A Carne/VII

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A Carne por Júlio Ribeiro
Capítulo VII

Havia quase uma semana que estava chovendo continuamente. As matas alegres, viçosas, muito lavadas reviam água pela fronde. O tapete espesso de folhas mortas, que cobria o solo nas matas, estava ensopado, desfeito, ia-se reduzindo a húmus. A terra nua nos caminhos, limosa, esverdeada nos taludes e nas rampas, empapada, semilíquida no leito plano, cortada longitudinalmente pelas trilhas dos carros, batida, revolvida, amassada pelos pés dos animais, ora alteava-se em almofadas de lama, ora cavava-se em poças de água barrenta, amarela em uns lugares, em outros cor de sangue. Corria o enxurro torrentoso, rápido, enxadrezado nos declives; manso, espraiado em toalhas, banhando as raízes das gramíneas no chato, no descampado.

Os campos eram brejos, os brejos lagos.

No pomar as laranjeiras pendiam os grelos em um desfalecimento úmido; as ameixeiras, as mangueiras, os pessegueiros, os cajueiros viçavam muito lustrosos. O céu pardo, como que descido, parecia muito perto da terra.

O ribeirão transbordando roncava em marulhos.

Lenita sentada, encorujada na rede, com as pernas cruzadas, à chinesa, levava a maior parte do dia a ler, conchegando-se no xale, friorenta, aborrecida, esplenética.

Rememorava por vezes as mudanças, as alternativas fisiopsíquicas por que tinha passado na fazenda, onde não encontrara uma pessoa de sua idade, de seu sexo ou de sua ilustração a quem comunicar o que sentia, que a pudesse compreender, que a pudesse aconselhar, que a pudesse fortalecer nessa terrível batalha dos nervos.

Analisava a crise histérica, o erotismo, o acesso de crueldade que tivera. Estudava o seu abatimento atual irritadiço, dissolvente, cortado de desejos inexplicáveis. Surpreendia-se amiudadas vezes a pensar sem o querer no filho do coronel, nesse homem já maduro, casado, a quem nunca vira; sentia que lhe pulsava apressado o coração quando falavam nele na sua presença. E concluía que aquilo era um estado patológico, que minava um mal sem cura.

Depois mudava de pensar: não estava doente, seu estado não era patológico, era fisiológico. O que ela sentia era o aguilhão genésico, era o mando imperioso da sexualidade, era a voz da carne a exigir dela o seu tributo de amor, a reclamar o seu contingente de fecundidade para a grande obra da perpetuação da espécie.

E lembrava-lhe a ninfomania, a satiríase, esses horrores com que a natureza se vinga de fêmeas e machos que lhe violam as leis, guardando uma castidade impossível; lembrava-lhe o horror sagrado que aos povos da Grécia e Roma inspiravam esses castigos de Vênus.

Entrevia como em uma nuvem as ninfas gregas de Dictynne, as vestais romanas, as odaliscas molitas, as monjas cristãs pálidas, convulsivas, com os lábios em sangue, com os olhos em chamas, a contorcerem-se nos bosques, nos leitos solitários; a morderem-se loucas, bestiais, espicaçadas pelos ferrões do desejo.

Desfilavam-lhe por diante, lúbricas, vivas, palpáveis quase, Pasifae, Fedra; Júlia, Messalina, Teodora, Impéria; Lucrécia Borgia, Catarina da Rússia.

Um dia entrou na sala o coronel.

— Grande novidade! Aí me vem o rapaz... rapaz é um modo de falar, o velho, o caçador do Paranapanema.

— Seu filho?

— Sim. Também era tempo, eu já estava com saudades.

— Mas não preveniu, não pediu condução...

— Pois eu não dizia? aquilo é assim mesmo, é espeloteado. Não quer, não sabe esperar; não está para demoras. Alugou animais no Rio Claro, e aí vem vindo.

— Como soube?

— Por um caboclo que partiu de lá ao amanhecer, e que agora passou por aqui.

— Então seu filho vem tomando esta chuvarada?

— Isso para ele é um pau para um olho, está acostumado.

— A que horas acha que chega?

— São seis léguas de caminho. Ele de certo saiu depois do almoço, às 10 horas. Como a estrada está ruim, gastará umas seis ou sete horas. As quatro, às cinco horas ao mais tardar, rebenta por aí. O que eu quero saber é se você quer jantar às horas do costume ou se concorda em que o esperemos.

