A Divina Comédia/Inferno/XI

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Canto XII


Os Poetas chegam à beira do sétimo círculo. Sufocados pelo mau cheiro que se levanta daquele báratro, param atrás do sepulcro do papa Anastácio. Virgílio explica a Dante a configuração dos círculos infernais. O primeiro, que é o sétimo, é o círculo dos violentos. Como a violência pode dar-se contra o próximo, contra si próprio e contra Deus, o círculo é dividido em três compartimentos, cada um dos quais contém uma espécie de violentos. O segundo círculo, que é o oitavo, é o dos fraudulentos e se compõe de dez círculos concêntricos. O terceiro, que é o nono, se divide em quatro compartimentos concêntricos. Fala-lhe também acerca dos incontinentes e dos usurários. Movem-se depois para o lugar de onde se desce para o precipício.

À BORDA de alta riba assim chegamos,
Que em círc’lo rotas penhas conformavam:
De lá mais crus tormentos divisamos.

Do fundo abismo exalações brotavam,
Tão acres, que a fugir nos obrigaram
Para trás das muralhas elevadas

De um sepulcro, em que os olhos decifraram:
“Sou do papa Anastácio a sepultura,
Que de Fotino os erros transviaram”.[1]

“Lentamente desçamos desta altura:
Assim, o olfato ao mau odor afeito,
Não hemos de sentir-lhe a ação impura”.

A Virgílio tornei: “Proceda a jeito,
Ó Mestre, por que o tempo consumido
Na demora, não corra sem proveito”. —

— “Já stava o meio, ó filho, apercebido.
Nestas penhas três círc’los há menores,
Por degraus, como os outros, que hás descido.

“Plenos stão de malditos pecadores.
Por que, em vendo, os conheças logo, atende:
Direi seus crimes e da pena as dores.

“Todo mal, que no céu cólera acende,
Injustiça há por fim, que o dano alheio,
Usando fraude ou violência, tende.

“Próprio do homem por ser da fraude o meio
Mais descontenta a Deus; mores tormentos
Em lugar sofre de aflições mais cheio.

“Dos círc’los o primeiro é dos violentos;
Mas, força a três pessoas se fazendo,
Foi construído em três repartimentos.

“A Deus, a si, ao próximo ofendendo,
Nas pessoas, nos bens a força fere,
Como hás de convencer-te, me entendendo.

“Morte ou dor força ao próximo confere.
Com ruína, com fogo os bens lhe invade.
Quando pela extorsão não se apodere.

“Homicidas, os que usam feridade,
Ladrões, desvastadores, torturados
Stão no primeiro, em turmas, sem piedade.

“Homens há contra si cruéis, irados
Ou contra os próprios bens: pois no segundo
Recinto jazem sempre amargurados,

“Quem se privara do terreno mundo,
Os que seus cabedais malbarataram,
Quem chora onde pudera estar jucundo.

“Contra Deus violências homens preparam,
Se o negam, se o blasfemam, desdenhando
Natura e os dons, que nela se deparam.

“No recinto menor sinal nefando
Caors marca igualmente com Sodoma,
E os que pecaram contra Deus falando.

“A fraude em que o remorso tanto assoma,
Ou trai a confiança ou premedita
Danos a quem desprevenido toma.

“A fraude desta espécie se exercita
Contra os laços de amor, que faz natura:
Portanto no segundo círc’lo habita

“Adulação com simonia impura,
Hipócritas, falsários, feiticeiros,
Rufiães e outros dessa laia escura.

“Transtorna a outra afetos verdadeiros,
Que inspira a natureza e os que origina
A mútua fé nos ânimos inteiros.

“E, pois, no círc’lo extremo, que domina
Da terra o centro e onde Dite pesa,
Eterna pena aos tredos se destina”. —

“Tem, Mestre” — eu disse — “o cunho da clareza
O que expões, distinguindo exatamente
A geena do inferno e a gente presa.

“Diz-me: os que jazem na lagoa ingente,
Os que flagela o vento ou chuva imiga,
Os que se encontram em frêmito insolente,

“Por que Deus lá em Dite os não castiga,
Se a ira a Deus seus feitos acenderam?
Se não, por que a aflição tanto os fustiga?” —

“Deliras? Da tua mente se varreram
Princípios sãos” — tornou — “a que és afeito?
A que rumo as idéias se volveram?

“Olvidas, porventura, esse preceito,
De que houveste na Ética a ciência,[2]
Das três disposições, que em mau conceito

“Estão do céu, — malícia, incontinência
E furor bestial? — como a segunda
Importa a Deus menor irreverência?

“Se atentas em verdade tão profunda,
Se lembras quais são esses que padecem
Acima da mansão, que o fogo inunda,

“Verás então ser justo não sofressem
Daqueles maus a par, menos pesada
Punição culpas suas merecessem”. —

“Sol, que me aclara a vista perturbada,
Às lições tuas dou tamanho apreço,
Que o duvidar, como o saber, me agrada.

“Tornando ao que disseste, expliques peço,
Por que motivo, Mestre, usura ofende
A divina bondade em tanto excesso”. —

“Filosofia” — disse — “quem a atende
Tem demonstrado, quase em toda parte,
Que a natureza a sua origem prende

“Do divino intelecto e da sua arte.
Da Física em princípio hás conhecido
Preceito, que hei mister recomendar-te:

Que é da vossa arte ir sempre que há podido
Após natura — à mestra obediente; —
Neta de Deus chamá-la é permitido.

“Da natureza e da arte, se tua mente
O Gênese em começo lembra, colhe
O seu sustento e haver a humana gente.

“Usura bem diversa estrada escolhe
Natura e a aluna sua menospreza,
Esperança e cuidado e mal recolhe.

Mas andemos; prossiga a nossa empresa.
Vão no horizonte os Peixes assomando;
Voltando sobre o coro o culto pesa

E, além, a rocha está passagem dando”. —

Notas[editar]

  1. Anastácio, engano de pessoa em que cai Dante, em conformidade com as crônicas do seu tempo. Não foi o papa Anastácio II, mas o imperador grego Anastácio I que foi transviado pela heresia de Fotino. [N. T.]
  2. Ética, a Ética de Aristóteles. [N. T.]