A Afilhada/II

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A Afilhada por Manuel de Oliveira Paiva
Capítulo II

Não houve novena, nem terço, nem promessa que fizesse os gostos à Fabiana. Qual casamentos nem namoricos da filha com o Visconde! Uma miséria. Duvidou até da masculinidade do fidalgo, e classificou-o com um nome feio. Que aquilo era ver o bacorinho de chiqueiro, insensível às doçuras do Amor. Osório ria disto que era um gosto, e repetia joco-sério:

— É Fabiana, é isso mesmo, ele parece que não é caroável a mu­Iheres. O que eu creio, porém, é que a nossa nobreza não é suficiente. Sua Excelência prefere acabar solteirão, a desposar donzela que não seja da sua iguala.

— Home na verdade, compreendia ela, mó de coisa que é isso mesmo!

E desse jeito, Osório tornava-se mais coraçudo para com a dura Fa­biana chegando a dizer-lhe um dia nas ventas:

— Parece que não enxergas? Pois não vês, pelos modos, que esse Afrodisio Pimenta é sim uma boa criatura, mas que não tem coisa alguma das que exiges?

— Não é caroável a mulheres!

— E depois, a Maninha não casará com ele.

Por que não havia de casar? Ela se governava?

Osório sabia o motivo. A mulher quis por força que o dissesse, mas ele teimou em não, e foi mudando de assunto.

— Fica prá missa do dia.

— Então a menina não é caroável ao casamento.

Risota por parte do marido.

Não, lá isso; tu mo hás de dizer. Estás pegando uma moda que não tinhas. — Vamos, diga lá, por que é que ela não casa?...

— Porque... Ora gentes, aí está: porque não chove! Fabiana, olha o que eu te digo: Sê menos crédula. E senão... Deus queira que tu não tenhas plantado a desgraça nesta casa!

— Que diabo estás dizendo! Osório, deixemo-nos de mistérios. Ora muito bem!

— Nada, filha; vai para os teus arranjos. Entretém-te a costurar, e governar a casa... Pelo amor de Deus, não me inventes mais coisas... — Que coisas? Terás tu bebido sobrei osse?

— Nada. No frigir dos ovos é que se vê que manteiga sobra!... Dize: tens reparado a Antônia?

— A que respeito?

— Quantas vezes mandaste Ângela com presentes ao Afrodísio?

— Muitas.

— Meia palavra basta.

Aqui ele conchichou no ouvido da mulher, e esta fez primeiro um ar de pasmo, que transmudou em incredulidade.

— Duvido muito, homem. Quê?! O Visconde? Duvido até com os pés! Não é caroável...

Sancta simplicitas! — fez o Osório em atitude de oração. Enfim, se for, não me pesa na consciência.

— Desse pecado? Quero eu arder no inferno!

— Pois estás fritinha... Em todo o caso, Fabiana, tu és mulher, e peço-te que repares. Não crés, não é assim? Mas olha que somos donos desta casa, e respondemos por todos que estão sob o nosso telhado. Faze de conta que és polícia, tiveste uma denúncia, espiona, teu dever é ave­riguar. Não calculas quanto me aflige e assusta se isto for verdade. Pois que diabo de homem serei eu? E se os adversários políticos explorarem o escândalo, pondo a autoria para cima de mim?

— Não, por isso responde essa senhora.

— Toma providências, e se já for tarde, é urdir o segredo. Quando me lembro! quando me lembro!... Olha, separa-a um pouco da Mariinha!...

— Mas se for uma calúnia?... É calúnia, é! Não pode deixar de ser!

— Fabiana, faça o que eu lhe digo!... imperou o marido. A sertaneja, em toda a sua proa, gostava contudo, quando, num caso sério e grave, depois de disputarem, o marido batia-lhe o pé. Faça-se isto! — Ela não dava a entender obediência, ao contrário, replicava; mas aquilo, se fazia.

O homem começou a andar impressionado. Se ali estivesse ainda o Centu, bem; conversariam luminosamente sobre o caso, e quando me­nos, tiravam deduções filosóficas e bastantes para amainar as atribulações daquele ânimo frouxo. Com a mulher, encetaram uma série de cochichos, de mímicas, pisadas nas pontinhas dos pés, de mãos pela parede, uma verdadeira caducação. Antônia não saiu mais, foi-lhe vedado; a não ser na companhia da matrona. Dantes confiavam-na à mãe Zefa. Hoje nem isso.

Em uma daquelas ocasiões em que ela fora com a mãe Zefa, às novenas, na Prainha, que eram muito arrojadas, voltou um bocadinho tarde, alegando que houve muitos fogos de vista, e máquinas, de maneira que a novena foi longe. Mas, se alguém maldasse, notaria a tremura da fala, as titilações daquele coração, a abundante verbosidade que ela despe­java por cima de uma idéia fixa que a beliscava, que estava sempre a pôr a cabecinha de fora, como um demônio, quem atinasse, havia de suarpreender a bondade flagrante e a satisfação com que ela narrava, e des­crevia; a maneira saborosa por que ela mordia ou chupava os beiços, na inversa, como se acabasse de beber mel; o passar da mão pela cabeça :afastando dos olhos os cabelos fugidos do pente de arregaço, o encolher dos ombros em arrepios súbitos, e o modo por que, assentada, esfregava finamente os pés e mexia com as pernas, como se uma força oculta as obrigasse a enroscar. Estavam ceando, quando chegaram. Mãe Zefa tirava as sevilhas para deixar cair a areia, enquanto a loira tagarelava para impedir que lhe exigissem mais explicações pela tardança. Curvava o busto com um garbo de atriz, e parecia ter azeite na cintura, tão flácido a movia. A modos que dos pés ao rosto subiam uns afagos pela pele acima, e às vezes ela apertava os peitos com os braços encolhidos, em surpresa e com medo. Teria brasas nos pés, tanto pisava, fazendo estalar no tijolo seco o salto da botina.

Maria das Dores, essa, crassamente indiferente, brutalizada para tudo que não fosse a sua vida íntima com as cartas do Centu, com o espírito dele. Podia o mundo virar de pernas para cima. Fabiana lhe era um pesadelo, uma torneira que impedia o vazamento da sua verve da rapa­riga, um canhão encravado onde as suas fortes e virgínicas impressões não podiam explodir, uma porta condenada que vedava o dia de clarear-Ihe a alma pudica e anelante. Consolava-se ao piano, e com o estudo daquilo que agradaria ao amado; palestrava longamente com o pai, e escrevia laudas e laudas para o Centu, que não seriam endereçadas, mas que um dia ao menos haveriam ambos de ler. Antônia não podia ser-lhe confi­dente, Mariinha entendeu-a logo, e pó-la de parte.

— É uma doidela. Entende que sou apaixonada pelo seu Visconde, e por isso lança-me uns olhos revirados para o lado e uma cara muito beiçuda. Coitadinha! Eu lhe queria tanto! Já não me apelida Bem Bem, agora é nuamente: Maria das Dores. Das Dores vivo eu, alguém se farte de alegrias.

Nessa noite dos fogos de vista Antônia dormiu um sono regalado. Deitou-se nuazinha. Para isso esperou que a Mariinha se recolhesse pri­meiro e apagasse a vela. É verdade que por cima das paredes do quarto aparecia ainda claridade do aposento dos donos da casa, que tinha luz até a Fabiana catar a derradeira pulga. Mariinha ressonava bem; e como ela estivesse voltada para o lado da porta, a outra metade da rede, en­tesada, encobria-a para o aspecto do fundo do quarto. Antônia sentia uma espécie de correrias pela carne, e fazia-lhe bem o contacto imediato do ar. Chegou a rolar pela esteira, debaixo da rede, como uma cadela ao sol. E beijava surdamente os próprios cabelos e os próprios braços, num soluço abafado, num desespero de mordeduras e de apertos, de paro­xismo e de espasmo. Ajoelhada, puxou a beira da rede para si, e como o nadador agarrando-se à borda do escaler e içando-se com os próprios músculos, foi rojando os peitos docemente pelo grosso algodãozinho, o estômago, o ventre, as pernas, e devagarinho estendeu-se então na rede, ao comprido, inânime, como um cadáver no esquife. Lembrara-se de que o punho do lado dos pés enfiava no mesmo armador que o da rede da outra, e que o movimento comunicava. Cobriu-se com o lençol. E daí a pouco as varandas da rede estremeciam espaçada e levemente com a respiração dela, em começo de um amplo sono venturoso.

A cabra Ângela, esta se pusera moça aos treze anos. Uma cuia de mangabas não apeteceria tanto, nem um odorante abacaxi, nem uma dou­rada penca de bananas maçãs, das que ela ia levar de presente ao Vis­conde, em uma bandeja de xarão coberta com guardanapo de frivolité feito pelas mãozinhas da Das Dores ainda no tempo do Colégio.

Uma vez foi Ângela assim, ao Afrodísio, ao meio-dia em ponto, com uma compota de cajus, naquela mania de presentear que a Fabiana ainda conservava dos hábitos do seu torrão. O homem, sozinho em casa, veio recebê-la no topo da escada, "pensando que era gente", como disse gaiatando.

Estava mesmo de truz.

De mangas curtinhas, vestido em leve decote, cintava-lhe por cima dos cós da saia a fita do avental, de fazenda preta por mó do sujo. Nas costas encruzava um x formado pelas alças do sobrepeito. la mesmo pi­sando duro. Que mexer de quartos e de cotovelos! Que faceirice! Com que chiste arrebitava um muxoxo! Ria, como uma sem-vergonha! A ca­rapinha, de um castanho fulo, formava um pão, enfeitado com fita ver­melha e cravos brancos. Era domingo. Aquilo era muito bruta e muito linda. As ventas e os beiços volatilizavam ardor concupiscente, atordoante, apesar de que as mãos cheiravam sempre a ranço de cozinha, e os braços tinham um pêlo miudinho que parecia sujo permanente. Do cós, o pane­jamento da saia, muito cheio de pregazinhas verticais, descia rotundo e parecia ímpar com as pulsações do sangue. Pelo fio do lombo descia uma concavidade, afogada logo al pela compressão do corpinho aspe­ado. Os ombros, como os da Antônia tinham o voltear veludoso das du­nas, pejados noite e dia pelo sopro de Cupido. No pescoço aninhava-se uma cobra de aljôfares,e nas orelhas estavam sempre a dançar uns brin­cos enormes, de vidro, com um donaire arrebatado e domingão. A droga da cabrocha inflamava! As faces, carnosas como um caju de mimo, por cima do pigmento escuro da raça, tinham a transparência da fruta do imbu, apesar de não serem como as da Antônia, que eram pétalas de rosa atra­vés da luz. O relevo do cabelo e o roliço do cangote, com a firmeza tur­gescente da puberdade, porventura sacudiam por todo o corpo um fluxode humores cálidos, uma predisposição para o riso e para o choro, com mil nuanças várias de animalidade. Uma alimária de papoco, aquela es­crava. Quando andava, estremecia como geléia.

O quarto do Afrodísio ficava no andar daquele seu casarão portu­gués, de negociante, que destoava da ligeira e risonha edificação da ci­dade. Cheirava a mofo. Além, ainda tinha um mirante, onde o amigo desembargador gostava de ir para gozar do panorama urbano. Aqui, jane­linha para o nascente, e outra para o ocaso, com rótula e vidraça estorricadas, e óculos na parede ao sul e ao norte. Sempre uma rede ar­mada nos caibros, uma banca e castiçal, e dois mochos. Merendava lá, quando lhe parecia, o solteirão; e até, ao canto, entre palhas de ninho de rato e garrafas esgotadas, reviravam-se latas vazias de doces e de biscoitos, e em cima de uma trave jaziam pratos cobertos de pó e talheres ensebados de queijo. Tinha graça era assim, à estudante do Recife, apesar de que, o Senhor Visconde, quando lhe dava na veneta, esmurrava o moleque do serviço, bradava contra aquela porcaria, mandava lavar, por erva de ratos, entupir os buracos, arsenicar os cupins, protestando pintar tudinho de novo.

Angela depôs a bandeja em cima da mesa, com um ligeiro ofego da subida. Destamparam as compoteiras.

O sol não entrava pelas janelinhas escancaradas, porque estava a pino; mas o vento, que ajudava a agitar as bolotas da rede, aplicava nas telhas um chupão sensual. De quando em vez as bandas da rótula iam e vinham, e em instante batiam furiosamente no portal, à refrega, para acalmar de novo.

Uma rajada, como sacudida adrede, esflorava a poeira do assoalho; e, à guisa de um balão de festejo, apagado, perdido numa árvore, a inflar o papel sussurrante, como um fantasma em noite de luar, pendia de um armador a saia de chita, em folha, com que naquele domingo a cabrocha "quebrara a tigela". O vento entrava-lhe pelos babados, e enchia tudo. A guarda-pisa arrebitava, deixando ver a saia por dentro, e abaixava. O cordão de enfiar, que franzia o cós, preso ao armador, agüentava os em­puxões do ar agitado. E boquiaberto, camaleões a engolir vento, os dois sapatinhos verdes estiravam-se mesmo com a dormência de lezardos. Alva, como uma alva de padre, sobre o armário da sacristia por cima dos paramentos para ser vestida, encobria o casaco e o corpinho a anágua, revirada na mesa, ao lado das compoteiras cobertas de frivolité.

