A Brasileira de Prazins/XV

Wikisource, a biblioteca livre
< A Brasileira de Prazins
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Brasileira de Prazins por Camilo Castelo Branco
Capítulo XV


O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um ano; depois, caído o ministério e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder o Joaquim de Vilalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua importância no ano em que governara a freguesia — o respeito dos rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jogo em casa, das raparigas solteiras que andavam grávidas, a autoridade do seu funcionalismo na junta de paróquia, etc. Ora, como o Joaquim de Vilalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que era bom ter de casa a autoridade para maior segurança dos seus cabedais e pessoa. Foi uma desgraça.

Depois do convénio de Gramido, Zeferino recolhera às Lamelas com alguns dos seus primitivos legionários. Ele tinha passado transes amargos. Juntara-se ao aventureiro Reinaldo MacDonnell, em Guimarães, quando o escocês descia do Marco de Canaveses para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistência daqueles desgraçados iludidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho de Este, a compreender a inutilidade da defesa, e por montes e vales deu consigo em Porto de Ave, e daqui foi para Guimarães, onde se aquartelaram o MacDonell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-no ao palacete do visconde da Azenha, onde o escocês se tinha aquartelado com o seu estadomaior. O Cerveira Lobo estava a beberricar conhaque velho copiosaimente sobre uma ceia farta, comida sem sobressaltos. À mesa, onde faiscavam os cristais dos licores, avultavam, cintilando os metais das suas fardas, o quartel-mestre-general Vitorino Tavares, de Fagilde, José Maria de Abreu, ajudante-de-ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, comandante do batalhão de voluntários realistas de Oliveira de Azeméis, que arredondava 42 praças, e seu irmão António Carlos de Castro, ajudante-de-ordens do general — dois homens gentilmente valorosos; — o coronel Abreu Freire, morgado de Avanca, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.

A noite era de 27 de Dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorífico. O MacDonell, muito rubro, naquela bebedeira crónica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía a ceia passeando num vasto salão, de braço dado com uma formosa senhora da casa, D. Emília Correia Leite de Almada. Dirse- ia que o bravo septuagenário tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos bélicos e as pernas desviadas como se apertasse nas coxas a sela de um cavalo empinado no fragor da peleja. Nisto entrou um camarada, às 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre-general, que o procurava com muita urgência um capitão de atiradores do batalhão do Pópulo.

O Vitorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho Leal, um robusto e jovialíssimo rapaz, de trinta anos, com uma fé política, antípoda da sua forte inteligência — uma espécie de poeta medieval com um grande amor romântico às catedrais e às instituições obsoletas e extintas. Ele tinha muitos destes camaradas visionários e respeitáveis na sua falange da Madre-Silva...

— Que há? — perguntou o quartel-mestre-general.

— Há que estamos cercados pelos Cabrais. Os nossos piquetes de Santa Luzia e do Castelo já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.

O Vitorino ficou passado de terror, e levou o capitão à sala em que o MacDonell passeava pelo braço de D. Emília Azenha, e o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hóspedes, cónegos, abades, capitães-mores, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escocês o que dissera ao seu quartel-mestre. Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar os baús para a fuga; e os do estado-maior compeliram o general a fugir também. Era uma hora da noite quando o exército realista abandonou Guimarães e entrou na estrada de Amarante.

Pinho Leal inventara o ataque dos eabralistas para salvar-se a si e aos outros da carniçaria inevitável; porque, ao romper a manhã do dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangueira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estilo militarmente pitoresco os veracíssimos esclarecimentos de Pinho Leal: ...A besta do escocês continuava na sua pânria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua . Eu, vendo que de um momento para outro, podíamos ser surpreendidos e trucidadas pelos Cabrais, aproveitando a circunsttância de estar e tendo na casa da câmara um de cem homens, comandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da gente do um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiança. Saí com eles por um beco e fui com eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castelo. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O em vista da nossa prévia combinação, mandou tocar a reunir e formou o suporte debaixo dos Arcos da Câmara. Eu e os meus cinco homens viemos sorrateiramente metermo-nos na vila. Fui a tempo em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada.

E dali, Pinho Leal foi à casa do Arco, a fim de salvar aqueles homens que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e retardar alguns dias a benemérita morte do general escocês assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.

O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava à uma hora daquela noite frigidíssima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que punha a tiracolo nas marchas nocturnas. Encheu-o com a ajuda do pedreiro. O tenente-coronel, num grande desequilíbrio, não acertava a despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavalo. O Cerveira afirmava que se sentia com os seus trinta anos; que andara a trote largo do seu cavalo treze léguas e não estava cansado. O Zeferino perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um asno, e que ele estava resolvido e mais o Vitorino a matálo como traidor ao Sr. D. Miguel I.

