A Dama do Pé-de-Cabra/II/VII

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A Dama do Pé-de-Cabra por Alexandre Herculano
Trova Segunda, Capítulo 7


Longe do condado do ilustre barão Argimiro o Negro, para as bandas de Galiza, vivia um nobre gardingo — como quem dissesse infanção — gentil-homem e mancebo chamado Astrigildo Alvo.

Contava vinte e cinco anos; os sonhos das suas noites eram de formosas damas; eram de amores e deleites: mas, ao romper da manhã, todos eles se desfaziam, que, ao sair ao campo, não havia senão pastoras tostadas do sol e das neves e as servas grosseiras do seu solar.

Destas estava ele farto, Mais de cinco tinha enganado com palavras; mais de dez comprado com ouro; mais de outras dez, como nobre e senhor que era, brutamente violado.

Com vinte e cinco anos, já no livro da justiça divina se lhe haviam escrito mais de vinte e cinco maldades.

Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e vales com a rapidez do vento, montado em onagro silvestre, e que, depois de correr muito, chegava alta noite a um solar, onde pedia gasalhado. E que formosa dama o recebia, e que em poucos instantes um do outro se enamorava.

Acordou sobressaltado e, durante o dia inteiro, não pensou em outra coisa senão na formosa dama que vira naquele sonhar da madrugada.

Três noites se repetia o sonho: três dias o mancebo cismava. Encostado à varanda de um eirado, na tarde do terceiro dia, olhava triste para as montanhas do norte, que via lá no horizonte, como nuvens pardacentas. O sol começou a descer no poente, e ainda ele estava embebido no seu melancólico cismar.

Por acaso, volveu então os olhos para o terreiro que lhe ficava por baixo; um onagro da floresta estava aí deitado, como se fosse manso jumento; era inteiramente semelhante àquele com que havia sonhado.

Sonhos de três noites a fio não mentem: Astrigildo desceu à pressa ao terreiro. Sem bulir pé nem mão, o onagro deixou-se enfrear e selar; e, a Deus e à ventura, o mancebo cavalgou nele e deitou pela encosta abaixo.

Cumpria-se tudo à risca: o onagro não corria, voava. Mas o céu começou de toldar-se com o anoitecer: a escuridão cresceu e desfechou em vento, trovões, chuva e raios. O mancebo perdia a tramontana, e o onagro dobrava a carreira e bufava violentamente. Parou, enfim, a horas mortas. Sem saber como, Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastelado.

Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trêmulo, porque ele tremia de susto e de frio. Apenas cessou de tocar, a ponte levadiça desceu, muitos escudeiros saíram a recebê-lo entre tochas, e as salas dos paços iluminaram-se.

Era que também a condessa tinha por três noites sonhado!