A Condessa Vésper/VIII

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A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo VIII: Virginia


Fizeram-no entrar para uma sala de espera e conduziram-no depois para uma recepção, onde já o aguardava a mulher de Paulo.

— Gaspar! exclamou esta, atirando-se nos braços dele.

Gaspar estacou, pálido e trêmulo, sem poder articular palavra.

— Virgínia!... disse afinal o infeliz, com a voz estrangulada.

Era com efeito Virgínia, sua irmã mais moça, que se havia casado com Mostella. Gaspar não a via de muito tempo, mas reconheceu-a logo. Estava forte, bonita e com uma gravidez adiantada.

— Que boa surpresa! dizia a mulher de Paulo. Estalava de desejo por ver alguém de nossa família! Não admira, é a primeira vez que me separo dela... Acredita que choro de saudades todos os dias... Mas o que fazes que não te pões à vontade, seu ingratalhão? Larga o chapéu! entra para a varanda. Infelizmente Paulo saiu, mas não se pode demorar...

— Em que se ocupa o teu marido?

— Negocia em pedras finas. É bom negócio, mas que o obriga a viagens consecutivas. Agora temos de seguir para o Cabo.

— Tens sido feliz?

— Muito. Paulo é um excelente companheiro, ama-me tanto!

— Nosso pai comunicou-me o teu casamento, mas a carta em que vinha o nome de teu marido extraviou-se. Eu ainda não sabia como se chamava ele.

— Sempre o mesmo cabeça de vento! Mas que tens? Estás tão sobressalto? Sentes alguma cousa?...

— Nada! é porque há tanto tempo que não nos víamos!...

— Pois então toma lá um beijo e vê se com ele voltas a ti!

Gaspar passou à varanda, e ficou a conversar com Virgínia. Ela, coitada! estava radiante de prazer.

— Amas então muito teu marido!...

Loucamente. Não podes imaginar quanto somos felizes!...

Gaspar quedou-se a cismar, e a irmã repreendeu-o

— Então que é isso? Ficas agora triste! Tu dantes eras assim! Ainda nem sequer pediste noticias de papai!...

— Sentirias muito a morte de teu marido, Virgínia?...

Que pergunta, Gaspar!

— Mas dize; é uma fantasia esta pergunta.

— E esta?! Se Paulo morresse, eu morreria também, ou ficaria louca.

— Bom! É justamente como entendo o casamento. Quem me dera ter alguém que dissesse o mesmo a meu respeito..

— Se ainda não tens, virás a ter; mas parece-me que não cansaste da vidinha de solteiro!...

— Se cansei!...

— Ah! É Paulo que chega!

Ouviram-se com efeito passos no corredor.

Gaspar sentiu grande sobressalto, mas conteve-se.

Houve apresentação, abraços e oferecimentos mútuos. Paulo declarou simpatizar muito com o cunhado, cercou-o de obséquios; foi buscar curiosidades do Peru e alto Amazonas, e mostrou-as; ofereceu-lhe charutos e livros, e pediu-lhe que se hospedasse em sua casa enquanto estivesse em Pernambuco.

No hotel, dizia ele, comia-se mal e passava-se vida de boêmio.

— Ah! ele não nos deixa agora! a não ser que esteja resolvido a brigar deveras conosco! interveio Virgínia.

Gaspar desfazia-se em agradecimentos, pedindo que o dispensassem.

— Mas nós podemos lá consentir que mores sozinho nesta cidade, tendo tu aqui família? Se não aceitares o nosso convite, maço-me deveras! Olha: amanhã sai um paquete para o sul, e eu quero na carta de papai dizer que tu estás conosco...

— Pois bem, tudo se arranjará!

Gaspar chegou ao hotel às sete horas da noite. Estava abatido, pálido, com uma grande irresolução.

— Então? perguntou-lhe Violante.

— Está tudo perdido! disse ele, arrojando o chapéu; Paulo foi prevenido de teus projetos e acaba de pedir a proteção da polícia... Estamos vigiados! Se Paulo sofrer a menor violência, seremos presos imediatamente. O que devemos é abandonar Pernambuco quanto antes!...

Que me importa a polícia! Não sairei daqui sem ter consumado meu plano. Condenada? presa? executada? embora! mas hei de matá-lo! hei de primeiro satisfazer minha vingança!

— Isso é de um egoísmo revoltante! exclamou Gaspar, atirando-se sobre uma cadeira; e acrescentou depois de uma pausa: — E pensarás que eu consentiria em tal? Até aqui tratava-se apenas de dar cabo de um canalha, que havia zombado da mulher com quem eu tencionava casar. Muito bem! era perfeitamente razoável! Mas agora, trata-se nada menos do que me privarem da mulher que eu amo, da única que poderá fazer a minha felicidade! e eu, de forma alguma, consentirei em semelhante cousa! Ah! a questão é de egoísmo? eu também sou egoísta!

E mudando de tom: — Queres que te fale com franqueza? Principio a acreditar que só amas ao Paulo; que tudo isto foi um meio ardiloso para te aproximares dele; que nunca me amaste e nunca tencionaste pertencer-me!

— Duvidas de mim?! exclamou a oriental. Tens ânimo de supor que eu seria capaz de dizer a alguém que o amo, sem com efeito o amar? Pensarás que eu, por qualquer circunstância, negaria meu amor por aquele miserável, no caso que tivesse a desgraça de sentir esse amor? Já tinhas tempo de sobra para me conhecer melhor! Só a ti amo presentemente, bem o sabes; mas fica também sabendo que, coloco acima de tudo a minha vingança e o meu orgulho! Amo-te, é verdade, mas previno-te de que, se tens a intenção de desviar o meu punhal do coração de Paulo Mostella, podes partir quando entenderes, porque tudo o que fizeres será inútil! Só! embora só! hei de matá-lo.

