal, fazia rolar para o seio da Antônia maracujás maduros, de um lindo amarelo flavo e de um perfume arraigado e aguçoso. Ficou absorta, ali dentro, como criança, trepada na goiabeira, e emaranhada na rede de ramos. O amor fazia-a contempla­tiva. E sentia um vago prazer no seio das árvores, ali sem horizontes, como num caldeirão de serra, sob a cortina azul do céu veiado de vermelho crepuscular, olhando o frisadinho dos telhados, e os muros paralelos dos quintais tufados de verdura. Uma pitangueira aparecia nas frondes leves dos dedais-de-dama. No quintal vizinho, dois meninos, a pedradas, per­seguiam calangos quase lesos que andavam a lambiscar formigas. Um outro descia de um sapotizeiro com uma gaiola de alçapão.

Mariinha lembrou-se de que era o dia do baile, e desceu apressa­damente:

— Mamãe, você não vai também?

— É cedo, são seis horas, menina. Espera.

Antônia sentiu um horrível aperto no coração, ao lembrar-se por sua vez que havia deliberado fugir naquela noite, fosse como fosse.

Às oito e meia horas, com efeito, a loura para um lado, e o carro da família Góis para outro. Saiu vestidinha, como quem vai à novena, com a grande cópia de vinte mil-réis no bolso, parte que reservara dos bons tempos e parte de engomados e trabalhos de agulha, que foi ajuntando. Abeirar-se-ia da irmã viúva, contava-lhe tudo, e, forjando com ela uma qualquer tramóia, ficaria em casa do pai, na santidade da família. Seria isto para eles até uma felicidade, visto como ela era forte, ensinada e tra­balhadeira.

Dobrava assustada as esquinas. Assaltava-lhe o mal-estar de quem houvesse praticado um crime. Certa de que ninguém a tinha por fugitiva, parecia-lhe entanto que todos apontavam-na com o dedo:

— Lá vai ela!

Os dias que passou quase amucambada, puseram-lhe rabuge na alma; e a Mãe Zefa a repetir que aquilo era mandinga! A fuga estava sem jeito, e ela continuava na sensação aflitiva do momento em que ia pondo o pé fora da casa. Poderia assassinar o filho quando nascesse, praticar um infanticídio, e ficaria sempre honrada, e na casa de seu pai, apesar de mendigo. Mas se descobrissem? E teria coragem de esmagar a carne da sua carne? Esmagar a si?... O crime trouxe-lhe à mente a cadeia. En­tendia agora pelo claro a situação daquelas mulheres estioladas, de pele rugosa, sem cor, que ela vira uma vez na prisão, quando fora comprar sapatos com a Madrinha; compreendia a condição daqueles encarcera­dos a bater sola e a coser sevilhas abrindo largamente os braços para os lados! Ah! Os presos, porém, estão bem; livres dos olhares perseguidores dos que enxergam sem ver, dos olhares que a imaginação cria por centenas; os visitantes olham para os presos compassivamente, simpa­tizadores, com a sorte dos infelizes. E Antónia como que ria nervosamente, em falsete, de si consigo, de naqueles tremendos instantes de reflexão, achar a prisão superior à liberdade. Lutava por dominar-se, porque enfim, bem diz o mundo: quem morre é que se vai.

E largou a espancar, com um azorrague de idéias picarescas a boa companheira de todos os momentos, a consciência, a sublevação natural do ser. O seu nariz mergulhava no bafo aquecido da própria carne, e no costumeiro odor de rosas metidas no seio. Os dentes desejariam trincar um braço musculoso, e a língua coser-se com outra língua numa fervura de amores... O beiço arregaçar-se-ia como se ela houvera emagrecido; e o olhar havia de afundar um pouco; as maçãs do rosto ficariam da cor da manga madura, e as orelhas, cujo desempenho é nulo em lirismos; provocariam contudo novas mordeduras. Assim é que ela quisera amar!

Estavam apagando o gás, porque era hora da lua sair. O empre­gado, encostando o topo da escada na cruzeta de cada combustor, subia ligeiro, e com o rosto junto ao bojo de vidro que lhe iluminava o boné de galão encarnado, torcia a torneira, e a sombra caía repentinamente. Os dois cordões paralelos da iluminação iam perdendo foco por foco, e o es­curo ia vagarosamente engolindo o claro. As luzes que perfuravam o som­brio, de alguma sege, de algum sobrado longínquo, avermelhavam.

Era sombriamente lírico esse luar mortiço. Das lojas, alargavam para o meio do calçamento línguas acesas entre línguas de escuro, travando-se, no esbatido, mortos sobre vivos clarões, pálidas sobre escuras sombras. Ouvia-se o mais leve ruído, como nas noites úmidas. Um grilo era bastante para encher o quarteirão comercial da Rua da Boa Vista. Os ca­minhantes iluminavam-se e apagavam-se, ora sim, ora não. O menor foco irradiava, espesso como uma estrela. A cidade parecia edificada sobre águas. A visão era restrita e apertada.

Numa confusão de idéias que por momentos fizeram esquecer a sua desesperada e resolvida situação, a fugitiva sentou-se na calçada do edifício da Assembléia, cuja enorme corporatura mal aparecia no morto luar. Tinha diante de si o movimento noturno da Feira Velha. As árvores da praça, alevantando-se defronte da loura, pareciam-lhe fímbria de uma floresta infindável, por debaixo da qual os distantes lampiões dos tabu­leiros de doces, de quitandas e das barraquinhas da feira, tinham pronunciado quietismo, como facho de pescadores fora de horas. Entra­vam-lhe pelos ouvidos toques de piano, passadas de transeuntes, o cobre que batia na gaveta das tabernas, conversas do lar e das calçadas do Largo do Palácio.

Pela calçada oriental da praça, onde despejavam lojas de molhadas unidinhas umas nas outras, os passantes, pela mor parte homens sem paletó, e mulheres de chinelo e de xale trespassado, criados de compras, etc. davam vida à paisagem noturna, que lhe imprimia nos nervos ma­goados uma sensação indistinta e poderosa, e um passamento de angústias. A tremenda sensação do incoercível caía sobre a rapariga como um abutre, dos penetrais da noite.

Quando sentiu o arrastar desavergonhado das chinelas das "mulhe­res do portão da feira", quis voltar.

Pois naquilo é que dão os venturosos dias da paixão realizada? As formas provocadoras da donzela, que inspiram as Artes, e endoidecem os Sábios, podem virar naquilo? Apodrecer no lodo da libertinagem? Ma­drinha Fabiana, desgraçada madrinha Fabiana!

Veio-lhe à mente, em visão, o João Batista, e achou-o desta vez uma criatura estimável e simpática. Ao enxergar o indefinido abismo a que a própria índole podia arrastá-la, não podia ter naquele momento o João Batista senão como um salvatério. Pode ser que até o vigor da boa im­pressão lhe sugerisse o benquerer.

Desceria a ladeira da Assembléia, para, atravessando a Rua de Baixo, subir o aclive do Outeiro, em rumo da casa paterna? Bateu-lhe for­temente o coração. Esmoreceu. Era melhor passar a noite com a Mãe Zefa, no tugúrio da Rua das Trincheiras, pedir-lhe adjutório; ir à missa de madrugada na Sé, e de lá, se encontrasse a irmã, bem; se não, se­guiria até o Outeiro, pois a hora matinal é própria de passeios a arrabal­des. Sondaria. Diria primeiro que ia passar o dia; e ficava, com umas par­tes de comer caju e tombanças. De noite pretextava doença, e ficava ainda.

Porém, quando viesse o portador da madrinha? Não havia ainda pensado nisso! Que cabeça desmiolada! Pois com certeza a Fabiana dei­taria precatória por todos os cantos e recantos da cidade e subúrbios; e para o mato, e para o sertão, e para as serras, até descobrirem a fugitiva.

Mas agora? Era tarde!... E viu, como na noite, no pretume da Mãe Zefa, a sua salvação. Quando mais não houvesse, perderia a vergonha, a aceitar a casa mobiliada e servida de um tudo que lhe havia oferecido o Afrodísio. Boa lembrança. Ele àquela hora estava... estava... no baile do Clube, que era político. Se não fora baile político, ele, que não sabe apertar a mão de uma moça não iria lá por força nenhuma. E a rapariga, aliviada pela adoção de uma idéia decisiva, internou-se por debaixo das árvores da Feira, na esperança de aí encontrar a Mãe Zefa, e participar-lhe o feito e o resolvido.

O Afrodísio havia de ser sabedor por um tudo naquela mesma noite. Aproveitariam uma quadra em que ele descesse ao salão de bilhar; ou a Mãe Zefa, com as suas imunidades, penetraria pela escada do serviço, arranjava-se com os criados na confecção do chocolate, do chá e do café; e daqui ou dacolá, pegavam sempre o cabra.

A preta não estava na Feira, porém a Antônia percorreu todos ostabuleiros, penetrou pelo enorme portão de ferro, para o pátio dos açou­gues, furou por toda parte, entrou pelo barracão do peixe, nada.

No pátio interno pairava muita tristeza, apesar do movimento da venda de miúdos, frissuras e carne morta. Os quartos de bois para o talho do dia seguinte pendiam dos ganchos, em todo o circuito, pondo no ar um cheiro de sangue. A rapariga chegou instintivamente ao portão que desemboca na Rua de Baixo, onde havia os mictórios e uns mendigos. Voltou com o coração na boca, assustadíssima! como se houvesse per­petrado um assassinato... Estava lá, pedindo esmola, o pai, o cego João de Paula!

Parece que ele a divulgara... E a filha tapou os olhos e enxugou uma lágrima irresistível.

A desonra aparecia à mísera como uma doença incurável. Saúde e honra que não voltam mais! Depreciadas pelos que as possuem, inu­tilmente aneladas pelos que as perdem de todo.

— Não há remédio, meu Santo Deus, não há cura! soluçava, em suores de agonia, sentada num pedaço de calçada.escura. Não há jeito! O que não tem remédio arremediado está.

Passada a crise, que foi como um acesso de tosse em tísico despachado e confirmado, a cachopa ergueu-se, mesmo como os tísicos, como se coisa alguma sofresse.

Achava agora em si a superioridade do cabedal, da matéria-prima. Vira com os olhos, tocara nalgumas sujeitas que passavam, comparou-se. Era-lhe inteiramente impossível sair assim. Tomou coragem. O mal da­quelas desgraçadas entendeu que era o ócio, e o desabrimento. Ruim é aquele que ruim se faz. E novo hausto lhe sustentou o ânimo. Anda­va-se na rua com a liberdade de não ser conhecido. A luz dos combustores não estava, e ela é que é a fria denunciadora das pequenas cenas noturnas, e a que desmascara as feições de quem veste o incógnito. Algumas habitações, entretanto, jogavam-se reciprocamente efeitos de luz, que era preciso passar depressa, como se a gente fora saltar um riacho.

A cidade estava como no tempo em que não havia senão o raro lam­pião de azeite; uma reminiscência para os velhos, mas uma perturbação para os novos, habituados à luz.

Acontecia passar o vulto negro e ruidoso de uma carruagem que ia para o Clube, com os seus dois bugalhos de fogo; e famílias à fresca, arrastando chinelas, descerem para o banho de mar, conversando, rindo, com as toalhas trespassadas, a roupa meio embebida no luar desabro-chante, com a mancha escura dos cabelos soltos.

A lua havia subido um tanto, porém não tinha força ainda para sacudir por cima de uns seres as sombras de outros seres. Brilhava lá para si.

Antônia perdera-se, indo bater no Campo d'Amélia em vez de no Largo da Misericórdia. Esse campo onde manobravam nos dias de gala as espaventosas paradas da guarda nacional, cobria-se de uma tênue gaze de luar. Ouvia-se o ronrom das ondas, como de um gato gigantesco. O luar nevoentava os blocos de telhados da Estação do caminho de ferro. Ao pé das casuarinas afastadas, do cemitério de São Caetano, deslum­brava a alvura do Morro do Croatá, uma duna que estava a engolir aquele abandonado jazigo dos mortos de há trinta anos. O cemitério protestante confundia-se no cimo das casas de palha, onde fervilhavam rumores de samba e uma fogueira no terreiro. Antônia apavorou-se, e pareceu-lhe que surgia um homem a persegui-la. Ouviu a corneta da guarda da Ca­deia tocar silêncio, beirou o campo, seguindo uma linha de casas rare­adas. Dobrou para leste, enfiando por entre a alta muralha da prisão, e uma carreira de habitações por acabar; era a Rua da Misericórdia; respirou faro de cidade. Atravessou a Rua Amélia, e continuou a derrota, pela calçada da Santa Casa. Descobriu a iluminação do Clube, com em­bandeiramento pomposo; no silêncio, como um bando de gralhas, espa­vejavam os derradeiros compassos de uma quadrilha.

— Está animado, disse ela consigo.