Moveu-se o exército em direitura à Lixa. O Cerveira ia no grupo do quartelgeneral. MacDonell, de vez em quando, regougava monossílabos em espanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se às vezes um pouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O Vitorino notava-lhe que ele bebia de mais — que o calor da genebra não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça — que era um perigo. O Cerveira dizia que estava afeito; mas queixava-se de dores nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com sono, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:

— Este ladrão deste inglês meto-lhe a espada até aos copos! Palavra de honra que o mato amanhã!

O Vitorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas atribuiu à embriaguez o embaraço na fala. Entrou a queixar-se o Cerveira de que estava tonto da cabeça, que se queria apear, porque não podia agarraras rédeas; e chamava com ansiedade o Zeferino que vinha muito à retaguarda. O quartel-mestre-general chamou uni ajudante-de-ordens, e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavalo que estranhava o peso e o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.

O apopléctico ia resvalar, quando os dois oficiais o ampararam nos braços, numa síncope. Um deles acende uni palito fosfórico no lume do charuto, e disse que o tenentecoronel tinha o rosto inchado e muito vermelho. Chamavam-no, sacudiam-no; não dava sinal de vida; nem um ronquido estertoroso. Inclinaram-no sobre um combro de mato molhado; não lhe acharam pulso; a boca entortara-se, e os olhos muito abertos com umas estrias sanguíneas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcoólica.

A respeito deste desastroso remate do ébrio ilustre, escreve Pinho Leal: Nesta retirada pelas duas ou três horas da noite, morreu em marcha com unia apoplexia fulminante o F... Coitado! quando me lembra isto ainda tenho cá meus remorsos de consciência. Quem sabe se seria eu a causa da morte daquele pobre diabo? Consolame porém a certeza de que, mesmo que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e o morto já poucos anos podia durar, pois estava no calçado velho.

Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite à beira do cadáver do fidalgo de Quadros. À claridade fusca da manhã invernosa viramlhe o semblante que metia pavor. Quiseram cerrar-lhe as pálpebras que resistiam à distensão, coriáceas, num retesamento orgástico. A maxila inferior parecia deslocada e torta, repuxando a comissura direita dos lábios num esgar de escárnio ou de angústia dilacerante. A cor do rosto era agora de unia amarelidão de barro, molhado pelo orvalho que se filtrara através do lenço com que lho cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexíveis, e uma das mãos afincada como garra nas correias da pasta.

O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com dinheiro em ouro; mas ninguém ousou desabotoar a farda do morto defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinelas intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu à igreja próxima, a Margaride, avisar o pároco que tinha morrido na estrada um fidalgo do exército do Sr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A autoridade, sem as delongas dos processos legais, depositou o cinturão com as peças na mão do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da igreja, onde o baldearam com um responso económico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas no chão e encostavam às mãos calosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.

— Toma! — disse um dos jornaleiros — um conto de réis! — E inclinando-se à orelha de outro jornaleiro: — Ó Tónio, se temos ido mais cedo para o monte... e topámos o morto...

— Que pechincha!...

Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idílio em prosa.

O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Trás-os- Montes os soldados do Vinhais; depois passou com alguns chefes realistas para a Junta do Porto; e, acabada a luta, foi para casa e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas carícias:

— Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bêbedo de Quadros; que não saísses a campo sem lá ver o morgado de Barrimau. Agora, pedaçode- asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Vilalva, e quiseste agarrar o brasileiro de Prazins que tem agora demais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias anda por aí a berrar que a Marta e mais tu lhe matas-te o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!

— Se alguém embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta! — protestava o pedreiro, cortando com o braço e punho fechado punhadas aéreas. — Se me matarem... até lho agradeço! — E com desalento: — Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do Sol! Veja você: há três anos que não tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lho eu! Você verá, sor pai, que ou me matam ou eu acabo numa forca pr'ámor daquela rapariga que foi o Diabo que me apareceu, e não me passa daqui! — e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.

Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças dos distritos ramificaram-se destacamentos a fim de coadjuvarem a autoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido de dirigir a diligência militar que devia dar um assalto a Lamelas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor compreendeu o perigo da empresa; pediu que o demitissem; mas a autoridade impôs-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.

