A Dama do Pé-de-Cabra/III/IV

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A Dama do Pé-de-Cabra por Alexandre Herculano
Trova Terceira, Capítulo 4


Posto que em paz com os cristãos, os mouros de Toledo têm pelas torres, cubelos e adarves seus atalaias e vigias, e nos montes que dizem para a fronteira de Leão seus fachos e almenaras.

Mas se o rei leonês soubesse como descuidosa jaz Toledo; como, ao anoitecer, se deixam dormir vigias, se deixam de acender fachos, quebraria seus juramentos, e faria contra aquelas partes um repentino fossado.

Salvo ter de ir depois ao seu confessor dizer confiteor Deo, e peceavi; porque o quebrar o juramento, ainda que seja a cães descridos, dizem ser feio pecado.

Era a hora do lusco-fusco: ao sol posto os de Toledo, mirando para a banda do Norte, viram, lá muito ao longe, vir correndo uma nuvem negra, ondeando e fazendo voltas no céu, como a estrada as fazia na terra por entre os montes: dir-se-ia que vinha embriagada.

Era primeiro um pontinho; depois crescera e crescera: quando anoiteceu, estava já perto e cobria um grande espaço.

O almuadem, subindo à torre da mesquita, chamava os crentes de Mafamede para a oração da tarde.

Mas com a sua voz esganiçada misturou-se o estrondear dos trovões: era como um tiple e um baixo.

E passou um tufão de vento, que, embrenhando-se e remoinhando nas barbas longas e brancas do almuadem, lhe fustigou com elas a cara.

Começou então a cair uma corda de chuva, que nem moços nem velhos se lembravam de ter visto coisa semelhante em nenhuma parte.

Aqui veríeis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres; os roldas e sobre-roldas a fugirem pelos adarves; os facheiros a sumirem-se debaixo das almenaras; os hajibes a acolherem-se às mesquitas molhados até os ossos; as velhas, que tinham saído ao vozear do almuadem, levadas pelas torrentes das ruas tortuosas e estreitas, bradando por Mafoma e por Allah. E a água caindo cada vez mais!

Dois únicos movimentos fazem então os moradores de Toledo: uns fogem, outros agacham-se. E a água caindo cada vez mais!

O pavor quebra todos os ânimos: os cacizes esconjuram a procela: os faquires penitentes gritam que se acaba o mundo, e que lhes deixe os seus haveres aquele que quiser salvar-se. E a água caindo cada vez mais!

A salvação de Toledo foi não se terem fechado suas portas: se assim não sucedesse, dentro do recinto dos muros morria toda a mourisma afogada.

Na prisão estava D. Diogo encostado às grades de ferro. O pobre velho entretinha-se a ouvir aquele medonho chover; porque a noite era comprida, e ele não tinha que fazer mais nada.

Mas, como o terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de muros, a chuva não podia escoar-se toda, e vinha crescendo de modo que já elo sentia os pés molhados.

E também começou a ter medo de morrer, apesar da sua miséria. Bem sabia D. Diogo que a morte é a maior delas todas; que não era o senhor de Biscaia ateu, filósofo, nem parvo.

Mas lá divisa um vulto alvacento que salvou por cima do palanque, e sente ao mesmo tempo no meio do terreiro — plash! —

E ouviu uma voz que dizia — "Nobre senhor D. Diogo, onde é que vós vos achais?" —

—"Que vejo e ouço ! — exclamou o velho. — Um trajo que não alveja não é trajo d'ismaelita; uma voz que não fala algaravia não é d'infiel; um salto de tal altura não é de cavaleiro do mundo. Por vossa fé dizei-me, sois anjo ou sois Santiago."

"Meu pai, meu pai! acudiu o cavaleiro — já não conheceis a fala de Inigo? Sou eu, que venho salvar-vos."

E D. migo descavalgou e, travando das grossas reixas, tentava aluí-las: a água dava-lhe já pelos artelhos, e ele não fazia nada.

Cheio de aflição, o mancebo quis invocar o nome de Jesus; mas lembrou-se de como ali viera, e o bento nome expirou-lhe nos lábios.

Todavia, Pardalo pareceu adivinhar o seu íntimo pensamento; porque soltou um gemido agudo e pronto, como se lhe houvessem tocado com um ferro em brasa.

E, empurrando com a cabeça D. Inigo, voltou a anca para a grade.

Pau! — foi o som que se ouviu. Com um só couce a reixa estava no chão, e as ombreiras de pedra tinham voado em mil rachas. Quer mo creiam, quer não, di-lo a história: eu com isto não perco nem ganho.

D. Diogo, esse ficou-o crendo: porque uma lasca de pedra bateu-lhe nos dois últimos dentes que tinha e meteu-lhos pela goela abaixo. Por isso, ele, com a dor, não podia dizer palavra.

Seu filho fê-lo cavalgar ante si, e, cavalgando após ele, bradou: — "Meu pai, estais salvo!"

E Pardalo de um pulo galgou de novo o palanque. Pois tinha bons quinze palmos!

Pela manhã não havia sinal de chuva; o ar estava limpo e sereno, e quando os mouros foram ver o que sucedera a D. Diogo Lopes, não lhe acharam sequer o rasto.