A Divina Comédia/Inferno/XXXI

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Inferno, Canto XXXI


Dando as costas ao oitavo círculo, caminham os Poetas para o centro, onde se abre o poço pelo qual se desce ao nono. Em torno do poço estão os gigantes rebeldes, cujas figuras horrendas Dante descreve. Um deles, Anteu, a pedido de Virgílio, toma nos braços os dois poetas e suavemente os depõe sobre a orla do último reduto internal.

A língua, que me havia vulnerado
E a vergonha nas faces me acendera,
O bálsamo aplicava ao mal causado:

Assim de Aquiles e seu pai fizera,
Dizem, outrora a lança portentosa:
Sarava o corpo, que cruel rompera.

Damos costas à estância desditosa,
Sem proferir palavra atravessando
Sobre a borda, que em torno jaz fragosa.

Noite não sendo e dia não reinando,
Pouco distante eu divisar podia,
Eis som de trompa escuto, retumbando

Tão alto, que o trovão transcenderia,
Donde irrompera contra a parte andava
E sôfrego a um só ponto olhos prendia.

A de Orlando tão forte não soava
Na derrota fatal, que a santa empresa
De Carlos Magno o desbarato dava.

Já assim por diante: eis a grandeza
De muitas e altas torres me aparece.
“Qual é” — digo — “essa vasta fortaleza?”

“Pois de tão longe e em trevas te apetece
Julgar” — Virgílio diz — “um erro agora
Imaginando estejas acontece.

“Verás ali chegado, sem demora,
Quanto a distância a vista nos engana:
O passo acelerar convém por ora”.

Da mão travou-me e em voz suave e lhana
O Mestre prosseguiu: “Antes que avante
Passes, dessa ilusão te desengana.

“O que torre imaginas é gigante.
Da cinta aos pés imergem-se no poço,
E alçam bustos em torno ao espaço hiante”.

Quando o sol gasta o nevoeiro grosso,
Pouco a pouco se mostra e é discernido
Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:

Vendo assim por esse ar escurecido,
Da borda mais e mais me apropinquando,
Fugia o erro, o horror tinha crescido.

Como torres em roda se elevando,
Montereggion guarnecem de coroa:
Assim do poço a margem circundando,

Torreiam com metade da pessoa
Os horríveis gigantes, que ameaça
Do céu ainda Jove, quando troa.

Distingo a cara de um (e me transpassa
O medo), logo os braços, peitos e parte
Do ventre, que da borda a altura passa.

Bem fez a natureza, quando essa arte
De tais monstros criar há descurado,
De iguais agentes desarmando Marte.

Se ainda a selva e mar têm povoado
Do elefante e baleia, sutilmente
Quem pensa justa e sábia a tem julgado.

Mal seria aos humanos permanente,
Se perspicaz engenho encaminhasse
Maligno instinto em robustez ingente.

Larga e comprida, pareceu-me a face,
Qual de S. Pedro, em Roma, a brônzea pinha:
A proporção nas outras partes dá-se.

O corpo, que da borda acima vinha,
Tanto ao ar elevava a grã figura,
Que três Frisões, por lhe atingir a linha

Da cerviz, não fariam tanta altura,
Porquanto eu esmava em trinta grande palmos
Do colo ao pescoço a válida estatura.

Rafael mai amècch zabi almos
A pavorosa boca assim bradava;
Não podia entoar mais doces salmos.

Disse-lhe o Mestre: “Ó alma bruta e brava!
Tange a trompa, se queres lenitivo
À paixão, que te acende ardente lava.

“A roda busca do pescoço altivo
O loro, a que se prende alma confusa!
Vê que te cruza o vasto peito esquivo”.

Depois a mim: “De quanto fez se acusa,
É Nemrod; por tomar estulta empresa
O mundo uma linguagem só não usa.

“Deixêmo-lo: falar-lhe é vã despesa.
Como idioma de outros não compreende,
A quem o escuta o seu move estranheza”.

Vamos então caminho, que se estende
À sestra. Outro, de besta quase a tiro,
Está mais fero, o ar mais alto fende.

Que mão cativa o monstro, que admiro
Dizer não sei: o seu direito braço
Ao dorso preso vi, e ao peito diro

O outro, de grilhão no estreito laço,
Que com círculos cinco lhe cercava
Do enorme corpo o descoberto espaço.

“Esse réprobo” — diz Virgílio — “ousava
Medir forças com Jove soberano:
Eis o fruto do orgulho, que o danava!

“Era Efialto: executou seu plano,
Quando aos Deuses gigantes aterraram.
Jamais os braços mover pode o insano”.

“Os meus olhos, ó Mestre, assaz folgaram,
De Briaréu se vissem desmarcado
As formas” vozes minhas lhe tornaram.

“Anteu verás”, — me diz — muito afamado:
Stá solto, fala e nos demora perto,
Há de ao fundo levar-nos de bom grado.

“Remoto esse outro fica, e tem por certo
Que em grilhões e estatura àquele iguala:
Mais fero em vulto, em mal é mais esperto”.

Jamais um terremoto a torre abala
Em convulsões tão rápido, tão forte,
Como Efialto a mover-se. Eu já sem fala,

Assombrado, cuidei ter perto a morte;
E de pavor sem dúvida expirara,
Se ele preso não fosse, e de tal sorte.

Presto ao lugar seguimos, onde pára
Anteu: fora a cabeça, em cinco braças
À borda sobreleva, o que separa.

“Tu, que no val feliz, aonde as graças
E as palmas de Cipião colheu da glória,
Quando Aníbal vexavam só desgraças,

“Mil leões apresaste por memória;
Que, aos irmãos se ajudaras na alta guerra,
Se crê triunfo registrasse a história

“Dos fortes filhos da fecunda Terra!
Ao fundo transportar-nos sê servido,
Onde ao Cocito o frio as águas cerra:

“Te hemos a Tifo e a Tício preferido.
Dar pode este varão o que mais se ama:
Curvando-te compraz ao seu pedido.

“No mundo pode restaurar-te a fama,
Pois vive e ainda longa vida espera,
Salvo se a Graça antes do tempo o chama”.

Falara o Mestre. Anteu não considera:
Toma-o logo nas mãos, que lesto of?rece
E a que sentira Alcide a força fera.

Quando entre os dedos seus Virgílio vê-se,
Diz-me: “Faze-te prestes, que eu te abrace!”
S Ao Mestre o meu querer pronto obedece.

Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,
Cuidara, ao passar nuvem, que iminente
Ruína ao lado oposto ameaçasse:

Tal Anteu parecia de repente
Do corpo ao menear; quando o inclinava,
Estrada eu preferia diferente.

Mas de leve no fundo nos pousava,
De Judas e de Lúcifer assento.
A postura deixando, que o dobrava,

Qual mastro empertigou-se num momento.