E procurou, para tomar fôlego, o assento de pedra que corre ao longo da fachada do hospital, já no Largo da Misericórdia. O largo era ocupado pelo Passeio, cuja arborização, compacta com o luar, mal denunciava um ventozinho modorrento. Era hora de vir-lhe o sono. Mas não o tinha. Uma espécie de incandescência dos sentidos não permitia que a natureza a convidasse para o repouso. A vigília era, assim, um prazer. Sua vontade era andar, desfrutar a franquia de ir para onde quisesse. O seu ímpeto era fazer os próprios gostos, irrefletidamente, imediatamente, sem apelo nem agravo.

Pensava no último trecho do caminho.

Acabava de seguir a fachada sul da Misericórdia, alta como o muro da cadeia, branca, e com uma janelaria acima da cabeça dos passantes, numa complicação de anteparos de ferro, de vidraças, e de guilhagens, com uns ventiladores na barra, de onde, com o bafio mofento, a modo que escorriam contágios de moléstias ruins; os combustores apagados, pregados na parede, estendiam-lhe, quando passou, o pescoço negro e fino; do outro lado, enfrentara um correr de quartos de aluguel módico, habitados por um enxame lodoso de mulheres decaídas; a lembrança disto reluziu-lhe assustadamente no animo. Sempre que se lhe apresentava à mente o cortejo cínico e mal asseado daquela gente, ela vacilava. Até ali não desciam as suas pretensões herdadas ou adquiridas. Que faziam aquelas tipas durante o dia? Esses demônios para que infamavam assim o sexo? Bem podiam ganhar com o trabalho, e viver com quem quisessem. Pois é possível que haja amor que se atole assim na porcaria? Pas­mava em não compreender como uma criatura pode existir assim enclau­surada no vício, sem a liberdade de aparecer onde bem quisesse e comdesassombro. Entristeceu. Levantou-se e tocou apressadamente para o Clube. Na coxia fronteira à porta principal, havia uns tabuleiros estabe­lecidos, e entre eles o de Mãe Zefa. Lobrigava-se a escadaria atapetada e luxuosa, com um grande espelho no primeiro patim. O gradil do Passeio, detrás dos vendelhões, com a sua barra cor-de-rosa.

As estrelas salpicavam no firmamento o azul de ardósia, no remanso do luar a coroa do edifício brilhava com o seu guarnecido franco, e o luar, ganhando força, espalhava por cima uns borrifos de neve! Das sacadas subiam como girândolas de bandeirinhas; e para as cimalhas fronteiras, atravessava o ar alguns cordéis com enormes pavilhões de nacionalida­des, de alto a baixo, em estendal, alguns lambendo a fronte dos transeun­tes, cadentes, morosos com a brisa; e aqueles moles panos de lã, varie­gadamente colorados, davam à vista da rua uma co-participação na festa.

No meio da rua ainda estavam os bancos da fanfarra que havia anun­ciado, com trechos de marcha grave, a entrada das senhoras. Nos salões térreos, estalavam maciamente, elasticamente, as bolas de bilhar, estou­ravam as bebidas, e tiniam os talheres. Aí, divulgavam-se nitidamente as pessoas, mas em cima, era preciso que estas viessem à sacada. De quando em vez passavam bustos de dançantes, e nas variações da quinta parte poder-se-ia reconhecer algum. Maria das Dores, num vestido azul, de colar de ouro e brilhantes, com uma grande caçoleta sobre o peito, passou muito tempo numa varanda com o pai e o noivo. Trazia o pente­ado simples, com uma rosa. Um luxo simplório de princesa. Antônia não viu o Afrodísio, e nem a sua protetora conseguiria abeirar dele, porquanto o palacete estava todo luz e pompa. Os homens entretidos no achonchego das ninfas do salão, ou na troça com os demais, ninguém poderia dar atenção senão à festa. Um grande tédio e tristeza se apossaram da ra­pariga, um humor insuportável; e ela recriminava a si mesma, sentada nas pedras da calçada.

Por que não se conformou com a sua sorte? Agora, tome!

Não podia estar ali, é verdade, não podia freqüentar os salões, que devem ser uma coisa muito boa, como nunca vira, mas assim mesmo podia ser que mais tarde com casamento sofrível.., e o quê? Ali estavam algumas inferiores a ela, em tudo, menos na desgraça... E querem sa­ber? Podia estar lá... Mas aquele seu gênio era que a atraiçoava sem­pre... E entrou a analisar condições de algumas damas do baile. A Fran­celina, moça paupérrima e que não tinha lá esses bons sangues, que ser­via em casa do Conselheiro Sucupira, estava dançando. Por quê? Porta­va-se bem, e vestiam-na com estima. Quanta asneira, porém, não dizia ela aos moços! Ora, isto é mal de muitas e de muitos. As Meneses quem eram? Primas de um servente de pedreiro. O Coronel Fagundes estava dançando com a costureira da mulher. Via-se empregados públicos de ordem rasa, e caixeiros, nas águas dos chefes e dos figurões. Magnatas ombreavam afavelmente com mancebos de humilde condição e faziam cortes indistintamente a qualquer moça.

A reflexão era para Antônia uma piora. Com efeito, ali naquela reu­nião oficial e aristocrata, se punha às claras a feição da terra. A socie­dade abria lugar para todos. Era questão de decência, de boas relações, de boa reputação. O abismo então se abria mais adiante de Antônia.

Entre as mulheres da Feira e as de certas ruas, que acompanham os congos e o bumba-meu-boi, as que vão para o sereno do circo de ca­valinhos, as que fervilham nos fandangos e no escuso das novenas de arrabalde; entre mesmo as que tem prédio e dinheiro na Caixa Econô­mica, e que entretanto um homem limpo não lhes pode falar em público, à luz do gás, e a sociedade das mulheres honestas Antônia enxergava um precipício!

Aquelas não souberam, virgens loucas, alevantar na fortificação da carne a bandeira da esperança, não torceram o pescoço ao bichinho do amor logo ao sair da casca, e julgavam que o correr não cansa, e que o andar não chega. Antes de amarem, caíram na esparrela da concupis­cência.

Antônia sentia a cabeça desengonçar-se. Mãe Zefa era do parecer que voltasse. Aquilo não se fazia. Também, não estava assim perdida. Tivesse juízo.

Fugir, pró mó de quê? Deixasse estar, que as coisas se arranjariam pelo melhor. Havia dois partidos a escolher: ou casar com o noivo que Seu Visconde lhe desse ou ir para a casa montada de tudo que ele lhe oferecia na Rua do Rosário. E levantaram acampamento. A Antônia, em estado de dormência, era um concordar com tudo.

— Eu faço você entrar outra vez na casa da sua madrinha, e aposto que ninguém descobre. Quem lhe viu sair?

— Ninguém.

— Pois 'stá direito. Ora, ora. Então quem será Josefa do Espírito Santo?

Toda confiante, como confessado para confessar, a menina seguia a preta, vendo nela um ente extraordinário, e sobrenatural. E seguiram, a preta velha a coxear de um quarto, a exibir de quando em vez um con­selho do repertório do seu reconhecido senso prático.

Às duas e tanto rodavam os carros, findo o baile. As famílias embrulhavam-se nos manteletes de lã, e rapazes temendo os resfriados punham o lenço ao pescoço abafando a garganta. As seges não eram muitas. Pela mor parte os convidados iam de pé para casa. Agradável, pelas ruas asseadas e desertas, com um luar esplêndido.

O Vicente gozou sonhos cor de rosa, naquela noite. A sua queda pela Maninha arrastava-o a necessitar agora, não mais de um simples lance de olhos, nem de palestras, mas de contacto. Adeus! vocação deapóstolo da Ciência, se é que isso dependia do celibato! Só uma catástrofe o arrancaria dos braços da prima. Só se dizia bem quando agrilhoa­do aos pés da noiva. Guardou no cofre da memória, donde ignorava ainda que as sensações se evaporam traiçoeiramente ao sabor carnal de quando ambos saíram de braço dado em pleno salão de baile. Parecia-se nutrido como um gigante. A sua destra a modo que estava sempre segurando na cintura dela, a esquerda cruzada com a mãozinha fragrante, cetínea, apetitosa, símbolo da carícia e do afago. Que cafunés não estalariam, ele com a cabeça no colo dela, os olhos semicerrados, numa tepidez de car­nes mesmo e inquebrantáveis. Sentia no peito direito, e como eterna­mente, a doce pressão dos seios dela, que lhe incutiam sugestões de aromas desconhecidos. O ímpeto era dançar de par constante. Nem co­gitava de leve que o namoro estava dando nas vistas, e que uma velha a conversar com a Fabiana e outras reformadas, na sacada, franziu o na­riz dizendo que estava fedendo a azeite de carrapato e que outra pergun­tou se precisava de tijolos para fazer uma casa. A que a senhora Góis respondeu a sorrir que "eles tinham licença, ela estava pedida e consen­tida"; segredo esse que a cidade inteira já sabia.

Todo idealidades, o Centu aborrecia-se terminantemente se ouvia falar no positivo, no esqueleto, no real do casamento.

— Feliz quadra! batia-lhe o sogro no ombro. São os melhores dias, aproveite-os.

— Oh meu tio, não me filosofe a esse respeito!

— Olá, meu obcecado, a coisa é isso mesmo. Quem cega não é a Justiça, é o Amor.

— E o senhor que o diga.

— De cátedra.

O Centu chegou a escrever numa carta os tópicos seguintes a um dos seus antigos camaradas, casado e habitante no Rio:

"Com a volta à minha terra, ou por outra, ao novo encontro com a prima de que te falei, o meu ser virou outro. Ignorava até então o poderio enorme que a natureza concedeu à oposição dos sexos. E é tal o efeito desse sentimento em mim, apesar de vocês na Escola me acoimarem de homem frio e insensível, que de inimigo da Arte, sou hoje um seu ferrenho apologista. Antes de sofrer a ação trans­formadora desse fluido, se bem digo, do Amor, eu considerava a mu­Iher pelo escalpelo, um animal como outro qualquer. Hoje, porém, vejo que, se a Ciência a encara tão friamente, a Arte a eleva, se ab­sorve no mistério das formas das sensações e do sentimento.
"O inverno é isso. Julgo-me um ente feliz. Podem sobrevir to­dos os padecimentos. Estou convencido de que o homem é capaz de ser Deus.
"Mais uma força me trouxe este novo sentimento: o amor ao torrão natal. Anteriormente o Ceará me era uma região tacanha, um povo inconseqüente e mal-educado, uma tribo de bárbaros num território que em remoto futuro seria um deserto líbio. Hoje vejo na mi­nha querida provincia um país curioso, típico, imorredouro, encurra­lado na sua modesta cordilheira circular, lavado com os seus rios de seis meses, nele nascidos e nele mortos, com os sertões de inverno e seca diferentíssimos, com as serras cultivadas com os brejais, com os ariscos, as dunas, o céu lindíssimo e cruel, o oceano amigo, e uma população mal-aventurada, sóbria, nervosa, e conquistadora pela arma do trabalho, abatida pelo fogo do clima, a lutar pela vida sempiter­namente. A nossa grandeza é toda íntima, e é nos sentimentos ínti­mos, do amor à mulher, e à família, que o cearense frui o suco da vida.
"Estou convencido, além disso, que o homem como força, na tríplice acepção moral, física e intelectiva, é o resultado do regular funcionamento do seu organismo. O homem só entra em pleno desenvolvimento de suas aptidões, com o casamento. No domínio so­bre a mulher, na vibração simpática dos dois seres, adquirimos uma força incalculável, a consciência do nosso poderio, a capacidade de conquistar, de adquirir, de medrar, a consciência de que se existe, se é. Um Ergo sum mais lato que o de Descartes.
"Poder-se-ia chegar à mesma conclusão abstraindo da con­venção matrimonial. Porém a união dos sexos como entre os irracio­nais, naquela pureza, é impossível no homem de hoje, produto artificial da civilização de séculos sobre séculos.
"Não me venhas com o ponto de vista econômico. A base da economia é a utilidade. Desorganiza-se economicamente o casal que não toma a sério o seu ninho...."

E ia a carta por aí além. Havia um tópico em que assegurava ter estado redondamente iludido quando supunha que o sacerdócio da Ciência era incompatível com o culto da mulher. E exclamava: Mulher! me és necessária como a flor à abelha.

Quase deitou verso, em seguida a esse arranco. E ia tudo mais na­quele entono da paixão.

Antônia passou o domingo como não esperava. Não viu quando a Fabiana, o marido e a filha entraram do baile, porque a fadiga muscular prostrou-a logo no sono, e deliberada ao que desse e viesse, as cogitações não tiveram azo para tê-la em vigília. Quando acordou por mais de sete horas, só o velho, dos brancos, estava de pé.

A loura saiu para o banho, tendo armado as feições e a mente con­tra algum resquício da gorada fuga da véspera. Dos pretos, nenhum pa­recia a par do acontecimento.

— Graças a Deus! recomecei bem; faço de conta que hoje é que entrei para esta casa. De feito, saindo a Fabiana, ficou a casa deserta; cada um tomou para seu lado, aproveitando a noite divertida de sábado; apenas o tio Raimundo, na sala de jantar, conchilando, cão fiel, a beberfumo, julgando que a Antônia estava de incômodos para a camarinha, ou que havia acompanhado a dona da casa.