— Havemos de esperar, boa dúvida!

O coronel saiu.

Lenita saltou lesta da rede, correu ao seu quarto, penteou-se com desvanecimento, ergueu os cabelos, prendeu-os no alto da cabeça; deixando a nuca bem a descoberto. Espartilhou-se, tomou um vestido de merinó afogado, muito singelo, mas muito elegante brincos, broche, braceletes de ônix , calçou sapatinhos Luiz XV, cuja entrada muito baixa deixava ver a meia de seda preta com ferradurinhas brancas em relevo. No peito, à esquerda, pregou duas rosas pálidas, meio fechadas, muito cheirosas.

— Bravo! que linda que está a senhora D. Lenita! bradou o coronel, entusiasmado ao vê-la. Pena é que esteja gastando cera com ruim defunto: o rapaz não é rapaz, e ainda, por mal de pecados, é beco sem saída.

Lenita corou um pouco, riu-se.

— Vamos, vamos lá para dentro: quero que a velha a veja nesse reto. Francamente, está bonita a fazer virar a cabeça ao próprio Santo Antão ! Como lhe assenta a você essa roupa preta afogadinha! Sim, senhora!

Ia quase anoitecendo.

A chuva caía forte, compassada, ininterrompida: em todas as depressões de terreno estancava-se a água; por todos os declives corria ela em torrentes, em borbotões, em jorros, em filetes.

No alto do morro fronteiro, cortado pela estrada, assomaram dois cavaleiros e uma besta de canastrinhas.

Vagarosos, escorregando a cada passo na ladeira lamacenta, lisa, começaram a descer procurando a fazenda.

A água da chuva, pulverizada no ar, esbatia-lhes os contornos em urna como atmosfera cinzenta, riscada obliquamente pelo peneirar dos pingos grossos.

O coronel viu-os por uma janela, através dos vidros embaciados.

— Lá vem Manduca, disse.

Coitado! vem como um pinto !

Lenita parou o movimento brando da cadeira de balanço, largou o Correio da Europa que estava lendo, deixou cair os braços sobre as coxas, recostou a cabeça no espaldar, quedou-se imóvel, muito pálida, quase desfalecida. O sangue refluíra-lhe ao coração que batia descompassado.

Chegaram os viajantes.

Ouviu-se o tinir de freios sacudidos nervosamente pelas cavalgaduras, depois o chapinhar pesado de botas ensopadas, enlameadas, e o arrastar sonoro de esporas no pedrado do alpendre.

O coronel, trôpego, correu ao encontro do filho.

— Que raio de tempo! Disse este ao entrar na ante-sala, batendo duro os pés na soleira da porta, e tirando a capa de borracha que foi pendurar a uma estaqueira. Adeus, meu pai, vosmecê bom, eu vejo; minha mãe na mesma, não?

— Tudo na forma do costume.

E você? boas caçadas? boa saúde?

— Caçadas esplêndidas, hei de lhe contar. Saúde de ferro, a não ser a maldita enxaqueca que me não larga, e que neste momento mesmo me está atormentando de modo horroroso. Vou lá dentro ver minha mãe, e sigo para o meu quarto: deve estar pronto. Mande o Amâncio levar-me uma chaleira de água a ferver, e uma pouca de farinha mostarda, para eu tomar um pedilúvio sinapizado.

— Você não jantou, e de certo almoçou mal: coma alguma coisa que há de fazer-lhe bem.

— Comer! mal de mim se comesse estando de enxaqueca.

— Que maçada! Eu e a Lenita que o estávamos esperando para jantar...

— Lenita! Quem é Lenita?

— É a neta do meu velho amigo Cunha Matoso, filha do meu pupilo, o doutor Lopes Matoso, que morreu logo depois que você foi para o Paranapanema. Não recebeu a minha carta nesse sentido?

— Recebi, lembra-me muito o Lopes Matoso. Com que então a filha está agora aqui?

— Está, coitada. Não pôde ficar na cidade, era-lhe muito dolorosa a falta do pai. Vem cá, Lenita, vem ver o meu filho. Chama-se Manuel Barbosa.

Lenita veio da sala, adiantou-se para o recém-chegado, cumprimentou-o com uma inclinação da cabeça.