Quando o Zeferino, sucumbido à carga dos reveses, indiferente à vida e à morte, se chamava infeliz e desgraçado, o destino implacável preparava-lhe novo desastre. Ele, ao romper da manhã, depois de uma insónia febril, sonhava que era sargento-mor das Lamelas e assistia à formatura do regimento de milícias de Barcelos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janela gótica do velho edifício da época de D. Afonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exército vencedor, em que havia muitas músicas marciais, de fulgurantes trompas, tocando o Rei-chegou; e o abade de Calvos, dentro de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com hissopadas de água benta, cantando o Bendito. As tropas estendiam-se até Barcelinhos, e pelo Cávado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicais de Santiago de Antas de Ruivães tocando a Cana-verde e Água leva o regadinho. Num desses bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, mestre de latim, com os seus óculos, a fazer meia; e ao lado dela, vestida de cetim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabelos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em Braga, a Marta de Prazins. Ele estava na ponte, absorto na visão da noiva que chegava pelo Cávado para se casar quando um vizinho lhe bateu com o cabo da sachola na janela três pancadas. Saltou da cama atordoado.

Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamelas com o regedor.

Zeferino ganhou de pronto os desvios de um pinhal, e por detrás de um socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em frente da sua casa e apontar para as janelas. Ouviu bater estrondosas coronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se com dois homens carregados de armas.

O velho alferes, entrevado, estava muito aflito quando o filho entrou. O sargento quisera levar--lhe a sua espada; e compadecera-se dele quando o vira a chorar e a dizerlhe que era um alferes do antigo exército, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que ele não podia defendê-la porque estava tolhido.

O Zeferino perguntou pacificamente:

— E o Simeão que dizia?

— Não dizia nada. Eu é que lhe disse... Arrieiros somos, na estrada andamos, vizinho Simeão.

O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos fincadas na cabeça: olhava para o canto em que tivera duas dúzias de espingardas compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:

— Elas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou... Que leve o Diabo tudo... — E, passados alguns segundos de recolhida angústia: — Veja você, sor pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz que ma não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado do juízo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar à minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o Diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, metia-me uma baioneta no corpo...

— Homem — atalhou o pai com juízo — não fosses tu lá a Prazins embirrar com o brasileiro...

— Eu tenho a minha paixão — objectou o filho com transporte — tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e ele... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...

Saiu arrebatadamente e foi para o Monte Córdova conversar com o Patarro, um velho celerado que se batera em Braga com a cavalaria do Casal e pudera salvar-se com o sacrifício de três dedos e do nariz acutilados.

Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o brasão dos Brandões, que o brasileiro comprara a um fidalgo de Afife. O negócio deitara a tarde. Simeão saíra ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dois lavradores de outra freguesia que montavam éguas andadeiras de muitos brios. O Simeão cavalgava a sua velha ruça, de uma pachorra mansa, invulnerável à espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para trás. Ela não podia manifestar de um modo mais sensível a sua repugnância pelas pressas. O dono gabavase de só ter caído juntamente com ela poucas vezes. Saíram da feira conversando a respeito de Marta. Constava aos outros que ela se quisera matar à conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ela quisera atirar-se ao rio; mas que estava quase boa em Caldelas; que o vigário e mais a irmã lhe tinham dado um jeito ao miolo; e logo que ela estivesse fina, casava com o tio.

— E ele qué-la? — perguntou o Bento de Penso.

— Pois então!... Tomara-a ele já.

— Enfim — tornou o Bento — você há-de perdoar que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noite. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brasileiro pelos modos é de bô comer...

— Tem bô estômago, é o que é — confirmou o Belchior da Rechousa.

O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviais nas aldeias ainda imaculadas do resguardo das conveniências; mas defendia a honra da filha, atribuindo ao Zeferino as calúnias que espalhava para se vingar.

— Enfim — disse o Belchior — você tinha-lha dado por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna atrás.

— Isso cá da minha parte foi chalaça... — defendia-se o Simeão, quando três homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, à frente das três éguas que caminhavam a passo. Um dos três jogou uma paulada à cabeça do Simeão e derrubou-o.

Os dois lavradores das éguas travadas deram de calcanhares e pareciam dois duendes de comédia mágica vistos à luz crespuscular. O caseiro abandonou as sogas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada fuga até Famalicão, e à entrada da vila gritou — aqui d'el-rei ladrões! Contou o sucesso ao povo alvorotado, acudiu a autoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. Acharam-no prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A égua rilhava entre os dentes e o freio umas vergônteas tenras de tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhais enfolipados. O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e disse que tinha o miolo à vista; não podia durar muito, que lhe dessem a santa unção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais próximo e levaram-no para Prazins prometendo duas de doze a dois jornaleiros. O caseiro montou a égua para ir a Santo Tirso chamar o Baptista, o cirurgião da casa; mas a burra, estranhando as esporas dos tamancos, levantou-se com o cavaleiro, deixou-se cair sobre os jarretes traseiros, voltou-se de lado como quem se ajeita para dormir: foi necessário levantá-la. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre da égua a perna entalada, muito cabeluda; e ali perto estava a padiola com um velho gemente, agonizante, a pedir a confissão.

Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso à Marta que o pai estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. Teresa e o prior acompanharam-na. Quando chegaram, saía o pároco de o confessar e tocava o sino ao viático. Havia uma agitação de angustiosa curiosidade no povo que confluía à igreja chamado pelo sinal. Dizia-se que eram ladrões que saíram ao lavrador em Santiago de Antas; havia opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamelas o Patarro de Monte Córdova e mais outro mal-encarado; mas todos à uma diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com medo à malta do Zeferino.

O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a cama, resfolegando com muita ansiedade, gemendo com dores, e a cabeça um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em três pelo vigário. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio quando viu a cara ensanguentada do pai, à luz mortiça de uma vela de sebo numa placa de lata. D. Teresa, com a Marta nos braços, disse ao irmão:

— Que miséria de casa! Pede luzes e água para se lavar aquele sangue.

E, assim que Marta voltou a si, levou-a para o seu quarto — que a viria chamar quando o pai a pudesse ver. Queria retirá-la do espectáculo dos paroxismos.

Quando chegou a extrema-unção com o préstito clamoroso do Bendito e o tilintar espacejado da campainha, Marta carpia-se em altos gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.

Ela tinha ouvido dizer a uma das vizinhas que lhe invadiram a alcova: — quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino das Lamelas. Juro que não foi outro. — Esta afirmativa cravou-lhe no coração o remorso de ser ela a causa da morte do pai. Queda ir pedir-lhe perdão; rogava à sua amiga que pelas chagas de Cristo a deixasse ir ajoelhar-se à beira de seu desgraçado pai. D. Teresa conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que lhe estava a rapar a cabeça.

Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo às obras. Vinha aterrado. Disse ao Osório que já estava arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando de facínoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.

O cirurgião saiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara um pedaço de tegumento, deixando descoberto o crânio, que o ferrador da Terra Negra chamara o miolo. A hemorragia era grande, e havia receio de comoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe pôr panos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Marta e Teresa não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osório passou a noite na saleta atendendo o brasileiro que lhe falava muito na sobrinha, na paixão que ela tivera pelo José Dias, e não lho levava a mal, pelo contrário.

Aí pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lágrimas. O padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que ele estivesse agonizando. Depois aquela agitação esmoreceu num dormitar sobressaltado, com a cabeça no regaço de Marta, que brandamente lhe compunha o pacho da ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repeliu-a. Falou no pedreiro que o matara, e recaiu no estado comatoso. O padre Osório atribuía aquela sonolência a derramamento de sangue no crânio, um sintoma de morte provável. O cirurgião veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguessugas atrás das orelhas, e disse ao vigário de Caldelas que estava mal-encarado o negócio; que aquele diabo de sono lhe parecia de mau agouro. Que ia ver uns doentes e voltava logo.

Marta fazia muitas promessas à Senhora da Saúde; dez voltas de joelhos ao redor da sua capela, um resplendor de prata, jejuar a pão e água seis meses a fio, não comer carne durante um ano, ir descalça à romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos oprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa dela, e a Maria de Vílalva já dizia também que fora ela a causa da morte do seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e do pai.

O ferido teve uma intermitência de repousada vigília. Olhou para a filha, e disselhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O Feliciano acudiu:

— Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe há-de faltar. É minha sobrinha; não tenho mais ninguém neste mundo.

— Eu morria contente — balbuciou o Simeão lacrimoso — se ela fosse sua mulher...

Fez-se um silêncio esquisito. Marta abaixou os olhos; a D. Teresa olhou para o irmão a ver o que ele dizia; o padre Osório olhava para o brasileiro a ver como se expressavam as suas ideias; o Feliciano esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Marta, aconchegando-a de si, com muita ternura:

— Casas com o teu tio, minha filha? É o último pedido que te faço...

Marta fez um gesto afirmativo, e caiu de joelhos, curvada sobre o leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em convulsões, com o rosto muito escarlate e a boca a espumar. D. Teresa e o irmão conduziram-na ao seu quarto. Deitaram-na já sossegada, mas numa rigidez insensível, com a boca ligeiramente toda.

O cirurgião chegava nesta conjuntura e disse que a rapariga herdara a moléstia da mãe, que eram ataques epilépticos; e ao tio Eeliciano disse-lhe particularmente que o pior da herança não era a epilepsia; era a demência que levou a mãe ao suicídio. Que a rapariga era fraca, e tinha sido criada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ela, não a afligir, distraí- la, casada, enfim, que seria bom casá-la, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ela não apanhasse a língua entre os dentes; que lhe metessem um pano entre os dois queixos, quando lhe desse outro ataque.

— Ele disse que o melhor era casar-se — lembrou o Feliciano ao padre Osório.