A Divina Comédia/Paraíso/XXV

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XXV


S. Tiago examina o Poeta sobre a Esperança, perguntando em que ela consiste, se ele a possui, de onde veio nele. À segunda pergunta responde Beatriz; às outras duas responde Dante. Aproxima-se S. João Evangelista, e diz a Dante que o seu corpo, apesar da comum opinião, morrendo, ficara na Terra.

Se este sacro poema houver podido
(Em que tem posto a mão o céu e a terra
E em que hei por tanto tempo emagrecido)

Aquele ódio abrandar que me desterra
Do belo aprisco, onde eu dormi cordeiro,
Contrário aos lobos, que lhe movem guerra;

Com voz e lã melhor que de primeiro
Voltando, eu do batismo sobre a fonte
Hei-de, vate, cingir-me de loureiro;

Pois lá entrei na fé, que uma alma insonte
Aproxima de Deus e causa há sido
De girar Pedro em torno à minha fronte.

Então a nós um lume vem saído
Da grei, a que a primeira pertencia
Dos vigários, que há Cristo instituído.

Beatriz, resplendente de alegria,
— “Olha!” — me disse — “Eis o Barão famoso
Por quem vai-se à Galízia em romaria!

Quando à consorte acerca-se amoroso
O pombo, cada qual mostra, girando
Entre arrulhos o ardor seu amoroso:

Os dois Príncipes vi tão ledos, quando
Da glória sua no esplendor se acolhem
O manjar, que se frui no céu louvando.

Depois que as saudações entre si colhem
Coram me cada um tácito fica
Com tais clarões, que de os olhar me tolhem.

Sorrindo, Beatriz assim se explica:
— “Ó alma egrégia, por quem foi descrita
Delícia, de que a nossa igreja é rica,

“Aqui a Esp?rança faz ouvir bendita:
Mostraste-a, toda vez que aos três há dado
Jesus de vê-lo em sua Glória a dita.” —

— “Ergue o rosto com spírito esforçado,
Pois da terra quem sobe a tanta altura
Ser deve ao brilho nosso afeiçoado.” —

O ânimo desta arte me assegura
A luz segunda; a vista, pois, levanto
Aos montes, cujo lume a fez escura.

— “Se o nosso Rei te há dado favor tanto,
Que vês os condes seus antes da morte
Do seu palácio no recinto santo,

“Porque, vindo é verdade desta corte,
A Esperança, que tanto os homens prende,
Em ti, nos mais o coração conforte.

“O que ela seja diz, como se acende
Em tua alma; diz donde se origina.” —
Estas palavras inda o santo expende.

E quem as plumas conduziu beni?na
Das asas minhas neste vôo ingente,
Tornou, por que a resposta me previna:

“A militante Igreja um mais ardente
Filho não tem na Esp?rança, como escrito
É no Sol, que alumia a nossa mente.

“Eis por que Deus permite que do Egito,
Para ver a Sião tinha chegado
Antes de estar o tempo seu prescrito.

“Os outros pontos dois lhe hás perguntado,
Somente por que à terra ele respira
Quanto és desta virtude deleitado.

“Lhos deixo, sem que assim vangloria aufira;
Poderá responder ao teu contento,
Se a Graça divinal o alenta e inspira.

“Como discíp?lo, que a seu Mestre atento
De assunto fala, em que é perito e experto, —
Folgando de mostrar zelo e talento,

“Esperança é” — disse tu — “guardar certo
Da Glória, pela Graça produzida
E mérito provado e descoberto.

“Sendo luz de astros muitos procedida,
Pelo sumo cantor do Sumo Guia
Foi-me primeiro na alma introduzida.

“Espere em ti — na excelsa Teodia
Disse — aquele, que o nome teu conhece:
Com fé como eu, quem não conheceria?

“Como seu rocio, também sobre mim desce
O da Epístola sacra e, redundante,
Outros inunda a chuva, que recresce.”

Falava assim: do seio coruscante
Daquele incêndio tremulava chama,
Qual relâmpago, súbita, incessante.

Respondeu-me: — “Esse amor que inda me inflama
Pela virtude, que me dera alento
No martírio, ao findar da vida a trama,

“Atrai-me a ti, que tens contentamento
Por ela; e, pois, me diz de qual ventura
A Esperança te fez prometimento.” —

E eu: — “Foi declarado na Escritura
O sinal (sua forma está sabida)
De almas, que, amigas, o Senhor apura

“Disse Isaías: cada qual cingida
Em sua pátria será de dupla veste,
E a pátria sua é nesta doce vida.

“Por que mais a verdade manifeste,
Das cândidas estolas discorrendo
Mais claro teu irmão falou do que este.” —

Palavras tais eu proferido havendo.
“Sperant in te” ressoa lá da altura,
Ao hino os coros todos respondendo.

Lume entre eles depois tanto fulgura,
Que, se o Câncer tivesse igual estrela,
Fora do inverno um mês luz sem mistura.

Como leda no baile entra a donzela
E, para a noiva honrar, dança inocente
Sem que vício ou vaidade impere nela:

O clarão assim vi resplandecente
Aos dois se apropinquar, que circulavam
Quanto convinha ao seu amor ardente.

Entrou no canto e dança, que formavam:
Qual sem voz sposa imota, aos três o aspeito
De Beatriz os olhos contemplavam.

— “O santo é este, que estreitava ao peito
O nosso Pelicano e dele há sido
Sobre a cruz à missão sublime eleito.” —

Assim diz Beatriz. Sempre embebido
O seu olhar está na luz terceira
Depois, como antes de eu a ter ouvido.

Quem do sol fita os olhos na carreira,
Crendo vê-lo de eclipse anuviado,
Para ver sente o efeito da cegueira:

Por esse lume assim fui deslumbrado.
— “Por que te afanas procurando” — fala —
“O que no céu não pode ser achado?

“Na terra o corpo meu à terra iguala,
Até que o nosso número complete
O que eterno propósito assinala.

“Ter vestes duas só do céu compete
No claustro aos lumes dois, que se elevaram:
Esta verdade ao mundo teu repete.” —

Calou-se e os esplendores três pararam
E com eles a doce melodia,
De que os sons a coréia acompanharam.

O remo, assim, que o mar de antes feria,
Se há fadiga ou perigo, é bem que cesse,
Logo ao sinal do apito, que assobia:

Na mente ai! quanto a comoção recresce,
Quando o gesto não pude ver formoso
De Beatriz ainda que eu stivesse

Ao seu lado e no mundo glorioso!