A Brasileira de Prazins/Conclusão

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A Brasileira de Prazins por Camilo Castelo Branco
Conclusão


Marta regressou com D. Teresa, alguns dias depois. O brasileiro conveio no tratamento hidropático da esposa; e a compadecida irmã do vigário ofereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava nela com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a defendesse do missionário.

D. Teresa assistiu ao nascimento da primeira filha de Marta. Imaginava a irmã do vigário que no espírito da mãe se havia de operar uma benigna mudança; que o amor à filha seria diversão à saudade de José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensível, porque era matéria corrente nos tratados alienistas que um cérebro lesado não se restaura sob a impressão do amor maternal, que só actua nas organizações normais. Porém, D. Teresa não podia crer que Marta estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em que, raras vezes, se interessava, disparatasse, afirmando que via a alma de José Alves, como quem conta um caso trivial.

Quando lhe mostraram a filha recém-nascida, contemplou-a alguns segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a ver se lhe espertava o coração. Punha-lha nos braços, dava-lha a beijar. Marta cedia com tristeza e constrangimento. beijando a filha como se fora uma criança alheia. A ama ia dizer às criadas que a brasileira era uma cafra, que não podia ver o anjinho do Céu.

Os paroxismos eram menos frequentes; mas, três dias antes do ataque, a torvação de Marta manifestava-se com extravagâncias, delírios. Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Teresa, à madrinha de sua filha, que arranjara aquele caminho de rosas, porque o seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim em Vilalva quando casassem, e ela fizera aquele jardim para passearem juntos quando ele viesse à noite. D. Teresa encarou-a com uma grande piedade, porque se convenceu então que estava perdida.

O Feliciano, quando ela se fechava no quarto, já sabia que estava a preparar-se o ataque; ia dormir noutra cama; necessitava do seu repouso, dizia ele; tinha de erguer-se cedo para ver o que faziam os jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se casar já o mortificava, evadia-se às irremediáveis apoquentações, olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se às vezes que, tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradável ficar viúvo. Não obstante, como, passado o ataque epiléptico, a esposa recaia numa serena indolência, numa impassibilidade mansa e tranquila, o tio ia dormir com ela, tendo sempre em vista as condições do seu bem-estar, as necessidades imperiosas da sua fisiologia. Assim se explica a fecundidade de Marta, que deu em sete anos cinco filhos a seu marido. O médico já tinha explicado satisfatoriamente ao padre Osório que a demência de Marta era funcional, e as qualidades reprodutoras não tinham que ver com as anormalidades cerebrais. A Providência não teve a bondade de fazer estéreis as dementes.

Entretanto, aos três dias precedentes às crises epilépticas, parece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivência de José Alves, o seu amado saia do sepulcro, e transportava-a nas suas asas de anjo ao paraíso de Prazins. D. Teresa, colando o ouvido à fechadura da porta, ouvia-a conversar como em diálogo, ficar silenciosa, depois de uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho à porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os lábios postos em contacto de um rosto amado. O nome de José realçava com uma nitidez jubilosa, com uni timbre de meiguice infantil; e às vezes, um grito em esforçado desespero como se ele se lhe desatasse dos braços para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria desta loucura um argumento a favor das Manifestações visíveis, em que o fluido, o perispírito se apresenta semimaterial, com as formas vagas do corpo, quase tangível ao medium.

O Feliciano ignorava estas cenas extra-naturais. Ele; ao sexto ano de casado, encouraçara-se num impenetrável egoísmo de avarento, cortando fundamente por todas as despesas que em vista da sua grande fortuna se reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunático, mais ou menos infeccionado da alienação da mulher: E a loucura que é se não a exageração do carácter? Porque o viam às vezes atravessar os seus pinhais, com o monóculo, gesticulando, e falando sozinho, chamavam-lhe doido. Errada hipótese do vulgo ignorante. Ele fazia operações aritméticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigais numa declamação rítmica ao ar livre e ao luar. O certo é que ninguém o apanhava em intervalo escuro para o defraudar num vintém. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo, de Quadros; umas à viúva, e outras aos filhos. A D. Honorata Guião, casada em segundas núpcias com o desembargador do Ultramar Adolfo da. Silveira, veio à Metrópole assim que viuvou para se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava nos Pombais, com o marido e filhos, tentaram escorraçá-la com ameaças e insultos, atirando-lhe tiros à janela. O magistrado fugiu com a sua família e acompanhou com força armada os actos judiciais. Afinal, Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brasileiro Prazins; e o morgado, vendido o seu património desvinculado, e mais o irmão, vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existência na tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufrágio agarradas às pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus casais e as sovavam de pontapés injustos e extemporâneos, quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucote.

A brasileira de Prazins tem hoje cinquenta e três anos. Os seus vizinhos que contam trinta anos, nunca a viram, porque ela, desde que, em 1848, morreu D. Teresa, nunca mais saiu do seu quarto. Já ninguém a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de há quarenta anos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas alucinações, e — o que mais é — ainda tem lágrimas, quando, nos intervalos dos delírios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O padre Osório ainda a procura nesses períodos de razão bruxuleante e fala-lhe da irmã por sentir a inefável amargura doce de se ver acompanhado nas lágrimas. Mas o padre diz que nunca pudera ver nitidamente a linha divisória entre a razão e a insânia de Marta. Depois do delírio, sobrevém a monomania hipocondríaca. A alma continua a dormir sem sonhar, sem as alucinações. Nessa segunda crise de torpor, ele e só ele é admitido ao seu quarto, depois de esperar que desça da cama ou se embrulhe num xaile para encobrir a sordidez do corpete dos vestidos. Este xaile é uma cintila resistente de instinto feminil que raras vezes se apaga no comum das dementes, excepto no maior número das histéricas com erotismo.

Marta tem duas filhas casadas e já mães. Às temporadas, vestem serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos pais, onde continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai educara-as na lavoura de pé descalço, e sachola nas unhas. Trabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando regressam, recebem-nas sem as

interrogarem; porque, se as afligem, dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos, escrofulosos, tristes e sem infância, predomina a diátese da imbecilidade e a falta de senso moral, que é uma espécie patológica menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos há um que estudou para clérigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. Estudou seis anos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas violências à sua incapacidade; e quando Feliciano, pródigo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com três reprovações, ele trazia numa caixa de lata cinco mil e tantas hóstias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E o pai foi tão feliz que pôde vender as hóstias com o pequeno prejuízo de dez por cento.

— Aí tem o brasileiro de Prazins, se nunca o viu — dizia-me há três meses o padre Osório. mostrando-me no mercado de Famalicão um velho escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monóculo fixo, vestido de cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas. — Tem 84 anos — continuou o vigário de Caldelas — veio a pé de sua casa, que dista daqui légua e meia, janta um vintém de arroz, bebe outro vintém de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a pé, através ou pouco menos das suas catorze quintas. Com a frugalidade, com o exercício e com o seu egoísmo sórdido viverá ainda muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoístas e os papagaios viviam cento e cinquenta anos.