A Divina Comédia/Purgatório/IX

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto IX


Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono é transportado por Luzia até a Porta do Purgatório. Aproximam-se da entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter gravado na testa de Dante sete PP.

Já clareava de Titão antigo
A concubina as fímbrias do oriente,
Deixando os braços do seu doce amigo;

Era-lhe a fronte de astros refulgente,
Figura do animal frio formando,
Que vibra a cauda contra a humana gente.

No lugar, em que estávamos, se alçando
Dos passos seus havia a Noite andado,
E o terceiro ia as asas inclinando,

Quando eu, tendo o que Adam nos há legado,
De sono sobre a relva fui vencido,
Lá onde junto aos quatro era sentado.

Ante-manhã, na hora, em que gemido
Triste a andorinha a soluçar começa,
Talvez na antiga dor pondo o sentido;

Já não stando da carne mais opressa
A mente e livre do pensar terreno,
Quase divina por visões pareça,

Pairar sonhei que via no ar sereno
De áureas plumas uma águia, que mostrava
Querer baixar, das asas pelo aceno.

Estar eu na montanha imaginava,
Onde os seus Ganimede abandonara
Alado à corte excelsa, que o esperava.

E eu pensava: talvez esta ave rara,
Caçar aqui soindo, a nédia preia
Fazer noutros lugares desdenhara;

A traçar giros vários avistei-a:
Eis, terrível, qual raio, a mim se envia,
E lá do fogo à região me alteia.

Esta águia, então julguei, comigo ardia
Tanto, que foi o sonho meu quebrado
Pelo fingido incêndio, que eu sentia.

Como, acordando, Aquiles espantado
Ficou por não saber onde se achava
No lugar aos seus olhos devassado,

Quando a mãe que a Quíron o arrebatava,
O transportou a Sciro adormecido,
Donde astúcia depois lho retirava:

Assim fiquei ao ser desvanecido
Das pálpebras o sono, semelhante
A quem desmaia em cor de horror transido.

Junto a mim eu só vi naquele instante
Virgílio; o sol duas horas já media;
Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.

— “Não teme!” — estas palavras proferia —
“Sê tranqüilo, o bom porto não mais dista,
Alarga o coração, não entibia;

“O Purgatório já daqui se avista.
Onde a rocha é fendida está a entrada,
A rocha o cinge e tolhe o aspeto à vista.

“Ao romper da alva ao dia antecipada,
Quando no vale em sono eras jazendo
Sobre a ervinha de flores esmaltada,

“Eis mostrou-se uma Dama nos dizendo:
Sou Luzia; pois dorme, vou trazê-lo,
Leve assim a jornada lhe fazendo —

“Ficando as nobres almas com Sordelo,
Tomou-te; e como já raiasse o dia
Subiu: seguiu seus passos, com desvelo

“Depôs-te; e por seus olhos me dizia
Que próxima ali stava a entrada aberta.
Ela se foi e o sono te fugia.” —

Como quem stando em dúvida, se acerta,
Converte o seu temor em confiança,
Logo em sendo a verdade descoberta:

Assim me achei mudado. Ele que alcança
Que esforçado já stou, vai por diante
Pela altura; o meu passo após avança.

Vês, leitor, que assunto altissonante
Se faz; e não estranhes se mais arte
Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.

Acercamo-nos, pois, da rocha à parte,
Onde eu antes rotura divisava
Como em muralha fenda que reparte;

Ora uma porta e degraus três notava
Para entrar, cada qual de cor dif?rente,
E um porteiro que tácito ficava.

E, de mais perto olhando, claramente
No mais alto degrau o vi sentado:
Ofuscava-me a face refulgente.

Na destra um gládio eu tinha empunhado,
que tão vivos lampejos refletia,
Que em vão fitava os olhos deslumbrado.

— “Parai e respondei-me” — principia —
“Que intentais? Quem vos guia na jornada?
Efeitos não temeis dessa ousadia?” —

— “Dama do céu, de tudo isso inteirada”
— Falou Virgílio — “disse-nos: — Avante!
Não longe fica a porta desejada.” —

— “Seja ela aos vossos passos luz brilhante”
— Logo beni?no o anjo nos tornava —
“Aos degraus nossos vinde por diante.” —

Chegamos: o degrau primeiro estava
De alvo mármor tão terso, tão polido,
Que a minha imagem nele se espelhava.

Era escuro o segundo e não brunido,
Tosca pedra o formava e calcinada;
Ao longo a via e de través fendido.

De pórfiro o terceiro e carregada
Tinha a cor de vermelho flamejante,
Qual sangue, que da veia flui rasgada.

Neste firmava o anjo rutilante
Os pés, ao limiar sentado estando,
Que ser me pareceu de um só diamante.

Tirado por Virgílio vou-me alçando
Jubiloso. Ele disse — “Humildemente
Requer, que te abra a porta deprecando.” —

Aos sacros pés dobrei devoto a frente;
Misericórdia, vezes três batendo
Nos peitos, para abrir pedi fervente.

Da espada a ponta sete PP me havendo
Na testa aberto, disse o anjo: — “Lava
Lá dentro estes sinais te arrependendo.” —

Chaves duas tomou quando acabava,
De sob as vestes, onde a cor, atento
De terra seca eu cinzas observava.

Uma era de ouro, a outra era de argento.
Primeiro a branca, após a flava aplica
À porta: foi completo o meu contento.

— “Se emperrada das duas uma fica
E não dá volta” — disse — “à fechadura,
Isto entrada defesa significa.

“Se mais preço um tem, noutra se apura
Mais arte para abrir e mais engenho,
Das molas cede-lhe a prisão mais dura.

“Mandou Pedro de quem as chaves tenho
Que em abri-la antes erre que em cerrá-la
Aos que a exoram com ardente empenho.” —

Tocando a santa entrada, ainda nos fala:
— “Penetrai; mas, de agora, vos previno,
Quem olha para trás pra fora abala.” —

Os portões já se movem do divino
Recinto, e os espigões, rangendo, giram
Nos gonzos de metal sonoro e fino:

Quando, vãos de Metelo os esforços, viram
Roubado o erário, com estrondo tanto
As portas de Tarpéia não se abriram.

Aos rumores atento, doce canto —
Te Deum laudamus escutar julgava,
De conceitos unido ao meigo encanto.

Ouvindo, em mim a sensação calava,
Que a voz bem modulada nos motiva,
Quando com ternos sons de órgão se trava;

Que uma voz emudece, outra se esquiva.