Além da influência do berço e da educação, Mãe Zefa estendia so-tre Angela e sobre a Antônia outras muitas. Eram estas duas quase da mesma feição, pois que a brancura de Antônia era enegrecida pela miséria dos pais, por um descuido hereditário, pela existência vegetativa da sua linhagem. Foi um tormento, quando a Fabiana lhe pós nas mãos o Método Fácil para Aprender a Ler; a menina gastava o tempo abismada nas vinhetas, uma das quais, logo no princípio, era um moço a cavalo, correndo, quase nu, com um volumoso X e por baixo esta inscrição: Xe­nofonte era um filósofo guerreiro. Porém, a vinheta preferida era uma, na letra L, em que se abeiram uns lírios perseguidos por um moscardo; os lírios quietos no seu lugar, e o inseto a dar voltas como procurando o co­ração de um deles para varar de uma feita. A criança atraía-se por esse namoro.

— Certamente não podes ainda avaliar que de horror e de náuseas produz uma beijoca aplicada por um besouro num imo virginal de uma flor, — dizia então o padrinho, sempre filosófico.

Para Ângela, além de tudo, Mãe Zefa ostentava mais o prestígio de ser a rainha dos pretos. A cabrita bem se lembrava de té-la visto com uma coroa de lata vistosamente dourada, com assento à esquerda d'el-rei, também, de coroa, e mais os calções e capa de grande varredura que enrolam no braço para dispensar criados do séquito. Tinha bem presente, gravada na recordação de menina, aquele casarão da Praça do Patrocínio, que os pretos alugaram para a festa de 6 de janeiro. O dossel do trono, armado pelo sacristão do Rosário, num grande salão forrado e assoalhado; as pretas, vestidas longamente, de alvo, e de cor rosa, flores­cidas de ramalhetes, peroladas com miçangas, a caminhar com ares de grandes damas, e mais elegantes que as moças brancas do Clube, mais cheias de cane, mui destras e remexidas na dança, desabridas na ga­lhofa, e com estudados refinamentos e meneios de nobres senhoras; Vossa Incelença pra qui, Sua Maxtade d'acolá, e de quando em vez, como estouro de bomba um tu e um não seja besta a entornar o caldo da civili­dade. Angela futurava vir a ser a rainha da classe.

Antônia, por seu lado, até isso almejou uma feita! Num ímpeto da sua natureza açudada, num escouceamento da sua pobre alma votada ao inferno. Arranchavam-se nela oásis de felicidade bruta e momentânea, em um só dia, caravanas de desejos. Indo ao circo de cavalinhos, voltava querendo ser pelotiqueira. Do mesmo modo, se fosse ao Colégio das Irmãs, ficaria presa de um anelo orgástico de entrar para o recolhimento, amando ao bom Jesus, com a cabeça metida em um chapeirão semelhante a uma enorme borboleta de goma. Assim como, presenciando a cachorrada de uma messalina do tom, arderia por ser também cadela em cio contínuo de devassidões aniquiladoras, e pestilências, de abominações de cloaca estucada com ouros e brilhantes.

— Virtude próxima do vício é o amor, proferia o Osório nas suas ponderações — basta uma vareja, e o belo nariz de Cupido broca-se em bicheira horrível como um cancro.

Siá Dona Fabiana depositava em Mãe Zefa uma confiança a olhos fechados. Não verificou em nada o que o marido pediu com instância. E mesmo, a falar de coração nas mãos, ela de si consigo não havia em grande conta a honra de uma escrava, cujos partos seriam rendosos, nem a de uma rapariga de baixa estirpe, que nascem mesmo é para o que é ruim. O que Fabiana sabia, conscientemente ou não, mas unicamente, era satisfazer a própria vontade, caprichosa até ali. Soltou de novo as rédeas a Antônia, certificando ao marido "que aquilo era uma grandissima calúnia".

— Deus me perdoe, dizia Mãe Zefa batendo nas suas faces pelhan­cosas, mas, em tão boa hora diga, sinhazinha Fabiana a mode coisa que se enviuvasse casava com seo Visconde! Nunca vi uma cegueira assim!

A preta não se enganava. E se o desembargador ouvisse aquilo, teria presente, por associação de idéias, o que se deu com ele e a sogra, que Deus haja, e que o fez obter mais uma variedade para a espécie amor. A sogra amava-o, pelo veiculo da filha! Amor de sogra, que as transforma em harpias quando são ciumentas. Assim fazia Fabiana com o Visconde, futuro genro falhado.

Antônia, contudo, fingia não bater-lhe o papo com desejos de sair, pois conhecia o fraco da madrinha. Se botasse muita força por passear, o espírito contraditório da Fabiana saía-se logo:

— Não, senhora; não perdeu nada em novenas, nem em Passeio Público.

Assim, Antônia ficava nas encolhas, e ao menor convite das vizi­nhas, punha-se com chove não me molha. A matrona metia então o be­delho:

— Vai com as outras, homem! Queres te fazer rogada, criatura?

Mãe Zefa acompanhava como cabo de ordem e como aia.

O Afrodísio, perpicaz como ele, ia menos à casa do desembarga­dor. Ver o quê? Pegou no ar as intenções da velhusca, e riu entre as va­randas da rede:

— Chô! Arma tua arapuca prá lá. Não se quer não, caju azedo!

Osório caçoava da mulher, e dava pinotes, esfregando as mãos. Um rapaz, lá uma vez, aquele sujeito sisudo. Dizia-lhe esperançosa:

— Deixe estar, senhor! Eu conheço estas coisas. Os fidalgos pro­cedem diferente de nós.

O letrado foi mudando de rumo, com a privança do titular. Farto de familias como a da mulher que tinham por brasões o nascimento, a co­locação suntuosa, a solidariedade partidária e de parentesco, o sentimento da honra traduzido em ódio e em exterminação até das galinhas do ter­reiro do ofensor, e um amor próprio a ponto de só achar superior o que era dos seus. Com todo o fulgurante cortejo de preceitos estrelados en­grinaldando o escudo de pau da fidalguia cabeça-chata, em forma de tartaruga; diante do fulmíneo Sinai da lei dos nossos avós, com Moisés de chapéu de couro e garrucha, e Jeová de chile e esporas, e coivara de roçado por sarça ardente, e tábuas de lei escritas com a ponta das par­naíbas, o desembargador soltava na cara da mulher uma gargalhada es­voaçante e bulhenta como um bando de jandaias devastadoras, e como Aarão, preferia vir adorar na planície o bezerro de ouro, feitura humana, reconhecendo que só é admissível a aristrocracia dos mais inteligentes e mais educados cosmopolitamente, e dos habilmente lidadores. Por este lado valia o Afrodísio, mas era abominável o Visconde.

Este, quando pilhava o Osório nessas marés de gente nova, chama­va-o gracejando: "Cabeça erma de cãs e de riso".

Mariinha vivia resignada, muito amiga do pai, e, Deus lhe perdoe, enterrando no coração, como um sapo durante o estio, uma eterna queixa da mãe. Fabiana um dia caiu na asneira de falar pelo claro, já impando: queria que namorasse o Visconde e casasse com ele. A filha teve ímpeto de responder: Namore vosmecê! Mas limitou-se a fazer como a rama verde ao toque da labareda. E a muito instar, suplicou:

— Mamãe, eu não me caso.

— Havemos de ver. Tolinha!

— Filha de quem sou eu?

— Pois é, por isso mesmo...

— Por ser sua filha, tenho palavra! disse com timidez.

— Gentes! Venham ver agora esta rainha! Tens palavra, não é, Ma­ria? Pois bem, guarde-a, que é bem bonito.

Aquele sarcasmo hirto de gente velha era irritante. A tensão deli­ciosa em que vivia imersa a donzela, e a idéia fixa no Centu, faziam-na astuta. Vencia sempre a mãe. Dizia-lhe por exemplo, voltando às boas:

— Mamãezinha, confie em Deus. Você bem sabe que eu lhe quero bem. Pois ensine como hei de fazer para agradar o Visconde. Ele não me gosta, quem não for cego que veja. Você bem me viu tentar muitas vezes... Mas eu não sei... Não entendo de namoro... Como é que se faz?... Hein?

— Tola como o pai!

— Mas como é? Fecho o olho prá ele?

— Que olho, mulher! Faze... Derrenga-te um pouco, amortece a vista, fala assim...

— Assim como o gato no telhado?

— Sim... Não! Como teu pai... Mas...

— O que é? Hein?

— Conversa com o Visconde. Arre lá!

— Mas eu não conversei?

— Faze de conta que ele vem expressamente visitar-te...

— Ofereço fogo para o charuto e um cálice de conhaque, não é?

— Deixa que te aperte a mão demoradamente, interessa-te por ele, pela sua saúde...

— Mas eu sei que ele é sadio como o peru que se comeu ontem! — Espia muito pra ele.

— E o que mais?

— Principia, continua, teima, que há de vir aparecendo o que for preciso fazer.

— Pois sim. Olhe que vontade não me falta. Está ouvindo?

E por esse modo Maninha ia ganhando tempo, à medida que as vi­sitas do Visconde iam espaçando.

Antônia é que vivia feliz. Amada! Achava uma graça extraordinária em tudo. Diligente. A Fabiana colmava-a de elogios pela sua aplicação à costura e ao labirinto, pelo cuidado com as coisas de casa, pela bran­dura de gênio, obediente, grata e boa, bem mandada, não indo à janela como no outro tempo, não respondendo trombuda; aquilo sim!

— Feliz o pai que te gerou! Deus dê o reino do céu à mãe que te pôs no mundo!... A rapariga era tão estimável que até o Visconde presta­va-lhe atenção! E criminavam esta amorosidade dele! Caluniosos! Que gente, meu Deus, o Visconde era incapaz de abusar da hospitalidade! Um homem temente a Deus! E por outro lado: se fosse verdade, podia fazê-la feliz, casando-a aí com um rapaz pobre, com o seu dotezinho e com proteção para toda a vida. Mas era mentira. Enfim, Deus escreve direito por linhas tortas.

E Fabiana ia sempre direita ao alvo: tê-lo para genro. Pulava ror cima de qualquer empeço. E tudo se desculparia ao Afrodísio, porque não há como a lógica da própria satisfação e do próprio interesse.

Maninha, que vivia como o caramujo na sua concha, entretinha-se em reparar na vida nova da Antônia, como se estivesse incumbida de biografá-la ou de policiá-la secretamente. Uma ocupação para o seu espírito apreensivo. Logo ao amanhecer, que a Honorata abria as portas, e en­trava o arzinho azulado e puro de lá de fora, Antônia corria para o quintal. Atravessava o jardim e a horta, e penetrava no chiqueiro das galinhas, desatando a correia da portinhola relaxadamente engonçada na cerca de faxina. Debatia-se então no ar o branco volitar dos pombos a descerem para o terreiro raso de milho que ela sacudia a mancheias. Corriam para ela as aves, o pequeno exército galináceo encobria.a zona alimentícia, a desfiar os grãos pela garganta adentro, engolindo gulosamente. Antônia parecia mãe deles todos. A aurora para a população do chiqueiro. So­branceira, como um gigante, na onda irrequieta e emplumada, arengava ao mais forte que beliscava ao mais fraco, ralhava com os atrevidos que pulavam para ela vorazmente, sobretudo os senhores pombos, que pou­savam arrulhando-lhe em torno ao pescoço, fazendo cócegas com os pés de coral na pele nua. O sol ainda estava pelos telhados, e na cabeleirameio flava de um pé de oiti vizinho cantava o galo de campina. Ao fundo do quarteirão, uma palmeira imperial, lindissima e alta coluna, fantasio­samente dedilhava com as pontas das folhas, no beiral de um sobrado, donde assemelha-se que a luz cala. Pressentia-se o acordar das habitações na sua alvenaria folgada e leve. Acolchoavam-se pés de fava na cerca do galinheiro, e do chão poeirento e úmido, erguiam-se mamoeiros ma­chos, a esgalhar dentre o bordado feixe de suas palmas de leque, a al­vura da inflorescência, de que as aves saboreiam as pétalas chuviscadas no pó.

Já esvaziara o avental da Antônia e ei-la, corno um reposteiro, pen­dente ao vinco da cintura, meio arroliçado no ventre, meio cauteloso so­bre o colo, onde é pregado a bico de alfinete, e afastando-se um e apro­ximando-se, à mercê do ar, dos babados da saia. Um arrepio de matinal frescura percorria-lhe a cútis a descoberto, do antebraço e do pescoço, e uns tons pálidos machucavam-lhe a fisionomia, como ainda pela impressão de sonhos, e arroxeiam de leve a mucosa dos lábios, que não são, como os da Angela, da cor dos mangarás das bananeiras.

