A Carne/V

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A Carne por Júlio Ribeiro
Capítulo V

Chegara o dia de principiar a moagem.

Já de véspera tinham os negros andado em uma faina a varrer a casa no engenho, a lavar os cochos e as bicas, a arear, a polir as caldeiras e o alambique, com grandes gastos de limão e cinza.

Mal amanhecera entrou-se a ver no canavial fronteiro uma fita estreita de emurchecimento que aumentava, que avançava gradualmente no sentido da largura. Era o corte que começara. As roupas brancas de algodão, as saias azuis das pretas, as camisas de baeta vermelha dos pretos punham notas vivas, picantes, naquele oceano de verdura clara, agitadas por lufadas de vento quente.

No casarão do engenho, varrido, asseado, quatro caldeiras e o alambique de cobre vermelho reverberavam polidos, refletindo a luz que entrava pelas largas frestas. As fornalhas afundavam-se lôbregas, escancarando as grandes bocas gulosas.

A água, ainda presa na calha, espirrava pelas juntas da comporta sobre as línguas da roda, filetes cristalinos. As moendas brilhavam limpas, e os eixos e endentações luziam negros de graxa. Compridos cochos e vasta resfriadeira abriam os bojos amplos, absorvendo a luz no pardo fosco da madeira muito lavada.

Ao longe, quase indistinto a princípio, mas progressivamente acentuado, fez-se ouvir um chiar agudo, contínuo, monótono, irritante. A crioulada reunida em frente ao engenho levantou uma gritaria infrene, tripudiando de júbilo.

Eram os primeiros carros de cana que chegavam.

Arrastados pesadamente por morosos mas robustos bois de grandes aspas, avançavam os ronceiros veículos estalando, gemendo, sob a carga enorme de grossas e compridas canas, riscadas de verde e roxo.

Carreiros negros, altos, espadaúdos, cingidos na altura dos fins por um tirador de couro cru, estimulavam, dirigiam os ruminantes com longas aguilhadas, com brados ostentóricos:

—Eia, Lavarinto! Fasta, Ramalhete! Ruma, Barroso!

Os carros entraram no compartimento das moendas. Negros ágeis saltaram para cima deles, a descarregar. Em um momento empilharam-se as canas, de pé, atadas em feixe com as próprias folhas.

Fez-se fogo na fornalha das caldeiras, abriu-se a comporta da calha, a água despenhou-se em queda violenta sobre as línguas da roda, esta começou de mover-se, lenta a princípio, depois acelerada.

Cortando os atilhos de um feixe a golpes rápidos de facão, o negro moedor entregou as primeiras canas ao revolver dos cilindros. Ouviu-se um estalejar de fibras esmagadas, o bagaço vomitado picou de branco o desvão escuro em que giravam as moendas, a garapa principiou a correr pela bica em jorro fano, verdejante. Após pequeno trajeto foi cair no cocho grande, marulhosa, gorgolante, com grande espumarada resistente.

Os negros banqueiros, empunhando espumadeiras de compridos cabos, tomaram lugar junto às caldeiras.

Levada por uma bica volante, a garapa encheu-os em um átomo. A fornalha esbraseou-se, escandesceu, irradiando um calor doce por toda a vasta quadra. As espumadeiras destras atiravam ao ar em louras espadanas o melaço fumegante, que tornava a cair nas caldeiras, refervendo, aos gorgolões.

Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espaços por uma lufada tépida de cheiro humano áspero, de catinga sufocante exalada dos negros em suor.

O coronel gostava da lavoura de cana; vencendo o seu reumatismo, passava os dias da moagem sentado em um banco de cabriúva alto, largo, fixo entre duas janelas, a distância razoável das caldeiras. Dirigia o trabalho, tomando o ponto ao melaço em um tachinho de cobre muito limpo, muito areado, remexendo com uma pá o açúcar na esfriadeira, quando este, transvazado os reminhóis por uma bica volante especial, aí parava, coalhando-se por cima em crosta amarela, quebradiça.

Lenita não saía do engenho; tudo queria ela saber, de tudo se informava.