Na rua, inda mesmo algum conhecido havendo notado, não era caso de espanto, nem de novidade, em uma cidade onde uma senhora ou uma donzela atravessa livremente, sozinha, ruas e ruas, com desassombro e sem receio.

Ao fim do quintal agitava-se no sol as folhas do Canavedo, e as fia­das singelas do muro banhavam-se de sombra de ramadas e de fáculas deslumbrantes. A paisagem rumorejante encurralava-se no quarteirão. Um sopro abatia sobre a vegetação, escoado em regra, de cima das ca­sas, de parceria com os luzimentos de um dia vigorosamente limpo. Espalhava-se no ar a vida obscura das cozinhas.

O moleque Joaquim surrava um tapete, no alpendre, arrancando-lhe a poeira, e o tio Raimundo, regando as plantas, escutava a conversa desengonçada de um samangolé que estava à espera que ele acabasse para irem à missa do Rosário, que naquele domingo havia sessão da irmandade.

O porco, um baé muito gordo, com umas papadas ruivas, empinava o focinho com os pés de diante apeados na pocilga, grunhindo com um suplicante olhar para Antônia que passava. Uma goiabeira esfregava-se no muro, e provavelmente deitava para o vizinho um ramo curioso. Pim­pavam as coisas maiores e mais vivas. No texto de ferro de uma caixa de água que se erguia de outros quintais, girava doidamente uma ven­toinha. Hilariantemente caía sobre o tamarindo gigante um vôo de peri­quitinhos verdes. Um portão vizinho batia com o vento, a ranger nas tá­buas ressequidas. Vaporavam eflúvios de horta, e de jasmim, com o aze­dume dos chiqueiros.

O casamento estava marcado para quinze dias depois do baile do ex-presidente Benedito.

Realizada a cerimônia, às 8 da noite, na Sé, o séquito de carrua­gem, desfiando pela cidade, voltou à mansão do Desembargador. Os noi­vos subiram adiante, solenemente, seguidos pelos pares de convidados, que surdiam da aglomeração dos carros e de espectadores, que toma­vam a rua.

A grande luz dos candelabros, nas salas e cámaras transformadas em salões, estrepitavam as dragonas dos oficiais, com os peitos crivados de condecorações, o pano fino das casacas coisés na alvura dos colari­nhos e peitilhos, as caudas dos vestidos, o agitar dos leques, os decotes empoados, e o sorriso aristocratizado.

Os noivos estavam em exposição, no sofá, a seus pés aplainava-se um tapete novo, e a um lado e outro as cadeiras eram ocupadas pelas senhoras e donzelas, como em guarda a honra. A sala retinia da bulha. das conversas e das risadas com medidas. Uma senhora despachada tomou o ramalhete da noiva e deu nova vida à sociedade, a distribuir os cravos, que arrancava um por um, pelas moças e pelos mancebos. Outra, pegou o véu nupcial, e nele ia envolvendo as meninas núbeis, cabeça por cabeça. Antônia vinha entrando nesse momento, de vestido azul-claro, pálida e formosa; depois de repelir o filó, dizendo a rir que não tinha fé, as senhoras obrigaram-na a recebê-lo; e ela debatia-se galhofando que "só gostava de véu preto".

A Fabiana atravessava solenemente a casa, como um bispo, no vi­gor da seda cor-de-rosa, com um penteado em que despendera uma hora de relógio. Esteve pelo braço do Visconde, por algum tempo, a quem agora parecia dedicar nova espécie de afeição. Já nem se lembrava de que o queria para genro, que para isto fizera o marido aliar-se-lhe, que lhe abrira as portas de sua casa, e que aí o Afrodísio só não fez o que não quis, encontrando apenas oposição por parte da pertinaz Maria das Dores, que, enfim, triunfava. E a matrona botava para a figura melancólica do homem um olhar, em que parecia dizer:

— Eu é que estava mesmo de jeito para sua mulher! E suspirou: Se eu fora viúva...

Era esse o novo rumo da sua queda pelo sugestivo Afrodísio, ou fora sempre. Atirara-lhe com a filha, carne da sua carne, esta pendeu para outro, ficava ela em campo.

O Desembargador conduzia para dentro uns figurões, a tomarem alguma coisa. A sala de jantar estava preparadinha para banquete, atra­vessada de um lado a outro pelo corpo da mesa, posta e profusamente servida. O Lucas tomara conta das bebidas, muito solícito, fazendo a Ângela, que viera expressamente por amor da sua antiga sinhá-moça Bem-Bem, sair de um a um com a bandeja de copos, ou com a licoreira de prata.

A festa acabou cedo. Logo depois da comezaina, que entrou ali sob as dez.

Também, desde que passou o vapor brasileiro, a casa dos Góis de Oliveira a modo que imergiu no escuro. Os noivos tiveram de embarcar para o Sul. O Vicente Moura saíra tenente do Estado-Maior, e recebera ordem de seguir prontamente, para uma comissão de colônias militares para o Paraná. Como timbrava, cumpriu a ordem mas levou fortes em­penhos do São Galo e de outros amigos políticos da província, para o Mi­nistro arranjá-lo na. Corte, onde esperava fazer concurso em uma das es­colas superiores, e aí fazer sede, que, dizia ele agora, do Brasil só onde se pode morar é no Rio de Janeiro.

Osório sentiu profundamente a ausência da Maria das Dores, e do genro; tal, que entrou a imaginar em uma licença para ir ao Rio, e arran­jar-se também por lá, no quentinho da filha. Seria nova embirrância com a Fabiana, que por certo não se deixaria arrancar do Ceará com duas razões.

Antônia achava-se desmastreada completamente. Mãe Zefa acabavade arranjar-lhe na sua morada uma entrevista com o Afrodísio, a desoras; porque de dia ou cedo, a rapariga teimava em não sair de casa, e de­clarava absolutamente não mais tornar a pôr os pés no sobrado do São Galo.

Depois que os noivos partiram, Osório fez-se acessível, entrava fora de horas, e passava noites jogando no Clube; fruindo, na vida de rapaz, enchimento para o vácuo moral e nervoso que parecia roê-lo dia por dia. A pouco e pouco, reatou a sua antiga amizade com o boticário Fernandes.

Na noite da entrevista da Antônia, uma noite sem gás, como a do baile, viu casualmente o Afrodísio desaparecer, no Beco das Trincheiras, à entrada solitária do tugúrio. A parede sem caliça escurecia cada vez mais a portinha sem pintura. Um cheiro de lama de esgotos empestava a coxia, e ao correr do calçamento havia rumas de tijolo e barro de construção, gigos, barricas, tabuados de pinho, caixões, que o cair da noite não permitira recolher aos armazéns. A porta estalou desafinada. O Desembargador não podia lobrigar mais, daí por diante, e foi-se, julgando muito natural aquela espécie de empresa noturna, adequada ao seu viver como de rapaz.

O aspecto do aposento era esfumarado, o teto enegrecido de fuli­gem. Uma teia de aranha, no canto, atravessada pela ténue fumaça que procurava uma telha meio suspensa para servir de chaminé, recebia o bafo luminoso da trempe de pedras, onde havia uma panela de mungun­zá. O chão era uma terra socada e desigual. Uma tapagem de esteira e estopa separava uma alcova, cujo ingresso era vedado, à guisa de re­posteiro, por uma antiga manta vermelha, de soldado de polícia, com quei­maduras de ferro de engomar. A tia Manuela, irmã de Mãe Zefa e co-pro­prietária, roncava perto do fogo, embiocada numa tipóia suspensa por cima da mala e dos trens de cozinha. Sentiu bater na porta, e empurrar, ergueu-se, descerrou o ferrolho, e reconheceu Mãe Zefa. A porta fechou-se. E o Afrodísio sentiu-se bem, naquele ambiente sujo.

A tia Manuela desenvolveu largo sorriso, e indicou o pano de baeta que vedava o biombo. No interior deste, sobre um mocho, ardia uma vela de carnaúba enfiada num frasco. Em uma cama de ferro, cujo lastro exa­lava amoníaco e bodum, estendia-se, envolto em camisa alvíssima, um corpozinho louro. A cortina caiu por detrás do vulto masculino. E transformou-se, à imaginação de ambos, toda aquela infecta sujeira. Os olhos da criaturinha loura abriram-se preguiçosamente, pondo a alma às claras. E talvez tivesse escorregado a pérola de uma lágrima. Apareceu a fileira dos dentes, as doces curvas e a provocação dos beiços e o son-zinho da sua voz danado e matador. Intumesciam as rendas do talhe. O joelho originava dobras graciosas. Ligeira secura repelia do corpo a espessura vaporosa da camisa. Os pés, porventura titilavam nos tornozelos, e nos dedos, a descoberto, e nas unhas embutidas na carnação co­rada e nova.

Mãe Zefa, erguendo-se para beber água, vacilou, e bateu casual­mente na paredinha da alcova; o cotovelo enfunou a estopa, o mocho caiu, lá dentro, o frasco revirou com o coto de vela que ninguém reacendeu.

À meia-noite passava uma serenata. A princípio o som era longín­quo, dominando unicamente a voz do trovador. A pouco e pouco foi re­forçando, e destacadamente se percebia, em brandas lufadas, a flauta e o violão. Cessou, enfim, a modinha; ouvia-se o rum-rum dos rapazes, gargalhadas francas, discussões e pilhérias. Bateram na venda da esquina, estiveram muito tempo, e como lhes não abriram a porta, berraram des­composturas; e saíram modulando uma valsa tristonha e sentimental, que infiltrava nos nervos adormecidos da cidade, àquela hora, uns repassa-mentos de angústia e de saudade, e acordava fantasias na modorra da carne.

Antônia entrou com a Mãe Zefa, que ia buscar as verduras para a Feira, às cinco da manhã, de lencinho cheiroso, abanando-se, decla­rando que esteve muito boa a missa de madrugada. Fabiana admirou de não ter percebido quando ela saiu, que dizia ter sido às três e tanto.

O Afrodísio nada adiantara sobre a crítica posição da rapariga. Esta insistira em querer abrigar-se na honestidade da família, de maneira ne­nhuma aceitaria casa.

Quase desesperada, vendo o tempo estreitá-la no férreo círculo dos nove meses, deliberou adoecer. A Fabiana vexou-se, quis mandar vir o médico. Antônia respondeu que bastava o doutor vir no dia seguinte; em que amanheceu repentinamente boa.

Quem a salvou da aflitiva situação veio a ser o padrinho. Banhando o rosto, no alpendre, curvo, inundando as faces barbudas, apreciava o fartum da aguardente com que matara a frieza da água. Os punhos da camisa, arregaçados, só queriam descer. Da bacia de louça, beirada de azul e encarnado, saltavam respingos e flocos. Do lavatório abaixo, cuja tinta estava uma dúbia confusão de manchas, a água escorria, e em der­redor estampava-se uma zona de ladrilho molhado. Deu de garra ao sa­bonete. E breve o seu busto aparecia espumado, como se todo fora ca­belos brancos. De olhos fechados, esfregando a cabeça com as unhas, agradavelmente subia a umas regiões ideais, donde se nota serem as conveniências e vícios sociais de uma toleima atroz, garroteando os ver­dadeiros ímpetos do ser; via famílias sacrificadas pelo descuro de um pai, brocadas fatalmente pela ruindade de um dos seus membros; donzelas e mancebos adstritos à penúria, sacrificados à Vaidade e ao Mundo; eachava a civilização corrente muito alheia à superioridade humana e ao sadio prazer que a carne pede com o espírito. Depois de tirar de todo a espuma, com os poros fartos, despejou água do jarro sobre o crânio, como para o lavar bem, o batizar, o firmar contra aquelas idéias importunas, aspirações a um bem impossível, trucidação e desvairamento para quem deve estar sempre calmo e em ação na batalha da vida.

Pelos intercolúnios do alpendre gozava do painel do quintal. Ainda esfregando a cabeça com uma toalha felpuda, se achegou do peitoril. Um choro de criancinha supinamente zangada, na habitação vizinha, irrita­va-o. Mas ele teria netos. E deduzia:

— A felicidade repousa na sábia combinação das dores com os pra­zeres. Desgraçado o que não sofreu, é como um terreno onde somente o dia se espalha, e não há sombra, e nem cabe noite.

Aprazia-se na perspectiva dos telhados da outra rua, colinas de fino tauá, frisadinhas, confidenciosas como devem ser todos os telhados. Alegremente sozinha, arvorada num bambu enxertado na rama de um cajueiro, debatia-se em mil variados ademanes com o vento, uma ban­deira de lençol de chita, e isto o reportou à puerícia, cujos pormenores, como até certa distância o foco luminoso, cresceu de mais em mais à medida que se avança por outras idades.