Há uma certa lividez passageira na polpa das suas mãos, porém o cor-de-rosa começa a aurorear da transparência marfínea das suas unhas. À medida que declina o limite moroso e tremente da sombra, como um vaso que se vai esgotando, e ressuscitam no sol os corpos, e as cores se esquentam, vão-lhe os átomos do sangue tomando lugar a flux, e mais tarde parece querer borbotar da epiderme, marejando a cor do fruto do mandacaru. A branda chita do vestido, esfriado, parece buscar-lhe o ca­lor do corpo, apegar-se-lhe, secundada pelo pequeno sopro erradio ma­tutino. Os cabelos caem desprendidos para as costas, meio embaraça­dos, e pela impertinência do ar, prende-os ela, enrolando-os, com uma grampa. O galo tem a impertinência de procurar milho até no purpúreo marroquim das suas chinelas, e é tão desastrado que belisca-lhe o tor­nozelo, ligeira empola disfarçando o encastoamento da perna no pé re­chonchudo, que irritado pela dor arrebita a orla da saia aplicando violen­tamente contra o corpo do galo atrevido. O rei do galinheiro toca rebate com uma gritaria alarmante, depois de erguer-se no pó onde o rebolcara o pontapé, que muita gente quereria levar em parelhas circunstâncias, principalmente o coitado do João Batista, que a amava à proporção que ela o desprezava.

No alto do muro o gato se assustou, e vendo a dona, acocorava-se de novo ao bom sol que já o banhava com a sua inundação de luz e de quentura. As cores pipilam. O limite da sombra corta em oblíqua de mais em mais encolhida o longo do muro, e a areia se desnuda paulatinamente ao loirejamento solar. O fundo do quintal parece arder, desde a ramaria miudinha e gigantesca do tamarindo até à sapata do muro, onde aqui e ali se prendem flocos de grama, como saídos do alto, e donde, já no solo,irrompem mamoeirinhos novos e frementes. Diferencia-se na areia a faixa irregular do caminho da cacimba, pepinado e socado, e luzem os braços negros da Honorata puxando água, ao ganir moroso do carretel.

Sentia-se uma cheiro de umidade, de horta, e um errante perfume. A copa do tamarindo era uma nuvem, como feita de frouxel de melindres, miudinhas folhas, miudinhas pétalas douradas pelo mordente do sol, miu­dinhos insetos fervilhando e zunindo, naquele matutino ágape aéreo. Como caem os pingos da chuva grossa, e como voa a areia peneirada dos mor­ros, assim deflora-se a dourada carregação do tamarindeiro, e o germe fica, ao confuso e profuso efervescer das abelhas e marimbondos e besouros e vespas. De toda parte acodem os bandos de insetos, na época da inflorescência, ao namoro, ao idílio das florinhas incautas. E é nos dois crespúsculos, da aurora e do entardecer, que se abrem as portas daquela feira suspensa.

Antônia evidenciava-se ao sol, que descera até aos seus sapatos de marroquim. Daí a pouco os seus lábios estavam da cor da crista do galo, e as faces com a ternura da rosa amélia, e seus olhos como um pingo de verde-mar numa pétala de jasmim. Fechou sobre si a portinhola do galinheiro. Sacudiu o avental. Consertou de novo o cabelo, foi olhar-se na cacimba, e soltou-o de novo. Lavou o rosto e as mãos na tina que a Honorata enchia. Enxugou-se com o avental, e era um prazer vê-la es­fregar com ele os braços que pareciam feitos de uma substância não classificada ainda, e o pescoço, arrodeado de beijos por força da imaginação de quem a visse. O grito de Fabiana, trespassando as plantações como uma seta importuna, chamou-a para casa, perguntou-lhe "pela saia de gorgorão que ficou nas costas da cadeira". Antônia veio devagarinho. Ma­riinha ia. E a loira e a morena encontraram-se no meio do quintal, cada qual com o sorriso que lhe era próprio.

— Vai aguar os seus craveiros, Maria?

— Vou. Não sei se o tio Raimundo preparou o estrume. As fo, migas estavam roendo, mas eu botei algodão...

— Não serve, menina! Só uma roda como eu fiz r' sempre-viva. — Para mim eu creio que nem isso, Antônia. Eu sou caipora até com as minhas flores.

— Pois esta cá é feliz até com as galinhas. A minha ninhada está que é um gosto. É cada pintão deste tamanho.

Através das plantas ouvia-se a fala biliosa da Fabiana, gritando pela rapariga. Esta apressou o passo, e correu, deixando após si, como a ca­tinga de certos animais, uma peculiar emanação.

Mariinha ficou um instante parada, recebendo o hálito feminil das flores. Figurava, como sempre, ter a seu lado o Centu ou que ele a estivesse vendo. Havia escrito pela terceira vez, la muito bem. Esperançoso, entusiasmado com o seu amor pela Ciência. Parecia nem se lembrar daquela cujo pensamento estava nele noite e dia! Porém os enlevos de amor, essa vida toda pelo impalpável, na supliciada menina, eram toldadas pela idéia feroz do capricho materno. Ela estava no mais belo dos sonhos acorda, lhe avançava essa idéia, de dentes arreganhados, e o seu coração dava mais um grito de pavor. Tinha uma pasmosa sensibilidade por todo o corpo. Uma simpatia imensa, adquirida, pela natureza em bruto, e apre­ciava o isolamento, a soledade naquele selvagem egoísmo de paixão. No seu imaginar emprestava sentimento às plantas, e forgicava colóquios entre os seres inanimados, como fazem as crianças com as bonecas. A mãe já lhe havia dito que ela parecia "ter paixão pelo Senhor Dom Vi­cente".

Isto abalou-a no momento, como a queda de um raio, e à luz des­lumbrante do relâmpago ela persuadiu-se de que a mãe leu-a toda por dentro. Mas disfarçou em surpresa, pôde achar nos lábios uma dobra de riso, e depois no diafragma uma boa gargalhada, e respondeu galante­mente, com a incubada ironia das donzelas.

— Era só o que faltava... Nem pelo Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de São Galo, mamãe, quanto mais...

Quando passeava no quintal, ouvia trincarem as florinhas nos seus pecíolos. Àquela hora, em que ia em busca do regador pequenino para amanhar as suas plantas prediletas, o velho crioulo Raimundo, irmão de Mãe Zefa, mas um polo oposto, e que é torto de um olho, ia e vinha ar­mado de dois enormes regadores que mergulhava alternativamente nos barris do pé da cacimba, e alternativamente ia distribuindo pelas plantas, de manso, caminhando ora suave, ora apressado.

Como que sentia-se o cair das folhas mortas expulsas pela selva, cujo ímpeto a manhã desafiava. Para Maninha, corolas baforavam ver­sidades de aromas; corolas como borboletas fixas, colibris abismados na própria contemplação. Reportava-se insensivelmente à idade infantil, e ao tempo do Colégio, e cantava ingenuamente com a sua fininha voz de criança:

"Acordei de madrugada
Fui varrer a Conceição
Encontrei Nossa Senhora
Com seu raminho na mão...

Ao preto velho Raimundo, ao ver a donzela morena, surpreendia-se uma saudade comprimida nas suas feições de mono. Ele perpassava pau­sadamente como quem conduz um defunto pela alça do esquife; ouvia-se entre a rama de vereda em vereda, com as suas calças de azulão, ao peso de uma vida inteira de cativeiro, e reaparecia, o crânio entoucado por um lenço de ganga. E continuava a regar. Os fios de água trespassavam em chusma a ramaria delicada. A areia estrumada como que entumescia,desprendendo um tênue cheiro de estrume e de esturro. Os ramos fica­vam a gotejar, e espaçadamente, a água junta na ponta de uma folha, caía. A rega era a modo de uma vassoura de cristal fundido, a espanar a poeira que inquinava as plantas. A terra das veredas parecia upar on­deantemente, artérias da circulação da luz sobre as ramadas. A hortaliça, nos canteiros suspensos, afogava-se a meio na sombra, e a meio emer­gia no sol, e por aí adejavam borboletas brancas e amarelas. Maninha, entrou a matar as lagartas das couves, depois de abençoar as suas plan­tinhas com a linfa do regadorzinho verde. E de pedaço em pedaço, ou­via-se o grunhir do carretel, seco e o despenhar da água no bojo dos bar­ris, ao braço negro da Honorata.

O muro entreaparecia, com as suas fieiras, a nu, reforçado pelas pilastras cujos lombos empolavam na penumbra. Havia um largo jogo de ensombrações, e trémulos de frondagens frescas. O pino das altas árvores fulminava ardente. Nesses toques de fogo e verde da clorofila pul­sava como um raro fulgor de pedrarias. Havia um saudoso encanto de florestas ínvias.

— Centu! Centu! — É o grito surdo que se remexe no coração da morena. Que fazes? Aqui também há a poesia da selva, e mais a poesia única, a da minha alma, a dos meus sonhos, a do mundo inteiro que eu cismo superior a esse que loucamente buscas interpretar. Sê sábio, para esta natureza, para este universo que eu sinto dentro de mim. Que és tu nessa amplidão de águas da Amazônia? Nessa infinidade de florestas mudas e pavorosas, sem o sol e sem mulher; que vales para esses ho­mens secarrões que te acompanham e para os índios bravios, e para as feras, e para tudo isso que é indiferente às tuas dores e às tuas alegrias? Centu ingrato! Conhece, no meu padecimento e firmeza, como se é grande e forte! Centu! Centu, ingrato!...

A garrixa soltava, no muro, aos saltinhos de cauda erguida, para o ninho do beiral da cozinha, o ruído que a natureza lhe ensinou, seme­lhante a fricção arrostada de um seixo no outro; e o vem-vem balançava docemente no macio do tamarindeiro, com o seu assobiozinho afinado e afilado; pequenininho feito de gema de ovo e de ônix, coroado de ouro, um reizinho aéreo e feliz.

A rapariga, debruçada sobre o canteiro, já não catava as couves, e com a mão no estrume, que estava afofando entre os pés de coentro, acompanhava com a vista o voejar de uma borboleta nas primaveras do alpendre. Angela, de ciscador, limpava o terreiro, reunindo as folhas e detritos em um montículo. O tio Raimundo descansava um pouco os re­gadores, e lançava um olhar conhecedor para a habitação, guiado por uma vozeria, e resmungou para a menina:

— Já pega o lelê, sinhazinha.

Modelava-se, em fundo alteroso, a alvenaria da casa. Pela grilhagem miudinha do peitoril da varanda, cor de telha, oscilavam os sarmen­tos e as folhas verde-escuras do maracujá-suspiro, e uns braços, por cordões e varinhas, galgavam acima, com pretensões de guarnecer o freste das colunas. Os largos ombros da Dona Fabiana perpassavam de vez em quando, de uma porta para outra, já encobrindo alguns dos quadros e móveis da sala de jantar, já oculto. E então, como se lhe enxergasse bem o olhar lívido e o carão arroxeado, o preto Raimundo se escoava me­droso pelas ramadas, e foi sentar-se na casinha de banhos, de barro e zinco, chupitando no seu cachimbo, ancho por estar fora do alcance da fúria, e caçoava da triste da Benedita, cujo topete e cuja tromba perpassavam também o zunzum. Ouvia-se baques e despejamentos de raiva. Ângela, no terreiro, divertia perseguindo um besouro, com o ciscador, quando a Fabiana se afastava; e ciscava muito apurada, o corpo acur­vado na lida, quando a senhora reaparecia:

— Que parelha! — murmura no seu asilo o regadeiro. A Benedita e a senhora à mode que nasceram pra comer no mesmo cocho. Se pe­gam por tudo! E você vê — continuava, como se estivesse com outra pessoa — a senhora podia vender logo a Benedita! Mas não senhor, mode que precisa dela é assim mesmo. Deus me livre! Hum hum! Eu mesmo? Não presta? Bote pra fora, acabe de uma vez. Mas agora, pôr-se um cristão de Deus se arreliando todo dia? Por mode quê? Como é que seo desem­bargador agüenta isto, senhor? Eu mesmo nem sei! Hum hum! Chega me dá um vexame! O que é que os vizinhos não é de dizer desta mulher, e da sinhazinha? Oh! que moça boa. Nem parece filha da senhora..

Entra-lhe de repente pelo banheiro um molequinho, nu, perseguido pela mãe, a Benedita, que o queria arrebentar com uma acha de lenha, sem que, nem pra quê; talvez por vingar-se da ama. O mísero foi agar­rar-se com o preto arrulhando numa vozinha suplicativa:

— Dindinho!

Meteu-se-lhe pela roupa, achando no suor do cabra velho um cheiro esquisito e bom. A Benedita, deixou-o de mão, por veneração ao crioulo. Mas este repeliu a criança, obrigando a voltar para casa:

— É que tu fizeste cousa, corno! Passa já pra cima!

E o moleque repetia:

— Dindinho!

— Passa! — replicou o regadeiro, pegando num cipó.

— O que está dizendo, tio Raimundo? — fez a Mariinha, que acor­dava do seu enlevo, e aproximava-se da cacimba. Deixe o moleque! Vai brincar, Francisco... Olha, tira-me umas goiabas...

Mas a donzela tomou um susto, com a voz da mãe, que assomava na varanda e gritava-lhe:

— Que está também fazendo, senhora dona?

— Já vou, mamãe. E virando-se para o moleque, tomou-o pela mão: Vamos. Quero ver quem toca em você.