Ele tirou o seu chapéu alagado, retribuiu o cumprimento.

— Um seu criado, minha distinta senhora. Desculpar-me-á não apertar-lhe a mão: estou imundo, estou que é só barro da cabeça aos pés.

Manuel Barbosa era homem de boa altura, um tanto magro. A roupa molhada colava-se-lhe ao corpo, acentuando-se as formas angulosas. Cabelos desmesuradamente grandes, empastados, correndo água, cobriam-lhe a testa, escondiam-lhe as orelhas. As barbas grisalhas, crescidas, davam-lhe um aspecto inculto, quase feroz. Com a enxaqueca estava pálido, muito pálido, baço, terroso. Piscava muito os olhos para furtar-se à ação da luz. Tinha as pálpebras batidas, trêmulas, e muitos pés de galinha encarquilhavam-lhe os cantos externos dos olhos.

Lenita, desapontadíssima, mirava-o com uma curiosidade dolorosa.

— Minha senhora, continuou ele, sinto imenso que vossa excelência tenha esperado por mim para jantar, e que a minha negregada enxaqueca prive-me hoje do prazer de sua companhia. Queira conceder-me licença.

E varou para o interior, sacudidamente, brutalmente, fazendo soar as esporas, deixando no assoalho as marcas úmidas das botas enlameadas. O coronel acompanhou-o.

Lenita recolheu-se ao seu quarto, bateu as janelas, não quis jantar, não quis cear, respondeu quase com desabrimento ao coronel, que insistia com ela para que fosse à mesa comer uma asa de frango, uma talhadinha de presunto, algum doce ao menos.

Sacou do peito com violência as duas bonitas rosas, atirou-as ao chão, calcou-as aos pés, esmurregou-as, despiu-se freneticamente, aos pinchos, arrancando os botões arrebentando os colchetes.

Com um movimento de pernas rápido, sacudido, fez voar longe os sapatinhos, atirou-se à cama encolheu-se como uma bola, mordeu os braços, despediu num pranto convulso.

Chorou, soluçou por muito tempo. Esse descarregamento nervoso aliviou-a; acalmou-se, sossegou.

Entrou a refletir.

Conceber um ideal, pensava ela, animá-lo como uma mãe amima o filho, ajeitá-lo, vesti-lo cada dia com uma perfeição nova, e, de repente, ver a realidade impor-se esmagadoramente prosaica, chatamente bruta, bestialmente chata!

Idealizar um caçador de Cooper, um Nemrod forte até diante de Deus, um atleta musculado como um herói da antiguidade, e ver sair pela frente um sujeito pulha, enlameado, velho, de melenas intonsas e barbas grisalhas, um almocreve, um arneiro que quase a tratara mal!

E ainda por cima juraria que ele tresandava a cachaça: sentira-lhe a bifada quando ele falou.

Mas, em suma, que lhe importava a ela esse homem, com quem nunca conversara, que nunca sequer tinha visto, cuja existência até pouco ignorava?

Pois não havia ela em tempo desprezado a corte assídua de uma nuvem de pretendentes?

E nesse momento mesmo, debaixo de certo ponto de vista, não estava até melhor, relativamente a coisas do coração? Sem pai, sem mãe, sem irmãos, emancipada, absolutamente senhora de si, rica, formosa, inteligente, culta, bastava-lhe mostrar-se na cidade, ou melhor, em São Paulo, na corte, aparecer nas reuniões, deixar-se admirar para tronejar, para ser soberana, para receber ovações, para haurir, a saciedade, o incenso da lisonja. Por que teimar em permanecer na fazenda?

— Se era a necessidade orgânica, genésica de um homem que a torturava, por que não escolher de entre mil um marido forte, nervoso, potente, capaz de satisfazê-la, capaz de saciá-la?

E se um lhe não bastasse, por que não conculcar preconceitos ridículos, por que não tomar dez, vinte, cem amantes, que lhe matassem o desejo, que lhe fatigassem o organismo?

Que lhe importava a ela a sociedade e as suas estúpidas convenções de moral?

Mas a cor amarelenta de Manuel Barbosa, seus olhos piscos, seus cabelos por cortar, sua barba repugnante, sua roupa molhada!

E o fartum de pinga, a bifada?

