A Divina Comédia/Inferno/XIII

Wikisource, a biblioteca livre
Ir para: navegação, pesquisa
A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Canto XIII


Os dois Poetas entram no segundo compartimento, onde são punidos os violentos contra si mesmos e os dilapidadores dos próprios bens. Os primeiros são transformados em árvores, cujas negras folhas as Hárpias dilaceram; os outros são perseguidos por cães famintos que os despedaçam. Dante encontra Pedro des Vignes, de quem ouve os motivos pelos quais se suicidou e as leis divinas em relação aos suicidas. Vê depois o senense Lano e o paduano Jacob de Sant’Andréa. Ouve, enfim, de um suicida florentino, qual é a causa dos males da sua pátria.

NÃO stava ainda Nesso do outro lado,
Quando nós por um bosque penetramos,
Dos vestígios de passos não marcado.

Não fronde verde, mas escura, ramos
Não lisos, mas travados e nodosos,
Não pomos, puas com veneno achamos.

Por silvados mais densos, mais umbrosos,
Do Cecina a Corneto, a besta brava,
Não foge, agros deixando deleitosos.

Das Hárpias o bando aqui pousava.
Que expeliram de Strófade os Troianos,
Vaticinando o mal, que os aguardava.

Asas têm largas, colo e rosto humanos,
Garras nos pés, plumoso e ventre enorme,
Soam na selva os uivos seus insanos.

E disse o Mestre: “Convém já te informe
Que o recinto segundo vais entrando,
Onde verás spetáculo disforme,

“Até que ao areal chegues infando.
Atenta! E darás fé à narrativa,
Que fiz, ainda lá no mundo estando”.

Em toda parte ouvi grita aflitiva:
Como não via quem assim gemesse,
Parei e a torvação se fez mais viva.

Creio que o Mestre cria então que eu cresse
Que esses lamentos enviava aos ares
Uma turba, que aos olhos se escondesse;

Pois disse-me: “De um tronco se quebrares
Um só raminho, ficarás ciente
Desse erro em que se enleiam teus pensares”. —

O braço estendo então e prontamente
Vergôntea quebro. O tronco, assim ferido
“Por que razão me arrancas?” diz fremente.

De sangue negro o ramo já tingido,
“Por que me rompes?” — prosseguiu gemendo —
Assomos de piedade nunca hás tido?” —

“Fui homem, hoje o lenho, que estás vendo!
Mais compassiva a tua mão seria
Se alma aqui fosse de um dragão tremendo”.

Como acha verde, quando se incendia
Num extremo s’estorce, no outro estala,
Chiando e a umidade fora envia:

Daquela arvora assim brotava a fala,
E o sangue; a minha mão já desprendera
O ramo, e, entanto, o horror no peito cala.

“Se de antes ele acreditar pudera”
Lhe torna o sábio Mestre “alma agravada,
O que eu nos versos meus lhe descrevera,

“Por te ferir sua mão não fora alçada.
Não crera eu mesmo, e tanto que o induzira
Ao feito, que me pesa e desagrada.

“Diz-lhe quem foste e as dúvidas lhe tira.
O mal te compensando, a fama tua
Há de avivar no mundo, a que retira”. —

E o tronco: “Alívio tanto à dor, que atua,
Causais, que de bom grado eu já explico:
57 Ao triste dai que a mágoa exprima sua.

Fui quem do coração de Frederico[1]
As chaves tive e usei com tanto jeito,
Fechando e desfechando que era rico

“Da fé com que a mim só rendeu seu peito
No glorioso cargo fui constante,
Força, alento exauri por seu proveito.

“A torpe meretriz, que, a todo instante
Ao régio paço olhos venais volvendo,
Morte comum, das cortes mal flagrante,

“Contra mim ódio em todos acendendo,
Por eles acendeu iras de Augusto,
Que honras ledas tornou-me em luto horrendo.

“Ressentindo-me então do mundo injusto,
Por fugir seus desdéns, buscando a morte,
Comigo iníquo fui eu, que era justo.