— Ah! replicou Gaspar; sentes ódio demais por aquele desgraçado, para que não ames! O coração da mulher é lâmina de dois gumes: — como Paulo se incompatibilizou para os teus beijos, queres acariciá-lo com o teu punhal! Mas aqui há um homem! proíbo que cometas o crime que premeditas, ou hás de primeiro consumá-lo em mim!

— E pensas que não seria capaz? Não te disse já que acima de tudo coloco a minha vingança?

Gaspar cravou-lhe os olhos, e os de Violante, sempre firmes, não se abaixaram. Compreendeu ele que, na alma daquela mulher, a idéia fixa da vingança estava encravada como um veio de pórfiro no granito. Era impossível extraí-lo, sem despedaçar a montanha. Voltou-se afinal para ela, tomou-lhe as mãos, falhou-lhe com ternura.

— É a tua e a minha desgraça, que vais fazer! disse ele. Habituei-me à esperança de possuir-te na dignidade do lar e da família, perder-te agora seria impossível. Como conciliar a tenebrosa idéia de um crime com a idéia doce e tranqüila da nossa felicidade!... Tens o paraíso a teus pés, risonho, calmo, azul, e queres ensangüenta-lo! Se fosse possível matar o culpado sem prejudicar a mais ninguém — vá. Mas não! para cometer esse crime, tens de fazer outras vítimas, que sofrerão muito mais do que ele, e que, no entanto, nunca te fizeram mal. Eu vi a mulher de Paulo... Está grávida! A morte do marido vai deixar uma viúva sem amparo e um inocentinho sem pai e sem pão... Tu também tens um filho, Violante, e já sabes, por experiência própria, quanto padece uma criança desamparada... Não roubes o pai àquele entezinho, que nenhuma culpa tem de tudo o que te sucedeu! Se conseguires matar Paulo, ele será de todas as tuas vítimas a menos castigada. Não compreendes que a morte daquele miserável acarretará outras consigo? não sabes que a pobre velha, que vê nele toda a sua esperança e toda a sua felicidade, tombará também, quando o teu punhal arrancar a vida do seu querido filho? E não te lembras que essa pobre velha, se te merece algum ódio, é simplesmente porque foi tua mestra, porque te traduziu na infância e te iluminou a inteligência? Não te dói a idéia de que vais encher de fel os últimos dias daquela que encheu os teus primeiros anos de amor e desvelos? Não te parece mau que a mesma que substituiu tua mãe encontre a sepultura suja de sangue derramado por ti? E, além de tudo isso, minha querida Violante, não te acusa a consciência de pertencer-te grande parte da culpa de que criminas tanta gente!... Não conhecias já porventura o caráter de Paulo, desde o tempo de colégio? não lhe tinhas adivinhado as intenções? não o castigaste um dia com uma bofetada? Para que então te deixaste seduzir por ele?! Tu, que és tão perspicaz e tão inteligente, não percebeste logo que o homem que faz de uma mulher a sua amante, não tencionava fazer dela jamais a sua esposa? não percebeste um amor inaugurado entre meia dúzia de gargalhadas e outras tantas taças de champanha, só pode acabar como acabou o teu, e não na responsabilidade fria e digna do matrimônio!... Não sabias por acaso que todo homem tem na vida certa época de loucura, pela qual não podemos responsabilizar o seu caráter, nem as suas intenções?...

Tu eras bela, livre venturosa, romanesca; ele, moço extravagante e sedutor. Viu-te, falou-te em amor, estremeceu em pensar nos teus beijos... talvez até mesmo resolvesse casar contigo. Mas tu lhe deste liberdade, lhe aceleraste os desejos, lhe fustigaste o arrojo, lhe proporcionaste ocasiões. Ele nada mais fez do que aproveitar-se de tudo isso. A verdadeira culpada foste tu!... pelo menos, grande parte da responsabilidade deves atirar para o teu temperamento, para o teu sangue, para a tua fraqueza! Para que sucumbiste?! Acaso não tomaram alguma parte nisso os reclamos da tua carne e as alucinações do teu espírito?! Ele excitou-te com os mistérios voluptuosos de um passeio ao campo, longe do teu meio social, por entre a sombra balsâmica das árvores, ao rumorejar das folhas, ao arrular das aves, ao sussurrar de uma cascata; estimulou-te com um almoço de boêmia, cheio de malícia, cheio de riso e cheio de amor! Tu bebeste, fumaste, sonhaste, riste, e afinal... amaste. Para isso tudo contribuiu — o céu o ar, os murmúrios da natureza, as espumas do champanha, os perfumes do cigarro, a riqueza do teu sangue e a diabrura dos vinte anos. Queres agora criminá-lo exclusivamente! Não! Seria uma injustiça!

Violante ergueu-se, sacudiu com o pé a cauda do vestido, e disse com toda a calma:

— Contudo, hei de matá-lo!

— Tu o amas, desgraçada! exclamou Gaspar encolerizado.

Violante não deu resposta, recolheu-se à sua alcova, fechando a porta com violência.

Gaspar atirou-se a uma poltrona e segurou a cabeça com as duas mãos.

— Dá licença!... disse da porta uma voz. Era de Paulo Mostella.