A Chimarrita

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A Chimarrita
Composição de tradição popular coletada por João Simões Lopes Neto
Poema agrupado posteriormente e publicado em Cancioneiro Guasca .


Vou cantar a Chimarrita
Que hoje ainda não cantei;
Deus lhes dê as boas noites,
Que hoje ainda não lhes dei.

Vou cantar a Chimarrita
Que uma moça me pediu;
Não quero que a moça diga:
Ingrato! Não me serviu.

A Chimarrita que eu canto,
Veio de cima da Serra,
Rolando de galho em galho
Até chegar nesta terra!

Chimarrita quando nova,
Uma noite me atentou...
Quando foi de madrugada
Deu de rédea e me deixou!

A Chimarrita é uma velha
Que mora no faxinal
Comendo a triste canjica
E grão de feijão sem sal.

Chimarrita é mulher pobre,
Já não tem nada de seu;
Só tem uma saia velha
Que a sogra lhe deu.

Chimarrita no seu tempo
Já muito potro domou:
Agora quer uma sotreta,
Nem um rodilhudo achou!

Chimarrita é altaneira,
Não quebra nunca o corincho:
Diz que tem trinta cavalos,
E não tem nem um capincho.

Chimarrita diz que tem
Dois cavalinhos lazões:
Mentira da Chimarrita,
Não tem nada, nem xergões!

Chimarrita diz que tem
Quatro cavalos oveiros:
Mentira da Chimarrita,
Só se são quatro fueiros!

Chimarrita diz que tem
Sete cavalos tostados:
Mentira da Chimarrita,
Nem perdidos, nem achados!

Chimarrita diz que tem
Dois zainos e um tordilho:
Mentira da Chimarrita,
Nem um cupim p'ro lombilho!

Chimarrita diz que tem
Três cavalos tobianos:
Mentira, tudo mentira
Nem garras, pingos, nem panos!
Tironeada da sorte
A Chimarrita rodou;
Logo veio a crua morte
E as garras lhe botou.

Chimarrita morreu ontem,
Ontem mesmo s'enterrou:
Quem chorar a Chimarrita
Leva o fim que ela levou.

Coitada da Chimarrita,
Vou rezar por ser cristão:
A pobre da Chimarrita
Viveu como um chimarrão!

Chimarrita morreu ontem,
Ontem mesmo s'enterrou:
Na cova da Chimarrita
Fui eu quem terra botou!

Chimarrita morreu ontem,
E ainda hoje tenho pena;
Do corpo da Chimarrita
Vai nascer um'açucena!

Chimarrita morreu ontem,
Mas p'ra sempre há de durar;
As penas da Chimarrita
Fazem a gente pensar...

Aragana e caborteira
A Chimarrita mentiu;
Não censure a dor alheia
Quem nunca dores sentiu!...

Quem sabe se a Chimarrita
Na alma criou cabelos...
Quem vê uma bagualada,
Vê mais vultos do que pêlos...

Quanta maldade se disse
Da Chimarrita, coitada!
A pedar grande faz sombra...
E a sombra não pesa nada!

Chimarrita generosa,
Oh! Chimarrita, perdoa!
Quem te chamava má,
Não era melhor pessoa!...

Aqui paro, na saída,
Do fim dessa narração,
A moça, se está contente,
Me dê o seu galardão!

Eu disse o que a bisavó
Da minha avó ensinou;
Se alguém sabe mais que eu,
Já não 'stá'qui quem falou!

Chimarrita morreu ontem,
Inda hoje tenho dó;
Na cova da Chimarrita,
Nasceu um pé de cidró.

Chimarrita, mulher velha,
Quem te trouxe lá do Rio?
— Foi um velho marinheiro
Na proa de seu navio!

A Chimarrita no campo
Co'os bichos todos falou;
Na morte da Chimarrita
O bicharedo chorou.
O trevo de quatro folhas
Da Chimarrita é feitura:
Com ele se quebra a sina
Que o mal sobre nós apura.

— E outros muitos. —