Aquela zoada era muito conhecida em casa, e tolo é quem a estra­nha. A Fabiana, usurária, por um lado, e esbanjadeira por outro. Queria, por exemplo, quando lhe dava na cachola, que a Benedita desse conta da panela com dez réis de alho e dez réis de pimenta. Até a lenha, dada por contagem. O Visconde prezava-a por isso, ele que, mesmo nos gran­des negócios políticos não gastava sem o cálculo prévio. Se ele derra­masse um saquinho de ouro nas mãos da plebe faminta que elege aos representantes da nação, diz o Osório desiludido da sua candidatura a senador, é que estes não passavam de procuradores de meia dúzia in­teresseira. Caramba!

O desembargador, muito em segredo, chamava epicurista ao Vis­conde, no mau sentido da palavra. Bem ou mal, entende que o cacique receava o saque à sua casa, em revolução que por acaso estalasse, e que por isso arrumou-se chefe de partido e alimentador da multidão, e a cada vulto festejado pelas turbas sacudia um tentáculo. Isto o letrado apreciaria como virtude, como sinal de superioridade digna do século da astúcia e da inteligência, se não lhe fosse além de tudo ganhando uma certa aversão, indiretamente, por causa da embirrância da. Fabiana em querer à fina força conquistá-lo para genro. O Afrodísio não tinha culpa disto, entretanto. O mais que poderia fazer, seria, aproveitando aquela cegueira da mulher, dar pasto aos seus apetites egoístas, de homem hábil e despido de certos rigores de moralidade.

O Visconde, muitas vezes, dizia intencionalmente ao desembargador: — Seo Osório, fique certo de que ninguém trabalha pela morte. — Nem o suicida? acudia presto.

— Nem mesmo quem se suicida, que quando morre está gozando do efeito do seu desaparecimento.

— Ah! fez o Osório pasmando e levando o dedo à fronte... Existirá em absoluto este antegozo compensador?

E entrou a ruminar filosofias, enquanto as conseqüências da tei­mosia da mulher, aliás muito bem intencionada, seguiam naturalmente o fio das águas.

Afrodísio tinha agora o mirante bem varridinho, com uma rede de varandas sempre lavada, e lençol vermelho com avesso branco, e uma cama de vento, bom vinho do Porto e ovos para gemada, pães-de-ló, bis­coitinhos, etc. Queixava-se de fraqueza "por amor do trabalho", e da re­crudescência de um mal antigo. Viam-no por vezes apoetado. Punha-se na alta janelinha, de mão no queixo, a olhar para o escuro da noite, como se esperasse alguém, ou como se estivera idiotando. Por cima de sua cabeça abria-se muda a solenidade das estrelas, abundantes e vivas, na ardósia indistinta; e no horizonte, crepitava algum foguinho de arrabalde reverberando dubiamente numa frentezinha caiada ou nalguma árvore. A cidade confundia-se em enormes blocos negros, dentre os quais, como de folgadas junturas, surgia a claridade aqui e ali estrelando os combustores. O homem sentia-se bem, com aquela perspectiva da noite. As de­licadas nuanças da treva e da claridade, ora um pesado negror de carvão, ora um sublime luzir de estrelas, e os mais melodiosos esbatimentos, os mais fantásticos reflexos, uma frente de sobrado que subia vagamente, o interior arborizado de um quarteirão, sombras coladas em sombras, a série angulosa dos telhados, tudo se lhe desenhava ao mais doce con­junto, e um sentimento vago e dolorido penetrava-o.

Um galo feria como uma estrela o escuro do silêncio, ao longe, sen­tinela a bradar as armas.

Às vezes quisera ter a sua mulher e os seus filhinhos. Mas era bastante abraçar a Antônia, a Porcina, a Angela, ou qualquer outra, e na idéia do animal fêmea submergia-se a da esposa. Ficava desconchavado na atmosfera de um lar. Em compensação as famílias olhavam-no com des­confiança.

Estava com sono e dispunha-se para descer. Ao pegar na luz, corria um derradeiro olhar pelo compartimento, o mais alto da cidade, povoado de sensações amortecidas; para a rede, para a esteira, para a mesa, onde num grampo enrolava uma fita de veludo, atilho do cabelo, beijava sa­borosamente a fita, e as sandálias de mulher, que jaziam entre os objetos da mesa. Atirado na cadeira havia um par de meias servidas, em cuja catinga de suor feminino ele se absorvia. Havia mais uma adorável ca­misa de cambraia, clâmide finíssima, com rendas de alto a baixo, deco­tada, curta, sem mangas, parecendo conservar um jeito de seios. Isso tudo ele tinha ali, compradinho por ele. Estava cansado de maquinar um meio de encher aquela camisa fora de horas.

Aquelas sensações deslizavam num plano inclinado, o coitado solto nele, rolava, e a velocidade, nestas soalheiras, inda cada vez maior, quem sabe, a tropeçar no delírio. O Afrodísio tinha o amor da Antônia, aviltado a princípio com o da Angela; e agora, o que servia era subir, subir até às estrelas, no balão do amor. Antônia calculava subir até ao casamento, iludida pelo exemplo ainda frescal, de um português que vivera com uma escrava e a desposara em artigo de morte.

Antônia cogitava também em um meio plausível de deixar a casa da madrinha.

A intenção desta — e as suas intenções eram de ferro — era que a afilhada só havia da sair de sua companhia, ou casada, ou para o ce­mitério.

Mãe Zefa desempenhava papel importante. Propusera ao homem alvitres vários para arrebatar a rapariga e tê-la de peito cheio, sem hora marcada. Mas nenhum era aceitável. Davam nas vistas. Uma terra pe­quena, é o diabo!

Antônia vivia no céu. Tudo a sensibilizava a boa parte. Mariinha re­parava nela com tristeza. A Dona Fabiana queria cada vez mais a afilhada. Aquilo sim! Havia ela de ser uma dona de casa, uma senhora, dando-se ao respeito com os escravos, sempre muito limpa, e cheirosa; que noivo de mão cheia não acharia! O João Batista babava-se por ela! Um moço de juízo, poupado, um regalo, que parzinho de dar pencas!

Antônia estava mesmo de cheirar e guardar. A carne a fazia feliz. De uma grande ternura pelos gatos, pelos cães, pelas galinhas; é crível que achava numa flor um segredo novo, uma beleza misteriosa e significativa.

la ao banho, sozinha, quase todos os dias. Passava lá um tempão, com sabonetes e água-florida. Dona Fabiana perguntou-lhe a sorrir, donde lhe vinha dinheiro para tanta coisa:

— Oh, madrinha, pois o João Batista não botou na rifa aquela fro­nha que acabei?

Estava, portanto, justificado e explicado.

Uma obra feita pela mão de Antônia, rifada pelo João Batista, seria vendida a peso de ouro.

Um día a Mariinha, para moê-la, perguntou ingenuamente: — Que fronha é essa para render tanto? menina!

— Olhe lá, cadê essa dinheirama? Só nos frasquinhos de cheiro, nos sabonetes, uma...

— Está bom, Amônia, acudiu a Mariinha, já penalizada do embaraço da outra, eu estou brincando, não estou pedindo contas. Bem sei que és uma rapariga exemplar, que não aceitarias dinheiro do... João Batista assim com um descaro de cômica...

— Por certo.

— E então? Para que começaste a dizer o que compraste? E de­pois, fosse como fosse, é teu, faze do que é teu o que te convier. — Por certo.

— Parece que desconfias de que não sou mais tua amiga. Por que namoras o João Batista? Ora esta! Eu até poderia servir-lede onze letras, tanto aprovo esse amor... pelo João Batista.

A Antônia ia protestanto que "não havia de namorar nunca esse tipo; que não sei que diabo tinha, que não lhe entrava"; mas acudia-lhe ao espírito ser necessário e vantajoso para o seu descanso ficar a outra na suposição.

Mariinha feriu-a com um olhar risonho, e malicioso, como um cardeiro com a sua linda flor, e foi estudar o seu piano, cantando, aos sal­tinhos de valsa, corri no tempo do colégio; e batendo palma a ritmo:

"Virgem bela dá-me um beijo,
Se me amas com ardor,
Dá-me um beijo tão-somente
Em prova do teu amor!"

Às dez horas, a Angela foi fazer o ménage do galinheiro, como era costume nos sábados. Não gostava daquela tarefa "por mó dos cafutes".

O galinheiro era situado em seguida à puxada, cujo último compar­timento era a cozinha.

Depois de Ângela findar o serviço, entrou Antônia, que ia ver os seus pintainhos. Também, Antônia era a única pessoa que acostando-se de uma ninhada, a galinha não beliscava com a fúria do choco, levava os inocentes biquinhos pipilantes à sua boca da cor de sangue, como se lhe desse a sorver o mel dos seus beijos, repassava no pano das suas faces o pêlo dos pipis, e metia-os no seio, de mistura com os dois peitos du­rinhos e assustados. Riu daquela cócega de veludo.

— Por outro lado adorava a púrpura dos galos e o seu canto de guerra. Lembrava-se do Afrodísio quando via o galo generoso, enlame­ando as suas barbas rubicundas, clamar pelas suas raparigas, sacudindo coisinhas do bico adunco e breve. Açodado, espalhafatoso, nos largos desempenhos do patriarcado e da poligamia. Sóbrio, um para todos, para as velhas arrepiadas, para as frangas, para os bambinos cor de gema de ovo salpicados de cor de café, com os biquitos de âmbar e os grandes olhos de inocência... Antônia abominava um frangote roufenho, que es­garatava tímido a distância, como entristecido por ideais ciúmes.

Acertou de, na alta janela da cozinha, aparecer, a Benedita em busto, com um alguidar entre as mãos e atirar um volume líquido que espalhou-se no solo e assustou a população galinácea.

Bordou-se, na areia, uma larga mancha escura, brilhando um instante. A terra, descascando ao calor, empolou-se, parecia chiar, e entrou a expandir frescura, evidenciando ao sol detritos de alimento. As aves tornaram do susto, em cima do rastro, de chofre, e puseram-se a aproveitar os lanhos de peles, naquinhas de osso, de gordura, saídos com a lavagem de carnes. A sociedade concorreu para aí, de vários pontos do chiqueiro.

O grande peru negro impara nas suas penas vãs, por entre aquela pequena humanidade. Caninhava majestoso para que todos o vissem. As carúnculas lhe desciam para as ventas, mudando de cor, a cambiar pelo alvo, pelo violeta, pelo zul e pelo rubro. Ele faz-se respeitar. O galo que tem uns músculos de homem, açoita-o por vezes, e mais o receia.

Consentese que o peru avulte o seu grande corpo em pleno galinheiro, para regalo de todos. Antônia assobia, para vê-lo entoar o seu belo canto de corvo da fábula, tossindo glô-glô-glô.

As frangas se comprazem na casquilha companhia do galo pimpão que lhes arrasta a asa. As galinhas poedeiras passam com seu positivo conhecimento da vida. Qual se aninha, qual se abebera no caco de pote sob a projeção da gravioleira, qual se espoja na terra escandecida e fofa. Os frangotes procedem com um acanhamento de colegiais bisonhos. Um esgaravata na barrica do cisco, jazente perto da porteira e esturrando ao sol, outro procura um derradeiro grão de milho enterrado, da ração da manhã, e aquele cisca junto ao alicerce da cozinha, numa areia gorda espalhada de cascas de abóbora e talos de hortaliça. A um canto levan­ta-se tumulto pela descoberta de uma cobra de duas cabeças, que todos querem papar.

Pela janela da cozinha o vento puxa e desfia uma fumacinha va­porosa, e do peitoril para o chão alarga-se na parede uma faixa encar­dida, esboçando no amarelo de ocre uma longa silhueta de respingos e de estrias, de água suja escorrida como por uma boca abaixo.

Estorrica o terreiro úmido, que encrespa-se, e as tijubinas lambis­cam por sobre o banquete abandonado. A sociedade busca as sombras, e refocila à sesta, uns num pé só, outros agachados, e uns atirados numa adormecida frouxidão de membros. Entre as ramas aparecem as verdes graviolas. O peru, entufado, ronda e tosse. Uma carrapateira de tronco acinzentado, e furunculado pelos anos, ao canto, entre a cerca e o muro, recebe na sua esgalhada uma tosca escadinha de mão, que à noite serve a alguns de dormida ao ar livre. Como lágrimas de bugia prendiam-se à madeira incrustações de cocô, solidificadas, e montículos no chão como estalagmites que Angela fez desaparecer na limpeza sabatina.

No fundo do caco da água aparece o olho do sol, e uma galinha de pintos, com os pés na beira, acocorada, abaixa e levanta o bico, abe­berando, na melhor paz deste mundo. Os pintainhos trepam-lhe e escor­regam, ao liso das penas. Súbito, uma sombra atravessa o espaço, como uma nuvem ligeira pelo sol. O galo solta um grito entalado, gutural, de pavor, e mais depressa que um raio a galinha pula ao chão e os filhinhos se Ihe escondem debaixo da asa. A sombra, foi como uma seta. As aves correram apavoradas, repetindo simultaneamente o grito que faz arrepiar os cabelos. Passara, roçando no pó, crescida, a sombra enorme de um urubu. Ao galo, vem água nos olhos, de medo, e ele, passado o susto, ergue o pescoço, com o ouvido alerta e a crista empavesada. Depois en­tra a ciscar, como se dissesse: "Não foi nada".