Não lhe podia perdoar, odiava-o, tinha vontade de esbofeteá-lo, de cuspir-lhe no rosto.

Era um contra-senso; estar sempre a recair, a ocupar-se de uma criatura vulgar, comuníssima, que lhe não merecia ódio, com a qual não valia a pena perder um pensamento.

Voltaria para a cidade... não, iria São Paulo, fixar-se-ia aí de vez compraria um terreno grande em um bairro aristocrático, na Rua Alegre, em Santa Efigênia, no Chá, construiria um palacete elegante, gracioso, rendilhado, à oriental, que sobressaísse, que levasse de vencida esses barracões de tijolos, esses monstrengos impossíveis que por aí avultam, chatos, extravagantes, à fazendeira, à cosmopolita, sem higiene, sem arquitetura, sem gosto. Fá-lo-ia sob a direção de Ramos de Azevedo, tomaria para decoradores e ornamentistas Aurélio de Figueiredo e Almeida Júnior. Trastejá-lo-ia de jacarandá preto, encerado, com esculpidos foscos. Faria comprar nas ventes de Paris, por agentes entendidos, secretárias, mesinhas de legítimo Boule. Teria couros lavrados de Córdova, tapetes da Pérsia e dos Gobelins, fukusas do Japão. Sobre os consolos, sobre os dunquerques, em vitrinas; em armários de pau ferro rendilhado, em étageres, pelas paredes, por toda a parte semearia porcelanas profusamente, prodigamente - as da China com o seu branco leitoso, de creme, com as suas cores alegres suavissimamente vívidas, as do Japão, rubro e ouro, magníficas, provocadoras, luxuosas, fascinantes; os grés de Satzuma, artísticos, trabalhos árabes pelo estilo, europeus quase pela correção do desenho. Procuraria vasos, pratos da pasta tenra de Sévres, ornamentados por Bouchet, por Armand, por Chavaux pai, pelos dois Sioux; contrapor-lhes-ia as porcelanas da fábrica real de Berlim e da imperial de Viena, azuis de rei aquelas, estas cor de sangue tirante a ferrugem; enriquecer-se-ia de figurinhas de Saxe, ideais, finamente acabadas, deliciosíssimas. Apascentaria os olhos na pátina untuosa dos bronzes do Japão, nas formas tão verdadeiras, tão humanas da estatuária grega, matematicamente reduzida em bronze por Colas e Barbedienne. Possuiria mármores de Falconet, terracotas de Clodion, netskés, velhíssimos, rendilhados, microscópicos, prodigiosos. Mirar-se-ia em espelhos de Veneza, guardaria perfumes em frasquinhos facetados de cristal da Boêmia. Pejaria os escrínios, as vide-poches de jóias antigas, de crisólitas e brilhantes engastados em prata, de velhos relicários de ouro do Porto.

Teria cavalos de preço, iria à Ponte Grande, à Penha à Vila Mariana em um huit-ressorts parisiense sem rival, tirado por urcos pur-sang, enormes, calorosos, de cor escura, de pêlo muito fino.

Far-se-ia notar pelas toilettes elegantíssimas, arriscadas, escandalosas mesmo.

Viajaria pela Europa toda, passaria um verão em São Petersburgo, um inverno em Nizza subiria ao Jungfrau, jogaria em Monte Carlo.

Havia de voltar, de oferecer banquetes; havia de chocar paladares, habituados ao picadinho e ao lombo de porco, dando-lhes arenques fumados, caviar, perdizes faisandées, calhandras assadas com os intestinos, todos os mil inventos dos finos gastrônomos do velho mundo: seus convivas haviam de beber Johannisberg, Tokai, Constança, Lácrima Christi, Chatêau Iquem, tudo quanto fosse vinho caro, tudo quanto fosse vinho esquisito.

Teria amantes, por que não?

Que lhe importavam a ela as murmurações, os diz-que-diz-que da sociedade brasileira, hipócrita, maldizente. Era moça, sensual, rica - gozava. Escandalizavam-se, pois que se escandalizassem.

Depois, quando ficasse velha, quando se quisesse aburguesar, viver como toda a gente, casar-se-ia.

Era tão fácil, tinha dinheiro, não lhe haviam de faltar titulares, homens formados que se submetessem ao jugo uxório que lhe aprouvesse a ela impor-lhes. Era pedir por boca, era só escolher.