A Divina Comédia/Paraíso/XXVIII

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XXVIII


Dante volve os olhos para Beatriz, que estava atrás dele; depois mira para a frente e vê um ponto brilhantíssimo, em torno do qual se movem nove círculos de luz, que giram mais rapidamente e são mais brilhantes quanto mais próximos estão dele. Aquele ponto é Deus; os círculos são os coros angélicos.

Depois que acerca do existir presente
Dos míseros mortais mostrou verdade
Aquela a que emparaísa a mente,

Como quem vê no espelho a claridade
De tocha, que de trás esteja acesa,
Suspeita inda não tenho da verdade;

E, para olhar voltado, tem certeza
De que o vidro é fiel ao que apresenta,
Como o canto é do metro a natureza:

Assim minha memória representa
Que eu fiz, nos belos olhos me enlevando,
Com que amor cativou minha alma isenta.

De os contemplar, porém, os meus deixando
E no que esse orbe faz onipotente,
Quando em seu giro atenta-se os fitando,

Um ponto vi, que lume tão fulgente
Dardejava, que a vista deslumbrada,
Fechava-se ante o lume translucente;

Estrela, ao parecer, mais apoucada,
Junto dela, de lua figurada,
Como estrela ao pé de outra colocada.

Como a c?roa talvez, que se depara
Cingindo astro, que a torna luminosa,
Quando o vapor que a tem mais condensara,

Ígneo círc?lo, em carreira impetuosa.
Distante, ao Ponto mais veloz cercava
Do que a esfera que vai mais pressurosa.

Este círc?lo primeiro outro abraçava;
Ao terceiro o segundo, outro ao terceiro,
Ao quarto o quinto e o sexto o circundava.

Tão largo o sétimo era, que, inda inteiro,
Abrangido, por certo, o não teria
Aquele, que de Juno é mensageiro.

Oitavo e nono assim: mas se movia
Mais lento cada qual, segundo ele era
Mais longe do primeiro, que corria.

E a flama rutilava mais sincera
No que da Excelsa luz mais perto estava
Creio que em fluxo seu mais recebera.

Mas Beatriz, que o enleio meu notava
— “Daquele Ponto o céu e a natureza
Estão na dependência” — me falava.

“Olha o círc?lo mais próximo e a presteza,
Que tanto lhe acelera o movimento:
De ardentíssimo amor punge-o a viveza.” —

— “Se do mundo.” — eu lhe disse — “o regimento
Fosse qual nestes orbes aparece
Do que ouço eu conseguira já contento;

“Mas no mundo sensível me parece
Ser cada esfera tanto mais divina,
Quanto mais longe do seu centro desce,

“Se instruir-me o querer teu determina
Neste seráfico, estupendo templo,
Que só com luz e com amor confina,

“Explicar-me te digna, porque o exemplo
Não se conforma em tudo ao seu modelo:
Por saber a razão em vão contemplo” —

— “De desatar o nó se ardente anelo
Teus dedos não contentam, não te espante:
Tal é, porque ninguém tentou solvê-lo.” —

Tornou-me ela e seguiu: — “Terás bastante
No que direi de luz ao entendimento:
Aguça o engenho e escuta vigilante.

“Nos círc?los corporais o crescimento
Regula pelo influxo, que é spargido
Nas partes que lhes formam complemento.

“Mor bondade, mor bem tem produzido
De mor bem foi mor corpo aquinhoado,
Se igual primor nas partes é contido.

“O círc?lo, pois, do qual arrebatado
Gira o alto universo, é referente
Ao de amor e ciência mais dotado.

“Se à virtude a medida propriamente
Adaptas, não regendo-te a aparência
Das substâncias, que em círc?los tens em frente,

“Mirífica hás de ver correspondência
Entre maior e mais, menor e menos
Em cada céu e a sua inteligência.” —

Como os ares são fúlgidos, serenos,
Se Bóreas sopra aquela face inchando,
Que os hálitos difunde mais amenos.

Resolvendo-se a névoa e se apagando
A sombra que o hemisfério enegrecia,
E o céu, a rir-se, as pompas ostentando:

Assim eu, quando aquela que me guia
Com sua explicação minha alma aclara,
E a verdade, qual astro, me alumia.

Depois que as vozes suas rematara,
Bem como ferro a faiscar fervente,
Dos círculos cad?un flamas dispara.

Cada centelha incêndio faz ingente
Em soma tal, que a do xadrez passava,
Dobrando-se o algarismo infindamente.

De coro em coro hosana ressoava
Ao Ponto, que ao seu ubi, onde têm stado
E onde sempre estarão pra sempre os trava.

Ela, o espírito meu vendo atalhado,
Disse-me: — “Aqueles círculos primeiros
Te hão Serafins e Querubins mostrado.

Assim nos orbes seus volvem ligeiros
Por semelhar-se ao Ponto e o conseguindo,
Segundo a vê-lo estão mais altaneiros.

“Os Amores, que em torno estão, seguindo,
Tronos se chamam do divino aspeto
O primeiro ternário concluindo.

“Prazer, bem sabes, todos têm seleto,
Quanto mais sua vista se aprofunda
Na verdade, alto fito do inteleto.

“Desta arte se conhece que se funda
Mais na visão celestial ventura
Do que no amor, ação, que vem segunda.

“Da visão é a medida a mercê pura,
Por vontade e por graça produzida:
De grau em grau se enalça a criatura.

“Outro ternário, que do céu movida.
Germina em primavera sempiterna,
Pelo Áries noturno não despida,

“Hosana entoa na harmonia eterna
Com três coros; que soam de alegria
Em ordens três, em cujo seio interna.

“Ordens três compreende a jerarquia,
Dominações, Virtudes, ocupando
Potestades final categoria.

“Nos penúltimos círculos girando,
Principados e Arcanjos resplandecem;
E dos Anjos, após festivo bando.

“No Ponto as Ordens todas se embevecem,
De baixo a Deus são todas atraídas,
E uma das outras a atração padecem.

“Contemplando-as, idéias tão subidas
Dionísio formou com tanto zelo,
Que as fez, como eu, por nomes conhecidas.

“Não quis Gregório como norma tê-lo;
Neste céu quando entrou, porém, se ria
Do erro, em que estivera, ao percebê-lo.

“Mortal, que o grã mistério compreendia
E o disse à terra, não te mova espanto:
Quem tinha-o visto aqui lhe descobria

E mais verdade deste império santo.” —