A Divina Comédia/Purgatório/XI

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XI


Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia qual é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se a conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano Salvani, que está junto com eles.

Vós, que nos céus estais, ó Padre nosso,
Não circunscrito, mas porque haveis dado
Mais aos primeiros seres o amor vosso,

“Vosso nome e poder seja louvado!
Graças à criatura jubilosa
Ao saber vosso renda sublimado!

“Do reino vosso a paz venha ditosa!
Que vão de havê-la o empenho nos seria,
Se não vier da vossa mão piedosa.

“Como a vós a vontade se humilia
Dos vossos anjos, entoando hosana,
Façam assim os homens cada dia!

“A substância nos dai quotidiana
Hoje: sem ela em áspero deserto
Se atrasa quem por ir além se afana!

“E como a quem nos faz mal descoberto
Damos perdão, nos perdoai clemente,
Indi?nos sendo nós, Senhor, por certo.

“Oh! não deixeis cair a defidente
Virtude nossa em tentação do imigo!
Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!

“Não mais somos, Senhor, nesse perigo,
Em que precisa esta oração nos seja;
Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —

Ao céu rogando que ao seu bem proveja
E ao nosso, as almas sob o peso andavam,
Como o que oprime a quem sonhando esteja.

Com desigual gravame se arrastavam
Ofegantes no círculo primeiro,
E do pecado as névoas expurgavam,

Se em bem nosso com zelo verdadeiro,
Oram, como em seu prol fará no mundo
Quem tem no bem querer seu peito useiro?

Ajudemo-las, pois, vestígio imundo
A lavar, por que leves, puras sejam,
Do céu se alando ao brilho sem segundo.

“Ah! compaixão, justiça vos consigam
Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,
Ir até onde os desejos vos instigam!

“Valei-nos a vereda nos dizendo
Mais curta ou a que é menos escarpada,
Mais de um caminho a se ascender havendo.

“Ao companheiro meu assaz pesada
É a carne de Adam, que inda o reveste:
Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —

A voz, que respondeu ao Mestre a este
Dizer, não sei a que alma pertencia
Por indício qualquer, que o manifeste:

— “Vinde à direita em nossa companhia
Pela encosta, e vereis o passo estreito,
Que uma pessoa viva subiria.

“Se este penedo não tolhesse o jeito,
A cerviz orgulhosa me domando
E obrigando a juntar o rosto ao peito,

“Deste homem para a face, atento olhando,
(Não sei quem é) talvez o conhecera,
E assim me fora compassivo e brando.

“Toscano fui, ilustre pai tivera.
Guilherme Aldobrandeschi se chamava:
O nome seu algum de vós soubera?

“Tanta arrogância a glória me inspirava
Do meu solar e os feitos valorosos,
Que a nossa mãe comum não mais pensava,

“Olhos volvendo a todos desdenhosos.
Perdi-me assim; os atos meus em Siena
Foram em Campagnatico famosos.

“Chamei-me Umberto; da soberba a pena
A mim não coube só: de igual desgraça
Vem a causa que aos meus todos condena.

“Este fardo, que os passos me embaraça
Mereço, por cumprir-se a lei divina:
Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —

Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,
Uma das almas (não a que falava)
Sob o peso se torce, que a amofina.

E viu-me e, conhecendo-me, chamava,
Os olhos seus fitando esbaforida
Em mim, que, recurvado a acompanhava.

— “Oderisi não foste” — eu disse — “em vida,
Honra de Agubbio, honra daquela arte
Que iluminar Paris ora apelida?” —

— Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre informar-te)
De Franco de Bolonha mais agrada:
A honra é toda sua, minha em parte.

“Por mim não fora em vida proclamada
Esta verdade, quando esta alma ardia
Na ambição de primar nessa arte amada.

“Aqui de tal soberba o mal se expia;
Staria alhures; mas a Deus eu pude
Mostrar que de pecar me arrependia.

“Quanto a vaidade o peito humano ilude!
Dessa flor como esvai-se a formosura,
Se não seguir-se um séc?lo inculto e rude!

Cimabue cuidou ter na pintura
A liça dominado: mas vencido
Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.

Assim de estilo na arte cede um Guido,
A palma a outro: agora é bem provável
Seja de ambos o mestre já nascido.

“Rumor mundano é como vento instável
Que a direção varia de repente:
Conforme o lado, o nome tem mudável.

“De ti que fama ficará manente,
Se da velhice cais no extremo passo,
Ou se findas na infância inconsciente,

“De hoje a mil anos, tempo mais escasso,
Da eternidade em face, que um momento
Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?

“Quem me precede e vai assim tão lento
Na Toscana entre todos foi famoso:
Apenas salvo está do esquecimento.

“Em Siena, que há regido poderoso,
Quando perdeu-se a raiva florentina.
Soberba então, objeto hoje asqueroso.

“A fama vossa iguala-se à bonina,
Que flore e morre: o sol, por quem nascera
Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —

Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera
Saudável humildade e o orgulho mata.
Esse, que apontas, conta-me quem era.” —

“De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:
Aqui stá, porque Siena ele cuidara
Ter nas mãos — presunção de alma insensata!

“Caminha assim curvado, e nunca pára
Dês que a vida perdeu eis o castigo
De quem tanto à soberba se entregara!” —

— “Se o que demora até final perigo
A penitência” — eu disse — “e errado corre,
Subir não pode e aqui não acha abrigo,

“Se uma oração piedosa o não socorre,
Durante prazo igual ao da existência,
Como ao martírio Provenzan concorre?” —

— “Quando era” — torna — “no auge da influência,
Sobre a praça de Siena, suplicando,
Ter ante o povo humilde continência,

“De um amigo o resgate procurando,
Que era por Carlos em prisão detido,
Tremeu angustiado e miserando.

“Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,
Mas te há de ser em breve isto explicado
Por filhos dessa terra em que hás nascido. —

“Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”