A Divina Comédia/Inferno/XV

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Canto XV


Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza. Entre estes está Brunetto Latini, que reconhece o discípulo e lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Florença e das desventuras reservadas a Dante. Brunetto dá ao Poeta ligeiras notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge para reunir-se a elas.

POR uma dessas margens empedradas
Imos: vapor do rio resguardava
Das chamas o álveo e as bordas elevadas.

Como do mar temendo a força brava
De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem
Os diques, com que o mal se desagrava;

Ou como o dano atalha, que lhe trazem
Do Brenta as invasões de Pádua a gente,
Se em Quiarentana os gelos se desfazem,

Assim as bordas desse rio horrente,
Posto altura e grossura lhes não desse
Iguais, quem quer que fosse artista ingente.

A selva já distante de nós era
Tanto, que eu divisá-la não podia,
Quando os olhos por vê-la atrás volvera,

Eis encontramos multidão sombria,
Que a margem costeava, nos olhando,
Como sói caminhante, ao fim do dia,

Que vai, por lua nova, outro encarando:
Para nos ver os cílios contraindo,
Qual a agulha o artesano aparelhando.

Assim, de mira à turba nós servindo,
Conhecido fui de um que me travava
Da roupa — “Ó maravilha!” — repetindo.

Quando o seu braço para mim se alçava,
Atentei-lhe no rosto requeimado;
Posto que demudado, não vedava

Que de mim fosse nas feições lembrado.
À sua face inclinando a mão, lhe digo,
— “Messer Brunetto[1]! vós aqui!” — torvado.

“Filho meu! complacente sê comigo!
Vir Brunetto Latini ora consente,
Deixando a turba, um pouco assim contigo!” —

Tornei: — “muito vos rogo; e que me assente
Convosco se quereis, prazendo ao guia
Dos passos meus, assentirei contente”. —

— “Se um momento um de nós” — me respondia —
Aqui parasse, imóvel anos cento,
Pelo fogo ferido jazeria.

“Caminha: que eu te irei no seguimento.
Depois hei de juntar-me à companhia
Dos que pranteiam no eternal tormento”. —

Eu da estrada a descer não me atrevia
Por ir com ele; mas a fronte inclino
Reverente; e, falando prosseguia.

— “Que fortuna” — me disse — “ou que destino
Antes da morte aqui te há conduzido?
De quem recebes na jornada ensino?”

— “Antes de haver da idade o tempo enchido
Sobre a terra na vida sossegada;
Num vale” — respondi — “fiquei perdido.

“Ontem costas lhe dei por madrugada;
Ele acudiu-me, quando atrás voltava,
E me conduz assim por esta estrada”. —

— “Se bem vaticinei, quando gozava,
Da vida bela, glorioso porto
Te há de o teu astro conduzir” — tornava.

“Se antes do tempo eu não stivesse morto.
Vendo que tanto o céu te era benigno,
Te dera nos trabalhos o conforto.

“Mas esse ingrato povo é tão maligno,
Que outrora de Fiesole[2] viera
E tem de penha o coração ferino,

“Em ti, por seres bom, mal considera.
É justo: que entre acerbos sovereiros
Crescer doce figueira não se espera.

“Velha fama os diz cegos, sempre useiros
Na soberba, na inveja, na avareza.
Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.

“Te guarda a sorte de honras tal grandeza,
Que hás de ser dos partidos cobiçado;
Mas das garras lhes fica longe a presa.

“Ceve em si própria o fiesolano gado
Os instintos brutais; não toque a planta,
Que inda haja em tal nateiro germinado,

“E em que a semente ressuscite santa
Dos romanos, que ali restaram, quando
Teceu-se o ninho de malícia tanta”. —

— “Se o céu” — tornei — “meus votos escutando,
Deferisse, da vida o lume agora
Ainda aos olhos vos raiara brando;

“Que a doce imagem vossa inda memora
Saudosa a mente e o paternal desvelo
Com que me heis ensinado de hora em hora

“Como homem faz-se eternamente belo.
Enquanto eu vivo for, agradecido
Ao mundo bem patente hei de fazê-lo.

“O vaticínio vosso, reunido
A outro, há de explicar-me sábia Dama,
Quando à sua presença houver subido.

“E como a consciência me não clama,
Sabei que, quando a sorte avessa esteja,
A todo o mal sou prestes, que ela trama.

“O que ouvi não cuideis novo me seja:
Volva-se a roda como a sorte a lança,
Lavre a terra o vilão como deseja”. —

Então meu douto Mestre, que se avança,
Girando à destra e me encarando, disse:
“Bem compreende quem tem boa lembrança!” —

Não me vedou, porém, que eu prosseguisse
Na prática; e a Brunetto os mais famosos
Pedi que dos seus sócios referisse.

— “Alguns convém saber, mais numerosos
Em silêncio deixar louvável sendo:
Míngua o tempo aos discursos copiosos.

“Sabe, em suma, que clérigos havendo
Todos sido e letrados mui famosos.
Se mancharam num só pecado horrendo.

“Vão na turba daqueles desditosos
Acúrio e Prisciano[3]; alguns protervos
Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.

“Olha o que[4], como quis servo dos servos,
Pra Bacchiglione foi do Arno mudado
E ali deixou seus deformados nervos.

“Não mais dizer, nem ir posso ao teu lado,
Pois do areal já vejo de repente
Vapor novo surgir afogueado.

“Não devo andar com bando diferente.
O meu Tesouro eu muito te encomendo:
Nele inda vivo, e rogo isto somente”. —

Voltou-se; e foi tão rápido correndo,
Como os que correm pelo pálio verde
No campo de Verona, parecendo

Mais ser quem vence do que ser quem perde.

Notas[editar]

  1. Latino, autor do “Tesouro”, e mestre de Dante. [N. T.]
  2. Pequena cidade perto de Florença. [N. T.]
  3. Francesco d’Accursio, jurisconsulto bolonhês. Prisciano, gramático de Cesareia. [N. T.]
  4. Andrea de Mozzi, bispo de Florença e, depois, de Vicência. [N. T.]