Permanecia no parapeito, como se não tivera acordado ainda. Tam­bém a cabeça dele fora submetida a tantas quadros diversos no museu da vida, os seus ouvidos, o seu olfato, a sua epiderme, o seu gosto ha­viam provado sensações tantas que o diplomavam de mestre para certos casos. Adormentado no país do ideal, se esforçava logo, semelhante a quem de um balão procure alcançar terra. Descer à realidade imediata, a única e jamais desmascarada amiga de todos. Avistou, no quintal, uma escrava levantando a camisa a um molequinho, prendendo a cabeça dele entre os joelhos, e aplicando-lhe meia dúzia de chineladas. Revoltou-se, e mais contevese por amor da força moral que devem ter as mães e os senhores. Era o tempo que Antônia subia do banho, e tomava-lhe bênção. O padrinho entendido botou-lhe uns olhos, por cima, que pareciam coados através de uns óculos profissionais; disse paternalmente:

— Antônia, isso não vai bem... tu precisas... mudar de clima...

A rapariga tornou-se como a flor do algodão.

— É, filha, repetia o padrinho. Isso é caso de mudar até de tudo. E adoçando a sua brutal franqueza: É assim a modo de umas sezões...

Antônia titubeou, mordendo os beiços, com um nó na garganta, en­terrada pelo chão adentro, envergonhada e exaltada por uma inundação de lágrimas:

— É, inhor sim.

Procurava a rapariga odiar ao Afrodísio. No fundo do seu coração incriminava-o de ingrato, infame, perverso. E por quê? Ela não via logo?

Não via?! Ela não via coisa nenhuma! Quando atirou-se, julgava que se não viesse a casar, que ficaria vivendo com ele, melhor do que se fora mesmo esposa. Ignorava existir em si aquele sentimento incubado que somente agora despontava, a sua natural repugnância pela vida airada, um pudor instintivo, um horror por tudo que não era sagrado à família.

A rapariga apanhara pelo sujeito um amor verdadeiro. Beleza e for­mosura podem ser da casca, simpatia nunca. Depois de mulher, de grá­vida, preferia, por isso, morrer, a depravar-se diante dele, a ser apontada na rua como sua amásia.

Aproveitou a frase providencial do padrinho, e adoeceu deveras com sezões. O Osório propôs à Fabiana que a afilhada passasse umas se­manas fora, a ver se aquilo acabava sem precisar recorrer-se a mezinhas.

— Mas onde?

— Ela indicou-me a casa da irmã.

Isso por lá é uma miséria que faz pena!

Se ela quer ir pra lá... que temos nós com isso?

Pois sim, homem, eu estou por tudo. A Fabiana declinava das suas antigas aspirações, e vivia hoje em boa paz com o seu velho, sonhando com os futuros netinhos, arengando com as escravas e ao mesmo tempo empregando nestas e nos molequinhos boa dose de ternura.

Antônia despediu-se à noite. Chorava de cortar coração. Acompa­nhou-a Mãe Zefa. A habitação do casal Góis, sem Angela, sem Maninha, sem Antônia, morreu, por assim dizer.

A liberta Ângela dera em beber, a ponto de, por ocasião do recolher do Largo de Palácio, ir empencada com outras dar com os quartos no xadrez do Garrote, vaiada pela canalha que piruetava à frente da música.

Osório pateava às tardes com o seu antigo camarada, o boticário Fernandes; e ambos, passados na casca do alho, senhores das virtudes e defeitos das influências comerciais, eclesiásticas, e políticas da locali­dade, comentavam o livro da vida, expendendo na privança coisas que se proferissem à luz da publicidade haviam de valer-lhes apedrejamento.

Narrava ao amigo o cortejo de peripécias das suas relações com o Afrodísio, e, ao ouvido, as desgraças de Ângela e da Antônia. O boti­cário arregalou uns olhos, e persignou-se.

E a conversa continuando sobre o assunto, o Osório chegou a er­guer-se, e pegou a deitar filosofia: que o outro ficasse certo do que ele dizia. Um homem que possua os meios e o vigor indispensável para o casamento, e procure em vez da esposa, a meretriz, não podia ser to­mado absolutamente, no problema da evolução, como uma quantidade positiva.

Embalde as donzelas núbeis, como abelhas a uma flor, procura­vam-lhe o mel, que não existia. Nesse, o prazer do sexo, o do homem, não daria em resultado o de esposo e de pai. Esses, o que eram paraas mulheres, seriam para o resto: saciadores do eu, repugnantes ao seu modo de ver sentir.

Eu já tinha imaginado quase isso mesmo, homem! — fez o boticá­rio, fanhoso, e pondo a luneta: Venha de lá um arrocho de mão, seu canalha.

Se homens superiores, prosseguiu o orador, safando a mão do rijo aperto, soltando as frases num tom abafado, com uma convicção e cólera capazes de trazer-lhe o pulmão à boca. Se homens superiores, foram ce­libatários, é porque circunstâncias da vida e da profissão os forçaram a semelhante sacrifício...

E daí, passava a desmanivar ainda os motivos pelos quais as pre­tendentes à mão de São Galo, baqueavam irremissivelmente, fatalmente.

Que as mulheres possuem, mormente as virgens, salvo nas orga­nizações pervertidas, um inconsciente que as impele para os homens su­periores. Como que desejam ligar sua existência à dessas criaturas que têm a sedução do ideal...

— Nisso vai a suprema vaidade inata, interrompeu o outro.

— Concedo. A tendência para gozar do melhor...

— Parece que o amor, isto é, o amor sentimento, deve ser propor­cional à superioridade do indivíduo...

— È assim que Jesus Cristo, acudiu o legista, no prosseguimento da sua tese, o mito do homem-Deus, o virgem, teve a auréola das cha­madas santas mulheres. Há nisso um ecletismo inconcusso, verdadeiro, Seu Fernandes!

— Arre! que desembuchas como um jovem! exclamou o outro, levantando-se, como os dedos na cava do colete. Estás me parecendo um promotorzinho da última bacharelização.

E daí, o letrado passou a esboçar um paralelo entre a filha e a An­tônia. E assim gastava o Osório as horas vagas, entre o bom senso do Fernandes e o jogo do Clube, com o respectivo cortejo da cervejada.

Foi preciso segurar nas crinas, e tocar com as esporas, aconchegar o corpo à frente, porque a areia frouxa fugia nas patas do cavalo enter­radas pelo chão adentro. O animal encolheu-se, forcejou e galgou arriba. O cavaleiro, passado o primeiro instante, respirou a paisagem que o cer­cava a perder de vista. O espinhaço das dunas ia, até desaparecer entre a planície e o mar. Uma nuvem gigantesca alaranjava-se, a partir do ponto onde o sol, como uma enorme moeda de ouro, caía para detrás das ser­ras longínquas. E assim montado, do alto do Morro do Moinho, a noroeste da cidade, Osório, pela primeira vez sentia-se abalado por um panorama da sua província adotiva. O céu lhe parecia muito mais gigante do que fora até ali. A terra, uma floresta interminável, dando à perspectiva o ar de uma planície indefinida.

O horizonte era fugidio, e suave até na linha de serras destacadas que ao poente e sul costumam ornar-se de nuvens no tope. A cidade, per­tinho, saía como de um lado vastíssimo, bordada sobre um tapete verde, edificada numa chácara imensa. Para a esquerda, afundava-se a praia, e entre ela e o semicírculo ingente do oceano, enrolava-se e desenrola­va-se o nevado cordão do quebrar das ondas. Não trouxera óculo de al­cance. Também, devia enxergar o seu torrão era mesmo com a força na­tural dos próprios olhos. Começava a sentir com aquele pó alvinitente, com aqueles matos retorcidos da encosta interior das dunas, que o vento ia aterrando; com os galhos já meio carbonizados, representantes de an­tigos bosques, que o mesmo vento exumava no seu giro doidivanas. Ba­tia-lhe na fronte o influxo monstruoso das serranias meio sumidas no cre­púsculo amortecido e atentas na vastidão do espetáculo, soltas no hori­zonte; "porventura pirâmides milenárias no alto das quais a Fortuna, muda e expectante, pousasse todos os dias, como o sol fizera há pouco espe­rando que a raça confusa e sóbria e atrevida que se aninha no vasto da­quela planície aparente que sobe insensivelmente sertões acima, se una, e cresça, e dé desempenho daquela natureza ainda não compreendida". A cidade-cabeça desse povo ali está, a taba mestra, o sábio dos moru­bixabas. Dominam as torres brancas das igrejas. Há uma semelhança en­tre os mausoléus que estão ali no cemitério, no sopé do morro, e aqueles outros onde soou agora o dobre do Angelus.

Educado e vivendo fora dos negócios, o Desembargador, como um missionário que tem na sua religião e no seu refeitório a segurança da sua felicidade intra e extra-mundo, quisera modelar aquela província na fôrma que lhe inspirava o seu aprendimento. A cavalo, no ponto mais ele­vado dos arredores, isto era pó, e migalhas de mato a viver mais do ar do céu que do suco da terra. Aquela encantadora planície verde que ia até acinzentar-se, não eram searas e nem fazendas, e dariam frutos dou­rados mas não os frutos do ouro. Aquelas nuvens ricas de forma, de co­res, com a frescura das donzelas núbeis, eram muitas vezes rasgadas pelos ventos Don Juan e Lovelaces. Aquele sol que semeava estrelas pela folhagem inútil dos matagais, um polvo com os tentáculos do calor dis­farçado com as ilusões da luz.

Começou a abismar-se no espetáculo do Poente. De além das ser­ras se estendiam os raios gigantescos do sol pelo céu acima, semelhan­tes aos que se pintam na fronte de Moisés. Uma claridade fantástica ilu­minava os corpos de um lado só. O sentimento retocava-se dos luzimen­tos verde-louros do Ocaso. Para o Norte, os coqueiros longínquos, a meio soterrados, subiam em silhuetas debruadas de um fulgor estranho, e aquilo despertava impressões de leitura de coisas da Africa. As dunas se esten­diam como alvos corpos de mulheres; e tinham ondulações de um enorme lençol possantemente agitado. No plano do oceano, que parecia muito baixo, erravam as pintinhas brancas das jangadas que se recolhiam da pesca; e quase no Nascente, o vultozinho do farol puxando após si o ca­bedelo do Mucuripe. No entroncamento deste, amontanhava-se um morro, cinzento com a distância e pela hora, que ameaçava de submersão um povoado, e na perspectiva, roçava por cima da longa mancha verde-escura de toda aquela praia de Mucuripe e Meireles, uma língua branca a lamber o horizonte. Era para ali, aquém do compacto coqueiral do Meireles, que a cidade havia sacudido, como um monturo de fora de portas, a formosa Antonia tresloucada. O Desembargador tivera um arranco de humanita­rismo; montara a cavalo, e fora vê-la.

Daí, atravessara a praia da cidade e subira a gozar do panorama no alto dos morros do ocidente, donde sacudiu os tentáculos do espírito na sucção das belezas do mundo exterior, sem cogitar de que são mais profundas e comoventes as do mundo interior que cada um traz em si.

Nem lhe lembrava o terrível encadeamento de carne, de pais a fi­lhos, de irmãos, de amigos, de servos, de amos.

Dispunha-se a descer. O caminho ia pelos verdes da planície como uma risca de cabelos mal-repartidos. Os mausoléus do cemitério destacavam-se numa alvura cortante, e uma extensa nesga do morro, cosida no pano verde dos matos de dentro e de fora, fazia ilusão de um lago esplanado entre verduras. Havia casinhas de palha e de telha sal­picando a extensão viridente.

Seguia por entre as moitas do tabuleiro, entre um grupo de lava­deiras da Jacarecanga. E por detrás dele desaparecia o lombo do mar, oculto pela enorme trincheira das dunas.

Demorava a palhoça da Binga, irmã da Antônia, a casada, no Lon­guinho. Entreaparecia na rama do cajueiral que subia, do lado de terra, morro acima. Ficava a meio do declive, numa espécie de patim; e lá em­baixo, passava um córrego, no brejal do pequeno vale anesgado feito pela rampa do Outeiro com o cordão das dunas.

O Osório tinha ido pela Rua da Alfândega, alagada e frondosa. Enxergava-se lá no fim aquela tira alva, tapando o horizonte; era o morro em sua parte nua. Aproximando-se mais e correndo a vista, apareciam lá no alto, os coqueiros soterrados, uns só com a grimpa de fora, do an­tigo sítio de um fuão Longuinho, cujo nome imortalizou a areia inconstante. O marido da Binga, o Pedro Cação, chamava lar ao rancho lar, na fina propriedade expressiva da linguagem plebéia. Uma construção fácil, e adequada ao clima. As paredes, de pau a pique entaipados de ramo e de palha. Na coberta, leve e jungida com cipós, os caibros formavam xa­drez com o envaramento — onde mordiam as cabeças das palhas de car­nauba, semelhantes a leques fechados, e apertadinhos a não deixar sair um pingo de chuva. No interior desse prisma oco, em constante equilíbrio com a atmosfera, arranchavam marido, mulher, filhos, e mais que hou­vesse. A abertura da frente cerrava-se por uma porta de talos de palmas de carnaúba, e a de trás vedava-se com uma cortina de lona, pedaço de vela de barcaça. Dois compartimentos havia; um, que servia de sala de visita, de sala de jantar, de cozinha, e também de dormitório, e outro, com as prerrogativas de camarinha. Recendia a fumaça e maresia.