O coronel passava por verdadeiros interrogatórios - quais os meses do plantio da cana; que tempo levava esta na terra até ficar pronta para o corte; quando e quantas vezes devia ser carpida; como se cortava; que era baixar, que era levantar o podão; quais os sinais de maturidade; como se conhecia a cana passada; que era carimar; por que tinha menos viço e mais doçura a cana de terra safada; como se plantavam as pontas.

Entrava em detalhes de lavoura, tomava notas; sabia que um alqueire agrário paulista tem cem braças cinquenta; que a Quarta essa área, em relação à lavoura de canas, chama-se quartel; que um quartel de terra própria, em anos favoráveis, dá de quarenta a cinquenta carros de canas; que um carro de canas boas produz cinco arrobas de açúcar; que o açúcar sem barro, mascavo, faz mais conta em comércio do que o açúcar com barro, alvo; que o barro é suprido com vantagem pelo estrume bovino.

Subia ao tendal, contava as fôrmas, duas em cada pau; computava o produto em açúcar das quatro tarefas de cada dia; calculava o que haviam de produzir, em aguardente, os resíduos, a espuma, o mel; avaliava a capacidade dos caixões, dos estanques, dos vasos de tanoa de grande arqueação; punha-se ao fato dos preços; comparava os do ano corrente com os dos nove anos anteriores do decênio; generalizava, induzia, chegava a conclusões positivas sobre a renda do município em futuro próximo, dada mesmo a eliminação do fator servil.

O coronel admirava-a. Um dia disse-lhe:

— Com uma mulher como você é que eu devia ter casado.

Pobre eu não sou, mas estaria podre de rico se a tivesse tido para minha administradora desde os meus princípios. Inda se eu tivesse um filho ou um neto da sua idade para se casar com você...

— Por falar em filho, quando vem o seu que está em Paranapanema? perguntou Lenita.

— Eu sei lá? Aquilo é esquisitão, sempre foi. Mete-se com os livros e fica meses sem sair do quarto. De repente vira-lhe a mareta, e lá se vai ele para o sertão, põe-se a caçar e adeus! Não se lembra mais de nada.

— É casado, parece-me ter ouvido dizer.

— Desgraçadamente.

— Onde está a mulher?

— Na terra dela, em França.

— Com que, então, é francesa?

— É, ele casou-se por extravagância em Paris; no fim de um ano nem ele podia suportar a mulher, nem ela a ele. Separaram-se.

— Não sabia que seu filho tinha estado na Europa.

— Esteve, esteve lá dez anos; quando voltou até já falava mal o português.

— Em que países esteve?

— Um pouco em toda a parte: esteve na Itália, na Áustria, na Alemanha, em França. Na Inglaterra foi que parou mais tempo: demorou-se lá, aprendendo com um tipão que afirma que nós somos macacos.

— Darwin?

— Exatamente.

— Então seu filho é homem muito instruído?

— É, fala umas poucas línguas, e conhece bastantes ciências. Sabe até medicina.

— Deve ser muito agradável a sua companhia.

— Há ocasiões em que é de fato, há outras em que nem o diabo o pode aturar. Está então com uma coisa que ele chama em inglês... um nome arrevesado.

— Blue devils?

— Há de ser isso. Então você também pesca um pouco da língua dos bifes?

— Falo inglês sofrivelmente.

— Bem bom, quando Manduca vier e estiverem de veneta, temperarão língua para matar o tempo.

— Estimarei muito ter ocasião de praticar.

E Lenita daí em diante pensou sempre, mesmo a seu pesar, nesse homem excêntrico que, tendo vivido por largo espaço entre os esplendores do mundo antigo, a ouvir os corifeus da ciência, a estudar de perto as mais subidas manifestações do espírito humano; que, tendo desposado por amor, de certo, uma das primeiras mulheres do mundo, uma parisiense, se deixara vencer de tédio a ponto de se vir encafuar em uma fazenda remota do oeste da província de São Paulo, e que, como isso lhe não bastasse, lá ia para o sertão desconhecido a caçar animais ferozes, a conviver com bugres bravos.

