A Divina Comédia/Inferno/XIX

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Canto XIX


No terceiro compartimento, onde os Poetas chegam, são punidos os simoníacos. Estão eles, de cabeça para dentro, metidos em furos feitos no fundo e nas encostas do compartimento. As plantas dos pés, que estão fora dos buracos, são queimadas por chamas. Dante quer saber quem era um danado que mais do que os outros agitava os pés. É o papa Nicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava à espera de ser rendido por outros papas simoníacos. O Poeta, indignado, rompe numa veemente invectiva contra a avareza e os escândalos dos papas romanos. Virgílio, depois, o leva novamente para a ponte.

Ó Simão Mago[1], ó míseros sequazes
Por quem de Deus os dons só prometidos
A virtude, em rapina contumazes,

Por ouro e prata estão prostituídos!
Por vós tange ora a tuba sonorosa:
Jazeis na tércia cava subvertidos.

À outra tumba chegamos temerosa,
Da rocha nos subindo àquela parte,
Que, a prumo ao centro, eleva-se alterosa.

Saber supremo! Que inefável arte
Mostras no céu, na terra e infernal mundo!
Oh! teu poder quão justo se reparte!

Por toda a cava, aos lados e no fundo
Furos na pedra lívida se abriam,
De igual largura e cada qual rotundo.

Semelhar na grandeza pareciam
Aos que em meu S. João[2] belo e esplendente
Para batismo ministrar serviam.

Quebrei um, não há muito, mas somente
Para infante salvar, que ali morria:
Fique a verdade a todos bem patente.

De cada um orifício eu sair via
Os pés, até das pernas a grossura,
De um pecador: o resto se sumia.

Stavam ardendo as plantas na tortura,
E tanto as juntas rijo se estorciam,
Que romperiam a prisão mais dura.

Do calcanhar aos dedos percorriam
As chamas, como a superfície inteira.
Em corpo de óleo ungido morderiam.

— “Quem padece” — disse eu — “por tal maneira,
Que mais que os sócios estorcer-se vejo
Em mais rúbida flama e mais ligeira?

— “Se ao fundo eu te levar, por teu desejo,
Por declive, que jaz mais inclinado,
De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te ensejo”. —

— “Aceito o que te praz, muito a meu grado:
Senhor do meu querer, és quem conhece
Quanto hei mister e a mente há reservado”. —

Passando à quarta borda, ali se desce
Para a esquerda voltando, até chegar-se
Lá onde tanto furo se oferece.

De mim não quis o Mestre aligeirar-se
Senão quando daquele, que gemia
Pelos pés, conseguiu apropinquar-se.

— “Tu, és assim voltada” — eu lhe dizia —
“Como estaca plantada, ó alma opressa,
Responder-me possível te seria?” —

Eu stava aí, qual monge, que confessa
Assassino, que em cova já fincado
O chama, pois, em tanto, a pena cessa.

— “Já tens” — gritou: já tens aqui chegado?
Já, Bonifácio[3], como tens descido?
Em anos muitos tenho a conta errado.

“Tão depressa desse ouro te hás enchido,
Pelo qual bela esposa atraiçoando,
A tens por tantos crimes afligido?”

Eu fiquei como quem, não penetrando
No sentido do que outro respondera,
Enleado e corrido fica olhando.

Mas Virgílio: — “Depressa lhe assevera:
Eu não sou, eu não sou quem tu cogitas” —
Respondi como o Vate prescrevera.

Ouvindo, as plantas estorceu malditas;
Depois a suspirar, com voz de pranto
— “Por que” — disse — “a falar assim me excitas?

“Se conhecer quem sou anelas tanto,
Que assim baixaste ao vale tenebroso,
De Papa sabe que hei vestido o manto.

“Filho de Ursa, deveras, cobiçoso
Em bolsa tudo pus por meus Ursinhos,
Lá ouro, aqui o esp’rito criminoso.

“Sob a cabeça minha estão vizinhos,
Em simonia os que me antecederam,
Sobrepondo-se um no outro esses mesquinhos.

“Hei de ao fundo descer, como desceram,
Logo em chegando aquele, que eu cuidara
Seres tu, quando as vozes me romperam.

“Mas, ardendo-me os pés se me depara
Intervalo mais longo, assim voltado,
Do que em tormento igual se lhe prepara.

“Virás de mores culpas outro inçado,
Pastor sem lei[4], das partes do ocidente
Que há de ser sobre nós depositado.

“Jasã[5] o novo será: condescendente
Teve o outro seu Rei, diz a Escritura,
Da França este o senhor terá potente”.

Não sei se ousado fui e se foi dura
A resposta, que dei ao condenado.
— “Tesouros exigira porventura

“Nosso Senhor de Pedro, ao seu cuidado
E zelo quando as chaves cometia?
— Segue-me — apenas lhe há recomendado.

“Dinheiro não tomaram de Matia
Pedro e os outros, por ser o preferido
Ao lugar, que o traidor perdido havia.

“Pena, pois: mereceste ser punido;
E guarda a que extorquiste, vil moeda
Que te fez contra Carlos atrevido.

“Não fora a referência, que me veda,
Das santas chaves, que empunhaste outrora,
No tempo, em que fruíste a vida leda,

“Voz mais severa eu levantava agora
Contra a avidez, que o mundo assaz contrista,
Que os bons oprime, o vício exalta e adora.

“A vós vos figurava o Evangelista[6],
Quando a que é sobre as águas assentada
Prostituir-se aos Reis foi dele vista:

“Nascera de cabeças sete ornada,
E o valor nos dez cornos possuía,
Enquanto ao esposo seu virtude agrada.

“De ouro a vossa cobiça um Deus fazia:
Por um dos que os gentios adoraram
Abrange cento a vossa idolatria.

“Constantino! Ah! que males derivaram,
Não do batismo teu, mas da riqueza
Que deste a um Papa e a quem outras se juntaram![7]

Sentindo destas notas a aspereza,
Ele tomado de remorso ou de ira,
Agitava os dois pés com mor braveza.

Virgílio, creio, com prazer me ouvira:
Aplaudir seu semblante revelava
Verdades que eu, sincero, proferira.

Jubiloso nos braços me levava,
E, depois que apertara-me ao seu peito,
Por onde descendera, se tornava.

Sempre cingido desse abraço estreito,
Do arco ao cimo transportou-me o Guia:
Caminho à quinta cava era direito.

Ali suavemente me descia
Em rochedo tão íngreme e empinado,
Que às cabras ínvio ser me parecia,

De lá foi-me outro val descortinado.

Notas[editar]

  1. Simão Mago queria comprar dos Apóstolos a virtude de chamar o Espírito Santo. O mercado das coisas sagradas é, por isso, chamado simonia. [N. T.]
  2. Pia na qual Dante foi batizado. [N. T.]
  3. Bonifácio VIII, que o danado (Nicolau III) pensa seja vindo para substituí-lo. [N. T.]
  4. Clemente V, ligado a Filipe, o Belo, rei de França e que mudou a sede do papado para Avinhão. [N. T.]
  5. Que comprou o sumo sacerdócio de Antíoco, rei da Síria. [N. T.]
  6. S. João. [N. T.]
  7. No tempo de Dante se acreditava que Constantino, ao mudar-se para Bizâncio, teria doado ao papa Roma e o domínio temporal. [N. T.]