A Dama do Pé-de-Cabra/III/V

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A Dama do Pé-de-Cabra por Alexandre Herculano
Trova Terceira, Capítulo 5


D. Inigo e seu pai, o velho senhor de Biscala, passam as portas de Toledo com a rapidez da frecha: num abrir e fechar d'olhos ficam-lhes para trás muros, torres, barbacãs e atalaias. A bátega vai diminuindo: rasgam-se as nuvens, e vêem-se já reluzir algumas estrelas, que parecem outros tantos olhos com que o céu espreita através do negrume o que se passa cá em baixo.

A estrada, pelas descidas e subidas dos recostos, converteu-se em leito de torrente, nos plainos converteu-se em lago.

Mas, quer pelos lagos, quer pelas torrentes, o valente onagro rompia avante, bufando como um danado.

Não subiram bem um monte, já descem pelo outro recosto abaixo; ainda bem não chegaram a uma clareira, já sentem em profunda floresta gotejarem-lhes em cima os ramos agitados das árvores.

Pouco mais é de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam o chão estrelado do céu já limpo, semelhantes aos dentes de uma serra gigante capaz de dividir cérceo o hemisfério austral do hemisfério boreal.

E Pardalo investe, sempre em galope desfeito, com as montanhas disformes, e desce aos vales temerosos, e, cada vez mais ligeiro, como o seu nome o indica, parece menos quadrúpede que pássaro.

Mas que ruído é esse que sobreleva o do vento? Que é isso que, lá ao longe, ora alveja, ora reluz nas trevas, como uma alcateia de lobos envoltos em sudários brancos, com os olhos só descobertos, e despregando em fio pelo fundo do vale abaixo?

É um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as escamas angulosas de seu dorso eriçado, onde batem e chispam os raios das estrelas em mil reflexos quebrados.

Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio. — "Será um marco, uma estátua? — pensaram os cavaleiros. Pinheiro não pode ser; não consta que em pontes nasçam."

Pardalo ria-se de rios; pontes, fazia tanto cabedal delas como de um retraço de palha. Todavia, bem que pudesse de um pulo saltar vinte ribeiras como aquela, foi-se direito à ponte; porque não era animal que fizesse áfricas escusadas.

Semelhante a relâmpago, se arrojou o onagro àquele passo estreito... Mas, tá.... Ei-lo que de repente pára.

E tremia como varas verdes, e arquejava com violência: os dois cavaleiros olharam.

O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte: por isso Pardalo emperrava.

Então, dentre uns altos choupos, que da margem dalém se meneavam, um pouco mais abaixo daquele sítio, ouviu-se uma voz fadigosa e trêmula que cantava:

Para trás, para trás, a galgar.
Já!
De redor, de redor, vem passar
Cá!
Que não há nada aqui que te empeça.
Bus,
Nem palavra, vós dois! Fugi dessa
Cruz!

"Santo Nome de Cristo!" — exclamou D. Diogo, benzendo-se ao escutar aquela voz que bem conhecia, mas que, depois de tantos anos, não esperava ali ouvir, porque seu filho não lhe dissera que meio achara para o salvar.

Apenas o grito do velho soou, assim ele como D. Inigo foram bater contra o poial do cruzeiro, onde ficaram de bruços, envoltos em lodo. O onagro, ao sacudi-los de si, soltara um rugido de besta-fera. Sentiram então um cheiro intolerável de enxofre e de carvão de pedra inglês, que logo se percebia ser coisa de Satanás.

E ouviram como um trovão subterrâneo; e a ponte balouçava, como se as entranhas da terra se despedaçassem.

Apesar do seu grande terror, e de chamar pela Virgem Santíssima, D. Inigo abriu um cantinho do olho para ver o que se passava.

Nós os homens costumamos dizer que as mulheres são curiosas. Nós é que o somos. Mentimos como uns desalmados.

Que veria o cavaleiro? Um fojo aberto, bem próximo deles sobre a ponte, e que depois rompia pela água.

E depois pelo leito do rio; e depois pela terra dentro, dentro; e depois pelo tecto do inferno, que outra coisa. não podia ser um fogo muito vermelho que reverberava daquela profundidade.

Tanto era assim, que ainda lá viu passar de relance um demônio com um desconforme espeto nas mãos em que levava um judeu empalado.

E Pardalo descia remoinhando por esse boqueirão, como uma pena caindo em dia sereno do alto de uma torre abaixo.

Aquela vista fez perder os sentidos a D. Inigo, que, indo também a chamar por Jesus, achou que não podia proferir este nome sagrado.

De terror, tanto o velho como o moço ficaram ali em desmaio.

Quando tornaram a si, com o romper do sol claro, conheceram o sítio em que se achavam. Era a ponte próxima à aldeia de Nustúrio, no alto da qual campeava o castelo construído por D. From, o saxónio, avoengo de D. Diogo Lopes e primeiro senhor de Biscaia.

Nenhum vestígio restava do que ali se passara; os dois, moídos e cheios de lodo e pisaduras, foram-se arrastando como puderam até encontrar alguns vilãos, a quem se deram a conhecer, e que os levaram a casa.

Festas que em Nustúrio se fizeram por sua vinda, coisa é que vos não direi; porque não tarda a hora de cear, rezar e deitar.