A Divina Comédia/Paraíso/VI

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto VI


A alma do imperador Justiniano fala ao Poeta. Narra-lhe a história do Império, de Enéias a César, a Tibério, a Tito, a Carlos Magno, para mostrar-lhe a santidade da autoridade imperial. Diz-lhe que no Céu de Mercúrio estão os espíritos daqueles que se esforçaram para conseguir fama imortal. Discorre-lhe acerca de Romeu, que administrou a corte de Raimundo Beranguer, conde de Provença.

“Depois que Constatino a Águia voltara
Contra o curso do céu, que ela seguira
Pós o herói, que Lavínia conquistara,

“Duzentos anos já passados vira
Da Europa em confins de Deus essa ave,
Vizinha aos montes, donde se partira;

“Das plumas sob a sombra ampla e suave,
De mão em mão o mundo há dominado,
Té comigo reger do Império a nave.

“César, Justiniano fui chamado.
Do Amor, que sinto, por querer movido,
O supérfluo das leis hei cerceado.

“Antes de ter a empresa cometido,
Uma só natureza acreditava
Ter Cristo e andava nessa fé perdido.

“Mas de Agapeto santo que mandava
De Roma Santa Igreja, a voz potente
Levou-me à crença pura, que eu deixava.

“O que então disse, eu vejo claramente,
Pois, como vês, contradição implica
Uma falsa asserção e outra evidente.

“Quando eu cri no que a Igreja certifica,
Minha mente, de Deus por alta graça,
Logo à sublime empresa se dedica.

“Belisário a reger as armas passa;
No favor, que lhe deu poder divino
Sinal vi que me ordena a paz se faça. —

“A responder-te, o que ouves tem destino;
Mais o que hei dito agora a tanto obriga,
Que a mor explicação dar-te me inclino.

“Verás que sem razão vontade imiga
Move-se contra esse estardarte santo,
Quando o tenta usurpar, quando o profliga.

“Pelos fatos verás respeito quanto
Mereceu desde a honra em que Palante
Morreu por dar-lhe de sob?rano o manto.

“Em Alba sabes como foi constante
Por mais de anos trezentos té lutarem
Três contra três por que ele fosse avante.

“Sabes quanto ele fez por se curvarem
Vizinhos desde o roubo das Sabinas
Té Lucrécia expirar e os Reis findarem.

“Sabes que glória teve nas mãos di?nas
De heróis, que Breno e Pirro combateram,
E de outros reis coligações mali?nas;

“Décios, Fábios, Torquatos lhe deveram
E Quíncio Cincinato, que amo e louvo
A fama das vitórias, que tiveram;

“Calcou o orgulho do Africano povo,
Que por fraguras, donde, o Pó, te envias,
Sob Aníbal, abriu caminho novo.

“Fez triunfar da juventude em dias
Cipião e Pompeu, e assaz desgosto
Causou às tuas pátrias serranias.

“Perto dos tempos, em que o céu disposto
Havia, por seus fins, dar paz ao mundo.
Em mãos de César Roma o teve posto.

“O que ele fez do Var ao Rin profundo
Isara há visto e o Era, há o Sena
E esse vale, onde o Rone é sem segundo.

“Passando o Rubicon, após Ravena,
Com César a Águia tanto em vôo alçou-se,
Que o não pôde seguir nem voz, nem pena.

“Depois que para a Espanha remontou-se,
A Durazzo e a Farsália acometia:
Do efeito o ardente Nilo perturbou-se.

“O Simoente e Antandro então revia,
Seu berço, em que a de Heitor cinza descansa;
E sem detença a Ptolomeu se envia.

“Dali, qual raio, logo Juba alcança;
Depois volve-se às terras do Ocidente,
Onde os sons de Pompeu a tuba lança.

“Nas mãos de outro o que fez essa ave ingente
No inferno Bruto e Cássio estão sentindo,
Sofrem Perúgia e Módena tremente.

“Cleópatra inda vai triste carpindo
Atroce morte, que da serpe toma,
Da Águia os assaltos pávida fugindo.

“Até o Roxo mar tudo a Águia toma,
E ao mundo tão serena a paz se inclina,
Que em fim de Jano as portas fecha Roma.

“O que fez e faria a ave divina
Para trazer à fama sua aumento
Nesse império mortal, em que domina,

“Parece escasso em seu merecimento,
Quando em mãos de Tibério a contemplamos
Com puro afeto e claro entendimento;

“Pois que a viva justiça, que adoramos
Lhe há nessas mãos a glória concedido
De dar vingança às iras, que incitamos.

“Sê, me ouvindo, de espanto possuído:
Águia a vingança do pecado antigo
Depois com Tito há por tornar corrido.

“Quando, mordida por lombardo imigo,
Gemia a Santa Igreja, à sombra da ave
Salvou-a Carlos Magno do perigo.

“Podes julgar, portanto, do erro grave
Daqueles, cujas faltas hei notado,
Causa do mal que vês quanto se agrave.

“Contra o sacro estandarte um tem hasteado
Áureo lírio, outro o quer por seu partido:
Custa dizer qual seja o mais culpado.

“Gibelinos, no iníquo andar sabido
Outra bandeira sigam; que à justiça
Culto esta exige nunca interrompido.

“Carlos novo a batê-la em vão cobiça
Com Guelfos; temas as garras, que arrancaram
A mais forte leão juba inteiriça.

“Mais de uma vez os filhos já choraram
Pelas culpas do pai: é louca a esp?rança, —
De que de Deus favor lírios ganharam.

“O planeta, em que habito agora, estança
É de almas generosas que honra e fama
Aspiraram do mundo na lembrança.

“Quando os desejos deste modo inflama
O incentivo da glória, aos céus ascende
Do vero amor menos ativa a chama.

“Mas nossa dita em parte compreende
Dos méritos e prêmio no confronto:
Nem menor, nem maior nenhum se entende

“Pois da viva justiça o feito pronto
Tanto os afetos nos ameiga e apura,
Que nequícia os não torce em nenhum ponto.

“Vozes várias de sons formam doçura:
Assim os vários graus na eterna vida
Doce harmonia fazem nesta altura.

“Nesta per?la, em que estás, bela e polida,
Rebrilha de Romeu claro luzeiro,
Virtude ínclita e mal agradecida.

“Os provençais, pelo ato traiçoeiro,
Não se riram; caminho segue errado
Quem o bem de outro inveja sobranceiro.

“Às filhas grato de rainha o estado
Conseguiu Beranguer: tal bem devia
A Romeu, nome humilde e não falado.

“Preso na trama que a calúnia urdia,
Que aumentado no quinto o erário havia;
Do erário contas exigiu do justo,

“Romeu partiu-se então pobre e vetusto:
Se o mundo o coração lhe aquilatara,
Quando, mendigo, se mantinha a custo,

Louvor muito maior lhe dispensara.” —