Sabia que era homem de quarenta e tantos anos, pouco mais moço do que lhe morrera o pai.

Figurava-o em uma virilidade robusta que, se já não era mocidade, ainda não era velhice; emprestava-lhe uma plástica fortíssima, atlética, a do torso do Belvedere; dava-lhe uns olhos negros, imperiosos, profundos, dominadores. Ansiava por que lhe chegasse a notícia de que ele vinha vindo, de que já tinha pedido os animais para transportar-se da estação à fazenda.

E continuava na sua alegria progressiva: a saudade do pai já não era dolorosa, era apenas melancólica.

Bebia garapa, mas preferia-a picada. Gostava muito de chupar canas: que era melhor do que garapa, dizia; que a cana descascada, torneada a canivete, triturada pelos dentes tinha um frescor, uma doçura especial, que o esmagamento pelas moendas lhe tirava.

Detestava o furu-furu, mas em compensação adorava o ponto, o puxa-puxa. Quando o melaço começava na esfriadeira a engrossar, a cobrir-se de espuma amarela, ela corria-lhe o índice da mão direita pela superfície quente, tirava uma dedada grande, lambia-a com prazer dando estalinhos com a boca, fechando os olhos. Um dia um preto que tinha a seu cargo guiar a carroça de bagaço para o bagaceiro, e que trazia ao pé esquerdo uma grande pega de ferro, falou-lhe:

— Sinhá, olhe como está esta perna; está toda ferida. Ferro pesa muito, fale com sinhô para tirar.

E mostrava o tornozelo ulcerado pela pega, fétido, envolto em trapos muito sujos.

— Mas que fez você para estar sofrendo isto?

— Pecado, sinhá; fugi.

— Era maltratado, estava com medo de apanhar?

— Nada, sinhá: negro é mesmo bicho ruim, às vezes perde a cabeça.

— Se você me promete não fugir mais, eu vou pedir ao coronel que mande tirar o ferro.

— Promete, sinhá: negro promete, palavra de Deus! Deixa estar. São Benedito há de dar a sinhá um marido bonito como sinhá mesmo.

E deu uma grande risada alvar.

Lenita gostou do bom desejo e do cumprimento e sorriu-se.

De tarde falou ao coronel - que aquilo não tinha razão de ser, que era barbaridade, uma vergonha, uma coisa sem nome, que mandasse tirar o ferro.

— Ai, filha! você não entende deste riscado. Qual barbaridade, nem qual carapuça! Neste mundo não existe coisa alguma sem sua razão de ser. Estas filantropias, estas jeremiadas modernas de abolição, de não sei que diabo de igualdade, são patranhas, são cantigas. É chover no molhado - preto precisa de couro e ferro como precisa de angu e baeta. Havemos de ver no que há de parar a lavoura quando esta gente não tiver no eito, a tirar-lhe cócegas, uma boa guasca na ponta de um pau, manobrada por um feitor destorcido. Não é porque eu seja maligno que digo e faço estas coisas; eu até tenho fama de bom. É que sou lavrador, e sei o nome aos bois. Enfim, você pede, eu vou mandar tirar o ferro. Mas são favas contadas - ferro tirado, preto no mato.

A moagem continuava, o canavial se ia convertendo em palhaça: à verdura clara viva, sucedia um pardo tosco, sujo, muito triste. O vento esfregava as folhas mortas, ressequidas, arrancando delas um som áspero de atrito, estalado, metálico, irritadíssimo.

O bagaceiro crescia, avultava: na brancura esverdinhada punham notas escuras os suínos, bovinos e muares que aí passavam o dia, mastigando, mascando, esmoendo. De repente armava-se uma grande briga; ouviam-se grunhidos agudos, mugidos roucos, orneios feros. Uma dentada oblíqua, um guampaço, uma parelha de coices tinha dado ganho de causa ao mais forte.

O odor suave do primeiro ferver da garapa no começo da moagem se acentuara em um cheiro forte, entontecedor, de açúcar cozido, de sacarose fermentada que se fazia sentir a mais de um quarto de légua de distância.