O Pedro Cação era lancheiro. Gabava-se de todos os dias no seu rancho botar-se panela no fogo e da mulher ter sempre saia, casaco e lençol e ourinho, para ir à missa na Prainha, ou para aparecer na cidade, e dos culumins viverem de barriga cheia, disporem de camisa lavada no córrego, chinelo e ceroula.

Ele mesmo, apesar de relaxado e bicudo conservava no fundo do baú a sobrecasaca de pano fino, e as calças pretas do casamento, e o chapéu alto, que enfiava pelas novenas da Conceição ou pelo falecimento de um camarada.

Orgulhou-se com a vinda da Antônia e blasonava meio mundo que a cunhada estava no seu rancho tomando ares, que todas as manhãs saía para se lavar na maré, que estava engordando, botando barriga. Omi­tia, porém, as visitas do sogro, o cego João de Paula. Este era mendigo, e sustentava uma filha viúva com uma ninhada de não sei quantos meninos.

A filha que o cego tinha em melhor sorte era mesmo a Antônia. Fa­zia da loura um ideão. Esperançava um dia ter notícia de que ela, criada e moldada no bem-estar, fizesse um bom partido, e de que era senhora distinta e esposa feliz. Dispensava que se lembrasse dos seus. Fizesse ela por si, e cada um com a sua sorte. Fora sapateiro, e cegara de go­ta-serena, quando Antônia era ainda criança. Como a mulher falecesse, entregara Antônia neném à madrinha, Dona Fabiana, que era uma pessoa que cheirava a santo.

No instinto de pai, não deixou de estranhar aquela esquisitice de largar-se agora uma donzela a tomar ares na choupana de um mísero lancheiro chambregado; mas como se falava em banhos de mar, efeti­vamente era quase na praia e um ponto afamado aquele. Já andava meio leso, perguntava e reperguntava. A paralisia a modo que ia alastrando-lhe ferrugem pelo cofre das idéias. Indagou porque razão não viera ainda ali nenhuma pessoa a não ser o Desembargador, e aquele mocinho fanhoso, o João Batista, caixeiro do Seu Visconde. Em resposta explicaram que o estado da Antônia não era grave, ela andava era assim à espécie de um passeio. Negócios de mulheres, que homem não entende assim do pé pra mão. Nas vésperas de ir para a cama, Antônia, à boca da noite, sentava-se no limiar da choupana, enquanto os sobrinhos brincavam ao luar, e a Binga escamava o peixe e punha no fogo a ceia do marido, que atirava-se na rede a curtir um derradeiro gole de cachaça.

Naquele afastamento a rapariga, sentia renascer a sua antiga in­clinação pelo Afrodísio. Achava-se em uma situação como de namorada ausente, em que os menores incidentes e episódios, iluminados pela suave constância da saudade, ressurgem, um por um, e desaparecem e voltam, e vão, e tornam, com uma vida e claridade palpáveis; em que se escuta a voz e se vêem os olhos da pessoa amada e ausente... Sofria, como é dado a mulheres, até aos pequenos nadas de uma separação. E na lua clara, diuturna, na fluidez onde os corpos salientam-se úmidos de prata contornados pela penumbra esbatida entre o negro dos recônditos e o brilho do amplo, caía-lhe dos lábios tinta de desejos e negra de dúvidas a tremenda palavra-mistério, dúbio vocábulo, melhor dicção que há para exprimir as inauditas maluquices do amor e as verdades impenetráveis da crença.

Aquele cio não lograra ainda o equilíbrio; isto é, não chegara à neu­tralização dos dois fluidos contrários, — que traz o tédio; ao choco em­perrado, cuja mezinha são os arrufos, as pequenas zangas enciumadas; aquela paixão ainda fervia, não passara a fermentação, ainda borbulhava.

A abandonada criatura punha a vista nas estrelas atoleimada, e mi­rava o firmamento, a disposição das nuvens, o avanço do crescente, que sulcava, góndola misteriosa tripulada por cupidinhos invisíveis, por entre cachopos de neve, rompendo mansamente as águas do céu. Para as ban­das da cidade, um pedaço de céu escamento, com uns sombreados, fin­gia moitas sobre caprichoso dédalo alvadio, realizando como que a cópia de uns tabuleiros de praia. Mas o meio da enorme campanha estava nu, num mar fosforescente beirando regiões sinuosíssimas, variegadas de aspecto; e notavam-se pontas, baías, calhaus, restingas, espraiamentos, alvo colo das dunas, rochedos, sulcos de barras de rios da mesma cor azúlea da profundez infinita.

Antônia encarava o novilúnio, canoa para ser tripulada por um casal que se quer bem. O luar e a proximidade das matas inoculavam-lhe uma terna e palpitante sensualidade inesgotável.

Isso de afeições, quando é doença fatal, forçosa, apego de átomo com átomo para constituir molécula, pelo panorama das idéias, ao acor­dar pela manhã, se conhece logo. O que tem de ficar, a pouco e pouco recebe realidade nos sonhos e imaginárias. O leito e o sonho fazem de simples simpatia belezas deslumbrantes. O sol matutino solta uma risada de frade feliz, risada real, que esmaga as fricções e ergue as realidades. Havia um n tremor de inocência no verniz da folhagem cintilante e fresca, na bulha dos córregos. E nas areias, ainda úmidas da noite, pelas vere­das e pelos morros, e nas águas estendidas, o espírito se prolongava e se arrastava pelo solo e subia com os vapores da mata, e fundia-se no ambiente com a verdade das coisas.

Antónia acordava cedo, com eletrismos felinos. Vivia em dormência de lua-de-mel. Farejava um vago encantamento no sexo oposto; que pra­zer no tato, e na pele toda! A tudo apertar, em tudo roçar. A manhã lhe trazia um cheiro esquisito de novidade. E tendo sonhado, topava na na­tureza inteira aquele mesmo cheiro corpóreo do ingrato Afrodísio amado. Sentira, sempre, no correr do dia, através das mais prosaicas ocupações os braços dele, o rosto dele. Um enlevo sensível, real, vivo, de alucinado!

A uma segunda visita que fez o padrinho, e desta vez com o Fer­nandes, a rapariga havia dado à luz pela manhã, e não ia bem. Franca­mente, o boticário saiu duvidando que a puérpera escapasse. Por felici­dade ou não, a criança morreu ao nascer. A mãe, porém, não acreditava! E a altos brados tresvariava que lhe dessem o seu filho! Inda bem que, naquele deserto, vizinhos não ouviam aquela confissão da própria enten­dida desonra. Foi mister, contudo, arredar o pai, que estava no costume de vir ali todas as bocas da noite.

O confessor, um senhor Padre Ricord, incubiu-se dessa obra de ca­ridade. Mandou por um criado do seminário tocaiar o velho no patamar da capela, que lhe desse aviso quando o cego apontasse, pois ele mo­rava no Outeiro da Prainha, e tinha de descer a ladeira.

Quando veio o cego, o padre que fingia estar passeando no pata­mar, esbarrou nele e proferiu em tom acre:

— O senhor. parece que é cego?

— Sou, inhor sim.

— Perdão, filho, eu pensei que não o era.

E acrescentou que havia adivinhado em passar por ali, naquele momento... Recebera de uma pessoa muito cristã umas esmolas para distribuir por alguns cegos mendigos...

O velho sorriu, pois infalivelmente seria contemplado.

— Mas, a mode coisa é que estou falando é com um padre do se­minário?

— Está sim senhor. E é preciso saber de uma coisa; para receber a esmola vosmecê terá de passar a noite em oração, por alma de uma mulher, que morreu de parto; se quiser passá-la aqui em nosso recolhi­mento.

O cego não quis, tinha de voltar para casa. Quanto a passar a noite em oração, isso era menos...

— Mas como hei de eu dizer que vi o senhor guardar a noite piedosamente?

— Entonce é preciso eu vir sempre...

— A esmola é boa, vale o sacrifício!

— Sacrifício não é nenhum, não senhor. Mas... primeiro eu tenho de ir lá embaixo...

— Onde?

— No Longuinho.

— Ver o quê?

— Ver uma filha que tenho lá, uma que estava doente, a Antônia, que fora criada na cidade na casa da madrinha, aquela dona que vinha muito ao seminário, muito religiosa, benze-a Deus.

— Já sei, já sei. Não tenha cuidado...

Ele padre Ricord é verdade que havia confessado e sacramentado essa menina, mas não era pelo seu estado grave, e sim por dever de boa cristã. Bem sabia que o Santíssimo Sacramento muitas vezes servia de remédio corporal.

— Grandes são os poderes de Deus.

— É uma fadiga dispensável, o senhor descer aí por essa escuridão. A rapariga vai perfeitamente bem.

Às cinco horas tocou a sineta do seminário. O cego amanhecera de pé. O confessor de Antônia disse missa de paramentos negros aga­loados de retroses amarelos, às cinco e meia, assistida por ele. Depois de descer do altar, desparamentou-se, fez a ablução das mãos, e deu ação de graças; consecutivamente, o padre foi ter com o velho, deu-lhe a esmola, uma cédula de dez mil-réis, novinha, e acrescentou que "a sua miséria se transformara em riqueza".

— Quem me dera!

— Aos olhos de Deus.

— Ah, isto sim, eu logo vi!

Disse-lhe mais o padre que ele era muito feliz, pois tinha sido Deus servido.., levar para sua santa glória.., a alma puríssima... da Antônia.

— Deus olha para você! É um pai misericordioso.

O golpe foi brutal e à queima-roupa. O mendigo cegou agora do espírito repentinamente. Embalde o padre largou em consolações. O cego ensurdecera. Calou-se. Encostou-se a uma coluna. Da caixa do peito su­bia-lhe um vulcão. A pele ardendo com a secura e o calor de um forno, ele julgava copiosamente suada, mas de um suor de água fervendo. Cada junta era um pontaço. E veio a tornar-se dormente na dor e na agonia. Sentia tudo e nada sentia. Cada pontinha da pele estava ligada ao am­biente por um fio que o puxava para estourar como uma bomba.

E aparentemente calmo como um bêbado costumeiro, porém ofe­gante, queixava-se pelo brando de que estivera de noite a rezar pela alma de sua filha, para ganhar uma esmola, hein? Ora bolas, que felizardo!

As últimas palavras foram um soluço. E saiu de porta fora cuspindo para dentro da igreja uma blasfêmia.

Pobre velho! Ele queria tanto aquela filha que não tirava esmolas

no quarteirão onde ela habitava. Dera-a criancinha de peito, pelo muito amor instintivo, à madrinha, Senhora Dona Fabiana. Dera-a! Morreu! Al­tos mistérios de Deus. Poderia vir a fazer um mau casamento; não é assim? E quem sabe ainda? Talvez Nossa Senhora a tivesse arrancado da borda do abismo! A dor do cego era profunda, porém iluminava-se pela alma virginal da donzela.

Agora, pai do céu, tirasse-o! Agora sim. De manhã, quando ele se levantasse, não rezaria mais pela conservação da sua triste vida... Enten­dia que a sua existência não tinha mais razão de ser.

Antônia falecera minutos depois de o lazarista coloquiar com o cego no patamar da capela. O padre não esperava que ela morresse tão de­pressa, e por isso tentara impedir o velho de ir até lá, para este não ouvi-la gritar no delírio da febre:

— Eu quero o meu filho! Eu quero o meu filho!

Morta cessava tudo.

Um trabalhador da casa, deu parte ao João Batista do triste acon­tecimento, estando ele no bilhar no "Hotel de France".

Às onze da noite ia para a casa do Pedro Cação. Seguindo a ladeira da Rua de Baixo, dobrou na Rua do Chafariz, deserta e úmida, escutando o coro dos sapos e dos grilos. Contornou o edifício da Alfândega, e su­miu-se na escuridão para o lado do Meireles.

De longe percebia-se haver novidade na casinha do Pedro. Clarea­va uma fogueira, para debaixo dos cajueiros, denunciando a frente da palhoça, e no terreiro havia uns homens, deitados uns, de pé outros, em grupo, como à espera que se acabasse lá dentro uma comprida novena, assistida pelas suas mulheres e famílias. Por aqueles arredores, na que­brada do Outeiro, nos sítios, pela epiderme fria da dunas, espalhava-se um berreiro de vozes femininas, que o João Batista ouviu ainda distante. Era o velório. Naturalmente, vizinhança e conhecidos reuniam-se ali, se­gundo o costume do povo, fazendo quarto à defunta.

Foi logo Seu Batistinha saudado pelo cabroeiro que velava cá fora. Antes de penetrar na palhoça tomou um gole de aguardente, que lhe ofe­receu o Pedro, e acendeu um cigarro, apesar de não fumar.