As aves tinham corrido para o telheiro, que lhes serve de albergue. Pelo muro arrulham os pombos, frocados, e pelas traves, entrando e saindo de suas habitações suspensas metidas no vão da coberta em meia-água.

Arde o zinco em cima, e pelos pedaços da parede de palha fervilha a passagem de algum pintainho. Dos ninhos cavoucados no pó macio e moreno acamados de toiro capim de gigo, irrompe às vezes uma gali­nha, em grita, fazendo ciente a Deus e a todo mundo que pôs um ovo de suas entranhas.

Dá vontade de a gente se deitar na terra sombreada, e Antônia, tendo recolhido uma porção de ovos numa corbelha, desejava também forçar e sacudir-se.

Um capão se lhe aproxima, e ela avalia-lhe o peso suspendendo-o pelos encontros. Uns pintainhos correm piando para ela e pelo peito dos pés, deixado a nu pela chinela rasa, roçam com os biquinhos como fazem os patos na flor da água. Os olhos dela amolentam-se, à vista da grande luz que a tudo penetra. Assalta-lhe um delírio animal e esporcado pela re­cordação que ela já conta. Vé-se a titilação das veias das frontes e os seus dedos fremem até aos ossinhos. O seu corpo estremece, ao calor que descolora o limbo das folhas e incendeia a cal dos rebocos. Ela busca folgar ao contacto neloso da camurça dos pintainhos. E deixa-se cair na areia impregnada do odor das aves sentindo os videntes segredos da solidão. Era como se fora no fundo de secular floresta, ou sob as abóbadas desertas de um templo. Fervem-lhe os cinco sentidos, e ela estira-se no pó. A natureza curva-a para a sesta. Antônia desaba sobre si mesma, como o teto de uma casa incendiada. E os pipis lhe fossam na roupa úmida de suor cálido, como os patos entre os nenúfares embastidos. Afrouxa os braços, crucificada pelas turbas do desejo, e escuta o arrulho dos pom­bos. E é como se no alto da cruz murmurasse: "Tenho sede". Mas dar-te-ão fel e vinagre? Bom esse mel, esse doce luar do amor feito realidade.

As réstias alouram a tênue sombra do interior do telheiro, e o verde dos olhos enubla-se nas sombrancelhas, onde naquela ocasião assenta­ria o mais prolongado beijo. As teias de aranha, tenuíssimo labirinto, li­bram-se trespassadas pela grossa e rala chuva de sol coado através das folhas da coberta estragada pela oxidação. Há no chão recantos em que a areia não trilhada está ainda bexigosa das chuvas do inverno.

A palha das paredes tem grandes rombos. De permeio com o pa­Ihamento há trechos de flandres, e tabiques pintados que serviram a um teatrinho particular. Num ângulo sobem em escala as varinhas do poleiro. Num bule velho metido entre a coberta e o muro há um ninho de carriças. Há um cortiço abraçado por cordas de cruá oco, abandonado, uma ca­baça de tapuia, onde, quando o vento dá, produz um assobio fúnebre, e tenta quebrá-la contra o muro. As abelhas foram devoradas pelas la­gartixas.

As cinco horas da manhã o tio Raimundo já está de pé. Dorme ao fundo do quintal, em um casinholo de palha, sob o tamarindeiro. Levan­ta-se, desarma a rede, faz o pelo-sinal, de pé, na porta da cabana, olhando para o lado do Nascente, e resmunga a sua oração à Senhora do Rosário. Toma o seu gole de cana, e sai a colher as verduras para a venda do dia. Prepara tudo muito bem, os molhos de coentro, os mercados de couve, pimentas de cheiro, malaguetas e outras, a hortelã, a alface, os tomates e os limões por modos que em chegando, Mãe Zefa, de caminho, já com alguns produtos que apruma na cabeça, não tem mais do que pegar mais esse contigente para o seu comércio, e largar-se. A Dona Fabiana confia grandemente no tio Raimundo. Se há bananas maduras, ou alguma outra fruta do quintal, que tudo ele superintende, como sapoti, maracujá, gro­selha, romã, graviola, mamão e mesmo goiaba, ele prepara o tabuleiro e manda o moleque Joaquim pela rua. Um dia Angela foi empenhar-se com ele para sair também com um tabuleiro, e levou umas cipoadas. Taciturno e severo, sempre do voto da senhora, só achava bom aquilo que ela achava, embora fosse ruim.

Tinha um olho abugalhado e congesto, que Antônia horrorizava como a uma coisa do outro mundo. Certa manhã, quando a loura ia para o ba­nheiro, ele pôs-lhe o dito olho em cima, e a rapariga entendeu que aquele órgão cego e inútil estava lendo-a por dentro; arrepiou-se, e muscou-se por entre as ramadas. Oh! como as plantas são boas! Toda vez que Antônia se abrigava nelas, a doçura daquele verde, o alourado das frondes maduras, o matiz da inflorescência, o ar, a linguagem daqueles viventes, a indescritível, a misteriosa, disposição dos ramos e das folhas, derra­mavam uma proteção que ela não encontrava, nem na secura da matéria inerte, nem nos seres que têm vista e ouvidos.

De tamancos, a rapariga sumiu-se entre as bananeiras, com a to­alha dourada de cabelos soltos sobre a toalha felpuda que lhe abarcava as espáduas. Tinha mais pejo que dantes. Acontecera, alguns meses atrás, vir ao banho, de saia e cabeção, e toalha mal protegendo o colo, mas agora nem por nada.

Ficou de pé na portinha do banheiro, alheada, braços cruzados, fronte recostada no umbral, em doce dormência.

O bananedo agitava, sobre a associação de pilares lisos, os monstruosos penachos de palmas oblongas, enormes ramalhetes entressachan­do-se, com elegância de arcárias, de dóceis, de zimbórios imaginados.

O palhiço brilhante dessas heliocônias, à guisa de línguas pardas, subia do chão, a lamber o último verdor daqueles troncos aquosos. Pal­mas emurchecidas pendiam, e outras ficavam em cima, dilaceradas pelo sopro do ar.

Formavam-se acordes de colorido, a pegar do amarelo das folhas maduras, ao das palhas secas, e ao verde setíneo das frescais.

Dentre essa boscagem de fustes viridentes despontavam os grelos dos filhotes, e uma fértil umidade azeda. Pelos troncos, descambavam madeixas descuradas, as velhas folhas mortas. Os cachos, crivados de pencas de fruta, faziam inclinar com o peso as bananeiras mães, e na pontinha de cada um, o respectivo mangará, procurando o solo com um bico de pião, arrebitava a roxa capemba, semelhando língua, e como den­tinhos alvos apareciam debaixo destas as camadas de florzinhas, onde vão a chupitar doce líquor os colibris e as abelhas. Em derredor, a terra do caminho, escura e socada, com poças de lama que de longe parecem pastas de mica ou de prata. Pelos baixos, umbroso; e o olhar da menina cansado da muita luz do dia anterior, deliciava em penetrar nessas bran­duras de sombra. Havia despertado o desafio dos pássaros e da luz.

Chuviscara pela madrugada. As frondes espanejavam mais leves, no ar frio, e frouxéis de nuvens cinzentas apareciam pelos interstícios da vegetação, vagarosamente se arrastando no azul esbranquiçado.

Um casal de lavadeiras, saltava para o chão da cacimba, com o seu gritito monótono, e o seu traje lavrado de preto e branco. A umidade tra­zia a Antônia um acesso de nostalgia. Contra a sua vontade, tinha rubros assaltos de pejo, consigo mesma, figurando que estavam a olhá-la. Por que não se criou no Outeiro com o pai? Teria desconhecido os aparatos e confortos da gente rica, o verdadeiro tormento seu. Tudo isto poderia faltar-lhe de um momento para outro, e ela cair no chinelo roto e na saia suja das raparigas da Feira! Uma impressão medonha afogou-lhe a gar­ganta. Mulher de feira! Virgem Santa!... Ainda podia inventar um motivo qualquer, e buscar a companhia do pai, o mendigo João de Paula. Nin­guém adivinhava. Tinha irmãos pequenos e irmãzinhas, uma quase moça. A madrasta morrera, já se vê que ia até ajudar o pai. Que vida no meio deles! Quando houvesse o quê, almoçava; senão, jantariam; e por último, antes uma ceia por almoço que fartura e riqueza em risco de perder-se uma rapariga para sempre aos olhos de todos. A Maninha que pensaria dela? Como era boa, a Dorzinha! Feliz criatura. Mas também, teve papai e mamãe e espera com fundamento. E Antônia? Casar com aquele João Batista a quem abomina?

A loura conservava o timbre rústico da sua gente, não sabia contra­riar-se. Iria para a casa do pai, ser feliz com aquela miséria honrada, deliberou.

Mas casar com o tal de Batistinha? Um frade!

Um susto, porém, estremeceu-a; o Afrodísio iria bater lá; e então a infâmia invadiria a tapera de seu pai, o fundo roto das redes das suas irmãs, e cuspiria na fronte de seus irmãozinhos. Ah!, madrinha Fabiana! Para que introduziste este homem na tua casa, onde a felicidade habitava e donde mudou-se para sempre? Desgraçada madrinha! atiraste o osso ao cão!

Era possível que um Visconde a desposasse? Ele tinha dado a en­tender que não. E depois, contavam que ele e os outros, a gente endi­nheirada, costumava proceder assim. É verdade que lhe ofereceu uma boa casa no Beco do Rosário, alta e espaçosa, reformada pela marca da Câmara, com mobília, prontinha de tudo. Mas diz que é assim que eles fazem mesmo. Aboletam uma rapariga inocente, freqüentam-na por uns tempos, e vão negaceando, negaceando, com esse desamor, a gente, que não é de pedra, vai gostando de outro, e de mais outro. Cai no vício. E vai se queixar ao Sem Jeito.

Um acesso de medo correu-lhe pelas juntas, e a rapariga encolheu-se toda. Meu Deus, por que é que não podia chorar? Por que é que não achava lágrimas? Dantes não lhe era tão fácil? Aqueles olhos secos a assassinavam, o coração virava em brasa e a cabeça tornava-se um coco roído da lua.

Hoje em dia, com que cara apareceria ela ao João Batista? Horri­velmente despeitado, e considerando-se injuriado, ele insultou-a numa carta em que dizia pelo claro todos os passos ocultos da loura! Historiava diversos casos parecidos com o dela. E dizia, como uns assomos de tra­gédia: "uma foi fulana, com o Doutor Sicrano, médico. Sabes que é dela? É a Chica de tal, com um apelido indecente, e mora um mês na Santa Casa e dous na rua. Outra? Beltrana." Assim por diante.

Antônia queimou aquela infame carta. E cada vez ficou odiando mais aquele homem grosseiro que se atrevia a ofender por tal modo os melin­dres de uma mulher que, afinal de conta, não lhe devia coisa alguma nisso de amor. Bruto! Não compreende a grandeza daquela fragilidade.

— Esta peste, exclamava ela, se fosse outra coisa, poderia salvar-me. E vem com injúria, me chamando simplesmente fêmea! Ah meu Deus, meu Deus! Maldita sejas tu, madrinha Fabiana! Oh mãe, por que me pa­riste?

O João Batista surgia-Ihe diante, ali debaixo das bananeiras, esgue­delhudo, tétrico, faiscando ciúme, com largas e cambaleantes passadas de teatro, e estendia horizontalmente o braço e a mão. Rouquenho:

— Antônia de Paula, amásia do Afrodísio Pimenta!

Na alucinação ouvia distintamente a voz encatarrada do miserável, e bateu subitamente a porta do banheiro. Correu a taramela, e o ferrolho da padieira e o de baixo...

Só, em frente do tanque de cimento, entre quatro paredinhas caia­das, sob um teto sacudidinho de teias de aranha. O dia espionava por esguichamentos na cabeceira de cada telha. Respirou, e soltou um pro­longado e aspirado — ai de descanso.

