A Divina Comédia/Inferno/XXVIII

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Inferno, Canto XXVIII


No nono compartimento os Poetas encontram os semeadores de cismas e escândalos civis e religiosos. Dante vê Maomé, que o encarrega de uma embaixada para o herege rei Dolcino; fala também com outros danados.

Dizer o sangue e as chagas espantosas,
Que eu vi neste lugar, quem poderia,
Em livre prosa e em vezes numerosas?

Nenhuma língua, certo, bastaria;
Fraca a palavra, inábil nossa mente
Para horror tanto compreender seria.

Quando junta estivesse toda gente,
Que lá da Apúlia na infelice terra,
Perdera o sangue seu na luta ingente

Dos romanos por mãos; e em crua guerra
A que tantos de anéis deixou vencida,
Como refere Lívio, que não erra;

E a que fora por golpes abatida,
Quando a Roberto Guiscardo resistia;
E a que tem sua ossada inda espargida

De Ceperan no campo, onde traía
Cada Apulhês; e que no Tagliacozzo
O Velho Alard sem combater vencia:

Das feridas o aspecto lastimoso
Não fora, qual no fosso nono imundo
Apresentava o bando criminoso.

Qual tonel, que aduelas perde ao fundo,
Estava um pecador, que roto eu via
Das fauces ao lugar que é menos mundo.

As entranhas pendiam-lhe; trazia
Patentes os pulmões e o saco feio,
Onde o alimento de feição varia.

A contemplá-lo estava de horror cheio,
Eis me encara e me diz, abrindo o peito:
“Vê como eu tenho lacerado o seio!

“Mafoma sou, quase pedaços feito;
Antecede-me Ali, que se lamenta:
Do mento à testa o rosto lhe é desfeito.

“Todos, que a dor aqui tanto atormenta,
De escândalos, de cismas inventores,
Pendidos têm, qual vês, pena cruenta.

“Demônio deixo atrás que os pecadores
Aos fios passa de cruel espada.
Da multidão nenhum aos seus furores

“No giro escapa da afrontosa estrada.
Cerrar-se em todo cada golpe horrendo
Antes que torne a olhar-lhe a face irada.

“Mas quem és, que, na rocha te detendo,
Estás dessa arte a dilatar a pena,
Que Minos te aplicou, teus crimes vendo?”

— “Não é morto; sentença o não condena” —
Torna o Mestre — “não vem por seu castigo,
Mas, para ter experiência plena.

“Descendo ao mais profundo vai comigo,
Que morto sou, dos círculos temidos:
Tão certo é como falo ora contigo”.

Ouvindo mais de cento dos punidos,
De espanto a me encarar se demoraram,
Dos seus próprios tormentos esquecidos.

— “A Frei Dolcino diz, pois não findaram
Teus dias e hás de ao sol tornar em breve,
Se desejos de ver-me o não tomaram,

“Que se aperceba; pois, cercando-o, a neve
Dará triunfo à gente de Novara,
A quem vencê-lo assim há de ser leve”.

Para partir um pé Mafoma alçara
Ao tempo, em que palavras tais dizia:
Baixou-o e foi-se, apenas rematara.

De guela golpeada outro acorria;
Té as celhas nariz tendo truncado,
Uma orelha somente possuía.

Como os mais, contemplando-me pasmado,
Aos mais se antecipou e, escancarando
O canal, que de sangue era inundado,

“Ó tu” — falou-me — “que não stás penando,
Que outrora hei visto em região latina,
Se eu não erro, aparências aceitando,

“Recorda-te de Pier de Medicina
Se tornar-te for dado ao belo plano,
Que de Vercello a Marcabó se inclina.

“E aos dois nobres varões dize de Fano,
Misser Angiolello e Misser Guido,
Se o futuro antevendo, eu não me engano,

“Que do baixel, que os haja conduzido,
De Católica ao pé, ao mar lançados
Serão por ordem de um tirano infido.

“Por Gregos, por piratas perpetrados,
Entre Chipre e Maiorca ao infame feito
Não viu Netuno crimes igualados.

“O traidor, que de um olho tem defeito,
Dessa terra opressor, que um companheiro
Meu tivera em não vê-la mor proveito,

“Irão a seu convite prazenteiro
Para acordo; mas votos de Foscara
Não fará por temer vento ponteiro”.

“Revela-me” tornei-lhe — “e me declara,
Desse favor, que deprecaste, em troca,
Quem de ver essa terra se pesara”.

As mãos de um pecador alçando à boca,
Escancarou-a e disse-me gritando:
— “É este; a voz, porém, se lhe sufoca.

“Exulado, ele foi quem, dissipando
Hesitações de César, lhe afirmava
Que a ocasião perdia demorando”.

Oh! quão pávido Cúrio se mostrava,
Tendo cortada a língua na garganta,
Que outrora tanta audácia aconselhava!

Dos decepados braços alevanta
Outro os cotos ao ar caliginoso:
Banha-lhe o sangue a face, que me espanta.

Gritou: — “Memora Mosca desditoso!
Fui quem disse: — O seu fim tem cousa feita!
Fatal dito, à Toscana, ai! bem danoso!”

“E à tua raça, que à morte foi sujeita!”
Atalhei. Sobre a dor, dor se acendendo
Em desesp?rança se partiu desfeita.

Aquela multidão stava atendendo,
Cousa assombrosa eis vejo, que inda hesito
Em narrar, provas outras eu não tendo.

Da consciência já me alenta o grito,
Sócia fiel, que o homem torna forte,
Sob o arnês da verdade, sempre invicto.

Eu via, e cuido ver na mesma sorte
Apropinquar-se um corpo sem cabeça,
Por entre os outros da infeliz coorte,

Caminha, alçando-a pela coma espessa,
Da mão pendente a modo de lanterna:
Gemendo, os olhos seus nos endereça.

Servia ele a si próprio de luzerna,
Eram duas em um, era um em duas:
Como ser pode, sabe o que governa.

Chegado ao pé da ponte, das mãos suas
Um ao alto a cabeça levantava
Para lhe ouvirmos as palavras cruas.

“Vê meu duro castigo!” — assim falava —
“Tu, que os mortos visitas, sendo em vida:
Outro já viste igual ao que me agrava?

“Eu sou — faz minha história conhecida,
Voltando à luz — Bertran de Born, que há dado
Ao jovem Rei consulta, em mal tecida.

“Pai e filho inimigos hei tornado:
As iras de Absalão mais não movera.
Contra Davi Aquitofel malvado.

“Laços tais como eu, pérfido, rompera,
Meu cérebro assim levo desunido
Desse princípio, que no corpo impera:

Por lei sou, pois, de talião punido”.