Falou longamente o lancheiro, digressivamente, os últimos instan­tes da cunhada, pesaroso e calmo. Isento de carraspana, naquela noite. Quando ofereceu a xícara de aguardente ao caixeiro do seu patrão, disse que estava repunando o espírito. Na verdade, não tocou em bebida,senão três dias depois. Deixe estar que o cabra tinha lá o seu sentimento. Os homens, de camisa e calça, e chapéu de palha, ao revérbero da fogueira, conservavam nas feições um ar de respeito, descobriam-se ao aproximarda porta da palhoça. Havia dois compridos bancos de madeira tosca, no terreiro do casebre, como se faz para os sambas. Estavam sempre a pa­rolear, lá fora, mas em voz baixa, se acaso gritavam, era por algum que se afastara. Discutiam antigas passagens, episódios que se deram em brigas, em divertimentos, nos fandangos, nas novenas do Mucuripe, e contavam histórias de visagens e de defuntos. Um velhāo robusto, muito dizedor de palavrões e glosador de indecências, concentrava um grupo em torno do seu cachimbo e da sua prosa corredia e pinturesca. De vez em quando atabafavam uma risada explosiva. Uns quatro rapagões — ponta-limpa, jogavam queda de corpo na areia macia afastada. A noite era traspassada pela brisa do mar, de uma frescura impertinente, e o fir­mamento clareava, pomposamente. O Caminho de Santiago, o Cruzeiro do Sul, a Arca de Noé, o Rosário, as Três Marias, o Relógio ou Sete-Estrelas, a Mancha do Sul, todo o mapa celeste conhecido e classificado pelo olho do povo, indicavam sem embaraço, tendo o cuidado de não apon­tar estrela com o dedo, por mó de não nascer berruga.

Ao longe, ouvia-se a pancadaria de um chinfrim do Outeiro do Se­minário; de vez em quando sobressaía o berro do trombone.

Mãe Zefa chegava, com o tio Raimundo, e a Benedita, esta espa­lhando a catinga sebosa da sua roupa de cozinheira.

Da porta do casebre apanhava-se a vista do interior, num lance d'olhos. O cadáver estendia-se ao meio do compartimento, sobre uma esteira, escondido por um lençol branco, e parecia muito inchado, maior do que era de esperar. Embora falsa, uma sensação de mau cheiro assaltava o nariz do indiferente, e provocava as glândulas salivares. Ao fundo um xale azul, novinho em folha, pregava-se na palha, acima da tampa de uma caixa coberta por um lençol de tacos; e aí, dominando a mingua­da formatura irregular de imagens de santos, alçava na cruz o vulto de Cristo na sua soledade dolorosa, por quem Antônia chamara ao morrer, nu, correndo sangue, mal feito, olhando para a terra, fronte pendida, na muda profundez do Consumatum est. Em bocas de garrafa, e palmatórias de flandres, ardiam quatro velas de carnaúba, e uma de cera branca, sendo esta do Santo Sepulcro. Em outros pontos da palha colavam-se penden­tes de argolas diversos registros de santos em molduras de cedro.

Tinham feito uma pausa na cantoria. A tiradeira da reza, uma sujeita idosa e magra, que usava um cocó muito apertado, ajoelhada com o seu vestido roxo diante da imagem de Jesus, dizia agora Padre-nossos Ave-Ma­rias e Salve-Rainhas, num afã de orações pela noite inteira, como se um momento passado sem isso prejudicasse a alma da falecida. A modo que o Jesus dissera àquela gente da árvore da cruz o Vigilate et orate. As de­mais mulheres, sentadas ou ajoelhadas no barro duro do chão, respon­diam. O compartimento permanecia com os seus trastes, o pote no canto sobre a forquilha de três ganchos, com o coco dependurado pelo cabo;

as malas no pé da parede, uns cacetes enfiados na palha, as redes en­roladas com os punhos enfiados nos armadores que saíam das estacas, a vassoura de vassourinha, tudo à mão. Apenas a corda de roupa fora desarmada. Alguém se erguendo, para entrar na camarinha, ou para sair pela frente ou pelos fundos, ia como se receasse acordar a defunta.

Mãe Zefa ajoelhou ao lado do vulto branco estendido no chão, fa­zendo um enorme pelo-sinal, e orava nos seus grossos beiços. Benedita deixara o chinelo na porta, em mostra de respeito; não sabia pôr as mãos, cruzava os braços, com o estômago empinado para a frente. O velho crioulo Raimundo ficou à entrada, para ter livre saída quando fosse lá para fora juntar-se com os outros homens; dobrado sobre os joelhos ronceiros, se­gurava no seu bastão como se este fora um brandão aceso, sério e grave como um juiz. Lembrava-lhe aquilo um terço, que em casa da Fabiana era a oração da noite para a família e escravos, em que a Antônia, com um vestidinho velho, no ajoelhar, este rasgou-se na espádua, e quando ela começou a cantar o hino de Nossa Senhora, a mode que uma niqui­nha de sua abundante voz se escapava por aquela brechazinha. Quando ela abriu a garganta no Agora lábios meus, a camarinha de sinhá mó de que se encheu de passarinho e de fulores.

Quem conheceu a aperitiva Antônia não podia estar ali sem um pro­fundo e entranhado soluço!

Num caco de telha, ao pé do altar, fumegava a alfazema.

Ao ruir do mar, ao bulício das árvores, a sinceridade e simpleza da­quela gente, ao suspirar do vento na palha, o Batistinha ficava não sabia como, em diverso mundo, arrebatado, como fora, de uma jogatina foliona, à mísera obscuridade de uma câmara ardente, choupana magramente alumiada, relicário de uns restos mortais verdadeiramente restos.

Coitadinha, podia ter sido uma esposa! Repugnou justamente aquele que a faria feliz! Morreu! Teve medo de vê-la, receava enxergar naquele rosto, que acendia-lhe a vida, a monstruosidade da morte. Não entrou, absolutamente não entrou. Em todo caso a rapariga fora uma ingrata para quem fez tudo por ela. Se morreu, foi ainda porque desdenhou aceitá-lo, até a última. Não gozava o falecimento da sua maior inimiga, deplorava, sentia, e amava-a tolamente ainda. Adorava agora aquela altivez com que o pisou em vida. Ficou toda noite do lado de fora,sem ter visto o cadáver, e adormeceu ao relento sobre um dos bancos, apesar de haver tomado café por duas vezes,que lhe ofereceu o Pedro para passar o sono. Aco­corado sob as ramas do cajueiro, onde uma vizinha improvisara trempe e fogo para ferver água e coar o café, explicava o Pedro aos amigos a presença do caixeiro:

Que Seu João tinha uma paixão desadorada pela Antônia. D'esna do ano retrasado. Ela nem como coisa. Nunca se viu judiar tanto com um pobre!...

— E mó de que não se casou?

— Como havia de casar? Apois si ela repunava ele de mais! Neste mundo hai de tudo!

A vizinha, sacudindo o pano do café, reprovava em muito o proce­dimento dela. Ele podia achar outra bem boa. E ao clarãozinho do fogão, desfiaram o assunto, entrando pelas anedotas e casos acontecidos como aquele.

Pela madrugada, ainda se ouvia de vez em quando o Meu Senhor e Amado, e outros cânticos de piedade popular, como para manter alerta aos que faziam quarto. Muitos ressonavam. Mãe Zefa, Benedita e o preto velho foram embora à meia-noite. A uma hora chegaram uns soldados, da guarda da Alfândega. Estiveram pouco tempo. Tomaram café e ca­chaça, que era o que eles queriam, e deram boas noites. Ameaçava chuva. Com efeito depois da primeira cantada do galo, caiu um forte aguaceiro. A pouco e pouco, um estremecimento manifestou-se pela rama das ár­vores, um vago rumor, agitação ao de leve, como se por sobre eles passassem miríades de insetos. A escuridão incidia do alto, mais espessa e friorenta. O fogo recrudescia, como as chamas da hulha na forja, ao sopro do alcaraviz. Breve, a frondagem aluía-se toda. O palhiço do chão, no vale, andava em vórtice, e o vento sacudia lufadas de areia. Alguns entraram logo, outros afrontavam o meteoro. O Pedro gritou:

— Chuva rapaziada! Venham para dentro!

— Deixe cair, falou um dos que teimavam em ficar debaixo do ca­jueiro. Este cá não tem medo daquilo que Deus manda!

Ainda não caíam os pingos d'água; e mais o aguaceiro, estava anun­ciado pela ventania úmida a rolar de um céu de breu, qual invasão de touros furiosos, e encapelando o mar, assanhando as árvores, transmu­dando o pó em nuvens, arrepiando os tetos, zumbindo nas torres e desembestando na planície, horrisonando mundo em fora. Repuxados para um lado, os vultos negros do esgueiral do morro, procuravam tenazmente erguer-se, e daí um vai-vem, que nem mulheres que se esgadanham.

Um chiado compacto se espalhava por tudo. Atinando para o que o cercava, o Batistinha quis disparar para a cidade, porque do contrário pernoitaria as horas que restavam para o dia, com o cadáver da Antônia. Achou-se isolado no meio de tantas pessoas. Temia desmoralizar-se na presença aterradora da defunta. E mesmo a tempestade lhe aprazia, qui­sera ficar ali fora, molhar-se que nem um pinto nuelo. Dormia, quando passou a primeira desfiada do vento. O Pedro foi quem pó-lo de pé, obrigando-o a entrar; o que o caixeiro só fez depois de acender o cigarro num tição, virar uma golada e armar fisionomia de um certo recolhimento. Antes de pôr o pé na soleira, o primeiro relâmpago abriu e rolou o pri­meiro trovão.

Tapou-se a porta do fundo que ficava na barra do vento. A da frente permaneceu meio aberta.

O Cação fê-lo abancar numa cadeira que havia. A cantoria engrossou, com a surpresa da tempestade, e de mistura com as preces de fi­nados, entoou-se deprecatórias a Santa Bárbara e a São Jerônimo, dei­tou-se palhas bentas do Domingo de Ramos no braseiro da alfazema, e rezou-se O Magnificat, por mó dos raios e coriscos.

Involuntariamente o Batistinha teve de pregar os olhos na falecida. Um magnetismo! Absorvia-se naquela massa informe, de uma impressão repulsiva, do lençol branco estendido por cima de um corpo frio onde ar­deu tanto a carne e onde ardejaram tão limpos desejos dele, coloridos de ideal; esparzia sonhos por sobre o empolamento que ao meio fazia a barriga upada, jazida de um órgão gerador, mina que poderia ter sido de brilhantes para ambos; demorava o olhar no jeito anguloso, de pirâmide, que o algodãozinho tomava cobrindo aqueles pés hirtos, que seriam a primeira coisa que ele beijava na noite de noivado, ao puxar-lhe caricio­samente as meias, e neles teria mergulhado a fronte chorando de alegria, e neles teria roçado os seus cabelos altivos, e passaria neles demorado como a apaixonada Madalena com seu belo Jesus. Parecia-lhe que o pano agitava-se, e que os pés frios da morta iam mexer-se...

Ia de mais em mais a convulsão atmosférica.

Da abertura da porta, por onde entrava um refrigério de ar frio, longe, no Outeiro, viam-se as pintas de luz dos combustores da Prainha, esba­tendo nos azulejos da fachada uma claridade tristonha e difícil. O gás rolava pelo tijolo molhado e pincelava umas copas de árvores. Pela força do imaginar, enxergara o Batistinha, desviado subitamente da contem­plação da defunta, nas mangas daqueles lampiões longínquos, escorre­rem as gotas de chuva em ar de lágrimas abundantes, como as que lhe queriam irromper...

Entretanto, a Binga, aproximou-se do cadáver da irmã e levantou um bocadinho a parte do lençol que encobria a cabeça, olhou, tornou a cobrir. O seu vulto chamou o olhar do moço novamente para a defunta. Quando inclinou-se que ia pegar no pano, ele estremeceu, e não foi se­nhor de si. Fisgou a vista cada vez mais, hipnotizado; para fechá-la re­pentinamente guardando fotografada no cérebro a mais horrível impressão que já teve na sua vida.

A fisionomia da morta, que lhe ficou gravada, repousava sobre um saranhão de cabelos aloirados. O lenço amarrado para segurar o queixo ocultava a bela carnadura do rosto, e espremia para cima a boca arro­xeada deitando um líquido pelos cantos. A lividez da testa e das frontes metia-se a meio nos cabelos embaraçados; o nariz exagerava o seu belo atilamento; porém o olhar, sepultado nas pálpebras descidas eternamente,afundia com toda a criatura, e entregava aquele formoso, aperitivo e be­líssimo corpo à fria hediondez do nada.

Apagara o fogo concupiscente ao coração do Batistinha. Antes, no bilhar, acabando de perder três partidas, pagando a cerveja, com um riso contrafeito sobre as caçoadas dos pirus, que um seu trabalhador cha­mou-o de parte e deu-lhe a nova do falecimento da rapariga, tivera um abalo mui diferente daquele d'agora. Lá, ao pensamento, vinha-lhe um rima de sensualidades, que ele afagou. Absolutamente, não pensava no aspecto repulsivo de um cadáver, e o seu obstinado benquerer, ao em vez de estirar-lhe por diante um corpo hirto e álgido, punha-lhe de pé e ao encontro uma visão angélica de cabelo de ouro e rostinho fresco, voando ao zéfiro a gaze da sua vestimenta,e pensava correr para abraçá-la, fartando-se no olor embriagante que ela espalhava com uma claridade sobrenatural. Os companheiros viram-no sair com o trabalhador e grita­ram frascariamente que queriam ir também, julgando o caso muito outro.