Acercou-se do banco de pau, corrido ao longo da parede, e com um adorável pontapé no ar, desfez-se dos tamancos, de couro e joão-moleque, que fizeram soar como um sino fúnebre a beira da bacia de arame encostada ao canto. Arremessou a toalha, que foi enganchar no cabide; esticou-se toda, cruzando os braços, com os pés endurecidos, juntinhos como os de um cadáver, roçando os calcanhares no cimento frio do solo. O corpo apoiava-se pelos calcanhares, ali no cimento, e pela cabeça, na parede, e pelas nádegas, na quina do assento. Esteve momentos assim. Era muito boa aquela posição hirta, que fazia parar o relógio da imagi­nação dos pensamentos ruins. O mundo lhe existia apenas pela audição. Fechara os olhos. Acariciador, refrigerante como o ruído do mar, borbulhava-lhe o fervilhar da folhagem. Um galho arrastava na telha, em compasado vai-vem. Pósse a descompor os ruídos. Aquele mais grosso é do sapotizeiro... E aquele chiado saboroso... chega parecia passarem-lhe um braço de veludo pela cintura.., era do bambual do vizinho... E aquele outro, chia também, cicia... a modo que os cabelos se lhe enrolavam no rosto... Ah era das palmeiras do Chico Pinto. Agora ia caindo tudo, que diabo, o vento podia carregar os telhados... Passou... Foi como um em­purrão... Estavam puxando água na cacimba... Lá a Benedita gritou com a madrinha; que se amolassem... Ai, aquela esfregação bolia-Ihe nos sei­os, a arrepiava.., basta, basta, senão ela caía na risada... tamarindeiro, basta de se esfregar no telhado assim, vá se espojar no diabo que o car­regue... Cantou um dorminhoco... Está um bando de sanhaçus nos pés de mamão... Vai passando uma carroça pela rua, mais outra... Lá um com-boieiro gritou... oboi... O tio Raimundo passou assobiando... Que coisi­nha bonita, meu Deus, como isto é fino e delicado, como é bom para... canta mais uma vez, assam fininho, vim-vim.., quase é fim-fim... É vim-vim que ele canta, não é vem-vem. Quem lhe dera aquele passarinhozinho para ela devorar num beijo, para meter no seio, para enfiar pelos ouvidos e cantar-lhe no cérebro.

Foi abrindo os olhos. A água estendia-se na banheira de cantaria, quase abarrotando. Os respiradores triangulares, fronteiros, no alto da parede, cada um parecia conter um olho ao meio.

— Ah?! Espera, dia dos trezentos diabos!

Despiu o casaco e entupiu um dos buracos, o outro, e o terceiro, que eram todos próximos, com a saia. Agora sim, podia estar em camisa, e mirar-se no espelho da água.

Via-se por diversos modos, no espelho horizontal. Mirava-se deste lado, daquele, estirava uma perna, um braço, enrolava estes.., descia um pé cerceando a água, sem feri-la, e via a perna invertida... Admirou-se em várias posições, diretas e inversas... Com os diabos! Tinha de despir-se, e varejou com a camisa para o banco. Intentou ver-se em projeção horizontal, mais ou menos paralela com a flor da água... Se o João Ba­tista espiasse agora gritava-lhe:

— Devassa!

Desequilibrou, e caiu na água. Foi ao fundo. Era raso, naturalmente.

Por felicidade não se machucou muito... No tornozelo apenas, na borda do tanque, uma pancadinha, que assim mesmo doía como uma canelada. E retorcia-se gostosamente com a dor. Diabo! Isto a fazia rir e a fazia cho­rar. Não sabia que existia dor e prazer ao mesmo tempo.

E os ais catupeavam aos inflamentos, ao arfar daqueles venerinos selos metidos na água. O que mais tempo ela deixava fora eram as espáduas, corcovada que estava para diante, apertando o pé machucado. O cabelo, parte boiava e parte pregava-se em desordem naquela polpa de ombros que emergiam como em luxuoso decote de vestido. Não se lhe viam, ao todo, os braços, colados ao corpo, e cortados, pelo lume de água; e o sombrio louro do sovaco no aderir das carnes, mal denuncia­vam-se por uma deliciosa linha terminando semelhante a comissura dos lábios fechados, semelhante a um beijocável e apetitoso cantinho de boca.

Foi estirando-se, desenrolando-se, como uma cobra, e mergulhou rapidamente; agitou-se; depois foi erguendo-se até assentar à beira do tanque, de pernas cruzadas. Branquejou-se, de pé, sobre a borda, quase com a fronte nas telhas, com a espuma do sabonete; pulou para o chão, entrou a se desensaboar, tirando água com uma cuia. Instantaneamente aquela palpitante imagem envolvia-se numa redoma de água; como um roupão ao despir-se, a água descia no mesmo instante. Improvisava-se de novo o cristal da redoma, e de novo caía, descortinando o pêlo todo, a gaze da idealizada vestimenta. Em derredor, tudo molhado. O sabonete, pela metade.

Novos mergulhos, e nova temporada de molho e de movimento. Era bom que a banheira desse campo à natação. Não sabia nadar, mas com aquele pendor de peixe, aquela natureza instintiva e rudimentar nadaria como as alimárias, sem ensino. Começou a arrepiar-se. Fartara a sede de toda aquela pele crivadinha invisivelmente de poros e de desejos. Saía demoradamente da água e de uma carreirinha, como se houvesse agora muito pejo e vergonha da sua nudez, foi acostar-se ao cabide, pondo os pés sobre um pequeno estrado, puxou a toalha, cobriu-se por diante, do seio aos joelhos, encolhida, cíngindo-se com os braços, como uma está­tua de Vénus. Surpresa. Tremia de gosto, de propósito, infantilmente, com os joelhos e com os beiços, a si mesma exagerando o frio. Saturada de água. Uma lesma arrastava-se na parede úmida, e uma rã fazia raco-raco debaixo do beiral. Entrou a escutar novamente a música da ventania. Espremeu os cabelos, enxugou-se o quanto pôde, e encolhidinha, como se lhe fugira todo o calor orgânico e sensual, meteu-se na camisa. Então empertigou-se. Podiam v@-la. Não lobrigavam mais que o roliço dos bra­ços, o coxim do decote, e o início das pernas. Agradável sensação per­correu-a, quando as formas se acharam protegidas pelo morim cheiroso a trevos, enxutinho e quente. E passou a mão cariciosamente pelo relevo das formas. Torceu os cabelos na toalha, sacudiu-os, passou-lhes o pente.

Sentou-se no mocho, e descansando o tornozelo na coxa, esfregou os pés, e meteu-os nos tamancos. Ei-la de pé, e avança nos respiradouros, donde safa o casaco e a saia. Prontinha agora. Sentese bem-estar, e acha a vida muito boa. Para complemento, devia ser noiva do Visconde e sair com ele pelo braço a percorrer o quintal, readquirindo calor, em um suave exercício depois do banho. Compreendeu então um ameno vi­ver de senhora honesta, com o seu maridinho, amizade, amor, afeição, confiança, respeito. Um raio de graça divina entrara-lhe. Por que não a desposavam-na?

E mais quem a queria? Daí, agora, ou Viscondessa, ou... nada.

E o corvo do remorso peneirava sobre ela. Arrependimento? Impossível. A estrela que cai não volta. Casarem-na iludindo a boa-fé de um homem de bem? Este a repudiava. Com um sem-vergonha que a acei­tasse conscientemente? Metia nojo. Antes a queda completa. E nesta an­gústia, encarava mudamente o céu através da folhagem.

Mãe Zefa estava prestando contas. Apuraram-se tantas patacas e tantos vinténs; tirando a sua vendagem, ficava livre tanto. Fabiana dizia-lhe uma graça, que ela recebia mostrando a clara dentuça na mucosa das gengivas, e daí, antes de ir para casa, um quarto no Beco das Trin­cheiras, vizinho de frege-mosca, esfumarado, dava uma prosa na cozi­nha. Vamos a saber das novidades.

A mais forte, naquele dia, foi-lhe cochichada pela Honorata que estava areando um tacho: Angela com antojos!

— Sinhá viu?

— Inda não. Quando ela souber... Ai, ai! Eu nem sei.

— Quê? abrejeirou a Mãe Zefa. Zangar? Sinhá zangar porque a mo­leca está de bucho? E donde sinhá terá escravo, senão assim? Como é que eu fui cativa e você ainda é, comade Norata, senão pro mó do pe­cado?

— E quem será o pai, Mãe Zefa? — perguntou a Antônia, assando castanhas no fogão.

A preta arrebitou os beiços.

Antônia, com o rosto afogueado, revolvia as castanhas com o cabo da colher de pau, e ficou imaginando. Ardendo, as castanhas figuravam uma forja de ferreiro assoprada pelo fole. O óleo da preciosa amêndoa do caju fazia explosões lindíssimas, produzindo uma chama clara e forte, sem fumo quase. Remexia-as, para assar bem; retirava as prontas, com­pletamente negras, que largavam a fumegar. Deitava-lhe mais, das cruas, e a cada uma espipava uma explosãozita. Acabada a tarefa, amontoa­vam-se à beira do fogão, as prontas, com pontinhas de brasa e esfumando até esfriar.

Mãe Zefa não respondia quem era o pai da criança...

Antônia desconfiou.

— Por isso é que Ângela gostava tanto de ir lá!

Coitadinha da moça branca, estava com o coração denegrido instantaneamente. Horrível! que sorte, que desdita, que desventura! Rival de uma cabra reles! De uma negra cativa! E ao derradeiro fumozinho que escapava do carvão das castanhas torradas parecia fazer uma pergunta com os olhos pasmos.

O tio Raimundo entrava naquele momento com os seus regadores, o ciscador, a pá e a enxadinha de jardim.

— Siá Toinha, quer que eu ajude a quebrar?

Aquela voz de homem fez-lhe bem. Era assim como uma proteção, embora de um miserável preto.

— Obrigada, tio Raimundo, eu mesma quebro.

E segurando a castanha, coraçāozinho alargado e de carvão, entre o polegar e o índex da esquerda, batendo-lhe com um caco de telha, An­tônia fazia abrir-se em bandas a noz e aparecer a delicada amêndoa ro-liça, do jeito de meia lua, alva e corada, metida numa casquinha de pele como uma ninfa da borboleta; e sacudia-as num prato. Alguma provoca­dora a mais, ela descascava e mastigava ali mesmo. Acontecia vir uma queimada, que ela guardava para lavar as mãos, ou alguma chocha que era repudiada. Eram as amêndoas de caju para lardear bolos de carimã, que em casa estava um rebuliço como em dia de farinhada na roça. Pães-de-ló, bolinhos, bolo de arroz, bolo de milho novo, canjica, assim só à véspera de um noivado. O acelero e o açodamento em que a Fabiana punha os mais! O tio Raimundo, forneiro, ia deitar a lenha e acender o forno ao fundo da cozinha. Ângela, a batedeira de ovos, a preparadeira das massas como ajudante da senhora. O moleque Joaquim reduzia as espigas de milho, sentado no chão, com um ralo dentro de um alguidar de barro vidrado. Fabiana, de avental branco e touca, e mangas arrepa­nhadas, metia as mãos na bacia da massa de bolos. Um padeiro suarento. Até aos cotovelos, tinha o branco da carimã.

Maninha, o único serviço que fez, foi untar de manteiga as formas, e isto a poder do muito chamar-se por ela. Não vê! Trabalhar em man­jares para os anos do Afrodísio Pimenta! Aquilo não é homem que se apre­cie.

O Centu, este sim, escrevia-lhe. É verdade que friamente, no amado costume, com um desamor brutal; mas sempre era um homem sincero e bom, e já agora era impossível deixar de se lhe amar. A menina acre­ditava não sei em quê, a resignação lhe imbuía fé e esperança rija.

A cartinha era lida, relida, decorada. Consultada. Cheirada. Beijada. Ai que se é feliz! E detrás de sua cabeça um espírito vinha dizer que por baixo das palavras que se vêem costuma haver outras, encantadas, que é onde fica a realidade. Como habitualmente, estava ora na sala, ora no gabinete.

Ler bastante, e fazer progressos no piano. Censurava a si mesmo o pouco interesse que, de certos meses, tomava pelos trabalhos domésticos. Uma vez que timbrava em desposar o primo, era dever seu apli­car-se aos misteres de um lar. Mas sentia uma repugnância invencível pela mãe, pela Antônia, Deus lhe perdoasse, e pela Ângela. E mais, que fazer? Conversava com o pai, taramelava com os fâmulos, descarregava o bom humor de donzela bem nutrida, era como as outras, na Igreja, no Colégio, nalgum passeio. Não fora mais ao Clube. Efetivamente não fre­qüentava a sociedade. Saía com a mãe, a visitas da civilidade. Diante de gente de fora, mostrava-se prazenteira com a Fabiana. Birra contra birra. Assim como ela aguardava o advento do Centu, a mãe emperrava na segurança de que ela e o Afrodísio viriam finalmente a querer-se.

No seu contínuo raciocinar, o Osório entendia ainda que esse fenômeno que se passava no entendimento da sua mulher havia de ser assim um espécie de paixão retardatária, tardia, extemporânea, como atas em agosto, pelo Afrodísio; ou assim uma coisa assemelhável à paixão de um padre por Nossa Senhora.

Para engendrar inglesias de lógica e de filosofança ninguém como o desembargador!

— Que então, bolava ele, ela, vivendo na filha, casando esta com o dito, apazigua-se.

E coroava as suas deduções, muito ancho da sua capacidade, ex­clamando sozinho no gabinete:

— Não tem nada, é uma nevrose! Vamos ver em que isto pára. Ré­dea frouxa, doutor Osório; o cavalo sabe o caminho.

Disse isto em voz alta, e a filha, que parara o piano naquele mo­mento, foi a empurrar-lhe a porta, perguntando pelo brando: — Me chamou, papai?

Encontrou-o de pé, em atitude de químico analista, que ele apren­dera do boticário, quando era morto e vivo lá.

— Então, me chamou, ou não? — alçava a menina a voz, segurando na porta, com a cabeça para dentro.

— Hein?

— Me chamou? Arre!