“Pelo tronco em que peno desta sorte,
Que jamais infiel hei sido, juro,
Ao Rei meu, que houve a glória por seu norte,

“De vós o que voltar à luz adjuro
Que a memória me salve ao nome honrado,
Que vulnerou da inveja o golpe duro”. —

O vate inda esperou. — “Pois se há calado”. —
Disse-me “fala, se tu mais desejas
E pede-lhe: do tempo és apressado”. —

Tornei: “Tu mesmo inquires quanto vejas
Mais convir-me; que eu sinto-me inibido
Por mágoas, que em minha alma são sobejas”.

Ele então: “— Se o desejo teu cumprido
For por este homem, nobremente usando,
Te apraza, encarcerada alma, ao pedido

“Nosso atender, e como nos mostrando
Se liga ao tronco o esp’rito e se é factível
Soltar-se um dia, o vínculo quebrando”. —

Soprou de rijo o lenho; e perceptível
Aquele som desta arte nos dizia:
— “Resposta breve dou quanto é possível.

“Quando os laços do corpo uma alma ímpia
Destrói por si, do seu furor no enleio
Ao círc’lo sete Minos logo a envia.

“Na selva tomba e aonde acaso veio,
E como o seu destino lhe consente,
Aí, qual grão germina de centeio,

“Vai crescendo até ser árvore ingente:
As Hárpias, que a fronde lhe devoram,
Causam-lhe dor, que rompe em voz plangente.

“Hemos de ir onde os corpos nossos moram,
Como as outras, mas sem que os revistamos,
Mor pena aos que em perdê-los prestes foram.

“Arrastados serão por nós: aos ramos
Pendentes ficarão nesta floresta
Nos troncos, em que, assim, vedes, penamos”. —

Ouvíamos ainda a sombra mesta,
De mais dizer cuidando houvesse o intento.
Eis sentimos rumor, que nos molesta.

Assim monteiro, à caça pouco atento,
Do javardo e dos cães ouve o estrupido
E das ramadas o estalar violento.

Súbito vejo à esquerda, espavorido,
Fugindo esp’ritos dois nus, lacerados,
Ramos rompendo ao bosque denegrido.

“Ó morte!” um clama[2] — “acode aos desgraçados!”
O segundo[3], que tardo se julgava:
“Ninguém, ó Lano, os pés tanto apressados

“De Toppo nas refregas te observava!”
Porém, de todo já perdido o alento,
Numa sarça acolheu-se que ali stava.

Corria, enchendo a selva, em seguimento
De famintas cadelas negro bando,
Quais alões da cadeia ao todo isento

A sombra homiziada se enviando,
A fez pedaços a matilha brava,
E logo após levou-os ululando.

Então meu Guia pela mão me trava,
Conduz-me à sarça, que se em vão carpia
Pelas roturas, que o seu sangue lava.

“Ó Jacó Santo André!” triste dizia —
“Podia eu ser-te acaso amparo certo?
Em mim por crimes teus que culpa havia?” —

Disse-lhe o Mestre, quando foi mais perto:
“Quem és tu, que o teu sangue e mágoas exalas
Por golpes tantos, de que estás coberto?” —

Tornou-lhe: “Ó alma que dessa arte falas
E tu que o dano vês, que me separa,
Da fronde minha, agora amontoá-las

“Dignai-vos junto à rama, que as brotara.
Na cidade nasci que por Batista[4]
Deixou prisco patrão, que da arte amara

“Sempre pelos efeitos a contrista.
E se do Arno na ponte não restasse
Um vestígio, que traz seu culto à vista

“Talvez ela à existência não tornasse,
E quem das cinzas, que Átila há deixado,
Levantou-a os esforços malograsse.

“Na minha própria casa hei-me enforcado”. —

Notas[editar]

  1. Pedro des Vignes, secretário de Frederico II que se suicidou por ter sido acusado de trair o seu rei. [N. T.]
  2. Lano de Siena, que morreu em Pieve del Toppo, na batalha entre Senenses e Aretinos. [N. T.]
  3. Giacomo di S. Andrea, morto por Ezzelino de Romano. [N. T.]
  4. Florença, antes de tornar-se cidade protegida por S. João Batista, tinha como protetor Marte, do qual restava uma estátua sobre a ponte Vecchio. [N. T.]