Largou para a ladeira da Conceição, que ficava por trás da Sé, pois era mais perto do que arrodear pela praia. Chegando, porém, ao Santo Cruzeiro, foi tal a impressão de tristeza que lhe infligiu o aspecto soturno e angustioso daquela enorme cruz alçada, carregadinha de emblemas do martírio, que a idéia de morte saltou-lhe em cima como um traiçoeiro e feroz canguçu. Passou-lhe pela vista uma rede, saindo da escuridão, levando o corpo frio, conduzida por dois homens. Estes andavam de chouto, como os peixeiros quando vão de calão carregado para o mer­cado, e os acompanhavam outros para ir revesando. Que séquito! Fechou os olhos e sentou-se um momento num dos bancos de alvenaria do pa­tamar! Pior! A rede passava e repassava. Uma coberta de chita vermelha e desbotada pendia do pau, a um lado e outro, à maneirá de cortinado, e escondia completamente o conteúdo como à criança no berço oculta o mosquiteiro. Para não irem esvoaçando as pontas da coberta eram presas com alfinetes por debaixo, na altura da cabeça, dos rins e dos pés. A rede esticava para baixo, como um saco munido até ao meio. O Batistinha parecia acompanhar irresistivelmente o fúnebre cortejo, como o peixe pelo anzol, e ouvir a voz dos curiosos:

— Vai morto ou vivo?

— Vai morto, meu irmão! respondia o tropel de homens descalços, pisando forte no calçamento, ao chouto costumeiro, abanando com os braços na cadência do caminhar.

E o rapaz encarava o céu estrelado.

A alvenaria do templo erguia-se monstruosa e metia na noite o bojo branco das suas torres. Do coro, as altas janelas pareciam escoar uns ruídos de cantochão, vagos de flauta e violino, e sussurros de contrabaixo. Passadas de esqueleto, secas, invariáveis, marcando o compasso, o tra­balhar soturno do relógio da torre do Norte. A modo que, de quando em vez, o sagrado edifício tinha estremeções em sua grande sensibilidade sonora, e como que a vozeria oca das ondas estava a sair constante­mente daqueles poros de pedra e cal.

Começou a refletir, o Batistinha, na atribulada posição do momento. A morte da Antônia era uma surpresa. Como é que um homem, semelhante a um ator de mágica, se acha, de repente, assim de um cenário a outro!

Mola poderosíssima e quotidiana do desconhecido!

Pôs o caso em si. Realmente, o que devia fazer como homem e so­bretudo como idólatra e amigo, era ir logo à Empresa Funerária, para ter tempo de preparar caixão apropriado, e tratar do enterro, com a eça, car­regadores, brandões, etc. ajustando por um preço que estivesse nas suas posses. Pagaria tudo; não se fiava no Desembargador e na velha Fabiana, uma gente sovina, que parece que só queriam era ver-se livre da pobre rapariga! Só tinham caridade na boca; e religião, no manual. Outrossim, pela manhã distribuiria cartas de convite a pessoas que não desdenha­riam acompanhar um enterro de uma choupana do Longuinho. Para isso recorreria aos irmãos de São Vicente de Paulo. Poria anúncio, em que João Soares de Paula e Pedro Rodrigues Aracati agradeciam do fundo da alma, as pessoas que se dignarem acompanhar ao último jazigo os restos mortais de sua prezada filha e cunhada Antônia Benícia de Paula, por esse ato de caridade e religião; e convidavam de novo as mesmas almas caridosas para assistirem à missa do sétimo dia que seria celebrada na capela da Prainha às cinco horas da manhã, sexta-feira, 21 do corrente.

E daí, foi ter ao escritório da empresa. Se não cuidasse daquilo bem podia ser que os caboclos do Longuinho, com o tonto do Pedro, fizessem o enterro de rede. Repugnante! Subiriam a íngreme ladeira, em cujo tope se apresenta a capela emendada na janelaria do seminário, e entrando no corpo da igreja despovoada, estendiam o cadáver no soalho, sumido na panaria de algodão e cobertas, com a comprida trave, onde amarra­vam fortemente os punhos, caída para um lado, à espera que seo padre chegasse para fazer a encomendação...

Foi por isso que ele chegou ao Longuinho já noite alta.

Estava ele, pois, debaixo daquela sensação que lhe produziu o sem­blante da defunta, quando a Binga levantou a ponta do lençol! Sentia-se hirto como ela. O seu desejo único era, naquele momento, irem juntos para a sepultura. Para que a vida? Se uma criatura daquelas fica assim tão horrenda! Por outro lado o seu outro eu, o positivo, buscava tirá-lo ao domínio de impressões tão dissolventes. E ele olhava, olhava tenaz­mente para a noite, através da larga brecha da portinha de talos. Os focos dos combustores da calçada do seminário cuja corporatura bruxuleavalonge, não tinham mais uma irradiação sequer. Cerceadas na espessura do ar traspassado de chuva, denunciavam-se apenas, estrelas perdidas no tenebroso da tempestade. Barulhava o córrego do brejo, com as águas das ladeiras. O homem gemia por dentro, caído na desolação, como o pássaro fulminado pelo sol.

Corrido o tempo, o chuveiro ia dando de si. Via-se já o vento pelas costas. A chuva prolongou, e afinal cedeu. De vez em quando ainda ros­nava o trovão, como o sonho agitado de um cão imenso. Fuzilava um relâmpago frouxo e cansado, que dificilmente aclarava o dorso negro do céu.

As águas superiores já não regavam. Pingos ralos é que caíam da folhagem, como a cada suspiro depois de um pranto nervoso. Aos pri­meiros albores da madrugada, o Batistinha já havia consumido quase um maço de cigarros.

A luz amarelenta da vela de carnaúba destacava-lhe metade do rosto, e banhava de um castanho aloirado os seus cabelos negros. Na parte da penumbra, o cigarro, pendido ao canto da boca, desfiava uma fuma­cinha, e de vez em quando lampejava da sua brasinha rubra. Com uma perna sobre a outra, o caixeiro denotava antes contrariedade pela chuva traiçoeira, como se tivera de ir para alguma parte. E assim mascarava o verdadeiro sentimento. Agora estiara, mas as barras vinham quebrando. Já pressentia-se um clarãozinho no alto do firmamento. Principiava a sen­tir uma dor de cabeça, e uma tal qual morrinha nos músculos. Aquela rapariga arrancara-lhe metade do ser. Ele era uma substância refratária, nisso de amor, a tudo que não fosse a Antônia. Condenado agora a sol­teirão. Não devia ter consentido o cauirismo do casal Góis atirar a Antô­nia doente para a derradeira camada social, é verdade, mas pelo seu an­tigo despeito, queria vê-la descer; e então viria a dizer-se:

— Sobe! Conhece que eu sou para ti como o Cristo para o Lázaro! Tolinho! Ela o abominava, de índole, por todo sempre.

Já as cornetas soltavam as notas da alvorada, no coração da cidade. E aquele toque prolongado e saudoso era para o Batistinha, estatelado ante o cadáver da Antônia, atirado ao chão, de uma pungência atroz. Aquela modulação longínqua, entrava-lhe agudamente como soprada ali propositalmente nas suas ouças. Fingia um exército remoto dos duendes que vinham para os restos mortais da rapariga. O seu coração batia como se ouvira toque de incêndio, e se este fora nos armazéns de que ele era guarda.

A capela da Prainha chamava para a missa. Começou na palhoça o alvoroto do amanhecer. Os homens foram para o serviço, as mulheres a ver os seus lares. O Batistinha chegou até ao trapiche, e aí ficou, man­dou o capataz abrir o armazém, botar na beira da praia o algodão e os couros que tinham de embarcar; que não perdesse a maré, que era cedo naquele dia.

Uma pontinha de sol incandescia o azulejo da torre da Prainha.

Era por esse tempo que o cego João de Paula esmurrava para den­tro da capela uma horrível blasfêmia, e varejava para o recinto sagrado o lixo de um desaforo, e descia, como se enxergasse, a ladeira, passo aqui, passo acolá, com a vista do instinto e do inveterado conhecimento do caminho, a ter mão em casa do genro.

Chegou aplacado. Quando os de casa viram-no galgar a areia da subida, aparecendo subitamente num cotovelo do caminho, estremece­ram até a raiz dos cabelos. Momentos de ansiosa expectativa. O velho foi falando por aqui assim, quase sem fôlego:

— Deus dê bom dia...

E como viesse avançando como se o terreiro estivesse limpo, gri­taram:

— Olhe o banco!...

Antes, porém, de findar este grito, já a Binga estava abraçada com o pai, e, bendito seja Deus, na mais benfazeja efusão de lágrimas.

Uma circunstância inesperada acertou de vir novamente pôr em ace­lero aqueles corações rústicos. O cego estava resignado. Os olhos lím­pidos estavam pisados de pranto e de insônia. Achava arrimo na sua crença, e absorvia-se na fantasiosa contemplação da filha, vestidinha de branco e toucada de rosas, entrando no Paraíso. Recorria inconsciente­mente às impressões da infância, ao que havia lido quando possuía vista, ao que escutara nos sermões, e formava no impalpável um mundo onde bebia a consolação necessária ao equilíbrio das suas funções vitais. Se as suas feições conservavam uma rijeza de pedra, como se a alma dele houvera fugido, era mesmo pela abstração. Fez queimar bastante alfa­zema, misturando com incenso.

Deu-lhe, porém, o destino abraçar o cadáver, num desses arrancos naturais do amor e da loucura. Um acesso, paroxismo da primitiva dor ilógica e brutal que o fizera injuriar a casa de Deus. Conhece que a mor­talha é de seda.

— Para que tanta riqueza? fez ele erguendo-se. Quem arranjou isto?

— É um vestido muito simples, meu pai, explicou a Binga. É saia e casaco... Foi o melhor que eu achei na ocasião... É um que a Maria das Dores, de Sinhá Dona Fabiana, deu a ela para a Semana Santa.

— Então é de seda preta?!

Ninguém respondeu.

— Mas eu queria que a minha filha fosse vestida de Nossa Senhora da Conceição!

Não havia pano azul. Porém ele dava. Então para que queria aque­les dez mil-réis novinhos? Oh Seu Pedro! O genro vinha subindo com um pote de água no ombro. O velho repetiu:

— Seu Pedro?!

— Que é lá!

— Temos de ir à cidade.

— Pronto ao seu dispor. Hoje não vou ao serviço, o patrão que se agüente. Não é de morrer uma pessoa em minha casa e eu me largar pro trabalho sem duas razões. Não senhor. Inda tenho um vintém de meu. Pr'onde quer ir vosmecê?

— Vamos, senhor, depois verá.

O Pedro pôs o chapéu e seguiram. A mulher cochichou-lhe no ouvido. O velho resmungando:

— Pois não deviam ver logo que a minha filha devia ir com o traje da Santíssima Virgem?

A Binga dizia ao pai que não fosse, que tudo a terra havia de comer, e que ficava muito tarde, que eram dez horas. Mas o velho fez ouvidos de mercador, e abalou.

Ela possuía o seu relógio de parede — uma réstia de sol. E mandou um recado ao Batistinha para que empatasse o velho até de tarde, e apressasse o enterro. Que doidice, meu Deus! Era impossível a Antônia ir de Nossa Senhora. Ao menos se o padre não a tivesse ouvido de confissão... Mas era o diabo! O Padre Ricord não consentiria em uma falsidade se­melhante! Quanto mais que ele é quem ia fazer a encomendação...

O padre reservara para si o privilégio de pronunciar o derradeiro Requiescat in pace naquele corpo cuja alma ele arrancara s garras do demônio com o Ego te obsolvo.

Dez e meia. Acompanhado pelo Cação e pelo Batistinha, que su­bira para a cidade a toda pressa, ao recado da Binga, o João de Paula entrava na Estrela do Sul, uma casa da Rua da Palma, onde se vendiam objetos de enterro e passamanes.

— Me dê oito metros de cetineta branca e três da azul, um diadema de rainha...

— Que é isso de diadema? obtemperou o caixeiro da loja.

— É para a minha filha que morreu. Vai de Senhora da Conceição, e quero com diadema.

— Está bem, fez o caixeiro, habituado e mestre no ofício. Isso ar­ranja-se.

— E quero um papel de arrebique. Estão aqui dez mil-réis.

Dez mil-réis não chegavam. O Batistinha mandou debitar-se pelo resto, e chamou o colega de parte. Fê-lo vender fazenda preta em vez de branca e azul, porque ao menos, como era provável, chegarem tard( e a família no propósito de remanchar, serviria para o luto. Portou-se ant o outro, como se o cego e o Pedro Cação fossem fregueses lá da case dos muitos parasitários que tem o Visconde, aos quais ele servia de c cerone.