— Não. Eu não te chamei... foi aqui... uma pessoa na rua, talvez... Enfim, já que vieste...

Enlaçou-a pelo pescoço como se fora moça com moça, e beijou-lhe na testa. Pegou-lhe na mão, bei°ou, e levou-a sobre o coração:

— Isto é o coração do Doutor Osório, não é? O teu maior amigo, não simplesmente por ser teu pai; que é erro pressupor-se infalivelmente que a paternidade ou a maternidade são acompanhadas, como o sol com a luz, da amizade real e verdadeira como eu a compreendo. O laço carnal é muitas vezes motivo de suspeição, não é? Uma coisa muito física, muito sujeita aos sentidos, e portanto a achaques. É o caso de empregar-se originalmente o baliro, adjetivo sadio: pais doentes de nevrose, por exemplo, devem conhecer-se, e ter bastante bom senso para entender que são incapazes de um amor sadio para com os filhos, quero dizer, um amor sem preconceitos, sem crises, em pleno desenvolvimento...

— Creio eu, porém, que você não está com isso...

— Também eu...

— E então? Parece que está hoje tão namorado da sua filha? — É verdade. O meu amor é grande realmente para contigo. Sentaram-se de frente um para o outro, à escrivaninha.

— Faça o favor de não me namorar tanto, senhor! Estará de nevrose? e sorriu como criança.

— Não. Isso não é comigo. Passa a tua mão pelo meu rosto, anda, pela minha fronte, e pelo meu crânio, que a tua pureza se me filtre na alma. Assim... Mais, ainda mais... Deixa beijar-te essa mãozinha adorada.

— Porém, não me dirá, o que é que você quer assim tão caidinho? Quererá pedir a minha mão? Entenda-se com a Dona Fabiana, a esse respeito.

— Que inspiração! fez ele saltando da cadeira. Dá-me um abraço, tu adivinhas, é justamente sobre isso que eu te queria falar. — Sobre isso? O quê?

A menina conhecia quanto o pai era desazado para com ela, prin­cipalmente quando tomava um copo de cerveja. Se fazia simplória, a fim de entrar mais suavemente por aquele crânio de rábula, e fazer o pai dis­correr com lhaneza e sem solavancos.

— O Visconde me deu a entender que te desposará!

A Maninha sentiu nesta notícia, que aliás não era de estranhar, como que a maior surpresa da sua vida. Não pôde responder. Nem convinha. Abaixou os olhos, assaltadíssima de pudor, e de susto; sentiu repentina­mente um mal-estar impossível de exprimir. Abandonaram-na pensamento e memória. As palavras do pai caíam-lhe pelas ouças como setas segui­das, ou pedras lançadas sucessivamente ao fundo soturno de um poço. Um peso queria tombar-lhe do crânio para os olhos, um pranto se aco­chava nas órbitas como a água na máquina hidráulica, as entranhas e os pulmões pareciam comprimir fortemente os músculos cardíacos.

— Eu não sei o que dirás, continuava o pai, fazendo uma contração de choro. Pelo meu gosto... Por seu lado, a Fabiana foi quem armou tudo isso! Positivamente, respirou ele, assoando-se e empertigando-se, posi­tivamente, o homem não te pediu ainda; entretanto, deu a entender. Percebi que ou casaria contigo ou ficava solteirão.

— Papai, aquilo é um infame! explodiu a menina. Ele sabe perfeitamente que é mais fácil casar com o negro Samango do que com ele! Canalha! Vilão! Réprobo!

— O que é isso, minha filha?!

— Perdão. la sendo inconveniente... Já agora, porém, que abri a boca... Ah! você não avalia o que eu tenho padecido... fez ela cobrindo enfim os olhos com as mãos.

— Leio nos fatos, filha. Calculo.

— Não digo nada, porque, enfim, a religião, a sociedade, enfim por­que a mamãe é minha mãe. Eu já disse na cara dela: não caso, mamãe, não caso, não caso! E foi diante da alcoviteira Mãe Zefa e do João Ba­tista. O Afrodísio sabe disso; ora, com toda certeza. E ele...

la acrescentar que ele devia era receber a Antônia em casamento, se é que era "homem". Já a Ângela, punha-se de parte, era cativa, e ele cabra. la dizer mais que lhe adivinhara o plano; fazer presente da Antônia num maço de dinheiro, ao coitadinho do João Batista; e quanto a ela Maninha, como seria judiada, sendo feita mulher de semelhante in­divíduo!

Porém calou-se. E choraram, sem quê nem pra quê, o pai sobre o peito dela, ela sobre o peito do pai.

— Jeová devia ser coisa muito ruim, porque isto foi feito à imagem e semelhança dele! — blasfemou o Osório, abanando a cabeça.

Mariinha soltou-se de súbito, como o animal que, assustado, fareja e escuta no ar. O pai tinha-se erguido, frio, acalmado, filósofo.

— Não blasfeme. Deixe esse defeito do sexo forte! Se não tem for­ças para sofrer, aprenda com as mulheres.

A noite o desembargador foi cumprimentar o Visconde, que fez anos. Muitos amigos, tudo homem, como em uma sessão maçônica. A mesa, ali pelas nove horas, presidida pelo Excelentíssimo Presidente da Provín­cia, o desembargador ez ao Visconde um brinde campanudo e entusiasta. Foi o mais li: onjeiro toast que o anfitrião recebeu por aquele aniversário.

Ângela passou a noite fora. Andou ruando. Tinha saído com licença, gostosamente concedida pela Fabiana, para sambar com os escravos do Visconde. No outro dia estava e andava por tal modo a rir que parecia uma sem-vergonha.

— Tu não me dirás até quando vais com esse desmancho, criatura? gritava-lhe a Benedita.

O certo é que ambas caíam na gargalhada,sem saber por amor de quê.

Isso de riso e choro entre mulheres é assim mesmo. Benedita estava tirando c almoço, no fogão, de manga arregaçada, empunhando a colher de pau. Arrastava a caçarola, e ordenava para Ângela que fizesse rogo "essa farofa". A outra não sabia orde estava a manteiga.

— Pois tu não a trouxeste neste instante, mulher? Diabos te leve! — E agora! — fez a cabrocha num muxoxo.

— Anda buscar a chaleira de água fervendo! O senhor quer almoçar cedo!

A cabrita foi pegar a chaleira, pisando duro com os calcanhares e mexendo com os quartos e com os cotovelos.

— Sai daí arrebitada! — gritou-lhe a Benedita com desprezo; e virou a cara para não dar demostração de que estava estourando para rir.

Ângela embicou a água fervendo para um prato fundo, aplicou-lhe manteiga a dissolver, e entrou a resfriá-la um tanto, com a colher. Tem­perou com cebolas e coentro, e deitou farinha aos poucos até formar um engrolado.

Ambas, ela e a farofa estavam fresquinhas e quentes.

Uma vez, isto antes de conhecer ao Pimenta, Ângela quase afoga-se gargallhando assim, mesmo à cara da Benedita, com grande desaponta­mento para esta, que enraivecia já, com as suas feições sangradas e roxas de sífilis:

— De que tu te ris, grandíssima cachorra? — berrou a cozinheira. Ângela curvando-se ao peso do acesso nervoso, amparando os peitos com as mãos, buscando fôlego, respondia-lhe no cacarejo do riso:

— Estou rindo.., da tua cara...

E perdia-se de novo na vascolejo do riso.

Por isso é que as companheiras a chamavam sem-vergonha e lhe queriam bem. Naqueles bons tempos em que o Afrodísio lhes era ainda desconhecido Antônia fazia-lhes companhia e nessas ocasiões de destem­pero de riso e fala era-lhe tolhida, à loura, por pouco mais a um nada. Para proferir a primeira palavra repetia a primeira articulação uma récua de vezes, e a sílaba sumia-se na catadupa convulsiva carregando o pe-dodo inteiro. Pronunciava palavras que explodiam ao inflar das boche­chas, e delas que eram um gaguejamento. A fisionomia, upada por mo­mentos, vinculava-se como as coxas de um menino gordo, vascolejava, e os olhos vazavam lacrimejo exprimido, o suor acudindo a flux do corpo todo, e as ventas entupidas.

Baba-te, desesperada! gritava-lhe a Fabiana. Já estás com o demo no couro, Antônia!

Ângela sempre teve forças e boas disposições para o serviço, ha­bilidade, e quando queria, ninguém manipulava melhor pitéu. Se, porém, amanhecia trombuda, ai meu Deus que desadoro! Era um dia de juízo. Tudo malfeito, alinhavado, escaldado, sem apuro, sem jeito, por modos que lhe diziam: "Deixa isto; vai-te embora." Olhava então fixamente, abai­xava os luzios, metia-se no canto, julgando-se inutilizada, e quando da­vam fé estava embiocada com a cabeça escondida nos braços, de có­coras, derretendo-se ao sol do despeito.

— Ai gentes! Acudam esta manteiga! Olhem mingau pra Neném! E a dona Fabiana, cantava numa toada popular:

"A gente do Cariri
Tem olhos, não tem pestana;
Lá vem o carro cantando
Cheio de olhos de cana".

Mãe Zefa, a bem dizer, criara Ângela, e Antônia. A loura tinha lá os quindingues dos brancos. Se lhe davam os pruridos maternais, que sói acometer as estéreis, principiava Mãe Zefa a narrar como Angela nasceu, que todo mundo viu logo ali uma neném como não havia de brancos. Bonitita, gordita, vivinha, com umas manchas roxas nas nádegas, com uns bugalhos de gente grande e um choro dengoso de matar. Esmiuçava anedotas da infância da cabrinha, abstendo-se discretamente de falar na mãe dela, que era uma coisa triste, pois fora uma negra ruim, ladra, muito atirada ao mundo, pelo que, embarcou para o sul. Antônia viera, da casa do pai, ainda pequenita, e assim era beijocada por todas as donzelas da vizinhança, tão rechonchuda era; nos frenesis, chegavam mesmo a fazer-lhe judiações. Parece que as moças cada uma delas tinha para si que a Nini era sua, arrancada de suas entranhas pelo milagre de uma con­ceição supositiva, como em vadiação de bonecas.

Naquele dia imediato ao aniversário do Afrodísio, Ângela teve de suportar um par de bofetadas que lhe atirou a senhora: Dissera-lhe um desaforo por cima do ombro.

— Espera que te abaixo o fogão, cabra! Estás com muito gás! E foi-lhe aos beiços, que o sangue espirrou.

Mãe Zefa entrou com as suas funções apadrinhadoras, com o seu valimento perante a sua ex-senhorinha, e a coisa aplacou-se.

— Tome cuidado com essa cabra, Zefa! persurou a senhora. Olhe que um dia eu mando surrá-la no tamarindeiro, de fundo para cima! E há de ser pelo Chicão!

A cabrocha estremeceu de horror e de medo. A preta idosa entrou a sermonear que uma pessoa cativa não é como os forros, uma criatura deve trabalhar para ser boa, ou ao menos fingir, senão adeus carta de alforria. Quem quer pegar galinha não diz chõ. E citava exemplos, entre os quais deslumbrava sempre o seu, uma história enjoada, muito longa, que era ver umas páginas do Fios Sanctorum. Uma santa mártir aquela senhora idosa, de cútis negra, e dotada por uns braços de travesseiros! Para narrar, sentava-se comodamente, na cintura do pilão deitado, passava o xale, e começava por aqui assim:

"Minha filha, quando eu era molequinha, lá nos Inhamuns...”

E entravam peripécias muito honrosas, patéticas, enxameadas de nomes de senhoras moças, de doras, de mães b. ancas, de sinhazinhas, de Seu Comandante Superior Fulano, Seu Vigário Padre Chiquinho, ne­gro velho mestre Antônio, bons invernos, maus verões de um rol de ve­zes, gado morrendo, cavalarianos de Pernambuco, e coisa, e loisa: ven­dida para a Capital, prestes a dar a volta do Mucuripe, escapando por se ter valido aos pés de Dona Sicrana que lhe goderava as aptidões; de­pois, a viver de cozinheira e engomadeira, o mialheiro de barro; é muito no finzinho o dia da alforria, em que não falava sem regar-se de lágrimas de alegria, que eram uns diamantes naquele carvoedo!

Ângela, amuada a um canto, escutava. Assova-se, expelia as últi­mas sombras do choro, assim como quem sacode os cabelos depois de um banho e daí, encaminhava-se para o serviço, impressionada por coloridos projetos, disposta a labutar como a legendária Mãe Zefa. Havia de ser bom. Chegar a velha, toda limpa e livre. Ria instantaneamente, e reperguntava à crioula isto e aquilo de quando ela era Anjinha. A preta lembrava-se então com saudade de quando aquele corpozinho tenro de bode novo, andava de mão em mão os beiços violáceos e a boquita ver­melha como pimenta.

Contudo, a Fabiana era mais mãe para aquela gente "que quando não salta, berra", do que mesmo para a própria filha.

Como certas amásias que se apegam mais ao seu homem, tanto mais ele surra-lhe, a matuta não podia largar aquela amofinação, aquele hábito de danar-se ao menos uma vez por dia com as pessoas de casa, e em compensação, de aparvalhar-se por igual medida. Acontecia mesmo, sem transição sensível, saltar, do furor, à parvoíce; um certo gênero de bondade, esse.

Viera da Prainha, tarde, com a Antônia, onde foi confessar-se com um santo lazarista. Com pouco, atroava na camarinha, o abrir dos gavetões puxados pelos seus braços empoados, e quem a conhecesse tinha-a agora em imagem com o seu afogadilho de seda preta e o seu pente de tarta­ruga, e na mão, enrolado como luva de sapateiro, o rosário de vidro, de crucifixo e verónica de ouro.

Em camisa e saia, abeirou-se da cama, tirou os sapatos, de couro de lustro e fivela, as longas meias pretas, e bradando pela Angela.

Com a porta entreaberta, expunha ao ar, posto no outro joelho, o pé direito, congesto, com os seus calos abugalhados, e repassava, à guisa de serrote, a meia por entre os dedos suados:

— Gentes! Mode coisa que estou com um bicho... proferiu, fitando as carnes do pé.

E chilrou:

— Ângela!

A cabrocha ia cair de novo em graça, depois da rusga do bofetão.

— Ângela! Vem cá minha filha!

Por debaixo de seu dedo grande parecido com uma cabeça de ca­langro, havia realmente um pontículo azulado, numa rodinha lívida.

— Cabra dos trezentos diabos! Olha se o assoalho tem espinhos!

O olho do pulgo, já tapuru, se lhe arregalava cínico na pele aque­cida e vermelha, com um prurido insuportável. A dona repuxava o dedo ofendido, escangotando-o como se faz ao pescoço de uma galinha que se quer sangrar. Pespegava-lhe dedadas acariciadoras de saliva, e co­çava infantilmente.

O marido entrou-lhe pelo quarto:

— Que é isto, Fabiana?

— É um bicho, homem. Vê se mo tiras!

— Ora! Até eu gosto quando eles me entram!... Filha, a gente deve temer é aos bichos que não enxergamos. Tu vens da Igreja?... Eu quero que arranques o bicho é à Ângela e à Antônia!

— Sai daqui — fez a mulher, disfarçando um arrepio de pavor. Já te afiancei que é isso calúnia...

— Calúnia? Aquilo é que são verdadeiros tapurus, minha dona! O tempo aí vem.

— Pões tua alma no inferno.

— A tua deve estar no seguro, pelo que vejo.

— Mas, ó Osório, tu não eras tão falante nem atrevido assim?!

O marido olhou-a, pelos óculos. Teve pena. Amava a mulher, o tra­tante.

— Estás insuportável! Me contrarias assim de pé pra mão, como se eu fosse a pamonha da tua filha que só escuta o que tu dizes! Toma cuidado! Olha que me gabo de não ser boa!

O marido, em atitude joco-séria, apontou-lhe para o pé:

— Senhora, lembrese que está com um bicho!

— Bicho, bicho; repetiu ela com desdém. Bicho vejo que tu és! Hás de lucrar muito com essa cara descabelada!

— O serviço que lhe posso prestar pelo momento, galanteou, é exa­minar esse odorífero extremo da sua torneada perna, e descobrir escru­pulosamente o que há no seu martirizado dedinho.

— Vai-te, homem, que estou em graça de Deus. Não me faças pecar!

— Sim, oh cândida e pura alma confundida com a minha! — pero-raya ele, já na porta. Eu te deixo a sós com o cruciante inseto parasita.

A dona estirou-lhe, com um gesto de despeito, um — vá bugíar­ — que acompanhou o velho juiz pacato e sorridente, pelo corredor afora.

Com pouco, a porta afastou-se, e Ângela assomou, com o seu vestidinho de riscado e o avental escuro. Osório veio atrás, com ares de noivo, lépido e dormente.

Angela agachou-se, desenfiou um alfinete, e aplicou atentamente os seus belos olhos castanhos nos dedos secretores do chulé da ilustre senhora. Com a mão esquerda intumescia a residência do pulgo chucha-dor, espremendo a carne.

Daí, tão airosamente esgarafunchou, pachorrenta e amorável, com uma aplicação de míope, que, ao cabo de instantes, se retesando sobre os joelhos dobrados debaixo do colchão dos quadris, patentou aos quatro ângulos da camarinha, na ponta daquele alfinete que tantas vezes mor­dera o pecíolo de flores, um carocinho alvo, invisível quase:

— Eis aqui o buxo! — bradou.

Ali estava o tormento da matrona, dado à luz, morto, como a cabeça do gigante na ponta do alfanje do menino Davi. No dedo ficara apenas um buraquinho muito bem feito. Angela tirou cerume do ouvido com a curva de uma grampa e entupiu a ex-residência do parasita.

A senhora chupou um suspiro de satisfação, mas não se atrevendo a enfiar imediatamente o pé na chinela, saiu pulando num pé só, a al­cançar o cabide para tirar a roupa de casa. Acenou à Ângela que se re­tirasse, e disse que queria à noite lavar os pés com cozimento de malva, por mó de umas coceiras.

O marido, em paletozinho de seda e calça parda, foi assentar na mala de pregaria.

Sempre que, em certas disposições de espírito, presenciava em meia nudez o corpo da mulher, subia-lhe ao nariz o extinto aroma e a sepultada sensualidade de dos bons tempos... Ela disse-lhe:

— Faça o favor de sair, senhor desembargador.

Ele não respondeu. Olhava-a.

— Como vai o buraco do bicho? — fez ele, com indiferença.

— Coçando.

— Há de sarar. Não vá esfregar o pé que apostema.

— Não preciso de lições, agradeço os seus cuidados.

— Realmente, para essa espécie de parasita, é dispensável a inter­venção da medicina. Há, porém, uma outra que, saído o bicho, não há cera de ouvido, nem de moral, nem de religião...

— Há o dinheiro, senhor doutor! Há o dinheiro, que sara a honra, senhor desembargador! arremeteu a sertaneja indignada.

— Sim, o dinheiro que salva as almas à míngua de virtudes.

— E que faz os burros botarem cabrestos nos doutores! Há o di­nheiro, senhor doutor, que faz os bacharéis pobres casarem com as ma­tutas ricas, desmioladas!

— Safa! que eu não esperava por este momento lúcido, minha se­nhora.

— Assim é que eu entendo — findou ela, encolhendo os ombros, com um ar de fereza insuportável.

Ele torceu a cara e escarrou detrás do baú. Levantou-se:

— Ponto final. Vossa Excelência pode, quer e manda. Sabe, porém, em quem não manda? Na minha filha. Simplesmente isto.

— Veremos, fez ela enfiando a saia. Veremos.

Depois de uma pausa:

— Deus me perdoe, meu Deus, já nem me lembrava que vou co­mungar amanhã! Credo! Padre nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome...

No oratório uma fitinha de sol, caída no meio das bentas imagens, traspassava resplendores ricamente cravejados, e essa luz, descendo por um biquinho de telha arrebitada, imergia ali supersticiosamente, pelos vi­dros quietos. Zimbório e colunas estavam de um negro empoeirado ao de leve na cocoruta, onde, como uma ventoinha de torre, campeava um anjo de latão empunhando uma estrela radiosa.

Havia ao pé do criado-mudo um trinque desocupado, servindo ape­nas para dependurar a azelha de uma sacola de americano, parecida com uma bolsa de confraria, abarrotando roupa suja.

Entre as estampas da parede, coloridas, uma faixa de sol, da telha de vidro, banhava a Santa Bárbara, com a palma do martírio semelhante a um olho de palmeira; o São Roque, de cabeça a tiracolo, apontando para um cão a lamber-lhe as chagas; e a Santa Rosa de Lima, ao pé da roda de dentes que a serrou em vida. Mais adiante Santa Cecília, tocando Órgão; Santa Isabel, rainha, com o avental cheio de biscoitos, que vira­vam em flores ante maridos sovinas; Santa Luzia, com um par de olhos no prato e outro no rosto; São Manuel, advogado da paciência, nu, atado a uma árvore, e varado de setas como seu vizinho São Sebastião. Um mártir virava sobre uma grelha em brasa. Num feixe de claridade celeste, entregava-se às delícias do amor divino a freira Teresa, absorta, enlevada, extática e feliz.

Fabiana passeou um olhar por aquilo tudo. Compenetrou-se de estar em graça de Deus, repetiu o ato de contrição ajoelhada ante a cômoda.

"Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, por serdes Vós quem sois, tão bom e digno de ser amado...

Abriu, depois, as portas, adotando um arzinho meditativo. O dia, in­vadindo o aposento, desfez a fantasmagoria das réstias no oratório, e as estampas da parede expunham-se agora no simples qualificativo de litografia de carregação metidas em caixilhos envernizados, com vidraça por diante.

Fabiana saiu pensando se não haveria um santo advogado para o mal de bichos, visto como os há para de garganta, o de madre, o de olhos, espinhela caída, quebranto etc. etc.

Há tanta gente cambada!

Afrodísio, à janela do seu mirante, às 11 horas de um dia ardente e ventilado.

O céu deliciosamente azul, e mais um azul extasiante, pairando por cima da cidade, querendo abocanhá-la. Muito ao longe, recortava-se no ocidente, um grupo de pequenas montanhas, sob os vapores informes. Debaixo da janela, espalhava-se pelas telhas um punhado de flores murchas.

Ventava pouco. Ardia o sol ao contacto dos seres. Do meio de um quarteirão subia o corpo de um castanheiro antigo, e aquela enorme fronde refrigerante, para onde convergiam os euros, aquele palácio vegetal, be­bia os olhos saciados do Afrodísio. Que boa vida a das aves que volitam, sem haveres, sem teres, sem devedores nem dívidas, sem casa, sem roupa, a agitar-se no azul e no verde livre! Mas o chumbo e a gaiola? Boa vida seria não viver! Não! replicava o homem a si mesmo. Em um uni­verso onde há uma rapariga do saber da Antônia, não há sofrimento que se não suporte, não há dor, não há gemido.

As edificações levantavam a fronte umas por entre as outras, ani­nhando uma população de milhares de almas, de cuja existência subia o ruído apenas.

Do acervo de telhados, avistava-se, nalguns pontos, a arborização das praças. Transeuntes amesquinhados com a distância. Numa para­gem, dentre o vermelho da coberta abrolhava um mirante caiadinho. Em trechos de fachada bordavam-se gradis de varandas. Se devassava, no quarteirão, ao poeiramento solar, uma zona de quintais sulcada de muros paralelos aqui e ali ocultos pela vegetação, num horizonte de tetos de ásperas angulosidades e reentrâncias. A luz aplicava-se como uma ra­pariga pechosa em não perder um pontozinho a sombrear ou a iluminar, e o embeiçamento das telhas era uma série indefinida e sucessiva de pla­nos inclinados e confusos pelo conjunto, embicadinhos. Ora pareciam ca­nutilhos, ora umas telas encrespadas, frisadinhas, onde se poderia bor­dar gigantescamente com o retrós da xantofila e da clorofila das árvores, com os fios de ouro do sol, com a seda escura das sombras, e com os salpicos da plumagem dos pássaros, e debruar com o arminho das nu­vens, e enfeitar assim o manto azul da cidade.

Daí, o Visconde imaginava-se no silêncio da sala de visitas, em cujo âmbito seria justiça que Antônia viesse a dominar. Encamisada, pelas ho­ras de luar, a vidraçaria aberta, em alvíssimas rendas perpassadas de fitinhas cor-de-rosa, como seria romântico. Ele devia tê-la como esposa, ali, onde as cortinas transpareciam levemente arregaçadas, meio velando os pudores do recinto, presilhadas em maçanetas de doirado fusco. Os elegantes consolos negros, sobre o mármore das lápides em branco, se­riam uns túmulos insaciáveis a encher de cálidas recordações. Antônia rolaria nos tapetes onde correm árabes a cavalo perseguindo corças; veria o invisível arfar dos ramalhetes nos jarros cor de creme, ouvindo o tlim­tlim dos pingentes tocados de luar e de brisa no grosso candelabro que desce dos florões do estuque. De dia, havia de arrastar o longo vestido branco, fazendo sala, e das paredes forradinhas de verde com colunas de trigo dourado, e dos grandes espelhos beirados de caixilhos de talha, que sorriem de luz, e da vidraria de cristal, e de tudo, manaria um fino sabor de nobreza. Nos devassamentos de sol matutino, como um gato mimoso de nariguinho de pitanga e lacinho ao pescoço prendendo um guizo, ela deitaria nas alfombras empalidecidas. Ostentaria valor inesti­mável, fronteiro ao dela, o retrato que ora inda existia entre as duas ja­nelas; despenhado para o espaço, habitando numa moldura vistosa, em grande uniforme de galo pimpão de crista alevantada, oferecido pelos ofi­ciais da guarda nacional ao Ilustríssimo Senhor Coronel Comandante Su­perior, naquele tempo Afrodísio Pimenta Carne-Viva, pelos seus mereci­mentos e amor à pátria. As pupilas da pintura, muito abugalhadas ha­viam de estar pregadinhas constantemente, nas do retrato da Antônia. E a esposa, tarde viria dar bons dias ao sol, e cedo bateria as portas e almejava boa noite às estrelas.