Quando estavam nisso entrou o Lucas, de guarda-sol aberto e d opa encarnada, pedindo:

— Para o azeite do Santíssimo.

Reconheceu o Batistinha, e escancarou-lhe um abraço dos seus

— Oh, meu querido Batistinha! exclamou, arregalando os olhos admirativamente. Há que tempo que o não vejo em casa da comadre Fabiana!... Como vai essa força? Abatido, hein? Quer enriquecer da noite pro dia...

E desfez-se no seu habitual e pegajoso agradamento de filante. N abraço a espinha dorsal do moço quase sofre uma avaria produzida pel açoite da bolsa endinheirada segura pelas alças de prata ao gadanho d reito do andador.

— Conheceram-se, mandem botar! pilheriou o caixeiro.

O Pedro Cação deitou um vintém na bolsa, cuja grossa casimira e cartate ia esverdeando do cobre; e o Lucas, na pressa e na inesgotável prosa, estendeu-lhe rapidamente para beijar, como quem sacode um bofete com as costas da mão. O lancheiro dobrou o joelho direito e planto na custodiazinha de prata esculpida, cosicada no pano da semoleira, um ruidoso beijo da sua úmida beiçada.

Cortando a fazenda para aviar ao cego, o empregado fez sinal um outro menor, que despachasse o homem. O pequeno, puxou um dobrão da gaveta, e atirou ao balcão.

O Lucas arrastou o Batistinha, de mão no ombro, até a porta. contava-lhe uma porção de coisas "do nosso povinho". Que a Porcin brigou de uma vez com o Afrodísio, e muscou-se para o Pará, onde ia dar pancas no meio da galegada. Aquilo tinha uma vidinha esticada com sernambi! Que o tal de Centu, pelas cartas, acuara na Corte, à medid dos seus desejos, por empenhos do Visconde, e que a sua vida era troc pernas. Entrou no mundo com o pé direito! Sempre embirrara com aquel mafamede! Não lhe dava dois anos que o maluco do desembargador não arrenegasse de tal genro. Eita! Menos disso... Pois até loguinho. Quei bem a gente, que não custa dinheiro. E foi-se.

— Ora se custa! obtemperou o moço de si consigo, limpando r lenço a destra que apertara aquela mão que lhe era moralmente nojen como no físico a de um Lázaro.

E ficou de pé, na soleira, enquanto o colega arranjava o tal diaderr que o velho exigia. O andador seguiu rua acima, sem chapéu, e de guarda-sol invariavelmente aberto. Quando o vento dava, aparecia por baixo da opa o lenço de rapé, quase a sair do bolso de trás.

O homem se mexia presto, e de porta em porta ia gritando familiar­mente:

— Pro azeite do Santíssimo. Pro azeite do Santíssimo.

Isso por aí além. Os três não tardaram em seguir rua acima. As fron­tarias do ocidente e o rés-do-chão estavam tomadinhos de sol. Apenas uma estreita umbria contrapunha débil frescura. Eram atraentes aquelas varandas pintadinhas de verde, rindo no limpo corolamento das frentes coroadas de platibandas e encasquetadas de enormes telhados verme­lhos. Dentre as casas do Nascente, aparecia a meia corporatura de ár­vores da Feira Nova, derramando e gotejando sombras para aqueles la­dos. E eles iam a atravessar aquele vaivém de pessoas e de coisas, aquele bulício mercantil nos passeios, no empedramento, à sombra, ao sol, li­geiros uns, devagar uns certos, dentre tudo desafinando o ruído das car­roças como o moer seixos.

Desenganados de que por ali não arranjava-se o tal diadema, iam de loja em loja, sempre inutilmente. Uma tolice da imaginação do cego. No mercado não existia tal bugiganga.

O Batistinha, este a cogitar um pouco, para ver se encontrava nal­guma parte. Corria a vista. As padieiras, os claros de parede, ostentavam letreiros, tabuletas e amostras. De uma Ourivesaria se destacava um gordo relógio alvo, com ponteiros gigantes, e mais longe balanceava no ar o encarnadão de uma bandeira de leiloeiro com o dístico: Leilão hoje. Um mastro de consulado esgueirava para o alto, roçando a parede de uma esquina...

Desimaginado da sua pretensão, o cego estacou de repente. Resoluto:

— Home, quer saber de uma coisa? Vamos embora para casa.

Da Rua da Boa Vista, desembocando na Feira pelo Sul, via-se pela nesga do arruado, abrir a fervura do Mercado formigando de povo. Os ruídos eram impelidos ou descaminhados pelas correntes de ar. E já na praça, presenciava-se um fundo de xixazeiros altos a servir de sobre-céu à barracaria roxo-terra, verde, pintada a cores extravagantes e sujas. Do minavam os tons da roupa branca. As árvores se expandiam em cintilações e em sombras.

Não havia meio de o entreter por mais tempo. Opinião e pancada sua orçavam pela mesma segurança e rigidez. Contudo, ao atravessar a Feira, sempre tentou ver se achava por aqueles bazares e armarinhos

variegados, que dizem ter de tudo. Mas chegava a um e dizia: Aqui tem isto?

— É só o que falta, meu amigo, respondia o afanoso lojista, no seu aprumo.

Tocou o meio-dia, e soaram sinais por defunto no sino longínquo da Prainha. O vento favorecia a nitidez das badaladas.

O velho gritou para o Batistinha.

— Oh Joãozinho, se você vem assim remanchando eu largo-me adiante!

E entrou na bodega seguinte, explicando o que queria. O vendeiro custou a compreender.

— Quem foi que morreu? perguntou um polícia que acabava de com­prar coral para o correame.

— Quem sabe lá?

— Apois foi a se'Antônia, respondeu a Ângela, cuja vida era arrastar o chinelo e virar o copo, — aquela que estava lá em casa.

— E tu tens casa?

— A casa da dona que foi minha senhora.

— Ah! eu conhecia essa menina! Bonitona! exclamou o vendeiro com sentimento. Mas com quem havia casado?

O cego entrou na conversa:

— Não casou com ninguém, meu senhor!

O Batistinha e o Pedro ficaram do lado de fora, espiando uma briga de galos.

— Não casou? Não casou? repetiu a cabra, insolentemente, de mãos no quarto. E aqueles sinais são de donzela? Faz favor de me dizer?

Viu-se o cego revoltado até os ossos. Nesse ínterim o Batistinha ha­via sido inspirado por uma feliz lembrança, dizendo ao Cação:

— Ó Pedro! Agora é que me ocorre! Estamos fazendo uma grande besteira. Admira como o velho não se lembrou disto!

— Masoqueé?

— É que você já devia ter ido adiante com a fazenda!

— Como então?

— A fazenda é preta! Podese fazer a roupa.

— Ai home, é mesmo!

— Pois vai depressa, que assim o velho ao menos ficará mais con­solado!

E o Pedro largou, um pé aqui e outro lá.

Assim, quando a Ângela meteu-se a tagarelar com o vendeiro acerca dos sinais, o Batistinha entrava para dar parte ao velho da resolução to­mada e cumprida.

O cego respondia solenemente à liberta: que aqueles sinais que estavam ouvindo não podiam ser por quem ela dizia...

— Juro que são! interrompeu a cabra; e beijando os dedos indica­dores encruzados: — por esta cruz. Ainda agorinha vim da casa da Sinhá Fabiana. Um raio me parta nesse momento...

O cego passava por todas as cores. O Batistinha pegou-o pelo braço, e com uma voz engasgada, lhe dizia:

— Que tolice! Está vosmecê a dar trela a uma cabra tonta!

Foram saindo. A cabra, arroxeada de despeito, gritou-lhes da porta:

— Cabra tonta eu sei quem é. Quem sabe se tu não é o pai da criança, amarelo de goiana!

O Batistinha voltou e desandou-lhe um bofete, que a esparrou na calçada. O dono da venda apitou. Mas o criminoso desapareceu no meio do povo, que se ajuntara num instante.

A cabra erguendo-se no meio do círculo formado pelo ajuntamento, berrava:

— Anda dar aqui, miserave! Cabra desgraçado! Namorado sem ven­tura! Tu me deu é porque foi de treição!

E desfiou uma carretilha de nomes feios.

Entretanto foram aqueles os únicos sinais que tocaram naquele dia. A dúvida entrou no espírito do cego e começou a urdir a sua teia.

Já o cadáver amortalhado, com a fazenda da loja, e posto no caixão, que repousava em cima de dois mochos, um filhinho do Pedro, roendo a sua bolacha, nuzinho, torcendo o cabelo a chupar a língua, chegou e disse:

— Ih que pano preto!

O cego, entretanto, havia dado um último abraço na filha, com uma idéia de nuvem branca em céus de anil!

Tudo perdido! A dúvida fez a sua postura. Nasceu a certeza. O cego perdeu o tino. Achou em si uma decepção, como se o despissem na rua, como se o pegassem num furto, como se todos olhassem-no com espanto e nojo.

Teve força para guardar silêncio. E não se alevantou do lugar. Pudera! se a vergonha era toda nele! Todavia, quando menos pensou, estava de pé, saiu daquele ambiente afogadiço e mortal, com o coração fechado.

Um pai não insulta sua filha desonrada e morta. Acabara tudo. Assoberbava-lhe um grito enorme de desespero, iminente explosão, todo ele era um arrebentar. Não podia pegar em nada, e nem tocar em nada; largou pelo mato adentro, e andava fugindo ao contacto de tudo. Cada vez que assentava o pé, tirava-o, com uma sensação horripilante. O queixo lhe apertava, com uma adstringência suprema. E cada molécula do seu corpo era uma aflição. O coração tomava-lhe fôlego. E via sempre, sempre, a filha, não morta e estendida na esteira, mas viva, linda, formosa como a Virgem Santa, resistindo, resistindo.., para afinal desvendar-se por uma vez. Tapava os olhos. Enxergasse ele com os da carne! E subia-lhe de dentro um arrocho. Caiu, debaixo de uma moita de pau-ferro entretecida de maracujá-silvestre, com vontade de não mais se levantar.

Mandara o Joãozinho um homem após ele, e ficou para o enterro.

O golpe era profundo, o moço não tinha alma para assistir à dor daquele pai. A Binga rolava com um ataque, a dar guinchos na rede. Os circunstantes diziam que isto era doença do flato.

As quatro e meia horas da tarde assomava o enterro no adro da capelinha. Os carregadores vinham ofegantes da subida. A largas passadas solenes, calcando o pé, a um tempo, os quatro homens, de boné, jaqueta e calças de lustrim, com um rijo talabarte onde enfiavam as pon­tas dos varais que suportavam o caixão, entraram, pendidos para trás com o peso. Atroou a cadência de muitas pessoas no assoalho, e reboou a nave deserta. Os convidados abriram para os lados, depois de cada um armar-se do círio. Sobre uma pobre eça agaloada nas arestas, espe­rava o caixão a vinda do sacerdote, ao meio da igreja. Veio um menino acender as tochas dos quatro castiçais negros que arrodeavam o féretro. Inda houve momentos de expectativa. Enfim, apareceu pela porta lateral da capela-mor um rapazote de paletó de alpaca, alçando uma haste ne­gra e alta, encimada por uma aparência de guarda-sol fechado, de veludo preto com franjas de retrós amarelo, da ponta do que uma cruz subia com os seus braços duros e crispados. O rapazinho dobrou o joelho debaixo da lâmpada, e avançou, com o comprido emblema inclinado ao ombro, indo postar-se atrás, um pouco afastado, de costas para a saída. Veio o padre, com o roquete, a estola roxa, o ritual, acompanhado por outro menino que trazia a caldeirinha de água benta; e como se não estivesse ali pessoa viva, para ninguém olhou. Fez uma genuflexão à cruz, e colocando-se para um lado, leu no seu livro, rezou o Pater Noster, asper­giu o caixão, não sei o que fez mais, e foi-se embora. Os carregadores meteram os varais por debaixo do esquife, suspenderam, tiraram de so­bre a eça, enfiaram as pontas no talabarte, e saíram, envolvidos no pau­sado tropel dos convidados pelo tabuado soturno.

Da capela, avistava-se a paisagem dos sítios da praia, e lá por de­trás o mar enorme de um azul fino que provocava desejos de abeberar. Para o Nascente um teçume de coqueiros, e o cinzento do caminho in­terior do Meireles. Para o Poente a cidade, amostrando como a despontar do chão as torres e as platibandas mais elevadas.

Era longe o Cemitério. O Batistinha não foi além da Rua da Palma. Entretanto, era até andejo. Padecia, porém, um esmorecimento geral das forças naquele momento, e quisera ficar só, a ver se poderia consigo mesmo expandir-se, desabafar-se, prantear, imaginar, endoidecer, mor­rer, estalar de febre. Meteu-se no quarto, à Rua das Flores. E depois de dar algumas ordens ao capataz, que o acompanhava, mal este pôs o pé na soleira, a porta fechou-se.